Meningite em Cachorro: Bacterial e Imunomediada
A meningite canina pode ser bacteriana (secundária a otite, sinusite ou bacteremia) ou imunomediada (SRMA — Steroid-Responsive Meningitis-Arteritis). Febre intensa, rigidez cervical e hiperestesia são os sinais cardinais. O SRMA afeta principalmente Beagles e cães jovens de raças grandes. Punção do LCR confirma o diagnóstico. Corticosteroides são o tratamento do SRMA.
O Boxer de 18 meses chegou com febre de 41,2°C, postura curvada e resistência extrema à mobilização do pescoço — "chora quando tento levantar a cabeça dele". Sem déficits neurológicos focais.
Hemograma: leucocitose 28.000/µL com neutrofilia e desvio à esquerda.
LCR: 680 células/µL (92% neutrófilos não degenerados), proteína 185 mg/dL, glicose 72% da glicemia sérica.
SRMA. Prednisolona 2 mg/kg/dia: resolução da febre em 48h.
Por que o SRMA Não é Infecção
O Diagnóstico que Parece Bacteriano mas Não é
A confusão é compreensível: febre alta, leucocitose com desvio à esquerda, neutrófilos no LCR. Por que não é bacteriano:
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Neutrófilos não degenerados no LCR: neutrófilos em ambiente bacteriano ficam "tóxicos" (degenerados) pela exposição a toxinas bacterianas e pH baixo. No SRMA, os neutrófilos são morfologicamente normais.
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Glicose do LCR normal ou quase normal: bactérias consomem glicose rapidamente — no SRMA não há consumo bacteriano.
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Cultura do LCR negativa: múltiplas coletas, negativas.
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Resposta dramática ao corticoide: melhora em 24-48h — antibióticos não têm esse efeito.
A Barreira Hematoencefálica (BHE) na Meningite
A BHE normalmente impede que muitas substâncias (incluindo antibióticos e células imunes) entrem no SNC. Na meningite:
BHE inflamada = mais permeável:
- Bom: permite que mais antibiótico penetre
- Ruim: permite que o processo inflamatório cause edema cerebral
Por isso, antibióticos que normalmente não penetram bem na BHE (como amoxicilina) passam a ter penetração aceitável durante a meningite bacteriana — a inflamação "abre" a barreira.
Corticoide na meningite bacteriana: reduz a permeabilidade da BHE → pode reduzir o edema cerebral → mas também pode reduzir a penetração do antibiótico. Controverso — nunca substituir antibiótico por corticoide na bacteriana.
Recidiva do SRMA — O Calcanhar de Aquiles
30-40% dos cães com SRMA têm recidiva ao reduzir ou suspender o corticoide. Sinais de recidiva:
- Retorno da febre + rigidez cervical durante o descalonamento
- Geralmente respondem ao aumento da dose de volta
Estratégia anti-recidiva:
- Reduzir a dose muito lentamente: 25% a cada 4-6 semanas
- Mínimo 6 meses de tratamento
- Não parar abruptamente mesmo que o cão pareça 100% normal
Prognóstico
| Tipo | Tratamento | Prognóstico | |---|---|---| | SRMA, primeiro episódio | Prednisolona | Muito bom — > 80% cura | | SRMA recorrente | Imunossupressão prolongada | Bom — controle com protocolo longo | | SRMA refratária | Azatioprina + prednisolona | Moderado | | Bacteriana — diagnóstico precoce | ATB IV + suporte | Moderado a bom | | Bacteriana — com abscesso | ATB + cirurgia | Reservado | | Cryptococcus | Fluconazol prolongado | Moderado — tratamento longo | | GME | Imunossupressão múltipla | Reservado — progressiva |
Perguntas frequentes
Quais são os tipos de meningite em cachorro?+
A meningite canina é a inflamação das meninges (membranas que envolvem o encéfalo e medula espinal) — pode ser infecciosa ou não infecciosa (imunomediada). Meningite bacteriana: rara em cães adultos imunocompetentes; frequentemente secundária a extensão de infecção local: otite média/interna → extensão para meninges; sinusite/piorréia com extensão intracraniana; discite/espondilite com extensão espinal; pós-cirúrgico (neurocirurgia); bacteremia em imunossuprimidos ou filhotes; agentes: Staphylococcus, Streptococcus, gram-negativos (E. coli, Pasteurella); curso clínico: agudo, grave, com mortalidade alta sem tratamento. Meningite-arterite responsiva a esteroides (SRMA): mais comum em cães jovens (< 2 anos) de raças grandes; Beagle, Boxer, Bernese Mountain Dog, Weimaraner: predispostos; causa: imunomediada — vasculite das meninges e vasos meníngeos; não infecciosa: culturas de LCR negativas; excelente resposta a imunossupressão com corticosteroide. Meningoencefalite granulomatosa (GME): inflamatória, não infecciosa; afeta o parênquima cerebral e meninges; tratamento: corticosteroide + citosina arabinosídeo ou procarbazina. Meningite fúngica/parasitária: Cryptococcus neoformans: causa mais frequente de meningite fúngica (especialmente em imunossuprimidos); Baylisascaris procyonis: larva migrans neural; Angiostrongylus: parasitismo do SNC.
Quais são os sinais de meningite em cachorro?+
Os sinais da meningite refletem a irritação meníngea e a inflamação do SNC. Sinais cardinais: febre alta (40-41,5°C): presente em quase todos os casos; rigidez cervical: o cão resiste à flexão do pescoço — proteção reflexa contra a dor meníngea; hiperestesia espinal: dor à palpação ao longo da coluna — o cão chora ao ser tocado nas costas ou ao se mover; postura cifótica: corcunda — posição antálgica para aliviar dor meníngea. Sinais neurológicos: alterações de comportamento: ansiedade, apatia, desorientação; alterações de consciência: obnubilação, estupor; paresia ou paralisia: envolvimento da medula espinal; ataxia: especialmente nos membros posteriores; convulsões: quando o parênquima cerebral é atingido (encefalite associada). Sinais sistêmicos: anorexia e letargia; linfadenomegalia cervical (SRMA): característica; relutância em levantar a cabeça ou se mover; piora ao carregar ou manusear. Padrão do SRMA: cão jovem (6-24 meses); febre + rigidez cervical + hiperestesia + linfadenomegalia; sem sinais neurológicos focais (diferente da GME): cão doente mas neurologicamente íntegro; episódios recorrentes sem tratamento; neutrofilia com desvio à esquerda no hemograma: inflamação sistêmica.
Como diagnosticar meningite em cachorro?+
O diagnóstico de meningite requer punção do líquido cefalorraquidiano (LCR) — o exame definitivo. Punção do LCR: local: cisterna magna (occipito-atlantoaxial) ou espaço lombar L4-L5/L5-L6; exige anestesia geral: cão imóvel para evitar lesão medular; análise do LCR: cor: normal = límpido e incolor; turvo = aumento celular; xantocrômico (amarelado) = sangue anterior; contagem celular (pleocitose): normal < 5 células/µL; SRMA: neutrofílica (> 80% neutrófilos não degenerados): 100-2.000 células/µL; bacteriana: neutrofílica com neutrófilos degenerados; GME: pleocitose mista; fúngica: mononuclear; proteínas: normal < 30 mg/dL; elevadas em qualquer meningite; glicose do LCR: normal = 60-80% da glicemia sérica; bacteriana: < 40% da glicemia (bactérias consomem glicose); cultura e PCR: bacteriana → cultura + antibiograma; Cryptococcus: tinta da China + antígeno cryptocócico; outros: PCR para Ehrlichia, Neospora, Toxoplasma. Neuroimagem: TC ou RM de crânio e coluna: realçamento das meninges com contraste (gadolínio na RM); avaliar abscesso intracraniano, empiema, extensão de otite. Diagnóstico diferencial da rigidez cervical: hérnia discal cervical, artrite atlantoaxial, fratura/luxação cervical, atlanto-axial instabilidade.
Como tratar meningite em cachorro?+
O tratamento difere completamente conforme o tipo — antibiótico no SRMA é ineficaz e corticoide na bacteriana pode piorar. SRMA — tratamento imunossupressor: prednisolona: 2 mg/kg/dia VO por 4-6 semanas; descalonamento lento: reduzir 25% a cada 4-6 semanas; protocolo mínimo: 6 meses de tratamento; cão responde dramaticamente em 24-72h: resolução da febre e da rigidez cervical; recidiva ao reduzir dose: pode necessitar de dose de manutenção por mais tempo; recaída: voltar à dose inicial; azatioprina ou ciclosporina: adicionar nos refratários ao corticoide isolado. Meningite bacteriana — antibioticoterapia: antibióticos com boa penetração na BHE (barreira hematoencefálica): cefalosporinas de 3ª geração (cefotaxima, ceftriaxona) IV: boa penetração na BHE inflamada; fluoroquinolonas (enrofloxacina): boa penetração lipofílica; penicilina G: ainda útil para Streptococcus em altas doses; metronidazol: excelente penetração + cobertura anaeróbica; duração: mínimo 4-8 semanas; tratar a causa: drenagem cirúrgica de abscesso, otite cirúrgica; corticoide na bacteriana: controverso — reduz edema cerebral mas piora a defesa imune. Meningite fúngica: fluconazol (Cryptococcus): 5-10 mg/kg/dia por 6 meses ou mais; anfotericina B lipossomal: casos graves; monitorar toxicidade renal.
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