Saúde

Leishmaniose Visceral Canina: Calazar e Tratamento no Brasil

A leishmaniose visceral canina (LVC) é causada por Leishmania infantum — transmitida pelo flebotomíneo. O cão é o principal reservatório urbano do calazar humano. Onicopatia, perda de peso, dermatite e insuficiência renal são os sinais mais frequentes. O tratamento com miltefosina + alopurinol é permitido no Brasil desde 2016. Animais tratados não devem ser usados para procriação.

27 de maio de 2026·2 min de leitura

O Labrador de 3 anos de Belo Horizonte chegou com onicopatia (unhas longas e deformadas), perda de 6 kg em 4 meses e dermatite esfoliativa difusa. Linfadenomegalia generalizada.

Sorologia ELISA: positivo (índice 4,8). RPCU: 1,8 (proteinúria moderada). Classificação: Grau II-III.

LVC. Miltefosina 2 mg/kg/dia por 28 dias + alopurinol 20 mg/kg 2×/dia contínuo.

A Onicopatia — O Sinal que Muitos Tutores Trazem Primeiro

Por que as Unhas Crescem Anormalmente

A onicopatia da LVC é um sinal clínico muito específico:

  • A Leishmania infecta os macrófagos da derme → inflamação do tecido germinativo da unha
  • Alteração da queratinização → unhas crescem de forma anômala, torta, sem parar
  • As unhas se curvam, ficam quebradiças, atingem comprimentos bizarros

O tutor frequentemente traz o cão por causa das unhas: "ele ficou com as unhas assim em poucos meses e não para de crescer."

O Paradoxo do Cão Bem Alimentado que Perde Peso

Na LVC, a caquexia ocorre apesar de apetite às vezes preservado:

  • L. infantum nos macrófagos → estado inflamatório crônico (IL-1, TNF-α, IL-6)
  • Citocinas catabólicas → consumo muscular e lipólise
  • Hipoalbuminemia (proteinúria) → edema, queda de oncose → perda de líquido → mais caquexia

O cão perde peso apesar de comer — é um sinal de doença sistêmica grave, não de anorexia.

O Tratamento no Brasil — A Mudança de 2016

Antes de 2016: cão soropositivo → eutanásia obrigatória (lei federal). Desde 2016 (Portaria 1.399 MMA + Resolução CFMV): tratamento é permitido com protocolo específico.

Condições do tratamento:

  • Cão deve permanecer protegido com repelente (coleira deltametrina) para reduzir a transmissão ao vetor
  • Não deve ser usado para reprodução
  • Monitoramento periódico obrigatório

Importante: o tratamento controla a doença, não cura. L. infantum persiste em tecidos (linfonodos, medula óssea) mesmo em cães clinicamente normalizados.

Prognóstico

| Grau LVC | Comprometimento renal | Prognóstico | |---|---|---| | I (cutâneo) | Sem | Muito bom — resposta excelente | | II (moderado) | Mínimo | Bom — boa resposta ao tratamento | | III (grave) | RPCU 1-5 | Moderado — renal define | | IV (muito grave) | RPCU > 5, IRC | Reservado | | Qualquer grau sem prevenção | — | Recidiva frequente sem alopurinol contínuo |

Perguntas frequentes

O que é leishmaniose visceral canina e como ocorre a transmissão?+

A leishmaniose visceral canina (LVC) é causada por Leishmania (L.) infantum (sin. L. chagasi), um protozoário intracelular obrigatório que parasita macrófagos e outras células do sistema fagocítico mononuclear. Transmissão: vetor: flebotomíneos (mosquito palha) — Lutzomyia longipalpis é o principal vetor no Brasil; a fêmea pica o cão infectado → ingere macrófagos com amastigotas → no intestino do inseto: amastigota → promastigota → se multiplica → promastigotas metacíclicas na glândula salivar; picada em outro cão: promastigotas inoculadas → macrófagos da pele → disseminação sistêmica. O cão como reservatório: o cão é o principal reservatório urbano de L. infantum; a infecção canina precede e amplia o risco de transmissão humana (calazar); a PCM (política de controle da leishmaniose) historicamente previa eutanásia dos cães soropositivos no Brasil; desde 2016: tratamento veterinário é permitido (Portaria 1.399/MMA e posteriores resoluções CFMV). Distribuição no Brasil: histórica: Nordeste (hiperendêmica), Norte, Centro-Oeste; expansão: São Paulo, Rio de Janeiro, Sul — invasão de áreas urbanas do vetor; Lutzomyia longipalpis se adapta ao ambiente doméstico.

Quais são os sinais de leishmaniose visceral em cachorro?+

A LVC tem espectro clínico muito variável — de assintomática a grave. Sinais dermatológicos (os mais frequentes): Onicopatia: unhas longas, quebradiças, deformadas — crescimento anormal; muito característico; dermatite esfoliativa: escamas finas e difusas (farinha) por todo o corpo; pelagem seca e sem brilho; alopecia periocular (óculos): queda de pelo ao redor dos olhos; lesões ulcerativas: especialmente nas orelhas, focinho, cotovelos. Sinais sistêmicos: perda de peso progressiva e caquexia: mesmo com apetite mantido ou aumentado; linfadenopatia generalizada: linfonodos aumentados; epistaxe: coagulopatia + vasculite; esplenomegalia e hepatomegalia; uveíte: olhos vermelhos, lacrimejamento; palidez de mucosas: anemia. Sinais renais (causa mais frequente de morte): proteinúria maciça: glomerulonefrite por deposição de imuno-complexos; síndrome nefrótica → insuficiência renal progressiva. Classificação da LVC (LeishVet): Grau I (leve): sinais cutâneos apenas, sem lesão renal; Grau II (moderado): adenopatia + sinais cutâneos, sem lesão renal grave; Grau III (grave): perda de peso + anemia + sinais renais; Grau IV (muito grave): síndrome nefrótica, caquexia severa.

Como tratar leishmaniose visceral canina no Brasil?+

O tratamento da LVC é permitido no Brasil desde 2016, com protocolo específico regulamentado pelo CFMV. Protocolo de tratamento aprovado no Brasil: Miltefosina: 2 mg/kg/dia VO por 28 dias; mecanismo: inibe a síntese de fosfolipídios da membrana do parasita; única medicação oral eficaz disponível; alopurinol: 20 mg/kg 2×/dia VO continuamente (longo prazo): mecanismo: análogo de purina — interfere no metabolismo do RNA do Leishmania; não é leishmanicida solo mas suprime a replicação; requer uso prolongado (1-2 anos ou indefinido); Domperidona: imunoestimulante adjuvante — estimula a resposta Th1; autorizada como monoterapia em cães sem comprometimento renal; combinação miltefosina + alopurinol: mais eficaz que qualquer um isolado. Monitoramento: hemograma + bioquímica: a cada 3-6 meses; proteinúria (RPCU): monitorar lesão renal; avaliação clínica: a cada 3-6 meses; PCR ou sorologia: avaliação de resposta ao tratamento. Restrições: cão tratado NÃO deve ser usado para reprodução: o tratamento não elimina o parasita de forma garantida — transmissão por via sexual ou transplacentária possível; inspeção veterinária obrigatória antes de reprodução.

Como prevenir leishmaniose canina no Brasil?+

A prevenção combina proteção do cão e redução da transmissão para humanos. Proteção individual do cão: Coleira de deltametrina (Scalibor): repelente de flebotomíneos; trocar a cada 5-6 meses; Spray/spot-on de permetrina: repelência; Vacina Leish-Tec (Brasil): vacina recombinante aprovada pela MAPA; protocolo: 3 doses iniciais + reforço anual; reduz a infecção e a carga parasitária nos cães vacinados; não impede 100% a infecção mas reduz significativamente; Tela de malha fina (1 mm): nas janelas e portas: o flebotomíneo é menor que o mosquito comum; O flebotomíneo é ativo ao anoitecer e à madrugada: evitar que o cão fique ao ar livre nesses horários. Controle ambiental: poda da vegetação rasteira: esconderijo do flebotomíneo; inseticidas piretroides: pulverização peridomiciliar. Importância da prevenção além do cão: o cão infectado é a fonte de infecção humana; proteção do cão = proteção da família; em áreas endêmicas: teste anual por sorologia ou PCR em cões assintomáticos.