Pannus (Ceratite Superficial Crônica) em Cachorro: A Doença do Pastor Alemão
O pannus (ceratite superficial crônica — CSK) é uma doença autoimune ocular que afeta principalmente o Pastor Alemão — pigmentação e vascularização progressiva da córnea causam perda de visão. A radiação UV piora a doença. Diagnóstico clínico. Corticosteroides tópicos + ciclosporina tópica controlam o avanço. Sem cura — tratamento é permanente.
O Pastor Alemão de 2 anos chegou com "sombra" no olho há 3 meses — o tutor notou uma área acinzentada crescendo na córnea temporal. Sem dor aparente, sem secreção.
Exame oftalmológico: placa fibrovascular rosa-acinzentada no quadrante temporal inferior da córnea bilateral — esquerdo mais avançado. Crescimento a partir da limbar.
Pannus grau II-III. Iniciou colírio de ciclosporina 0,2% 2×/dia + prednisolona acetato 1% 4×/dia por 4 semanas, depois manutenção.
A Córnea Que Não Deveria Ter Vasos
A córnea normal é avascular — não tem vasos sanguíneos. Isso é fundamental para a transparência:
- Vasos trazem células inflamatórias e opacificam
- O nutrição da córnea vem do humor aquoso e do filme lacrimal
- No pannus: a resposta imune convida vasos para dentro da córnea
- Onde vão os vasos, vem o pigmento melanínico
- A córnea perde a transparência progressivamente
O Padrão de Crescimento Típico
| Fase | Localização | Extensão | |---|---|---| | Inicial | Limbar temporal inferior | < 10% da córnea | | Moderado | Avança para o centro | 10-50% | | Grave | Cobre a maior parte | 50-90% | | Severo | Cobertura completa | > 90% → cegueira |
O crescimento começa tipicamente no canto temporal-inferior — esse padrão é quase diagnóstico em Pastor Alemão.
UV Como Fator Agravante
A radiação ultravioleta é o principal fator ambiental:
- Altitude: cada 1.000m de elevação = ~10% mais UV
- Pastores em áreas montanhosas: doença mais grave e de progressão mais rápida
- Estações: piora no verão (mais exposição UV)
- Proteção: óculos UV para cães (Doggles) reduzem progressão
A Nictitante — O Parceiro do Pannus
Em muitos cães com pannus, a terceira pálpebra (membrana nictitante) também é afetada:
- Plasmoma: infiltrado de plasmócitos na nictitante
- Espessamento e despigmentação da margem da nictitante
- Tratamento simultâneo com ciclosporina
Prognóstico
| Situação | Prognóstico | |---|---| | Pannus inicial + tratamento precoce | Excelente — progressão detida | | Pannus moderado + tratamento | Bom — alguma regressão possível | | Pannus avançado com pigmento denso | Moderado — visão comprometida pode não reverter | | Sem tratamento | Ruim — cegueira progressiva |
Perguntas frequentes
O que é pannus e quais cães são afetados?+
O pannus, também chamado de ceratite superficial crônica (CSK — Chronic Superficial Keratitis) ou überreiter, é uma doença inflamatória crônica da córnea de caráter imunomediado. Caracteriza-se pelo crescimento progressivo de tecido fibrovascular e depósito de pigmento melanínico sobre a superfície corneana — a partir da limbar (junção esclera-córnea) em direção ao centro da córnea. Mecanismo: resposta imune mediada por células T contra antígenos corneais, possivelmente desencadeada ou agravada por radiação ultravioleta; a córnea normalmente é avascular (sem vasos) — o pannus traz vasos para dentro da córnea; pigmento melanínico é depositado progressivamente; em casos avançados: córnea totalmente coberta → cegueira. Raças predispostas: Pastor Alemão: raça mais afetada — pode acometer até 40% dos pastores em regiões de alta altitude; Pastor Belga, Greyhound, Border Collie, Siberian Husky: predisposição relatada; qualquer raça pode ser afetada, mas o Pastor Alemão é o protótipo; fatores de risco: altitude elevada (mais radiação UV); exposição solar intensa; hereditariedade confirmada em Pastor Alemão. Início: geralmente entre 1-3 anos; progressiva ao longo da vida sem tratamento.
Quais são os sinais do pannus e como fazer o diagnóstico?+
Sinais clínicos: o pannus tem apresentação progressiva e característica. Fase inicial: irritação ocular leve; epífora (lacrimejamento); leve vermelhidão conjuntival; vascularização perilimbar (vasos crescendo na córnea, começando pela margem temporal inferior). Fase intermediária: placa acinzentada/rosada opaca na córnea — o tecido fibrovascular crescendo; pigmentação acastanhada avançando sobre a córnea; começa tipicamente no quadrante temporal inferior e avança para o centro; Fase avançada: córnea progressivamente opacificada por pigmento; vascularização densa na córnea; em casos graves: coberta completa da córnea → cegueira; Nictitante afetada: o pannus pode afetar também a terceira pálpebra (membrana nictitante), causando espessamento e pigmentação. Diagnóstico: clínico — a apresentação é quase patognomônica em Pastor Alemão; Biomicroscopia com lâmpada de fenda: confirma a extensão da vascularização e pigmentação; localização: temporal-inferior tipicamente; Graduação: leve (perilimbar), moderado (até 1/3 da córnea), grave (> 2/3), severo (cobertura total); DDx: plasmoma da nictitante (degeneração plasma-celular da 3ª pálpebra — frequentemente concomitante); ceratite pigmentosa de outras causas (entrópio, triquíase, KCS); neoplasia corneana (raro).
Como tratar o pannus e controlar a progressão?+
O pannus não tem cura — o objetivo do tratamento é deter a progressão e reverter a opacificação. Tratamento tópico (principal): Corticosteroide tópico: prednisolona acetato 1% ou dexametasona 0,1% colírio; inicialmente: 4×/dia; manutenção: 2×/dia ou conforme resposta; suprime a resposta imune local; Ciclosporina A tópica: colírio 0,2% (Optimmune) ou preparações magistrais 1-2%; inibe a resposta imune mediada por células T (mecanismo primário); manutenção de longo prazo; frequência: 2×/dia; tacrolimus 0,02-0,1% tópico: alternativa à ciclosporina, similar eficácia; Combinação corticosteroide + ciclosporina: mais eficaz que cada um isolado; Resposta ao tratamento: a pigmentação regride lentamente (meses); a vascularização regride mais rapidamente; em casos avançados: pigmentação pode não regredir completamente; Proteção UV: óculos de sol para cães: disponíveis (Doggles) — reduzem progressão; evitar exposição solar excessiva; fundamental em altitude elevada; Tratamento cirúrgico: ceratectomia superficial: remove cirurgicamente o pigmento e tecido fibrovascular; paliativo — requer tratamento médico pós-operatório; recidiva provável sem medicação continuada.
O pannus causa cegueira e qual o prognóstico?+
Prognóstico: controlável — a maioria dos cães com pannus mantém boa visão com tratamento adequado. Sem tratamento: progressão garantida → cegueira em casos graves; a velocidade varia: cães em altitudes elevadas e com alta exposição UV progridem mais rápido; Tratamento precoce: detém a progressão antes de dano severo; alguma regressão da pigmentação é possível; Tratamento tardio (córnea muito pigmentada): melhora parcial — pigmento denso não regride completamente; visão pode ser comprometida mesmo com tratamento; Manutenção permanente: o pannus exige tratamento para a vida toda; interrupção do tratamento → recidiva e progressão; frequência de manutenção: geralmente 2×/dia de ciclosporina ou alternando com corticoide; monitoramento: a cada 3-6 meses — avaliar extensão e ajustar frequência. Pastores Alemães e altitude: cães em serras e altitudes elevadas (Andes, Alpes) apresentam pannus mais grave e de progressão mais rápida; a radiação UV é mais intensa em altitude; óculos de proteção UV são especialmente importantes nesses casos; alguns serviços policiais e de utilidade pública com pastores em altitude têm protocolos específicos de rastreamento.
Continue lendo
Síndrome de Wobbler em Cachorro: Compressão Cervical e Ataxia
A síndrome de Wobbler (espondilomielopatia cervical) é a compressão da medula espinhal no segmento cervical — causa ataxia dos membros posteriores com marcha 'cambaleante'. Doberman e Great Dane são as raças mais afetadas. Tratamento cirúrgico (distração-estabilização) é definitivo em casos graves. Diagnóstico por RM cervical.
Uroabdômen em Cachorro: Ruptura da Bexiga e Uroperitônio
O uroabdômen ocorre quando urina vaza para o abdômen por ruptura da bexiga ou ureter — causando hipercalemia, azotemia e acidose graves. Traumas (atropelamento) são a causa mais comum. A relação creatinina fluido/creatinina sérica > 2 confirma o diagnóstico. A cirurgia é urgente, mas o paciente deve ser estabilizado antes.
Úlcera Gástrica em Cachorro: Melena, AINEs e Proteção Mucosa
A úlcera gástrica no cão é causada principalmente por AINEs (aspirina, meloxicam, carprofeno), corticoides, uremia e neoplasia. A melena (fezes negras e pegajosas) é o sinal de sangramento gástrico. O omeprazol é a proteção mais eficaz. Perfuração gástrica com peritonite é a complicação fatal. Nunca combinar AINE com corticoide.