Saúde

Encefalopatia Hepática em Cachorro: Amônia, Shunt e Sinais Neurológicos

A encefalopatia hepática (EH) é a síndrome neurológica causada pelo acúmulo de amônia e outros neurotoxinas quando o fígado falha em metabolizá-los. Shunt portossistêmico congênito em raças pequenas e cirrose em raças grandes são as causas mais comuns. Lactulona + dieta com proteína de qualidade controlada. Sinais episódicos pós-prandiais em filhote jovem = suspeita de shunt.

28 de maio de 2026·2 min de leitura

O Yorkshire de 8 meses chegou com episódios de "ficar zonzo e caminhar em círculos por 20 minutos" — sempre 1-2 horas após as refeições. Entre os episódios, parecia absolutamente normal. A tutora pensava que fossem "convulsões epilépticas normais de filhote".

Bioquímica: albumina 1,8 g/dL, ureia 8 mg/dL (ambas baixas). Hemograma: VCM 48 fL (microcitose). Ácidos biliares pós-prandiais: 186 μmol/L. Ultrassom com Doppler: shunt portossistêmico extra-hepático identificado.

TC angiografia: shunt esplenorrenal esquerdo único. Encaminhado para ligadura cirúrgica com anel ameróide.

O Head Pressing — O Sinal que Assusta

Por Que o Cão Pressiona a Cabeça Contra a Parede

O head pressing (pressionar ativamente a cabeça contra superfície sólida) é um sinal neurológico que reflete pressão intracraniana elevada ou disfunção do telencéfalo:

  • Na EH: a amônia altera o gradiente osmótico cerebral → astrocitose (inchaço dos astrócitos) → edema cerebral sutil
  • O cão "tenta aliviar" a pressão: instintivamente pressiona a cabeça
  • Diagnóstico diferencial: tumores cerebrais, meningite, hidrocefalia — mas a natureza episódica e pós-prandial diferencia a EH

Regra prática: head pressing em filhote jovem de raça miniaturizada → pensar shunt até prova em contrário.

A Microcitose — O Sinal Hematológico Esquecido

O VCM (Volume Corpuscular Médio) baixo nos shunts congênitos é um sinal subutilizado:

  • Mecanismo: fígado insuficiente → redução da circulação de ferro → hematopoese com ferro limitado → hemácias menores
  • VCM normal em cão: 60-75 fL
  • VCM no shunt: 45-55 fL — microcitose marcada
  • Ferritina: normal ou alta (o ferro existe, mas não é mobilizado adequadamente)

Esta microcitose é diferente da anemia ferropriva clássica — não responde à suplementação de ferro.

Raças Predispostas ao Shunt Portossistêmico

| Tipo de Shunt | Raças mais afetadas | |---|---| | Extra-hepático (mais comum em miniaturizados) | Yorkshire Terrier, Maltês, Pug, Schnauzer Mini, Bichon, Lhasa Apso | | Intra-hepático (mais comum em raças grandes) | Irish Wolfhound, Labrador, Husky Siberiano, Golden Retriever |

O Yorkshire Terrier tem a maior predisposição documentada — base genética autossômica recessiva suspeita mas não confirmada.

Prognóstico

| Causa da EH | Tratamento | Prognóstico | |---|---|---| | Shunt extra-hepático único, filhote | Ligadura cirúrgica | Excelente (85-90% resolução) | | Shunt intra-hepático | Cirurgia complexa | Bom (70-80% melhora) | | Shunt congênito, manejo clínico | Lactulose + dieta | Moderado (controle parcial) | | Hepatite crônica + EH | Tratamento da hepatite | Moderado-reservado | | Insuficiência hepática aguda | Suporte intensivo | Reservado (depende da causa) | | Hepatotoxicidade por xylitol | UTI, N-acetilcisteína | Reservado (>50% mortalidade) |

Perguntas frequentes

O que é encefalopatia hepática em cachorro e quais as causas?+

A encefalopatia hepática (EH) é uma síndrome neuropsiquiátrica causada pela incapacidade do fígado de metabolizar substâncias neurotóxicas — principalmente amônia — que se acumulam na circulação sistêmica e atingem o cérebro. Fisiopatologia: em condições normais: aminoácidos proteicos → intestino → veia porta → fígado → conversão de amônia (NH3) em ureia → excreção renal; na EH: o fígado falha ou o sangue portal desvia o fígado → amônia não é convertida → amônia acumula no sangue (hiperamonemia) → atravessa a barreira hematoencefálica → altera a neurotransmissão (especialmente GABAérgica) → sinais neurológicos. Neurotoxinas além da amônia: mercaptanas (metionina não metabolizada); ácidos graxos de cadeia curta; manganês; benzodiazepínicos endógenos; falsos neurotransmissores. Causas de EH no cão: Shunt portossistêmico congênito (CPLSS): comunicação vascular anômala que desvia o sangue portal diretamente para a circulação sistêmica, contornando o fígado; intra-hepático (lobos esquerdo, central ou direito): mais comum em raças grandes (Irish Wolfhound, Labrador, Husky); extra-hepático: mais comum em raças pequenas e miniaturizadas (Yorkshire, Maltês, Bichon, Lhasa Apso, Schnauzer Mini, Pug); Insuficiência hepática aguda: hepatotoxinas (Xylitol, Amanita phalloides, aflatoxinas, paracetamol); hepatite viral aguda; Doença hepática crônica avançada: cirrose (fibrose + insuficiência da massa funcional); hepatite crônica idiopática (Bedlington Terrier + cobre; Dobermann; Labrador); Uréase bacteriana intestinal + supercrescimento bacteriano; hipertensão portal de qualquer causa.

Quais são os sinais neurológicos da encefalopatia hepática em cachorro?+

Os sinais de EH no cão são variáveis — de alterações comportamentais sutis a crise convulsiva e coma — e têm característica episódica e pós-prandial nos shunts congênitos. Classificação da EH (graus): Grau I (sutil): apatia, comportamento diferente; menor responsividade a comandos; vagar sem objetivo; Grau II (moderado): ataxia e desorientação; head pressing (pressionar a cabeça contra parede ou piso); deambulação em círculos (circling); cegueira aparente transitória; hipersalivação; Grau III (grave): estupor, dificuldade de despertar; convulsões; resposta diminuída a estímulos; Grau IV (coma): sem resposta a estímulos, estado de coma. A relação com a alimentação — sinal clínico característico dos shunts: os sinais neurológicos aparecem ou pioram 1-3 horas após refeições ricas em proteína; proteína = aminoácidos → intestino → amônia produzida por bactérias → sem metabolismo hepático adequado → pico de amônia sistêmica; o filhote que 'fica diferente ou tem convulsão depois de comer' é sinal de alerta para shunt portossistêmico. Outros sinais sistêmicos associados: urolítiase por urato de amônia (pH ácido + excesso de amônio → cristais de urato): hematúria, disúria; crescimento retardado: filhote menor que os irmãos de ninhada; PU/PD: poliúria e polidipsia (hipostenúria por disfunção tubular em hiperamonemia); vômito e diarreia; icterícia (ausente no shunt congênito — surge nas hepatopatias difusas com insuficiência).

Como diagnosticar e tratar encefalopatia hepática em cachorro?+

O diagnóstico combina avaliação laboratorial, de imagem e, em casos de shunt, angiografia ou TC. Diagnóstico: Bioquímica: ALT, AST, GGT, FA elevadas na doença hepática difusa; albumina e glicose BAIXAS: insuficiência de síntese hepática; ureia BAIXA: paradoxal — o fígado insuficiente não converte amônia em ureia adequadamente; bilirrubina elevada na insuficiência difusa (mas geralmente normal no shunt); Ácidos biliares séricos: pré e pós-prandial (2h após refeição): o exame mais sensível para função hepática global; pós-prandial > 25 μmol/L: significativo; > 100 μmol/L: muito sugestivo de shunt; Amônia sérica: idealmente medida no sangue arterial ou venoso imediatamente; > 100-150 μmol/L: consistente com EH; Hemograma: microcitose (VCM baixo): sinal clássico de shunt — fígado insuficiente não metaboliza ferro normalmente; Ultrassonografia: shunt intra-hepático pode ser visualizado com Doppler; rim bilateral aumentado com aspecto hiperecogênico (nefropatia por urato); bexiga com cristais ou cálculos de urato; TC angiografia: padrão ouro para identificação e mapeamento do shunt — localização precisa para planejamento cirúrgico. Tratamento da crise de EH: Lactulose oral ou por enema: acidifica o conteúdo intestinal → converte NH3 em NH4+ (não absorvível) → reduz absorção de amônia; dose: 0,5-1 mL/kg VO 3×/dia; enema de lactulose em crise aguda: 20-30 mL diluídos em água, retenção por 20 min; Antibiótico intestinal: metronidazol oral: reduz bactérias produtoras de uréase; Dieta controlada em proteína: proteína de qualidade (láctea ou vegetal): menos amoniogênica que proteína de carne vermelha; NUNCA restringir proteína em excesso: cão precisa de proteína para reparação celular; Restrição de proteína excessiva piora o prognóstico; Tratamento definitivo do shunt: cirúrgico: ligadura do shunt ou colocação de anel ameróide — obstrução gradual do shunt; taxa de sucesso: 85-90% com melhora dos sinais neurológicos; complicações: síndrome pós-ligadura (convulsões por reoganização das pressões portais).

Qual o prognóstico da encefalopatia hepática em cachorro?+

O prognóstico depende fundamentalmente da causa subjacente e da possibilidade de tratamento definitivo. Shunt portossistêmico congênito: Com correção cirúrgica: prognóstico excelente a bom — 80-90% dos cães têm melhora significativa ou resolução dos sinais neurológicos; Sem cirurgia (manejo clínico com lactulose + dieta): controle parcial — qualidade de vida moderada, sobrevida de 2-5 anos na maioria; Fatores de bom prognóstico para cirurgia: shunt único extra-hepático, filhote jovem, sem fibrose hepática estabelecida; Fatores de mau prognóstico: shunt intra-hepático múltiplo, hipertensão portal significativa, cirrose já estabelecida. Insuficiência hepática aguda (hepatotoxicidade): Prognóstico variável: depende do agente tóxico e da gravidade da lesão; Xylitol e paracetamol: prognóstico ruim sem suporte intensivo (>50% de mortalidade); Hepatite viral: moderado. Hepatite crônica / cirrose: EH em hepatite crônica = doença avançada → prognóstico reservado; Manejo com lactulose + dieta pode prolongar qualidade de vida; Bedlington Terrier com acúmulo de cobre: quelação com D-penicilamina se iniciada precocemente — bom prognóstico.