Saúde

Tumor Nasal Canino: Carcinoma e Epistaxe Unilateral

Os tumores nasais representam 1-2% dos tumores caninos — carcinoma (60-70%) e sarcoma (30%). Epistaxe unilateral progressiva + deformidade facial são os sinais clínicos mais comuns. Cães de focinho longo (Collie, Pastor Alemão) são mais afetados. Radioterapia é o tratamento de escolha — cirurgia isolada não melhora a sobrevida. Diagnóstico por TC e biópsia.

27 de maio de 2026·2 min de leitura

O Pastor Alemão de 9 anos chegou com epistaxe unilateral esquerda há 6 semanas — inicialmente esporádica, agora diária. Nos últimos 15 dias, apareceu um abaulamento discreto no dorso do focinho à esquerda.

TC de crânio: massa de tecido mole preenchendo a cavidade nasal esquerda com destruição de conchas nasais e lise óssea do septo nasal. Extensão para o seio frontal esquerdo. Placa cribriforme íntegra.

Biópsia rinoscópica: adenocarcinoma nasal. Estadio T2-T3.

Radioterapia radical: 54 Gy em 18 frações.

O Sinal de Alarme Que Não Deve Ser Ignorado

Epistaxe Unilateral Persistente = Tumor Até Prova em Contrário

A epistaxe unilateral em cão de meia-idade ou idoso tem um diagnóstico diferencial muito importante que frequentemente demora a ser considerado:

| Causa | Característica | Distingue | |---|---|---| | Corpo estranho | Início súbito, unilateral, agudo | Anamnese + rinoscopia | | Aspergilose nasal | Bilateral, mucorreia, dor | Cultura + TC | | Coagulopatia | Bilateral + equimoses sistêmicas | Coagulograma | | TVT intranasal | Cão jovem, exposição a outros cães | Citologia | | Tumor nasal | Unilateral, progressivo, meia-idade | TC + biópsia |

A regra: epistaxe unilateral progressiva + cão ≥ 7 anos + focinho longo = TC de crânio antes de qualquer outra investigação.

Por que a TC Vem Antes da Biópsia

A ordem correta no tumor nasal:

  1. TC de crânio primeiro: avalia a extensão exata antes de qualquer manipulação
  2. Biópsia depois: sangramento pós-biópsia pode preencher a cavidade e comprometer as imagens

A TC define o estadiamento e determina o volume-alvo para a radioterapia — sem ela, não há planejamento de RT adequado.

A Radioterapia — O Único Tratamento que Muda a Sobrevida

Cirurgia isolada para tumor nasal canino tem sobrevida mediana de 3-6 meses — pior que o prognóstico sem tratamento em alguns casos.

A RT radical (curvativa) muda fundamentalmente o prognóstico:

  • Sobrevida mediana 12-18 meses
  • 40-60% dos cães sobrevivem 1 ano
  • Qualidade de vida boa durante e após o tratamento

O obstáculo no Brasil: centros de radioterapia veterinária ainda são escassos. O encaminhamento precoce — antes que o tumor avance para a placa cribriforme — é determinante.

Prognóstico

| Estadiamento | Situação | Prognóstico | |---|---|---| | T1 | Tumor limitado, sem invasão óssea | Muito bom com RT — > 18 meses | | T2 | Invasão óssea, sem placa cribriforme | Bom — 12-18 meses | | T3 | Extensão para órbita/seio frontal | Moderado — 6-12 meses | | T4 | Extensão para placa cribriforme/SNC | Reservado — < 6 meses | | Linfoma nasal | Qualquer | Bom — quimioterapia 12-24 meses | | Sem tratamento | Qualquer tipo | Ruim — progressão em semanas a meses |

Perguntas frequentes

Quais são os tumores nasais mais comuns em cães e quais raças são predispostas?+

Os tumores nasais caninos são predominantemente malignos — diferente de alguns tumores de vias aéreas superiores humanos. Tipos histológicos: Carcinomas (60-70%): adenocarcinoma nasal: mais comum — origina das glândulas da mucosa; carcinoma de células escamosas; carcinoma de células de transição (carcinoma indiferenciado); Sarcomas (30-40%): condrossarcoma nasal: segundo mais comum; fibrossarcoma; osteossarcoma nasal (mais raro). Tumores menos comuns: linfoma nasal: resposta melhor à quimioterapia; transmissível por TVT intranasal: raro. Predisposição racial: Mesocéfalos e dolicocéfalos (focinho longo): Collie, Pastor Alemão, Weimaraner, Dálmata, Basset Hound; hipótese: maior superfície de mucosa nasal → maior área de exposição a carcinógenos inalados; cães braquicéfalos (Buldogue, Pug): menor risco relativo. Idade: cões de meia idade a idosos: 8-12 anos; sem predileção sexual marcante. Fatores de risco: ambiente tabagístico (tabagismo passivo): carcinógenos inalados; poluição ambiental; uso frequente de pesticidas domésticos. Epidemiologia: 1-2% dos tumores caninos; câvidade nasal e seios paranasais são acometidos juntos (rinossinusal); extensão para a placa cribriforme → encefalite = prognóstico muito ruim.

Quais são os sinais clínicos do tumor nasal canino e como ocorre o diagnóstico?+

O tumor nasal tem uma progressão clínica bastante característica que muitas vezes permite suspeita clínica antes mesmo da biópsia. Sinais clínicos por estágio: Estágio inicial (tumores pequenos): epistaxe unilateral: sangramento de apenas uma narina — assimétrico; muito importante: epistaxe unilateral persistente em cão de meia-idade = tumor nasal até prova em contrário; mucorreia unilateral: secreção mucosa ou mucopurulenta; espirros frequentes. Estágio intermediário: epistaxe bilateral (extensão para a cávidade oposta); mucorreia purulenta com sangue; deformidade facial: abaulamento dorsal do focinho — sinal de invasão óssea; exoftalmia: extensão para a órbita; estrabismo. Estágio avançado: deformidade facial grave; extensão para palato (fistula oral-nasal); extensão para a placa cribriforme: convulsões, alterações comportamentais, déficits neurológicos; perda de peso, caquexia. Diagnóstico: Rinoscopia: visualização direta dos pólipos ou massa; biópsia rinoscópica: confirma o tipo histológico — imprescindível antes de qualquer tratamento; TC de crânio: padrão ouro para estadiamento: avalia a extensão para seios paranasais, órbita, palato, placa cribriforme; TC antes da biópsia: sangramento pós-biópsia pode comprometer a imagem; radiografia de tórax: metástases pulmonares (menos comum que em outros tumores sólidos, mas presente); citologia de linfonodos mandibulares: metástases regionais.

Como tratar o tumor nasal canino e qual é o papel da radioterapia?+

A radioterapia é o tratamento de escolha para tumores nasais caninos — nenhuma outra modalidade isolada oferece sobrevida equivalente. Por que cirurgia isolada não é suficiente: ressecção cirúrgica nasal com margens é anatomicamente impossível (as estruturas nasais são delicadas e adjacentes a órbita, cérebro, palato); cirurgia isolada: sobrevida mediana 3-6 meses — pior que radioterapia; a rinectomia (remoção do nariz) oferece margens melhores mas com impacto estético e funcional severo. Radioterapia: RT curvativa (radical intent): 48-54 Gy em 16-20 frações; protocolo padrão: 3-4 Gy por fração, 5 dias por semana; sobrevida mediana: 12-18 meses; sobrevida em 1 ano: 40-60%; sobrevida em 2 anos: 20-30%; Fatores que melhoram a resposta à RT: tumor limitado à cavidade nasal (não extensão para placa cribriforme); tipo histológico carcinoma > sarcoma. Protocolos combinados: RT + quimioterapia: não há evidência consolidada de benefício adicional em cães; carboplatina ou doxorrubicina: pode ser usada em casos específicos (especialmente sarcomas); RT + cirurgia: rhinotomia citorredutora antes da RT: controverso; pode reduzir o volume tumoral e melhorar a resposta à RT. Efeitos colaterais da RT: agudos (durante o tratamento): mucosite oral/nasal, epifora, xerostomia; tardios (meses após): osteorradionecrose do osso nasal; catarata; formação de fístulas; esses efeitos são manejáveis e o benefício sobrepõe os riscos.

Qual o prognóstico do tumor nasal canino e como interpretar o estadiamento?+

O prognóstico do tumor nasal depende principalmente da extensão da doença no momento do diagnóstico — o estadiamento é fundamental. Estadiamento (Modified Adams Staging): T1: tumor limitado a uma câmara nasal, sem deformidade óssea; T2: tumor com invasão de ossos adjacentes (sem extensão para placa cribriforme ou órbita); T3: tumor com extensão para órbita, palato, seios frontais; T4: extensão para placa cribriforme, órbita bilateral, nasofaringe. Sobrevida por estágio: T1: sobrevida mediana > 18 meses com RT; T2: sobrevida mediana 12-18 meses; T3: sobrevida mediana 6-12 meses; T4 (placa cribriforme): sobrevida mediana < 6 meses. Tipo histológico: adenocarcinoma: melhor resposta à RT; condrossarcoma: resposta moderada, crescimento lento; linfoma nasal: melhor resposta — quimioterapia pode controlar por 12-24 meses; carcinoma indiferenciado: pior prognóstico. Metástases: ao diagnóstico: 10-20% têm metástases regionais; metástases a distância (pulmão): 10-15% ao diagnóstico; principal causa de morte: progressão local (extensão intracraniana) — mais que metástases. Cuidados paliativos: piroxicam (COX-2) como antiinflamatório antitumoral; tramadol + gabapentina para dor; controle de epistaxe: aminocapróico oral.