Saúde

Epistaxe em Cachorro: Sangramento Nasal e Causas

A epistaxe (sangramento nasal) em cachorro raramente é benigna — as causas incluem coagulopatia (rodenticida, erliquiose), hipertensão arterial, neoplasia nasal e corpo estranho. Avaliar sempre a coagulação e a pressão arterial antes de qualquer procedimento. Epistaxe bilateral + petéquias = coagulopatia até prova em contrário.

27 de maio de 2026·2 min de leitura

O Labrador de 10 anos chegou com epistaxe unilateral esquerda progressiva há 6 semanas — inicialmente esporádica, agora quase diária. Sem histórico de rodenticida. Pressão arterial: 138 mmHg. Plaquetas: 245.000/µL. TP e TTPA: normais.

Exame físico: leve deformidade facial esquerda e redução do fluxo de ar pela narina esquerda.

TC nasal: massa de tecido mole no meato nasal esquerdo com erosão do septo internasal. Adenocarcinoma nasal — rinoscopia + biópsia confirmada.

O Sinal de Alarme: Unilateral vs. Bilateral

A Regra de Ouro da Epistaxe

Epistaxe unilateral aponta para causa local:

  • Neoplasia (única narina afetada inicialmente)
  • Corpo estranho (sempre unilateral)
  • Aspergilose (começa unilateral, mas pode progredir para bilateral)
  • Trauma local

Epistaxe bilateral aponta para causa sistêmica:

  • Coagulopatia (trombocitopenia, rodenticida, DIC): os capilares de ambas as narinas são frágeis
  • Hipertensão grave: pressão alta afeta todos os vasos simultaneamente

A armadilha: a neoplasia nasal avançada pode se tornar bilateral quando invade o septo — mas o início foi unilateral.

Rodenticida — O Diagnóstico que Não Pode Ser Perdido

O brodifacoum (veneno de segunda geração) tem meia-vida de 120-200 dias no organismo — muito diferente da warfarina:

  • Ingestão → inibe VKOR → vitamina K1 não é reciclada → fatores II, VII, IX, X não são ativados
  • Sinais aparecem com 2-5 dias de atraso (tempo para esgotar os fatores circulantes)
  • Duração do tratamento: mínimo 4-6 semanas de vitamina K1

O erro fatal: parar a vitamina K1 em 7-10 dias quando o cão "melhora" — os sinais voltam porque o rodenticida ainda está no organismo.

Aspergilose Nasal — O Fungo que Corrói

O Aspergillus fumigatus tem a peculiaridade de produzir enzimas proteolíticas que destroem os cornetos nasais:

  • Cornetos normais: estruturas ósseas finas cobertas de mucosa
  • Na aspergilose: os cornetos são destruídos progressivamente
  • Radiografia: "destruição de cornetos" com aumento de radiolucência
  • Sinal patognomônico ao exame: crostas acinzentadas na narina + coriza mucopurulenta

Prognóstico

| Causa | Tratamento | Prognóstico | |---|---|---| | Rodenticida — diagnóstico precoce | Vitamina K1 6 semanas | Excelente | | Erliquiose | Doxiciclina 28 dias | Muito bom | | Hipertensão controlada | Amlodipina + causa | Bom | | Aspergilose leve | Voriconazol ou enilconazol | Bom | | Adenocarcinoma nasal + RT | Radioterapia | Moderado — 12-20 meses | | Adenocarcinoma com invasão de crânio | Paliativo | Reservado |

Perguntas frequentes

Quais são as causas de epistaxe em cachorro?+

A epistaxe canina tem um espectro amplo de causas — sistêmicas e locais. Causas sistêmicas — MAIS IMPORTANTES: Coagulopatias: trombocitopenia: erliquiose (Ehrlichia canis — muito comum no Brasil), AHIM, DIC, drogas; distúrbios de coagulação: intoxicação por rodenticida (brodifacoum — inibe vitamina K): causa epistaxe bilateral + hemoptise + equimoses; doença de Von Willebrand: fator VIII ristocetin cofator deficiente — Doberman, Scottish Terrier predispostos; hepatopatia grave: fígado não sintetiza fatores de coagulação. Hipertensão arterial: pressão sistólica > 160-180 mmHg → ruptura de capilares nasais; causas: IRC, hiperaldosteronismo, feocromocitoma; epistaxe hipertensiva: frequentemente bilateral e recorrente. Causas locais — nariz e seios paranasais: Neoplasia nasal: adenocarcinoma de células escamosas, fibrossarcoma — causa mais comum de epistaxe crônica unilateral em cães de meia-idade a idosos; progressão: unilateral → bilateral quando invade seio paranasal e septo; deformidade facial: erosão óssea; aspergilose nasal: Aspergillus fumigatus — frequente em cães dolicocéfalos (Labrador, Pastor Alemão); erosão de cornetos nasais → sangramento + coriza mucosa; crostas acinzentadas na narina; corpo estranho nasal: espiga de gramínea → sangramento + espirros + secreção unilateral; trauma facial; rinotraqueíte e rinite crônica: inflamação de mucosa pode causar epistaxe leve.

Como avaliar um cachorro com epistaxe?+

A abordagem sistematizada evita tratar o sintoma sem identificar a causa. Avaliação inicial — prioridades: estabilizar se sangramento ativo intenso: posicionar o cão com a cabeça levemente para baixo; compressão externa nasal: 5-10 minutos; evitar cauterização sem diagnóstico; NÃO fazer rinoscopia nem biópsia sem coagulograma — risco de hemorragia incontrolável. História clínica orientadora: unilateral: neoplasia, corpo estranho, aspergilose, trauma; bilateral: coagulopatia, hipertensão; inicio agudo: rodenticida, trauma, corpo estranho; crônico e progressivo: neoplasia, aspergilose; acesso a rodenticida (ratos mortos em casa, veneno colocado): prioridade para rodenticida; residência em área rural + carrapatos: erliquiose. Exames de triagem obrigatórios: coagulograma: TP, TTPA, fibrinogênio: distúrbios da coagulação; contagem de plaquetas: trombocitopenia; pressão arterial: hipertensão; hemograma completo: anemia, leucocitose, plaquetopenia; sorologia para Ehrlichia: em região endêmica (Brasil) — muito comum; proteínas totais e albumina: hepatopatia. Exames de imagem (após excluir coagulopatia): radiografia dos seios paranasais: aumento de densidade, erosão óssea; TC nasal: melhor para extensão tumoral, erosão de lâmina cribriforme; rinoscopia + biópsia: anestesia geral + coagulograma normal antes.

Como tratar epistaxe em cachorro?+

O tratamento segue a causa — o manejo sintomático do sangramento é apenas temporário. Controle do sangramento ativo: compressão manual: dedos na narina + compressa fria local por 5-10 minutos; erguer levemente a cabeça (não exagerar — não causar broncoaspiração de sangue); adrenalina tópica diluída: vasoconstrição local; ácido tranexâmico IV: 10-15 mg/kg: inibidor da fibrinólise — útil em epistaxe por coagulopatia; não tentar tamponamento nasal: cães não toleram — estresse + mastigação → remove o tampão. Por coagulopatia — tratamento específico: rodenticida (brodifacoum): vitamina K1: 2,5-5 mg/kg SC ou VO: NÃO vitamina K3 (tóxica para cães); mínimo 4-6 semanas (a meia-vida do brodifacoum exige reposição prolongada); eritrócitos e plasma se anemia/CID grave; erliquiose: doxiciclina 10 mg/kg/dia VO por 28 dias: trombocitopenia resolve em 1-2 semanas; trombocitopenia imunomediada: prednisolona 2 mg/kg/dia. Por hipertensão: amlodipina 0,05-0,1 mg/kg/dia: anti-hipertensivo de escolha; tratar a causa da hipertensão. Por neoplasia nasal: cirurgia (rinotomia): controle local limitado pela extensão; radioterapia: tratamento de escolha — sobrevida mediana 12-20 meses com RT; quimioterapia adjuvante. Aspergilose: voriconazol oral ou infusão nasal local de enilconazol: 14 dias; resposta: boa em casos precoces.

Como prevenir epistaxe recorrente em cachorro?+

A prevenção depende do controle da causa subjacente. Prevenção de epistaxe por erliquiose: controle de carrapatos: coleira, spot-on com acaricida; evitar áreas infestadas na época de maior incidência (verão/chuvas); diagnóstico e tratamento precoce. Prevenção de epistaxe por rodenticida: não usar rodenticidas de segunda geração (brodifacoum) em casa; opções alternativas de controle de roedores; guardar alimentos e lixo em recipientes fechados; monitorar sintomas por 2-5 dias após suspeita de ingestão — os sinais são atrasados (o anticoagulante age em 2-5 dias após a ingestão). Controle de hipertensão: monitorar PA regularmente em cães > 7 anos com IRC, diabetes ou hiperadrenocorticismo; tratar a causa + amlodipina se PA > 160 mmHg persistente. Epistaxe recorrente não explicada em cão > 7 anos: TC nasal + rinoscopia anual: detecção precoce de neoplasia; a neoplasia nasal canina é localmente invasiva mas raramente metastatiza precocemente — diagnóstico precoce melhora o prognóstico.