Saúde

Uroabdômen em Cachorro: Ruptura da Bexiga e Uroperitônio

O uroabdômen ocorre quando urina vaza para o abdômen por ruptura da bexiga ou ureter — causando hipercalemia, azotemia e acidose graves. Traumas (atropelamento) são a causa mais comum. A relação creatinina fluido/creatinina sérica > 2 confirma o diagnóstico. A cirurgia é urgente, mas o paciente deve ser estabilizado antes.

27 de maio de 2026·2 min de leitura

O Border Collie de 3 anos chegou 4 horas após atropelamento — letargia progressiva, abdômen distendido, não conseguia urinar.

K⁺ sérico: 7,8 mEq/L. Creatinina: 12,4 mg/dL. ECG: alargamento do QRS + onda T em pico, ausência de onda P.

Paracentese: fluido com odor de urina. Creatinina do fluido: 38 mg/dL. Relação creatinina fluido/sérico = 38/12,4 = 3,1 (> 2: confirma uroabdômen).

Gluconato de cálcio IV imediato + insulina/dextrose + drenagem do fluido abdominal → K⁺ 5,8 em 2h → cirurgia.

A Sequência de "Estabilizar Antes de Operar"

Por que Operar Com K⁺ = 7,8 é Fatal

A hipercalemia grave (K⁺ > 7 mEq/L) causa:

  1. Redução do potencial de repouso das células miocárdicas
  2. Bloqueio de condução → QRS alargado → sem onda P → ondas T em pico
  3. Com a indução anestésica (estresse + depressão cardíaca): arritmia fatal

A regra: nenhum paciente com K⁺ > 6,5 mEq/L e alterações no ECG vai para o centro cirúrgico sem correção.

A Relação Creatinina — O Diagnóstico Definitivo

A creatinina é filtrada pelo rim mas não é reabsorvida ou secretada pela membrana peritoneal (ao contrário da ureia). Portanto:

  • Urina vaza para o abdômen → creatinina se acumula no fluido
  • A creatinina do fluido > creatinina sérica de forma desproporcional
  • Relação > 2 confirma que o fluido é urina → uroabdômen confirmado

Ureia: não confiável — a ureia difunde livremente pela membrana peritoneal e se equilibra com o sangue → relação ureia fluido/soro ≈ 1 mesmo no uroabdômen.

SF 0,9% — A Regra do Fluido no Uroabdômen

Lembrar: Ringer lactato contém 4 mEq/L de K⁺. No paciente já com hipercalemia grave, cada litro de Ringer adiciona K⁺ à circulação — pequeno mas significativo.

SF 0,9%: zero K⁺ → fluido seguro no uroabdômen. Além disso, a hipercloremia induzida pelo SF não é preocupação principal quando o K⁺ mata primeiro.

Prognóstico

| Situação | Correção pré-op | Prognóstico | |---|---|---| | Trauma, K⁺ < 6,0, bexiga viável | Estabilização simples | Excelente | | Trauma, K⁺ 6-8, ECG anormal | Gluconato de cálcio + insulina/dextrose | Bom após correção | | Trauma, K⁺ > 8, ECG crítico | Correção urgente + cirurgia rápida | Moderado | | Obstrução prévia, bexiga necrótica | Cistectomia parcial necessária | Moderado | | TCC com ruptura | Paliativo | Reservado — doença de base | | Peritonite séptica concomitante | Lavagem + antibiótico | Moderado |

Perguntas frequentes

O que é uroabdômen e quais são as causas mais comuns no cão?+

O uroabdômen (uroperitônio) é o acúmulo de urina na cavidade abdominal por extravasamento do trato urinário — bexiga, ureter ou (raramente) uretra. A urina acumulada é absorvida pelo peritônio → substâncias normalmente excretadas na urina (ureia, creatinina, K⁺, fosfato) entram na circulação → síndrome urêmica grave. Causas mais comuns: Trauma (causa mais frequente no cão): atropelamento: compressão abdominal brusca → ruptura da bexiga cheia; queda de altura: bexiga cheia + impacto; mordida de outros animais na região abdominal; a bexiga cheia é muito mais vulnerável à ruptura que a bexiga vazia; Iatrogênica: cateterização uretral forçada: falsa passagem → perfuração; biópsia vesical ou cistocentese inadequada: ruptura de bexiga fragilizada por tumor; cirurgia vesical com complicação técnica; Obstrução urinária: obstrução uretral prolongada → bexiga hiperdistendida → necrose isquêmica da parede → ruptura espontânea; Neoplasia vesical: tumor que necrotiza a parede (TCC avançado); Congênita: ureter ectópico com inserção anômala; defeito de desenvolvimento do cúpula vesical. Local da ruptura: bexiga (mais comum): ápice ou parede dorsal — área mais frágil; ureter (menos comum): compressão ou avulsão na junção ureterovesical; uretra: mais rara, frequentemente por fratura pélvica.

Quais são os sinais de uroabdômen em cachorro?+

Os sinais do uroabdômen são uma combinação de sinais de trauma + síndrome urêmica progressiva. Apresentação aguda (primeiras horas): história de trauma: atropelamento, queda; incapacidade de urinar (o cão tenta mas não urina) ou urina apenas em pequena quantidade; dor abdominal: cão reluta a se mover, abdômen tenso; distensão abdominal progressiva: fluido acumulando; sem derrame ainda visível: nas primeiras horas pode não haver distensão marcante. Síndrome urêmica progressiva (6-24h após ruptura): depressão, letargia progressiva: K⁺ e ureia elevados no sangue; vômito e náusea: síndrome urêmica; fraqueza muscular: hipercalemia; bradiarritmia: K⁺ > 6,5 mEq/L: alargamento do QRS, ausência de onda P (onda P-less), onda T em pico → parada cardíaca potencial; distensão abdominal marcada: ascite de urina; odor de urina no fluido abdominal (ao fazer paracentese). Achados laboratoriais diagnósticos: K⁺ sérico: elevado (> 6 mEq/L) — sinal muito característico; ureia e creatinina: muito elevadas (azotemia pós-renal); acidose metabólica: pH < 7,30; Análise do fluido abdominal (paracentese): creatinina do fluido > 2× a creatinina sérica: CONFIRMA o diagnóstico de uroabdômen; K⁺ do fluido: muito elevado; relação creatinina fluido/creatinina sérica > 2: patognomônica. Imagem: ultrassom: efusão abdominal + descontinuidade da parede vesical; contraste positivo (pielografia ou cistografia): extravasamento do contraste confirma.

Como tratar uroabdômen em cachorro antes e durante a cirurgia?+

O uroabdômen é uma emergência — mas a cirurgia de bexiga antes de corrigir a hipercalemia é fatal. Estabilização pré-operatória (ANTES da cirurgia — obrigatório): Drenagem do fluido abdominal (peritoneal): cateter de drenagem ou paracentese seriada: reduz a reabsorção de K⁺ pelo peritônio; remoção de 30-50% do volume estimado de efusão; Tratamento da hipercalemia: K⁺ > 6,5 mEq/L + alterações no ECG: EMERGÊNCIA CARDÍACA; Gluconato de cálcio 10%: 0,5-1 mL/kg IV lentamente (2-5 min) sob monitorização do ECG: estabiliza a membrana cardíaca (não reduz o K⁺ — apenas protege o coração); Insulina regular + dextrose 50%: insulina 0,1-0,5 UI/kg IV + dextrose: 1-2g por UI de insulina: redistribui K⁺ para dentro das células; efeito: 30-60 minutos; Bicarbonato de sódio: acidose grave (pH < 7,1): redistribui K⁺ intracelular; Fluidoterapia: SF 0,9% (NÃO Ringer lactato — contém K⁺): diluição do K⁺ sérico; Sonda uretral temporária (se possível): desviar a urina antes da cirurgia; só possível se a uretra estiver intacta. Cirurgia: após estabilização (K⁺ < 6,0, ECG estável); ruptura de bexiga: sutura em 2 camadas: fio absorvível (Monocryl, PDS); lavagem abdominal exaustiva; drenagem abdominal pós-operatória: 24-48h; sonda vesical pós-operatória: 3-5 dias para proteção da sutura.

Quais são as complicações e o prognóstico do uroabdômen em cachorro?+

O prognóstico do uroabdômen depende criticamente da velocidade do diagnóstico e da correção pré-operatória. Complicações intraoperatórias e pós-operatórias: Parada cardíaca por hipercalemia: a mais temida — K⁺ > 8-9 mEq/L pode ser fatal durante indução anestésica; gluconato de cálcio deve estar pronto na seringa antes de qualquer anestesia; Peritonite por urina: urina no abdômen é irritante químico → peritonite química; contaminação bacteriana da urina: peritonite séptica secundária; lavagem abdominal exaustiva + antibiótico; Deiscência da sutura vesical: bexiga comprometida por isquemia ou trauma; sonda vesical por 5-7 dias reduz a pressão sobre a sutura; Lesão ureteral concorrente: verificar se os ureteres estão íntegros durante a cirurgia; hidronefrose pós-operatória se ureter ligado inadvertidamente. Prognóstico por causa: trauma simples (bexiga saudável): prognóstico excelente com correção pré-op e cirurgia rápida; obstrução uretral prévia (bexiga necrótica): moderado — necrose pode exigir cistectomia parcial; TCC com ruptura: reservado — doença de base incurável; complicações sépticas: moderado a reservado. Cuidados pós-operatórios: monitoramento eletrolítico: K⁺ e creatinina seriados; sonda vesical: 3-5 dias; antibioticoterapia: 5-7 dias pós-operatório; restrição de atividade: 4-6 semanas; cistografia de controle: 3-4 semanas pós-cirurgia: verificar vedamento da sutura.