Saúde

Sepse em Cachorro: SIRS, Choque Séptico e Tratamento de Emergência

A sepse canina é a resposta inflamatória sistêmica descontrolada à infecção — pyometra, peritonite e pneumonia são as causas mais comuns. Hipotensão refratária define choque séptico (mortalidade >50%). Lactato > 4 mmol/L = prognóstico ruim. Bundle de sepse: acesso venoso + culturas + antibiótico em 1 hora. Noradrenalina é o vasopressor de escolha.

28 de maio de 2026·2 min de leitura

A Labrador de 8 anos não castrada chegou ao PS às 23h: letárgica, febril (40,8°C), mucosas pálidas, pulso fraco, FC 165 bpm. A tutora relatou secreção vaginal purulenta há 5 dias e recusa de comida há 2 dias.

Ultrassom: útero distendido com conteúdo ecogênico. Hemograma: leucocitose 38.000 com 20% de bastões. Lactato: 5,2 mmol/L.

Pyometra complicada com sepse. Bundle séptico iniciado imediatamente: acesso venoso central, hemoculturas, cristaloides, ampicilina-sulbactam + metronidazol IV. OVH de emergência em 2 horas.

O Bundle de Sepse — A Corrida Contra o Relógio

Por Que Cada Hora Importa

A sepse mata por dois mecanismos simultâneos:

  1. Hipoperfusão: baixo débito cardíaco → isquemia tecidual → disfunção orgânica → morte
  2. Inflamação descontrolada: citocinas (TNF-α, IL-1, IL-6) → vasodilatação + vasopermeabilidade → mais hipotensão

Cada hora sem antibiótico = mais carga bacteriana = mais citocinas = mais deterioração.

O dado clínico: estudos em medicina humana (que orientam a prática veterinária) mostram redução de mortalidade de 7-10% para cada hora mais cedo no antibiótico. A mesma relação é presumida em cães.

Lactato — O Número Mais Importante

O lactato sérico mede a adequação da perfusão tecidual:

| Lactato (mmol/L) | Interpretação | Ação | |---|---|---| | < 2 | Normal | Manter monitoramento | | 2-4 | Hipoperfusão moderada | Ressuscitar agressivamente | | > 4 | Hipoperfusão grave | Bundle urgente, UTI |

Lactato clearance: medir em 6 horas após início do tratamento. Se o lactato não caiu ≥ 20% em 6h → resposta inadequada → rever estratégia.

Noradrenalina — Por Que É Preferida à Dopamina

A dopamina foi por décadas o vasopressor padrão em medicina veterinária, mas perdeu espaço:

  • Noradrenalina: vasoconstrição periférica seletiva, aumento de PAM, efeito mínimo na FC
  • Dopamina: além do efeito vasopressor, aumenta FC — problemático em cão já taquicárdico; também tem efeito dopaminérgico renal que não mostrou benefício real

Consenso atual: noradrenalina é o vasopressor de primeira linha em choque séptico canino (assim como humano, desde as guidelines de 2012).

Prognóstico

| Situação | Mortalidade estimada | |---|---| | Sepse sem choque, tratada em < 1h | 20-30% | | Choque séptico, lactato < 4 | 40-50% | | Choque séptico, lactato > 4 | > 60% | | MODS (≥ 3 órgãos) | > 70% | | Pyometra + sepse, OVH rápida | 20-40% | | Peritonite difusa | 50-70% | | CIVD estabelecida | > 80% |

Perguntas frequentes

O que é sepse em cachorro e quais as causas mais comuns?+

Sepse é definida como disfunção orgânica potencialmente fatal causada por resposta desregulada do hospedeiro à infecção. No cão, é uma emergência que requer reconhecimento e intervenção imediatos. Critérios SIRS (Systemic Inflammatory Response Syndrome) em cães — 2 ou mais: temperatura > 39,5°C ou < 37,5°C; frequência cardíaca > 140 bpm (ou < 60 bpm em raças grandes); frequência respiratória > 20 ipm; leucocitose > 16.000 células/μL ou leucopenia < 6.000 células/μL ou > 3% de formas imaturas (bastão); sepse = SIRS com foco infeccioso identificado ou suspeitado; choque séptico = sepse + hipotensão refratária à ressuscitação volêmica adequada. Causas mais comuns de sepse canina: Pyometra: endometrite com acúmulo de pus no útero; mais frequente em cadelas de meia idade/idosas não castradas; E. coli, Staphylococcus, Streptococcus; ruptura uterina → peritonite séptica; Peritonite séptica: perfuração de víscera (corpo estranho, neoplasia, isquemia); hérnia estrangulada; anastomose cirúrgica com deiscência; abdome aberto → contaminação bacteriana maciça; Pneumonia bacteriana grave: Staphylococcus, Klebsiella, Pseudomonas; aspiração de conteúdo gástrico (megaesôfago); Pielonefrite aguda: infecção renal ascendente; Prostatite aguda: em machos não castrados; Peritonite biliar: ruptura de vesícula biliar; Mediastinite/pleurite: infecção do tórax; Celulite e fasciite necrotizante: progressão rápida.

Como reconhecer choque séptico em cachorro?+

O reconhecimento precoce é crítico — cada hora de atraso no tratamento aumenta a mortalidade em 7-10%. Sinais clínicos de sepse/choque séptico: Cardiovasculares: taquicardia (> 140-160 bpm): resposta à hipovolemia e mediadores inflamatórios; pulso periférico fraco: enchimento capilar > 2 segundos; hipotensão: pressão sistólica < 90 mmHg (choque estabelecido); Temperatura: febre alta (> 40°C): fase inicial da sepse; hipotermia (< 37°C): sinal de colapso — prognóstico muito ruim; Perfusão periférica: mucosas pálidas/ictéricas/cianóticas; tempo de enchimento capilar > 2 segundos (ou < 1 segundo na fase hiperdinâmica precoce); Neurológico: letargia, obnubilação, torpor; Respiratório: taquipneia, dispneia; ARDS (Acute Respiratory Distress Syndrome): complicação da sepse; Renal: oligúria ou anúria (disfunção orgânica); Digestivo: vômito, diarreia hemorrágica; íleo paralítico. Exames laboratoriais fundamentais: Hemograma: leucocitose com desvio à esquerda (bandas) ou leucopenia (pior prognóstico); Bioquímica: creatinina (renal), ALT/AST/bilirrubina (hepático), glicose (hipo ou hiperglicemia); Lactato sérico: < 2 mmol/L: normal; 2-4 mmol/L: perfusão comprometida, tratar agressivamente; > 4 mmol/L: perfusão gravemente comprometida — mortalidade > 50%; Coagulograma: CIVD (Coagulação Intravascular Disseminada): tempo de protrombina, TTPA, plaquetas, fibrinogênio, D-dímero; Hemoculturas: coletar ANTES do antibiótico (2 amostras de locais diferentes); Cultura do foco infeccioso: secreção peritoneal, urina, líquido pleural.

Como tratar sepse e choque séptico em cachorro?+

O 'bundle de sepse' deve ser iniciado na primeira hora do diagnóstico — cada hora de atraso aumenta a mortalidade. Bundle de sepse (primeira hora): Acesso venoso: 2 acessos periféricos calibrosos ou acesso intraósseo se veias colapsadas; Coleta de hemoculturas: ANTES do antibiótico — não atrasar por isso; Ressuscitação volêmica: cristaloides isotônicos (NaCl 0,9% ou Ringer Lactato): 10-20 mL/kg IV em 15-20 min, repetir conforme resposta; objetivo: pressão sistólica > 90 mmHg, lactato < 2 mmol/L, débito urinário > 1 mL/kg/h; CUIDADO: fluidos excessivos são prejudiciais — avaliar sinais de sobrecarga (aumento de frequência respiratória, crepitações); Antibiótico empírico de amplo espectro: dentro de 1 hora do diagnóstico de sepse; Esquema de cobertura ampla: ampicilina-sulbactam 22 mg/kg IV q6h + enrofloxacina 5 mg/kg IV q24h: boa cobertura Gram+, Gram- e anaeróbios; ou cefazolina + metronidazol + enrofloxacina; em pyometra ou peritonite: adicionar metronidazol 15 mg/kg IV q8h para cobertura anaeróbica; ajustar conforme cultura e antibiograma. Vasopressores para choque refratário: noradrenalina (norepinefrina): 0,1-1 μg/kg/min em infusão contínua; é o vasopressor de primeira escolha em cães; aumenta resistência vascular periférica sem aumentar FC; dopamina em dose vasopressora: alternativa (mais arritmogênica); Tratamento cirúrgico do foco: pyometra: OVH de emergência; peritonite: laparotomia exploratória, lavagem, drenagem; abcesso: drenagem cirúrgica; Suporte adicional: oxigenoterapia; controle glicêmico (meta: 100-200 mg/dL); proteção gástrica (omeprazol IV); heparina em baixa dose se CIVD (5-20 UI/kg SC q8h); monitoramento contínuo: ECG, pressão arterial, SpO2, débito urinário.

Qual o prognóstico da sepse em cachorro?+

O prognóstico da sepse canina é reservado, com mortalidade que varia de 20% a mais de 60% dependendo da gravidade e da rapidez do tratamento. Fatores que determinam o prognóstico: Lactato: < 2 mmol/L e normalização em 6h: prognóstico mais favorável; > 4 mmol/L e sem normalização: mortalidade > 50%; Número de órgãos comprometidos (MODS — Multiple Organ Dysfunction Syndrome): 1 órgão: mortalidade ~30%; 2 órgãos: mortalidade ~50%; 3+ órgãos: mortalidade > 70%; CIVD: coagulopatia de consumo — mortalidade muito elevada; Hipotermia (< 37°C): sinal de prognóstico ruim; Causa tratável cirurgicamente: pyometra e peritonite focal têm melhor prognóstico se operadas rapidamente; Tempo até o tratamento: cada hora de atraso no antibiótico aumenta mortalidade em 7-10%. Números da mortalidade canina: Sepse sem choque: 20-30% de mortalidade; Choque séptico: 40-60% de mortalidade; Peritonite séptica difusa: 50-70%; Pyometra com sepse: 20-40% (melhor prognóstico com OVH imediata). Cuidado pós-UTI: animais que sobrevivem à sepse têm risco aumentado de insuficiência renal crônica subsequente; monitoramento renal (creatinina, RPCU) a cada 3-6 meses após episódio de sepse.