Saúde

Esofagite em Cachorro: Refluxo, Anestesia e Disfagia

A esofagite é a inflamação da mucosa esofágica — o refluxo gastroesofágico durante e após anestesia geral é a causa mais comum no cão. Regurgitação, hipersalivação e disfagia são os sinais principais. Sem tratamento, pode evoluir para estenose esofágica (estreitamento cicatricial). Omeprazol e sucralfato são o tratamento padrão.

27 de maio de 2026·2 min de leitura

O Labrador de 4 anos chegou 3 dias após uma orquiectomia com regurgitação frequente, hipersalivação e recusa em comer — "ele lambe muito os beiços e regurgita logo após comer".

Esofagoscopia: mucosa esofágica com eritema difuso e múltiplas erosões no terço distal. Sem estenose.

Esofagite por refluxo gastroesofágico pós-anestésico. Omeprazol 1 mg/kg 2×/dia + sucralfato 1g 3×/dia + metoclopramida + dieta pastosa com comedouro elevado.

Regurgitação vs Vômito — A Distinção que Muda Tudo

Por que Todo Mundo Chama de Vômito

O erro mais comum na anamnese: tutor diz "está vomitando" para qualquer coisa que sai pela boca. A distinção é clínica e vital:

| | Regurgitação | Vômito | |---|---|---| | Mecanismo | Passivo, sem esforço | Ativo, com contração abdominal | | Náusea prévia | Não | Sim (salivação, lambidas repetidas) | | Conteúdo | Alimento não digerido, muco | Alimento digerido, bile, espuma | | Relação com refeição | Logo após comer ou ao mudar posição | Variável | | Problema | Esôfago | Estômago/intestino |

A importância: regurgitação → investigar esôfago (megaesôfago, estenose, esofagite, corpo estranho). Vômito → investigar estômago e intestino.

A Complicação que Permanece — Estenose Esofágica

Esofagite grave não tratada → cicatriz fibrótica → estenose:

  • A mucosa esofágica cicatriza contraindo o lúmen
  • Acontece em 3-8 semanas após a injúria
  • O cão começa a regurgitar somente sólidos (líquidos ainda passam)
  • Sem dilatação endoscópica: o cão não consegue se alimentar

A janela de prevenção: tratar a esofagite agressivamente nas primeiras 2-4 semanas previne a estenose. Após a estenose formada, o tratamento é muito mais complexo.

Por que Braquicefálicos São de Alto Risco

A síndrome das vias aéreas dos braquicefálicos (SARB) cria pressão negativa intrafaríngea durante a respiração:

  • Esforço para superar a obstrução → pressão negativa intratorácica
  • Pressão negativa → succiona o conteúdo gástrico para o esôfago
  • Refluxo crônico → esofagite crônica → risco de estenose

Por isso: todo braquicefálico que vai para anestesia tem protocolo especial de omeprazol pré-operatório.

Prognóstico

| Situação | Tratamento | Prognóstico | |---|---|---| | Esofagite aguda leve-moderada | Omeprazol + sucralfato 2-4 semanas | Excelente — cicatrização completa | | Esofagite com erosões profundas | Protocolo completo 4-8 semanas | Bom — risco de estenose | | Esofagite crônica por DRGE | Tratamento + correção da causa | Moderado — recorrência sem cirurgia | | Estenose esofágica | Dilatação endoscópica 2-5 sessões | Bom com dilatação + omeprazol longo prazo | | Estenose refratária à dilatação | Cirurgia (raro) | Reservado |

Perguntas frequentes

O que é esofagite e quais são as causas mais comuns no cão?+

A esofagite é a inflamação da mucosa esofágica causada por exposição prolongada a substâncias irritantes — principalmente ácido gástrico, bile e enzimas pancreáticas. A mucosa esofágica canina (diferente da humana) não tem células secretoras de muco protetor em todo o seu comprimento — é particularmente vulnerável ao refluxo. Causas mais comuns no cão: Refluxo gastroesofágico durante anestesia geral (mais frequente): mecanismos: decúbito prolongado durante cirurgia, relaxamento do esfíncter esofágico inferior (EEI) por fármacos anestésicos (propofol, acepromazina, opióides), pressão abdominal aumentada; o ácido gástrico + bile → contato com mucosa esofágica → lesão de mucosa → inflamação; período crítico: durante e nas primeiras 24-48h pós-operatório; prevenção: cão em jejum adequado (8-12h), posicionamento com cabeça acima do tórax, omeprazol pré-operatório em pacientes de risco. Doença por refluxo gastroesofágico crônico (DRGE): hérnia de hiato: dilatação esofágica hiatal → refluxo crônico; Buldogue Inglês, Shar Pei e outras braquicefálicas: compressão faríngea → pressão negativa → refluxo; esfincter esofágico inferior incompetente. Outras causas: corpo estranho esofágico com lesão química; ingestão de cáusticos (soda cáustica, ácido); megaesôfago grave com retenção de conteúdo gástrico; espirocercose (nódulos esofágicos); neoplasia esofágica.

Quais são os sinais de esofagite em cachorro?+

Os sinais de esofagite são comumente confundidos com vômito pelos tutores — a distinção é crucial. Sinais de esofagite: Regurgitação (o sinal mais característico): passiva, sem esforço abdominal, sem náusea; conteúdo: alimento não digerido, muco, saliva; o cão agacha levemente e o conteúdo sai sem contração abdominal; diferente do vômito: que tem náusea, salivação, contração do abdômen; momento: logo após comer ou com mudança de posição; Disfagia: dificuldade de deglutição; lambidas repetidas, extensão do pescoço ao engolir; Odinofagia: dor ao engolir; cão se recusa a comer mesmo com apetite; chora ou vocaliza ao deglutir; Hipersalivação: ptialismo: salivação excessiva — mucosa faríngea irritada; Perda de peso e desnutrição: em casos crônicos — cão não consegue se alimentar adequadamente. Estenose esofágica (complicação grave): a inflamação crônica cicatriza → estreitamento da luz esofágica; regurgitação imediata após comer qualquer sólido; somente líquidos conseguem passar; diagnóstico: esofagoscopia com visualização do estreitamento; fluoroscopia contrastada (esofagograma). Diagnóstico: Radiografia de tórax: megaesôfago se presente; corpo estranho radiodense; Esofagoscopia: visualização direta das lesões de mucosa; avermelhamento, erosões, ulcerações; estenose se presente; Fluoroscopia com contraste: avaliação funcional da deglutição.

Como tratar esofagite em cachorro?+

O tratamento da esofagite combina supressão do ácido, proteção da mucosa e manejo dietético — além de tratar a causa. Supressão ácida: Omeprazol: 1-2 mg/kg 1×/dia ou 0,5-1 mg/kg 2×/dia VO: inibidor de bomba de prótons; reduz drasticamente a acidez gástrica → menos lesão no refluxo; é o pilar do tratamento; administrar 30-60 minutos antes da refeição; Famotidina: 0,5-1 mg/kg 2×/dia VO: bloqueador H2 histamina: menos potente que o omeprazol. Proteção de mucosa: Sucralfato: 0,5-1 g/cão 3×/dia VO: cria barreira protetora na mucosa lesada; administrar separado do omeprazol (o sucralfato reduz a absorção); fundamental na esofagite com erosões/úlceras. Procinéticos: Metoclopramida: 0,2-0,4 mg/kg 3×/dia VO: aumenta a pressão do EEI → menos refluxo; acelera o esvaziamento gástrico; Cisaprida: 0,1-0,5 mg/kg 2-3×/dia VO: mais eficaz para aceleração gástrica; disponível em farmácias de manipulação. Manejo dietético: refeições menores e mais frequentes: 4-6 refeições/dia; consistência: papas úmidas ou dieta líquida em esofagite grave; elevação do comedouro: comer com o pescoço esticado — reduz refluxo; manter cão em posição vertical (sentado ou em pé) 15-20 minutos após comer. Tratamento da estenose esofágica: dilatação endoscópica: balão de dilatação introduzido por esofagoscópio; múltiplas sessões necessárias: 2-5 sessões com 2-4 semanas de intervalo; corticoide intralesional: triamcinolona injetada no tecido cicatricial durante a dilatação.

Como prevenir esofagite pós-anestesia em cachorro?+

A esofagite pós-anestésica é prevenível com medidas simples que reduzem o refluxo durante o procedimento. Protocolo pré-operatório: jejum adequado: sólidos 8-12h, água até 2-4h antes; omeprazol pré-operatório: 1-2 mg/kg VO na noite anterior + manhã da cirurgia: em animais de risco (braquicefálicos, hérnia de hiato, cirurgia gástrica); metoclopramida 30 min pré-operatório: acelera esvaziamento gástrico. Durante a anestesia: evitar propofol em indução prolongada + acepromazina: a combinação aumenta a incidência de refluxo; posicionamento: cabeça levemente mais alta que o abdômen; monitorar refluxo durante o procedimento: sucção imediata se conteúdo gástrico aparecer no tubo; lavagem com água morna e bicarbonato diluído: neutralização do ácido na faringe e esôfago. Pós-operatório imediato: manter cão em esternal ou lateral com cabeça elevada; omeprazol + sucralfato nas primeiras 48-72h: em procedimentos de alto risco; vigilância dos sinais: regurgitação nas horas seguintes ao procedimento. Cães de alto risco — monitorar com mais atenção: braquicefálicos (Buldogue, Pug, Shih Tzu, Boxer): SARB cria pressão negativa intrafaríngea; cirurgias de longa duração (> 2h); cirurgias gástricas e esplênicas; cães obesos; hérnia de hiato conhecida.