Pseudoprenhez em Cachorro: Falsa Prenhez e Tratamento
A pseudoprenhez (falsa prenhez) é o desenvolvimento de sinais de gestação em cadelas não grávidas após o diestro — produção de leite, comportamento maternal, ninho e até contrações. Ocorre em até 70% das cadelas não castradas. Cabergolina é o tratamento farmacológico de escolha. A castração após o diestro é a única prevenção definitiva.
A Poodle de 5 anos chegou com glândulas mamárias cheias de leite, 60 dias após o último cio — sem cobrição. Coletou alguns brinquedos de pelúcia no sofá e passa o dia os lamendo.
Ultrassom: sem fetos. Produção de leite confirmada.
Pseudoprenhez. Cabergolina 0,005 mg/kg/dia VO por 5 dias.
O Paradoxo Evolutivo da Pseudoprenhez
Por que a Evolução Manteve Isso?
A pseudoprenhez parece um "defeito" do sistema hormonal — mas há uma hipótese evolucionária:
Em manadas de lobos ancestrais, apenas a fêmea dominante pare. As outras fêmeas do grupo, após o diestro (sincronizado pelo ciclo da dominante), desenvolvem pseudoprenhez com produção de leite. Isso permite que amamentem os filhotes da líder caso ela morra ou não possa amamentar.
É um mecanismo de "lactação de reserva" que garante a sobrevivência da ninhada do grupo. Em cães domésticos, o comportamento foi mantido mesmo sem a função evolutiva original.
A Ordem Certa: Tratar Antes de Castrar
A tentação é castrar imediatamente para resolver o problema de uma vez. Mas:
Castrar durante pseudoprenhez ativa:
- Remove os ovários → queda abrupta de progesterona e estrógenos
- Paradoxalmente: pode manter ou aumentar a prolactina por falta de feedback hormonal
- Resultado: galactorreia persistente pós-castrativa por semanas a meses
Protocolo correto:
- Tratar a pseudoprenhez com cabergolina (5-7 dias)
- Aguardar resolução completa (2-4 semanas após o fim dos sinais)
- Castrar no anestro (fase de descanso hormonal)
Retirar os Brinquedos ou Não?
A questão da retirada dos "filhotes substitutos" é controversa:
Retirada brusca: pode causar ansiedade, vocalização excessiva e até comportamento depressivo — a cadela "perde os filhotes"
Substituição gradual: trocar o brinquedo de pelúcia por um de borracha ou plástico → menos estimulante → a cadela gradualmente perde o interesse.
O que não fazer: punir ou repreender a cadela por comportamento maternal — é um comportamento hormonal involuntário.
Prognóstico
| Situação | Tratamento | Prognóstico | |---|---|---| | Pseudoprenhez leve, sem leite | Expectante | Excelente — resolve em 2-3 sem | | Com produção de leite | Cabergolina | Excelente | | Com mastite | Cabergolina + antibiótico | Muito bom | | Recorrente — sem castração | Cabergolina repetida | Resolução por episódio | | Castração no momento certo | Após tratamento | Prevenção definitiva |
Perguntas frequentes
O que é pseudoprenhez e por que acontece em cadelas?+
A pseudoprenhez (pseudogravidez ou falsa prenhez) é o desenvolvimento de sinais clínicos de gestação e lactação em cadelas não cobertas ou cobertas sem concepção — ocorrendo após o diestro (fase luteínica do ciclo estral). Fisiopatologia: a cadela tem uma característica hormonal única entre os mamíferos: cadelas prenhes e não prenhes têm perfis de progesterona quase idênticos durante o diestro; a queda da progesterona ao final do diestro (d60-90 após o cio) → aumento reflexo de prolactina: em prenhes: o aumento de prolactina prepara as mamas para a lactação; em não prenhes: o mesmo aumento de prolactina ocorre → estímulo mamário sem prenhez real; resultado: 'o corpo não sabe que não está grávido'; toda cadela não castrada tem algum grau de pseudoprenhez a cada ciclo: formas subclínicas: leve desenvolvimento mamário sem produção de leite; formas clínicas evidentes: produção de leite, comportamento maternal, objetos substitutos ('filhotes'). Prevalência: até 70% das cadelas não castradas manifestam algum grau de pseudoprenhez; formas clinicamente evidentes: 20-30%; tendência familiar: cadelas de mesma linhagem têm maior prevalência.
Quais são os sinais de pseudoprenhez em cachorro?+
Os sinais mimetizam a gestação real — o diagnóstico diferencial com prenhez é necessário. Sinais físicos: desenvolvimento mamário: glândulas mamárias se desenvolvem como em gestante real; ingurgitamento progressivo nas últimas semanas antes do 'parto'; produção de leite (galactorreia): pode ser abundante — cadela 'amamentando' brinquedos ou objetos; leve a sero-leitoso; pode desencadear mastite por estase; aumento de peso leve: retenção hídrica; distensão abdominal discreta: menos evidente que na prenhez real; pseudoparto: algumas cadelas apresentam contrações leves, inquietação e nidificação — 'fingem' parir. Sinais comportamentais: nidificação: preparação de 'ninho' com cobertores, roupas, almofadas; proteção de objetos: brinquedos de pelúcia, meias — tratados como 'filhotes'; latidos protetores: qualquer aproximação ao ninho é defendida; comportamento maternal: lamber, empurrar e vigiar os 'filhotes'; apatia e letargia: nas formas mais intensas; agressividade: cadela normalmente dócil pode reagir se alguém se aproximar dos 'filhotes'. Diagnóstico diferencial com prenhez real: ultrassom: confirma ou exclui prenhez (a partir de 25 dias de gestação); palpação abdominal: limitada — pouco confiável; histórico: cobertura ou não no cio anterior.
Como tratar pseudoprenhez em cachorro?+
O tratamento é indicado quando: produção de leite abundante, mastite em desenvolvimento, comportamento maternal intenso com sofrimento, ou tutores que desejam resolver rapidamente. Cabergolina — tratamento de escolha: mecanismo: agonista dopaminérgico → inibe a secreção de prolactina pela hipófise; sem prolactina → produção de leite cessa em 3-5 dias → desenvolvimento mamário regride; dose: 0,005 mg/kg/dia VO por 5-7 dias; formulação: comprimidos de 0,5 mg (humana) ou suspensão veterinária; administrar com alimento: reduz náusea (efeito colateral mais comum); resultado: resolução dos sinais em 5-10 dias. Bromocriptina: alternativa mais antiga: inibidor da prolactina; mais efeitos adversos (vômito, anorexia) que a cabergolina; menos usada atualmente. Medidas de suporte: evitar estímulo das mamas: não ordenhar → estimula mais produção; compressa fria: reduz o ingurgitamento; faixa torácica: compressão suave das glândulas (controverso mas usado); retirar os 'filhotes substitutos': não retirar bruscamente — pode aumentar a ansiedade; substituir por brinquedo sem pelúcia. Sem medicação: a pseudoprenhez é autolimitada: resolução espontânea em 2-3 semanas; indicada se: sinais leves, sem risco de mastite, tutor não incomodado; AINEs não têm eficácia na pseudoprenhez. Castração: única prevenção definitiva da recorrência; momento ideal: não durante a pseudoprenhez ativa (prolactina elevada → risco de galactorreia crônica pós-castração); aguardar resolução completa → 1-2 meses após o término.
A pseudoprenhez aumenta o risco de doenças em cachorro?+
A pseudoprenhez recorrente está associada a alguns riscos reprodutivos — a castração é a intervenção preventiva mais eficaz. Riscos associados: Mastite: ingurgitamento mamário → estase → proliferação bacteriana; risco aumentado nas pseudoprenhezes com produção abundante de leite; Hiperplasia endometrial cística (HEC) e piometra: cada ciclo diestral expõe o útero à progesterona → HEC progressiva ao longo de ciclos; pseudoprenhez recorrente = ciclos repetidos = mais exposição; piometra: infecção bacteriana do útero com HEC → risco aumentado; Neoplasia mamária: ciclos estrogenicos recorrentes + estimulação mamária pela prolactina; risco de neoplasia mamária benigna e maligna aumenta com os ciclos; castração antes do 2° cio: reduz o risco de neoplasia mamária em 95%; após o 5°-6° cio: risco quase igual ao de fêmea não castrada. Mito a desfazer: 'a cadela deve parir uma vez antes de castrar' — MITO sem base científica; uma prenhez não reduz o risco de neoplasia mamária, piometra ou pseudoprenhez; a castração precoce é protetora independente de prenhez anterior. Recorrência: a pseudoprenhez tende a recorrer a cada ciclo; cada episódio pode ser de intensidade variável; cabergolina funciona bem no episódio, mas não previne a recorrência.
Continue lendo
Síndrome de Wobbler em Cachorro: Compressão Cervical e Ataxia
A síndrome de Wobbler (espondilomielopatia cervical) é a compressão da medula espinhal no segmento cervical — causa ataxia dos membros posteriores com marcha 'cambaleante'. Doberman e Great Dane são as raças mais afetadas. Tratamento cirúrgico (distração-estabilização) é definitivo em casos graves. Diagnóstico por RM cervical.
Uroabdômen em Cachorro: Ruptura da Bexiga e Uroperitônio
O uroabdômen ocorre quando urina vaza para o abdômen por ruptura da bexiga ou ureter — causando hipercalemia, azotemia e acidose graves. Traumas (atropelamento) são a causa mais comum. A relação creatinina fluido/creatinina sérica > 2 confirma o diagnóstico. A cirurgia é urgente, mas o paciente deve ser estabilizado antes.
Úlcera Gástrica em Cachorro: Melena, AINEs e Proteção Mucosa
A úlcera gástrica no cão é causada principalmente por AINEs (aspirina, meloxicam, carprofeno), corticoides, uremia e neoplasia. A melena (fezes negras e pegajosas) é o sinal de sangramento gástrico. O omeprazol é a proteção mais eficaz. Perfuração gástrica com peritonite é a complicação fatal. Nunca combinar AINE com corticoide.