Saúde

Hiperadrenocorticismo Canino: Cushing e Cortisol Elevado

O hiperadrenocorticismo (Cushing) é causado por excesso crônico de cortisol — hipofisário (PDH, 85%) ou adrenal (ADH, 15%). Poliúria/polidipsia, abdômen penduloso, alopecia simétrica e calcinosis cutis são os sinais mais característicos. O teste de supressão com dexametasona em baixa dose e o teste de estimulação com ACTH são os exames de triagem. Trilostano é o tratamento de escolha no Brasil.

27 de maio de 2026·2 min de leitura

O Poodle Miniatura de 9 anos chegou com história de 8 meses: bebe e urina muito, abdômen aumentando, queda de pelo nas flancos e "está com fome o tempo todo". Ao exame: abdômen penduloso, alopecia bilateral simétrica, pele fina com calcinosis cutis discreta no dorso.

ALP: 2.340 U/L. Colesterol: 480 mg/dL. Cortisol basal: 4,2 µg/dL.

TSDBD: cortisol 8h = 3,8 µg/dL (supressão inadequada). HAC confirmado. Ultrassom: ambas as adrenais aumentadas (PDH).

Trilostano 2 mg/kg 1×/dia com alimentação. Reavaliação em 10 dias.

O "Barrigão" Que Não É Gordura — Por Que o Abdômen Fica Penduloso

O Paradoxo do Cão Que Parece Gordo

O abdômen penduloso do HAC tem dois componentes:

  1. Redistribuição de gordura visceral: o cortisol redireciona a gordura para o abdômen (lipomobilização periférica + deposição central) — o cão pode até perder peso geral mas ganha volume abdominal
  2. Fraqueza da musculatura abdominal: catabolismo proteico → músculo reto abdominal enfraquecido → suporte do abdômen reduzido → queda da parede abdominal

O tutor descreve: "ele está ficando gordo pelo meio mas eu não mudo a ração" — sinal clássico de redistribuição e não de ganho de peso real.

ALP Como Marcador de Triagem

A ALP hepática elevada (frequentemente > 5-10× o normal) no HAC tem causa específica:

  • O cortisol induz uma isoenzima específica de ALP (isoenzima corticóide-induzida) nos hepatócitos
  • Essa isoenzima não reflete lesão hepática — é um marcador de exposição crônica ao cortisol
  • ALP > 1000 U/L em cão sem sinais de hepatopatia: suspeitar de HAC

A regra: ALP muito elevada + PU/PD + alopecia simétrica + abdômen penduloso → HAC até prova em contrário.

A Metáfora do Termostato — Por que Triagem e Diferenciação São Etapas Separadas

  1. Triagem (TSDBD ou estimulação com ACTH): responde "tem HAC?" — como verificar se o aquecedor está com defeito
  2. Diferenciação (TSDAD + ultrassom): responde "é PDH ou ADH?" — como localizar o defeito (termostato/hipófise vs elemento de aquecimento/adrenal)

Tratar PDH com cirurgia adrenal não resolve o problema (a hipófise continua mandando ACTH para a adrenal contralateral).

Prognóstico

| Forma | Tratamento | Prognóstico | |---|---|---| | PDH, bem controlado com trilostano | Trilostano vitalício | Bom — qualidade de vida excelente | | PDH, microadenoma hipofisário | Trilostano ou radioterapia hipofisária | Bom a moderado | | PDH, macroadenoma hipofisário (sinais neurológicos) | Radioterapia + trilostano | Moderado | | ADH, adenoma adrenal | Adrenalectomia | Muito bom — cura potencial | | ADH, carcinoma adrenal | Adrenalectomia + trilostano | Moderado — metástase possível | | HAC iatrogênico | Redução gradual do corticoide | Excelente se adrenal se recupera |

Perguntas frequentes

O que é hiperadrenocorticismo e quais são as causas no cão?+

O hiperadrenocorticismo (HAC), ou Síndrome de Cushing, é definido pelo excesso crônico de cortisol — o principal glicocorticoide do organismo. O cortisol crônico elevado causa efeitos catabólicos sistêmicos: catabolismo proteico → fraqueza muscular, atrofia muscular; redistribuição de gordura → abdômen penduloso; supressão imune → infecções recorrentes; resistência à insulina → diabetes secundário em alguns casos; rarefação do colágeno dérmico → pele fina, calcinosis cutis. Formas e causas: HAC Hipofisário (PDH — Pituitary-Dependent Hyperadrenocorticism): causa: microadenoma ou macroadenoma hipofisário → secreção excessiva de ACTH → estimulação bilateral das adrenais → hiperplasia adrenal bilateral; frequência: 85% dos casos de HAC espontâneo; raças predispostas: Poodle, Dachshund, Yorkshire Terrier, Boxer, Beagle; glândulas adrenais: aumentadas bilateralmente; HAC Adrenal (ADH — Adrenal-Dependent Hyperadrenocorticism): causa: tumor adrenal unilateral (adenoma ou carcinoma) que secreta cortisol de forma autônoma, independente do ACTH; frequência: 15% dos casos; glândulas: uma adrenal com tumor, a outra atrofiada (ACTH supresso); raças: não há predisposição racial clara — tende a acometer cães de porte maior; HAC iatrogênico: corticoide exógeno em altas doses por período prolongado → supressão do eixo HHA → atrofia adrenal → quadro clínico de Cushing; o mais importante: quando corticoide é retirado abruptamente → crise addisoniana.

Quais são os sinais de hiperadrenocorticismo em cachorro?+

Os sinais clínicos do Cushing canino são numerosos e afetam múltiplos sistemas — muitos tutores descrevem os sinais como 'envelhecimento' do cão. Sinais clínicos clássicos (os 'sinais do Cushing'): Poliúria e Polidipsia (PU/PD): bebe muito e urina muito — o sinal mais consistente; o cortisol interfere no ADH (hormônio antidiurético) → poliúria; Polifagia: come muito, sem perder peso ou ganhando; Abdômen penduloso 'de tonel': redistribuição de gordura + fraqueza da musculatura abdominal; muito característico — os tutores descrevem como 'barriga grande que apareceu'; Alopecia simétrica bilateral: queda de pelo nas flancos e abdômen sem prurido; pelo fino, sem brilho; Pele fina, frágil, com escamas: colágeno reduzido; Calcinosis cutis: deposição de cálcio na pele → pápulas brancas e duras; especialmente no dorso e abdômen; patognomônico de HAC em cães; Fraqueza muscular e atrofia: dificuldade de subir escadas, intolerância ao exercício; Hepatomegalia: fígado infiltrado por glicogênio → enzimas hepáticas elevadas; Infecções recorrentes: TU, pele (supressão imune pelo cortisol); Hipertensão arterial: frequente — pode causar lesão renal, cardíaca, ocular. Achados laboratoriais: ALP muito elevada: sinal mais sensível para HAC (isoenzima induzida por corticoide); colesterol elevado; urina: densidade baixa (poliúria); glicosúria se DM secundário.

Como diagnosticar e tratar hiperadrenocorticismo em cachorro?+

O diagnóstico do HAC exige testes dinâmicos do eixo HHA — não apenas a dosagem de cortisol basal. Testes de triagem: Teste de supressão com dexametasona em baixa dose (TSDBD): administrar 0,01 mg/kg de dexametasona IV; colher cortisol: antes, 4h e 8h depois; HAC: cortisol > 1,4 µg/dL às 8h (supressão inadequada); principal de triagem para HAC (sensibilidade > 95%); Teste de estimulação com ACTH: administrar ACTH sintético (cosyntropina) IV ou IM; colher cortisol: antes e 1h depois; HAC: cortisol pós-ACTH > 20-22 µg/dL; mais útil para monitorar o tratamento com trilostano. Diferenciação PDH vs ADH: Supressão com dexametasona em ALTA dose (TSDAD): 0,1 mg/kg IV; supressão em PDH (tumor hipofisário): 50% dos cães com PDH suprimem; ADH: não suprime; Ultrassom abdominal das adrenais: PDH: ambas as adrenais aumentadas e simétricas; ADH: uma adrenal com massa > 1,5 cm, a outra atrofiada; TC ou RM das adrenais e hipófise: imagem definitiva. Tratamento: Trilostano (primeira escolha no Brasil): inibidor da 3β-HSD → bloqueia a síntese de cortisol nas adrenais; dose: 1-3 mg/kg 1×/dia VO (com alimentação): o ideal é começar 1-2 mg/kg; monitoramento: teste de estimulação com ACTH 10 dias após início e 30 dias depois; meta: cortisol pós-ACTH entre 2-5 µg/dL; Mitotano (o-p'-DDD): alternativa ao trilostano; mais tóxico — destruição seletiva das células adrenais; menos disponível no Brasil; Cirurgia adrenal: adrenalectomia: indicada no tumor adrenal unilateral (ADH); complicação: hipoadrenocorticismo pós-operatório (adrenal contralateral atrofiada); cuidado intensivo pós-operatório necessário.

Quais são os riscos e complicações do tratamento com trilostano em cachorro?+

O trilostano é eficaz e relativamente seguro, mas exige monitoramento rigoroso por risco de crise addisoniana. Crise addisoniana (hipoadrenocorticismo iatrogênico): o trilostano pode suprimir excessivamente as adrenais → hipocortisolismo; sinais: anorexia súbita, vômito, letargia, colapso, hipoglicemia; urgência: dexametasona IV + suporte hídrico; prevenção: monitoramento regular do cortisol pós-ACTH; o trilostano não destrói as adrenais (ao contrário do mitotano) → o hipoadrenocorticismo por trilostano é geralmente reversível ao suspender o medicamento. Monitoramento com trilostano: teste de estimulação com ACTH: 10 dias após início, 30 dias, depois a cada 3-6 meses; meta: cortisol pós-ACTH 2-5 µg/dL (zona de controle); < 2 µg/dL: hipocortisolismo — reduzir dose ou suspender; > 7 µg/dL: subdose — aumentar dose; sinais clínicos: polidipsia/polifagia persistentes = subdosagem; letargia/vômito/anorexia = superdosagem ou hipoadrenocorticismo. Outras complicações: síndrome da veia adrenal no tumor adrenal cirúrgico; tromboembolismo: cortisol crônico promove hipercoagulabilidade; infecções oportunistas: pioderma profundo, ITU recorrente; diabetes mellitus: resistência à insulina pelo cortisol → DM secundário. Cushing e outras doenças concorrentes: HAC + diabetes mellitus: hipoglicemia ao tratar o HAC com trilostano — controle glicêmico muda; HAC + hipotireoidismo: cortisol suprime T4 → TSH falsamente normal → o hipotireoidismo concorrente pode ser mascarado.