Hepatozoonose Canina: Parasito do Carrapato e Febre Recorrente
A hepatozoonose é causada por Hepatozoon canis — transmitido pela ingestão do carrapato marrom (Rhipicephalus sanguineus). Endêmica no Brasil: febre recorrente, perda de peso, neutrofilia com bastonetes e mielite. Distinta das outras doenças transmitidas por carrapato. O tratamento suprime mas raramente cura — a doença recorre sem controle do carrapato.
O Rottweiler de 4 anos chegou com o terceiro episódio de "febre que passa em 3-4 dias e volta em 2 semanas" — perda de 3 kg em 2 meses. Alta infestação de carrapatos marrons.
Hemograma: neutrófilos 18.500/µL com 12% de bastonetes. Plaquetas: 178.000/µL (normal). Esfregaço sanguíneo: gamontes intracitoplasmáticos em neutrófilos.
Hepatozoonose. Doxiciclina + imidocarb + desparasitação imediata.
Por que Hepatozoonose é Diferente de Todas as Outras Doenças do Carrapato
O Mecanismo da Ingestão
Todas as doenças transmitidas por carrapatos que conhecemos (Ehrlichia, Babesia, Anaplasma, Rickettsia) são transmitidas pela picada — a saliva do carrapato durante o repasto sanguíneo carrega o agente infeccioso.
O Hepatozoon canis funciona de forma completamente diferente:
- O carrapato ingere leucócitos parasitados durante o repasto no cão infectado
- O parasita faz reprodução sexual dentro do carrapato
- O carrapato produz oocistas — no intestino, no hemocele
- Outro cão ingere o carrapato ao se lamber → oocistas ingeridas → infecção
Implicação prática: o uso de antiparasitários de contato (coleira, spot-on) que impedem a picada mas não matam o carrapato antes que seja ingerido pelo cão podem não prevenir a hepatozoonose — o cão pode ingerir o carrapato vivo que sobe no pelo.
As isoxazolinas (fluralaner, afoxolaner) que matam o carrapato ao picar são mais eficazes.
A Neutrofilia com Bastonetes — O Sinal que Diferencia
Na erliquiose: trombocitopenia marcada (plaquetas < 50.000) com pancitopenia.
Na hepatozoonose: neutrofilia com desvio à esquerda (bastonetes, metamielócitos) — reação leucemoide. As plaquetas são normais ou levemente reduzidas.
O esfregaço sanguíneo resolve: encontrar gamontes ovoides (cor azul pálido, 3-8 µm) dentro de neutrófilos confirma o diagnóstico.
A Infecção Persistente — Por que Recidiva
H. canis forma cistos (quistes citoplasmáticos) em células da medula óssea, fígado e baço — permanecem dormentes indefinidamente. São o reservatório da reinfecção endógena após períodos de imunossupressão ou estresse.
Por isso: cão "curado" clinicamente pode ter recidiva meses depois. O objetivo do tratamento é controle, não erradicação.
Prognóstico
| Situação | Tratamento | Prognóstico | |---|---|---| | Primeiro episódio, sem coinfecção | Doxiciclina + imidocarb | Bom — melhora clínica | | Coinfecção com Ehrlichia | Protocolo duplo | Moderado — mais complexo | | Doença crônica com caquexia | Tratamento longo | Moderado | | Mielite/paresia | Tratamento + anti-inflamatório | Moderado | | Sem controle de carrapato | Qualquer tratamento | Recidiva frequente |
Perguntas frequentes
O que é hepatozoonose canina e como o cão se infecta?+
A hepatozoonose canina é causada por Hepatozoon canis, um protozoário apicomplexa que parasita leucócitos (neutrófilos e monócitos) e células de múltiplos órgãos. Transmissão — única entre as doenças de carrapatos: a hepatozoonose NÃO é transmitida pela picada do carrapato; a infecção ocorre quando o cão INGERE o carrapato infectado: carrapato Rhipicephalus sanguineus (carrapato marrom) infectado por H. canis; o cão ingere o carrapato ao se lamber, tentar removê-lo ou durante grooming; no intestino do cão: oocistas do carrapato liberam esporozoítos → invadem células intestinais → migração hematogênica → leucócitos + células de vários órgãos. Esta transmissão pela ingestão é diferente de Ehrlichia, Babesia e Anaplasma (que são transmitidas pela picada). Ciclo biológico: no cão: H. canis invade neutrófilos e monócitos → formas de divisão (gamontes); o carrapato se alimenta no cão e ingere as células parasitadas; no carrapato: desenvolvimento sexual → oocistas infectantes. Distribuição no Brasil: Hepatozoon canis: presente em todo o Brasil; mais prevalente nas regiões de alta infestação de R. sanguineus; H. americanum: espécie norte-americana — mais patogênica, causa miosite piogranulomatosa grave; não está documentada no Brasil.
Quais são os sinais de hepatozoonose em cachorro?+
A apresentação clínica é variável — de subclínica a grave. Sinais clínicos: febre recorrente: 39,5-41°C, intermitente — desaparece e volta; letargia e anorexia: durante as crises febris; perda de peso progressiva: mesmo com apetite parcialmente mantido; fraqueza muscular e dor: especialmente nos membros posteriores e coluna; ataxia e paresia: comprometimento medular por mielite; dor à palpação da coluna: miosite + periostite (H. americanum causa periostite exuberante — não tão comum no Brasil); caquexia em casos crônicos. Achados laboratoriais: neutrofilia com desvio à esquerda (bastonetes): aumento de neutrófilos com formas imaturas — característico; ausência de trombocitopenia grave: diferente da erliquiose (que causa trombocitopenia intensa); leve anemia normocrômica; PCR (proteína C reativa) elevada; esfregaço sanguíneo: gamontes dentro de neutrófilos (ovoides, azulados): diagnóstico específico. Diagnóstico: esfregaço de sangue periférico: gamontes intracitoplasmáticos nos leucócitos — diagnóstico quando encontrado; PCR (reação em cadeia da polimerase): mais sensível que o esfregaço — detecta DNA do parasita; biópsia muscular: merontes (formas de divisão) no músculo esquelético. Diagnóstico diferencial: erliquiose (trombocitopenia + pancitopenia), babesiose (anemia hemolítica), leishmaniose, toxoplasmose.
Como tratar hepatozoonose em cachorro?+
O tratamento suprime a parasitemia mas raramente é curativo — a infecção persiste em forma latente nos tecidos. Protocolo combinado (mais usado): Doxiciclina: 10 mg/kg/dia VO por 28 dias: atividade antiprotozoária; Imidocarb dipropionato: 5-6 mg/kg SC ou IM, 2 doses com 14 dias de intervalo: antiprotozoário + ação contra outros hemoparasitas; Trimetoprim-sulfametoxazol: 15 mg/kg 2×/dia VO: sinérgico; Protocolo alternativo (mais completo, maior custo): Ponazuril: 10-50 mg/kg VO: antiprotozoário; Decoquinato: 10-20 mg/kg 2×/dia: mais disponível em formulações veterinárias; Doxiciclina associada. AINEs: meloxicam ou piroxicam: controle da febre e dor muscular; importante para qualidade de vida durante o tratamento. Prednisona (controversa): algumas referências usam para reduzir a inflamação tecidual; aumenta o risco de replicação do parasita — usar com cautela. Recorrência e manutenção: sem controle de carrapatos: reinfecção → recidiva; H. canis pode persistir em células mononucleares na medula óssea por meses; cães tratados com sucesso clínico podem ter PCR positivo por longo período. Controle do carrapato: fundamental para evitar reinfecção: antiparasitários preventivos mensais (isoxazolinas, permetrina).
Como diferenciar hepatozoonose de erliquiose canina?+
Hepatozoonose e erliquiose compartilham vários sinais — mas têm diferenças importantes que guiam o tratamento. Diferenças chave: Transmissão: Erliquiose: picada do carrapato; Hepatozoonose: ingestão do carrapato. Hemograma: Erliquiose: trombocitopenia grave (< 50.000/µL) + pancitopenia; Hepatozoonose: neutrofilia com bastonetes, sem trombocitopenia significativa. Diagnóstico: Erliquiose: sorologia (ELISA) ou PCR; mórulas em monócitos (mais raras que gamontes da hepatozoonose); Hepatozoonose: esfregaço de sangue: gamontes nos neutrófilos (ovoides); PCR DNA. Resposta ao tratamento: Erliquiose: melhora rápida com doxiciclina em 5-10 dias; Hepatozoonose: melhora mais lenta, recaídas frequentes. Coinfecção: 40-60% dos casos de hepatozoonose têm coinfecção com Ehrlichia, Babesia ou outros hemoparasitas; tratar ambos quando coinfecção confirmada ou suspeita. Diagnóstico laboratorial definitivo: esfregaço com gamontes em neutrófilos: diagnóstico de hepatozoonose; mórulas em monócitos: erliquiose; ambos ausentes + suspeita clínica: PCR para ambos.
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