Úlcera Corneal em Cachorro: Diagnóstico com Fluoresceína e Tratamento
A úlcera corneal é a erosão do epitélio da córnea — causa dor, blefaroespasmo e lacrimejamento. Diagnóstico pelo teste de fluoresceína (mancha verde). Braquicefálicos são os mais afetados. Antibiótico tópico e colírio lubrificante para úlceras simples. Úlcera estromal profunda e descemetocele são emergências cirúrgicas.
O Boxer de 5 anos chegou com blefaroespasmo intenso no olho esquerdo — o tutor tentou abrir o olho e viu "uma mancha esbranquiçada". Lacrimejamento intenso há 2 dias.
Teste de fluoresceína: mancha verde periférica (positivo) com centro sem captação (negativo) — padrão clássico de descemetocele.
Emergência cirúrgica: flap conjuntival pediculado.
A Fluoresceína — O Exame Mais Simples e Mais Poderoso
Por que Verde = Perigo
A fluoresceína é um corante fluorescente hidrosolúvel. O estroma corneal, sendo hidrofílico, absorve e retém a fluoresceína — o epitélio intacto, hidrofóbico, não a retém.
Leitura prática:
- Verde brilhante uniforme = úlcera superficial simples (boa notícia)
- Verde com centro sem corante = descemetocele (péssima notícia — emergência)
- Verde difuso numa córnea opaca = úlcera estromal extensa
- Negativo completo = sem úlcera ativa OU descemetocele sem captação periférica
O erro a evitar: "a fluoresceína foi negativa — o olho está bem". Um descemetocele central pode ser negativo centralmente com anel periférico positivo. Sempre avaliar com luz azul em ambiente escurecido.
O Descemetocele — Quando Cada Hora Conta
A membrana de Descemet tem apenas 5-15 µm de espessura — é a última barreira entre a câmara anterior do olho e o ambiente externo. Quando exposta:
Risco de perfuração: qualquer toque, pressão, frega de olho ou blefaroespasmo intenso pode perfurar a Descemet → humor aquoso escapa → câmara anterior colaba → glaucoma → perda do globo ocular.
Por isso o colar elizabetano é obrigatório imediato — antes mesmo do diagnóstico definitivo quando se suspeita de úlcera profunda.
Pseudomonas — O Inimigo da Velocidade
Pseudomonas aeruginosa produz metaloproteinases (proteases do estroma) que literalmente "derretem" o estroma corneal. Uma úlcera pequena pode aprofundar para descemetocele em 12-24 horas.
Como suspeitar: úlcera com exsudato gelatinoso, amarelo-esverdeado, de progressão muito rápida. Histórico de traumatismo com material vegetal (Pseudomonas ambiental).
Protocolo de emergência Pseudomonas: ciprofloxacino tópico a cada 1-2 horas + N-acetilcisteína + hospitalização para monitoramento contínuo.
Prognóstico
| Tipo de úlcera | Tratamento | Prognóstico visual | |---|---|---| | Superficial simples | Antibiótico + lubrificante | Excelente | | SCCED (Boxer ulcer) | Desbridamento + grid keratotomy | Muito bom | | Estromal moderada | Antibiótico intensivo | Bom | | Estromal profunda (> 50%) | Cirurgia preventiva | Moderado | | Descemetocele | Flap conjuntival urgente | Moderado — visão comprometida | | Pseudomonas melting | Emergência hospitalar | Reservado | | Perfuração | Cirurgia imediata | Reservado a ruim |
Perguntas frequentes
O que é úlcera corneal em cachorro e quais são as causas?+
A úlcera corneal (ceratite ulcerativa) é a perda de continuidade do epitélio corneal — podendo envolver apenas o epitélio (superficial) ou se aprofundar no estroma corneal, chegando até a membrana de Descemet no pior cenário (descemetocele). A córnea é avascular e transparente — tem 3 camadas principais: epitélio superficial (repõe rapidamente), estroma (90% da espessura, repõe lentamente), membrana de Descemet (barreira final antes do humor aquoso). Causas de úlcera corneal em cães: trauma físico: arranhão de gato, galho, corpo estranho; a causa mais frequente; raças braquicefálicas têm exoftalmia (olhos protuberantes) → maior exposição → trauma fácil; entrópio / distiquíase / cílios ectópicos: atrito crônico dos cílios sobre a córnea; ceratoconjuntivite seca (CCS / olho seco): filme lacrimal insuficiente → epitélio corneal resseca e se esfacela; infecção por Pseudomonas aeruginosa: bactéria proteolítica que dissolve o estroma corneal muito rapidamente — 'úlcera em colarinho' (melting ulcer); úlcera indolente (boxer ulcer / SCCED): defeito de adesão do epitélio ao estroma — não cura com tratamento convencional; típica do Boxer, Labrador, Golden, Corgi. Gravidade: superficial (epitélio): responde bem ao tratamento clínico; estromal superficial: antibiótico tópico + lubrificante; estromal profunda (> 50% do estroma): risco de perfuração → cirurgia; descemetocele (Descemet exposta): perfuração iminente → emergência cirúrgica absoluta.
Quais são os sinais de úlcera corneal em cachorro?+
A úlcera corneal é muito dolorosa — o sinal clínico mais marcante é a dor. Sinais principais: blefaroespasmo intenso: piscar excessivo e espasmo do músculo orbicular — o cão fecha o olho com força; é o sinal mais característico de úlcera corneal ativa; epífora: lacrimejamento intenso; secreção ocular: mucopurulenta nas infecções bacterianas secundárias; fotofobia: sensibilidade à luz; o cão foge da luz, prefere ambientes escuros; enoftalmia: olho recuado — por espasmo dos músculos oculares; terceira pálpebra protraída: resposta protetora à dor. Sinais ao exame: opacidade corneal: nuvem esbranquiçada ou cinzenta sobre a úlcera (edema corneal por lesão); vascularização corneal superficial: vasos vermelhos superficiais chegando à úlcera — sinal de ulceração crônica ou infecciosa; no descemetocele: mancha brilhante (bolha) no fundo da úlcera — a membrana transparente de Descemet. Quando Pseudomonas: progressão muito rápida (horas a dias); úlcera liquefaz o estroma — aspecto 'derretido', gelatinoso; prognóstico grave para preservação visual.
Como diagnosticar úlcera corneal em cachorro?+
O teste de fluoresceína é o exame diagnóstico fundamental — simples e feito na consulta. Teste de fluoresceína: gota de colírio de fluoresceína 2% OU tira de papel com fluoresceína; a fluoresceína cora o estroma exposto mas não o epitélio intacto; sob luz azul (Wood): área verde = epitélio ausente = úlcera ativa; úlcera negativa de fluoresceína: epitélio íntegro (sem úlcera ativa) OU descemetocele: a membrana de Descemet NÃO absorve fluoresceína — negativo mesmo com lesão grave; diagnóstico de descemetocele: negativo central rodeado de positivo periférico (anel verde). Biomicroscopia (lâmpada de fenda): profundidade da úlcera: superficial vs. estromal vs. descemetocele; qualidade do fundo da úlcera: lisa (infecção por cocos) vs. gelatinosa (Pseudomonas melting); vascularização: superficial (resposta ao trauma) vs. profunda; TLS (Schirmer): avaliar produção lacrimal — CCS como causa. Cultura e antibiograma: quando úlcera estromal com exsudato abundante ou suspeita de Pseudomonas; fundamental antes de antibiótico de amplo espectro empírico. Tonometria: quando suspeita de glaucoma secundário à úlcera.
Como tratar úlcera corneal em cachorro?+
O tratamento depende da gravidade e da causa. Úlcera superficial simples: antibiótico tópico: cloranfenicol 0,5% ou tobramicina 0,3% — 4x/dia; lubrificante ocular (lágrima artificial): 4-6x/dia; sem corticoide tópico: contraindicado em úlcera ativa — retarda cicatrização; colar elizabetano: obrigatório — o cão se coça e piora; reavaliação em 5-7 dias: fluoresceína negativa = cicatrizou; não cicatrizou: investigar causa (entrópio, CCS, Pseudomonas). Úlcera estromal moderada: antibiótico de largo espectro: ciprofloxacino 0,3% 6x/dia — cobertura para Pseudomonas; protetor de colagenase: soro autólogo a 10-20% → inibe as metaloproteinases que 'derretem' o estroma; N-acetilcisteína 10%: anticolagenase tópica; anti-inflamatório sistêmico: meloxicam — reduz dor e inflamação periocular; reavaliação em 48-72h: progressão = cirurgia. Úlcera indolente (SCCED / Boxer ulcer): epitélio frouxo ao redor que não adere ao estroma; tratamento: desbridamento: remover o epitélio frouxo com swab de algodão seco (sem anestesia profunda); keratotomia superficial em grade (grid keratotomy): micro-incisões no estroma para estimular adesão; 80-90% de cura em 4-6 semanas pós-desbridamento. Descemetocele — emergência cirúrgica: flap conjuntival pediculado: retalho de conjuntiva cobre a úlcera profunda; reforça a córnea mecanicamente enquanto cicatriza; enxerto de córnea cadavérica: raramente disponível; prognóstico: visual comprometido mas pode-se preservar o globo ocular. Pseudomonas melting ulcer: ciprofloxacino 0,3% a cada 1-2h (UTI ocular); N-acetilcisteína 10% + soro autólogo cada 1-2h; hospitalização para monitoramento; frequentemente progride para cirurgia de flap.
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