Coagulação Intravascular Disseminada (CID) em Cachorro
A CID é uma síndrome de coagulação patológica sistêmica — coágulos se formam em todo o organismo consumindo plaquetas e fatores de coagulação, resultando paradoxalmente em sangramento. As principais causas no cão são sepse, trauma, neoplasia (hemangiosarcoma) e picada de cobra. O diagnóstico requer pelo menos 3 critérios alterados. Plasma fresco congelado é o tratamento de suporte.
O Golden Retriever de 9 anos chegou em colapso — hematócrito 14%, sangramento nos sítios de venipuntura, petéquias nas mucosas.
Ultrassom: massa esplênica com líquido livre peritoneal (hemoperitônio). Coagulograma: TP 28s (controle 8s), TTPa 72s (controle 15s), plaquetas 28.000/µL, fibrinogênio 58 mg/dL, D-dímero > 8.000 ng/mL.
Hemangiosarcoma esplênico com CID aguda. Plasma fresco congelado 20 ml/kg → esplenectomia de urgência.
O Paradoxo da CID
Coagulando e Sangrando ao Mesmo Tempo
A CID é contraintuitiva:
- Gatilho patológico: fator tecidual exposto massivamente → trombina gerada em todo o organismo
- Microtrombos: fibrina se deposita em capilares → infarto de órgãos (rim, pulmão, cérebro)
- Consumo: plaquetas, fatores V, VIII, fibrinogênio se esgotam na formação dos coágulos
- Fibrinólise reativa: o organismo tenta dissolver os coágulos → libera D-dímeros e FDP
- Resultado: sem fatores → sangramento ao mesmo tempo que há microtrombos
É literalmente uma "tempestade" da hemostase — tudo ativado ao mesmo tempo, tudo esgotado.
Os Órgãos-Alvo dos Microtrombos
| Órgão | Manifestação | Monitorar | |---|---|---| | Rim | LRA olígúrica | Ureia, creatinina, débito urinário | | Pulmão | SARA, hipoxemia | SpO₂, frequência respiratória | | Cérebro | Convulsões, coma | Estado mental, pupilas | | Tubo GI | Infarto intestinal, melena | Fezes, dor abdominal | | Adrenal | Infarto → crise addisoniana | Pressão arterial |
D-dímero: O Marcador da CID
O D-dímero é produzido quando a plasmina dissolve a fibrina:
- Normal: < 250 ng/mL
- Suspeita: 250-500 ng/mL
- CID: > 500 ng/mL (frequentemente > 2000)
- Hemangiosarcoma ativo: pode estar > 5000
Limitação: o D-dímero é sensível mas não específico — qualquer estado trombótico (tromboembolismo pulmonar, cirurgia recente) eleva o D-dímero. O contexto clínico é fundamental.
Por Que o Hemangiosarcoma Causa CID
O hemangiosarcoma esplênico libera cronicamente:
- Fragmentos de células endoteliais neoplásicas com fator tecidual
- Eritrócitos dentro dos canais vasculares tumorais fragmentam (microangiopatia)
CID crônica compensada: o sistema está desequilibrado mas compensado. Achados: D-dímero elevado, plaquetas 80-120k, fibrinogênio no limite inferior — o cão parece normal mas está numa "corda bamba".
Ruptura do tumor → CID aguda: colapso súbito = emergência cirúrgica.
Prognóstico
| Causa | CID | Prognóstico | |---|---|---| | Hemangiosarcoma, esplenectomia precoce | Aguda | Moderado — cirurgia necessária | | Sepse, antibiótico + drenagem | Aguda | Reservado — mortalidade 40-60% | | Picada de cobra, soro precoce | Aguda | Bom se soro em < 6h | | Pancreatite grave | Crônica/aguda | Reservado | | Golpe de calor | Aguda | Muito reservado | | CID crônica hemangiosarcoma sem cirurgia | Crônica | Mau — ruptura iminente |
Perguntas frequentes
O que é CID e quais são as causas no cachorro?+
A coagulação intravascular disseminada (CID) é uma síndrome adquirida de ativação patológica e sistêmica da coagulação — o sistema de coagulação é ativado de forma maciça e descontrolada, formando microtrombos em múltiplos órgãos simultaneamente e consumindo plaquetas e fatores de coagulação. O paradoxo da CID: a coagulação está ativada (microtrombos) → mas o paciente sangra (porque os fatores de coagulação e plaquetas foram todos consumidos). Causas no cão (em ordem de frequência): Sepse/SIRS: endotoxinas bacterianas ativam o fator tecidual nos macrófagos → cascata de coagulação generalizada; a sepse por piómetra, peritonite e pneumonia são as principais; Trauma grave/politrauma: liberação de fator tecidual dos tecidos lesados; Neoplasia: especialmente hemangiosarcoma — células endoteliais neoplásicas liberam fator tecidual cronicamente; CID crônica/compensada em hemangiosarcoma esplênico é muito frequente; Hemólise intravascular: Babesia canis, reação transfusional incompatível; Pancreatite grave: enzimas pancreáticas ativam a cascata de coagulação; Picada de cobra (Bothrops): veneno tem componentes pró-coagulantes + fibrinolíticos; Golpe de calor (heatstroke): hipertermia > 41°C por > 30 min.
Como diagnosticar CID em cachorro?+
O diagnóstico de CID é clínico-laboratorial — requer integração de múltiplos parâmetros. Sinais clínicos: sangramento espontâneo em múltiplos sítios: petéquias na mucosa, hematomas subcutâneos, sangramento em locais de venipunção, hematúria, melena, epistaxe; microtrombose orgânica: insuficiência renal aguda (trombose renal), dispneia (microtrombos pulmonares), alteração neurológica (trombose cerebral). Critérios laboratoriais (CID = ≥ 3 alterados): Plaquetas: < 100.000/µL (trombocitopenia por consumo); Tempo de protrombina (TP): prolongado (> 1,5× o controle); TTPa: prolongado (> 1,5× o controle); Fibrinogênio: < 100-150 mg/dL (consumido na formação de fibrina); D-dímero: elevado (> 500-1000 ng/mL): produto de degradação da fibrina — marca a fibrinólise secundária; FDP (produtos de degradação da fibrina): elevados. Score de CID canino (ICAT): plaquetopenia + prolongamento TP + FDP/D-dímero elevado + fibrinogênio baixo: quanto mais critérios alterados, maior a probabilidade de CID. CID crônica (compensada): frequente no hemangiosarcoma; D-dímero elevado mas TP e TTPa normais ou borderline; trombocitopenia leve a moderada; não sangra ativamente mas está em risco.
Como tratar CID em cachorro?+
O tratamento da CID é baseado em 3 pilares: tratar a causa base, repor o que foi consumido e interromper a coagulação patológica. Pilar 1 — Tratar a causa base: a CID não resolve sem tratar o gatilho; sepse → antibioticoterapia + drenagem; hemangiosarcoma → esplenectomia de urgência; piómetra → ovariohisterectomia; picada de cobra → soro antiofídico. Pilar 2 — Reposição de fatores e plaquetas: Plasma fresco congelado (PFC): 10-20 ml/kg IV: contém todos os fatores de coagulação; é o tratamento de suporte mais importante; Plasma rico em plaquetas (PRP) ou concentrado de plaquetas: se plaquetas < 30.000 com sangramento ativo; Crioprecipitado: rico em fator VIII, fibrinogênio, fator de Von Willebrand — para sangramento grave com fibrinogênio muito baixo. Pilar 3 — Anticoagulação (controverso): Heparina não fracionada: 75-150 UI/kg SC 3×/dia ou CRI; objetivo: interromper a ativação da coagulação; controverso: pode piorar o sangramento se não houver fatores de coagulação suficientes; usar somente após reposição de PFC; Heparina de baixo peso molecular (HBPM): enoxaparina 1 mg/kg SC 2×/dia: mais previsível e segura. Suporte: fluidoterapia sem excesso: hipervolemia piora a hemodiluição dos fatores; proteção renal: oligúria é sinal de microtrombos renais; oxigenoterapia: pulmão é órgão-alvo frequente.
Qual o prognóstico da CID e como o hemangiosarcoma causa CID crônica?+
Prognóstico da CID aguda: depende da causa e da velocidade de tratamento. CID aguda grave: mortalidade 40-70% mesmo com tratamento intensivo; CID como complicação de sepse tratada: melhor prognóstico se a infecção for controlada; CID por trauma: prognóstico mais favorável se trauma operável. Hemangiosarcoma e CID crônica — a relação especial: o hemangiosarcoma esplênico libera cronicamente fator tecidual → ativa a coagulação de forma contínua mas parcial; o sistema fibrinolítico consegue compensar → CID 'compensada': D-dímero elevado, plaquetas levemente baixas, mas sem sangramento ativo; a esplenectomia de urgência interrompe o gatilho; ruptura do hemangiosarcoma → hemoabdome → CID aguda fulminante; sinal de alerta: cão que chega em colapso com hematócrito 12%, TP prolongado, D-dímero > 5000 = hemangiosarcoma + CID até prova em contrário. Monitoramento pós-tratamento: hemograma + coagulograma (TP, TTPa, fibrinogênio, D-dímero) a cada 4-6 horas na CID aguda ativa; melhora dos D-dímeros = sinal positivo de resolução; retorno da contagem plaquetária em 24-72h = boa resposta.
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