Doença Degenerativa da Válvula Mitral em Cachorro (DDVM)
A doença degenerativa da válvula mitral (DDVM) é a cardiopatia mais comum em cães — responsável por 75% dos casos de insuficiência cardíaca. O espessamento e degeneração dos folhetos mitrais causa regurgitação progressiva. Cavalier King Charles Spaniel e Dachshund são as raças mais afetadas. Pimobendan precocemente e IECA retardam a progressão. O sopro mitral é o primeiro sinal.
O Cavalier King Charles Spaniel de 8 anos chegou para consulta de rotina — o tutor não notava nada anormal. Na ausculta: sopro sistólico grau IV/VI em foco mitral.
Radiografia: cardiomegalia moderada. Ecocardiografia: LA/Ao = 1,85 (normal < 1,6). Regurgitação mitral moderada ao Doppler.
DDVM Estágio B2. Pimobendan 0,25 mg/kg 2×/dia + enalapril. O tutor orientado a medir a frequência respiratória em repouso semanalmente.
O Sopro Que Anuncia a Doença
O sopro sistólico mitral é, frequentemente, a primeira e única manifestação da DDVM por meses ou anos:
| Grau do sopro | Características | Progressão típica | |---|---|---| | I-II | Audível apenas em silêncio absoluto | Pode permanecer por anos | | III | Claramente audível | Monitorar rx e eco anualmente | | IV-V | Sopro proeminente, frêmito possível | Investigar cardiomegalia | | VI | Audível sem estetoscópio | Cardiopatia avançada |
A Revolução do Estudo EPIC (2016)
Antes de 2016, o pimobendan era prescrito apenas na insuficiência cardíaca estabelecida (Estágio C).
O estudo EPIC (2016) demonstrou que iniciando o pimobendan no Estágio B2:
- Retardou o início da ICC em 15 meses (em média)
- Reduziu a mortalidade no período de acompanhamento
- Mudou completamente o protocolo de tratamento
Hoje, todo cão no Estágio B2 deve receber pimobendan — independentemente de não ter sinais clínicos.
A Frequência Respiratória — O Monitor Domiciliar
| FRR em repouso | Interpretação | |---|---| | ≤ 25 rpm | Excelente | | 25-30 rpm | Normal | | 30-35 rpm | Borderline — aumentar monitoramento | | > 35 rpm | Sinal de alerta — ligar para o veterinário | | > 40 rpm | Urgência — possível edema pulmonar |
Protocolo do Cavalier King Charles
O CKCS tem protocolo de saúde específico para DDVM:
- Exame cardíaco anual a partir dos 5 anos
- Ecocardiografia semestral quando sopro detectado
- Pimobendan ao atingir B2
Criadores responsáveis exigem exame cardíaco negativo antes de reprodução.
Prognóstico
| Estágio | Prognóstico | |---|---| | B1 (sopro sem cardiomegalia) | Muito bom — anos de vida | | B2 + pimobendan | Bom — retarda ICC em 15 meses | | C (ICC) com tratamento | Moderado — 1-2 anos mediana | | D (refratário) | Reservado — qualidade de vida |
Perguntas frequentes
O que é doença degenerativa da válvula mitral e quem afeta?+
A doença degenerativa da válvula mitral (DDVM, também chamada de endocardiose mitral ou mixomatose mitral) é a doença cardíaca mais comum nos cães — responsável por aproximadamente 75% dos casos de insuficiência cardíaca canina. Fisiopatologia: a válvula mitral separa o átrio esquerdo do ventrículo esquerdo; normalmente, a válvula fecha completamente durante a sístole → o sangue vai apenas para a aorta; DDVM: os folhetos da válvula sofrem degeneração mixomatosa (espessamento e proliferação de material mixoide) → os folhetos não fecham completamente → regurgitação mitral (RM): sangue retorna para o átrio esquerdo durante a sístole; a RM progressiva → sobrecarga de volume no coração esquerdo → remodelamento cardíaco → insuficiência cardíaca congestiva. Raças predispostas: Cavalier King Charles Spaniel: a raça mais afetada — praticamente todos desenvolvem DDVM se viverem o suficiente; herança autossômica dominante com penetrância alta; protocolo de saúde específico para a raça (CKCS Health Protocol); Dachshund, Shih Tzu, Chihuahua, Maltese, Poodle Miniatura, Cocker Spaniel; cães de pequeno e médio porte, geralmente > 7-8 anos; machos: ligeiramente mais afetados e com progressão mais rápida.
Como estadiar e diagnosticar a DDVM em cachorro?+
O estadiamento da DDVM segue o consenso ACVIM 2019 — fundamental para guiar o tratamento. Estadiamento ACVIM 2019: Estágio A: cão de raça predisposta sem sopro detectável — ainda sem doença; Estágio B1: sopro detectável (≥ grau III/VI) sem cardiomegalia à radiografia ou ecocardiograma — doença presente mas coração compensado; Estágio B2: sopro + cardiomegalia no rx OU na eco: átrio esquerdo/aorta > 1,6-1,7 (eco) ou coração grande no rx — indicação de pimobendan!; Estágio C: insuficiência cardíaca congestiva estabelecida — edema pulmonar, derrame pleural; Estágio D: insuficiência cardíaca refratária ao tratamento padrão. Diagnóstico: Ausculta cardíaca: sopro sistólico em foco mitral (ápex esquerdo) — grau I a VI/VI; o sopro aumenta de grau com a progressão da doença; Radiografia torácica: cardiomegalia (coração aumentado), silhueta cardíaca arredondada; edema pulmonar (opacidade intersticial/alveolar perihilar); Ecocardiografia: confirma a regurgitação mitral (Doppler colorido); mede átrio esquerdo / aorta (LA/Ao): se > 1,6-1,7 = B2; avalia fração de ejeção e dimensão do ventrículo esquerdo; Peptídeos natriuréticos (NT-proBNP): elevado em cães com insuficiência cardíaca — pode ser usado como triagem.
Como tratar a doença degenerativa da válvula mitral?+
O tratamento varia conforme o estadiamento. Estágio A e B1: sem medicação cardíaca específica; monitoramento: ecocardiografia a cada 12 meses; estágio A Cavalier: exame anual a partir dos 5 anos. Estágio B2 (cardiomegalia sem ICC): Pimobendan: 0,25 mg/kg 2×/dia VO: inodilatador — aumenta a contratilidade e reduz a pós-carga; o estudo EPIC (2016) demonstrou que o pimobendan no B2 retarda o início da ICC em 15 meses; esta é a indicação que transformou o manejo da DDVM; IECA (enalapril, benazepril): adicionado ao pimobendan em B2 para redução de pós-carga. Estágio C (ICC): Furosemida: diurético de alça — reduz a congestão; dose inicial: 2-4 mg/kg 2×/dia, ajustar conforme resposta; Pimobendan: continuar e ajustar dose se necessário; IECA: manter; Espironolactona: diurético poupador de potássio, anti-fibrótico; Digoxina: raramente usada atualmente; Ômega-3 e suporte nutricional. Estágio D (refratário): aumentar furosemida, adicionar hidroclorotiazida; torsemida como substituto da furosemida; sildenafil se hipertensão pulmonar; considerar qualidade de vida.
Qual o prognóstico da DDVM e o que o tutor deve monitorar em casa?+
Prognóstico: depende do estágio ao diagnóstico e da resposta ao tratamento. Sopro detectado em B1: cão pode viver anos sem ICC — monitoramento essencial; B2 com pimobendan: retarda significativamente a progressão para ICC; ICC tratada (C): sobrevida mediana de 1-2 anos com tratamento adequado; ICC refratária (D): prognóstico reservado — qualidade de vida é o critério. Monitoramento em casa — o que o tutor deve verificar: Frequência respiratória em repouso (FRR): o mais importante marcador domiciliar; FRR normal: ≤ 30 respirações/minuto; FRR > 35-40 em repouso: sinal de alerta — possível edema pulmonar; medir: quando o cão está dormindo ou em repouso absoluto, contar respirações em 30 segundos × 2; aplicativos disponíveis: CardioApp, PetWatch; Tosse: piora súbita da tosse, especialmente à noite ou de manhã cedo = sinal de alerta; Tolerância ao exercício: cão que parou de querer caminhar ou cansa muito rápido; Apetite: redução de apetite em cardíaco = preocupante; Acompanhamento veterinário: a cada 3-6 meses dependendo do estágio; ajuste de furosemida é frequente — medir peso regularmente (ganho de peso = retenção de fluidos).
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