Saúde

Choque Hipovolêmico Canino: Ressuscitação com Fluidos e Emergência

O choque hipovolêmico é a falência circulatória por perda de volume intravascular — mais comum em cães por hemorragia, vômito/diarreia grave ou queimaduras. Mucosas pálidas, taquicardia e pulso fraco são os sinais precoces. Ressuscitação com cristaloides 20-30 mL/kg IV em bolus e monitoramento da resposta são fundamentais. Choque hemorrágico grave exige plasma ou transfusão.

28 de maio de 2026·2 min de leitura

O Labrador de 6 anos chegou trazido pelos bombeiros após atropelamento. Mucosas brancas, FC 190 bpm, pulso femoral quase imperceptível. TPC 4 segundos. PA: 55 mmHg.

Sangramento ativo pelo membro anterior direito. Suspeita de hemorragia intra-abdominal (abdômen tenso).

Choque hemorrágico. Dois acessos venosos calibrosos imediatamente — Ringer Lactato 20 mL/kg IV em 10 minutos, compressão direta na ferida, ressuscitação permissiva (alvo PA sistólica 60-70 mmHg até controle cirúrgico).

A Ressuscitação Permissiva — Quando "Menos é Mais"

Por que Pressão Alta Antes da Cirurgia Pode Matar

Em choque hemorrágico com fonte de sangramento ativa não controlada:

  • Ressuscitação agressiva → PA sobe → "amassa" o coágulo formado → sangramento recomeça
  • Cada 100 mL de sangue reposto com salina → dilui os fatores de coagulação
  • Resultado paradoxal: mais fluido = mais sangramento

Estratégia correta: manter PA sistólica em 60-70 mmHg (suficiente para perfusão cerebral mínima) até o controle cirúrgico da fonte de hemorragia. Só então ressuscitar agressivamente.

Exceção: trauma craniano (onde PA mínima de 90 mmHg é necessária para perfusão cerebral).

O Cristaloide Sai do Intravascular — A Matemática da Ressuscitação

Cristaloides isotônicos (RL, SF): distribuem entre plasma e espaço intersticial na proporção 1:3.

Para cada 300 mL infundido:

  • 75 mL ficam no intravascular (repõem o volume)
  • 225 mL vão para o interstício (causam edema)

Por isso: grandes volumes de cristaloide → edema periférico, pulmonar, cerebral. O colhide ou plasma fica mais tempo no intravascular — mas tem custo mais alto e disponibilidade limitada.

Os 5 Parâmetros de Perfusão que Todo Clínico Deve Monitorar

| Parâmetro | Normal | Choque Compensado | Choque Grave | |---|---|---|---| | Mucosas | Rosa | Pálidas | Brancas/cinzas | | TPC | < 2s | 2-3s | > 3s | | FC | 60-140 bpm | 160-180 bpm | > 180 ou bradicardia | | Pulso femoral | Forte | Fraco | Imperceptível | | Temperatura patas | Quente | Fria | Muito fria |

Prognóstico

| Situação | Tratamento | Prognóstico | |---|---|---| | Choque compensado, causa corrigível | Bolus cristaloide + tratar causa | Excelente | | Choque descompensado, fonte controlada | Ressuscitação + cirurgia | Bom | | Choque hemorrágico grave | Ressuscitação permissiva + cirurgia + transfusão | Moderado | | Hemorragia intra-abdominal maciça | Cirurgia emergência | Reservado | | Choque tardio com falência de órgãos | Suporte intensivo | Muito reservado |

Perguntas frequentes

O que é choque hipovolêmico e como se apresenta clinicamente?+

O choque é um estado de hipoperfusão tecidual global — os tecidos não recebem oxigênio suficiente para manter o metabolismo aeróbico. O choque hipovolêmico resulta de redução do volume intravascular. Mecanismo: perda de volume → redução do retorno venoso → redução do débito cardíaco; ativação do sistema simpático (compensação): vasoconstrição periférica + taquicardia: 'redistribui' o fluxo para órgãos nobres (coração, cérebro); se a perda não é corrigida: a compensação falha → hipotensão → falência de múltiplos órgãos. Causas de choque hipovolêmico em cão: Hemorrágico (mais grave): trauma (atropelamento, mordida): perda de sangue total; ruptura de tumor esplénico (hemangiosarcoma): hemorragia intra-abdominal; coagulopatia grave (CIVD, intoxicação por rodenticida): sangramento sistêmico; Não-hemorrágico: vômito e diarreia intensos: desidratação grave (> 10%); obstrução intestinal: sequestro de fluidos no terceiro espaço; queimaduras extensas: perda de fluido pelo tecido lesado; diurese excessiva (diabetes insipidus grave). Sinais clínicos por estágio: Compensado (inicial): taquicardia compensatória; mucosas pálidas ou levemente hipocoradas; TPC 2 segundos (ainda normal); pulso femoral fraco mas palpável; ansiedade, inquietação; Descompensado: mucosas pálidas a brancas; TPC > 3 segundos; hipotensão (PA sistólica < 80 mmHg); extremidades frias; pulso imperceptível; fraqueza ou colapso; Tardio (irreversível): bradicardia paradoxal (coração não responde à adrenalina); mucosas cinzas ou cianóticas; profundidade mental reduzida (encefalopatia de hipoperfusão).

Como avaliar rapidamente o cão em choque e o que monitorar?+

O exame de um cão em choque é rápido e focado — não há tempo para avaliação completa antes de iniciar o tratamento. Avaliação inicial (ABC + circulação): A (Airway): vias aéreas pérvias? boca, faringe; B (Breathing): frequência respiratória, expansão torácica; C (Circulation): avaliação rápida de perfusão; Parâmetros de perfusão (memorizáveis): TPC (Tempo de Preenchimento Capilar): apertar a mucosa oral por 2s e soltar: volta em < 2s = normal; > 2s = hipoperfusão; Cor das mucosas: rosa = normal; pálida = vasoconstrição; branca = choque grave; azul = cianose (hipoxemia); Frequência cardíaca: cão normal: 60-140 bpm; choque: > 160-180 bpm (compensatório); Pulso femoral: fraco ou ausente = choque; Temperatura das extremidades: frias = vasoconstrição = choque; Monitoramento contínuo (após acesso venoso): Pressão arterial: PA sistólica: normal ≥ 90 mmHg; choque descompensado < 80 mmHg; meta de ressuscitação: PA sistólica > 90 mmHg; Lactato sérico: biomarcador de hipoperfusão tecidual: normal < 2 mmol/L; choque moderado: 2-5 mmol/L; choque grave: > 5 mmol/L; retorno ao normal durante a ressuscitação = boa resposta; Débito urinário: cateter urinário: meta ≥ 1 mL/kg/hora; débito < 0,5 mL/kg/hora = hipoperfusão renal; Frequência cardíaca: queda da FC durante a ressuscitação = boa resposta.

Qual é o protocolo de ressuscitação para choque hipovolêmico em cão?+

O objetivo da ressuscitação com fluidos é restaurar o volume intravascular e a perfusão tecidual — antes que a hipoperfusão cause lesão de órgãos irreversível. Fluidos de escolha: Cristaloides isotônicos (primeira linha): Ringer Lactato (RL): fluido de ressuscitação mais fisiológico; 130 mEq/L Na, lactato como tampão; Solução Salina 0,9% (SF): alternativa; risco de acidose hiperclorêmica com volumes grandes; ambos distribuem pelo compartimento extravascular: apenas 1/4 do volume infundido permanece no intravascular; Coloides sintéticos: hidroxietilamido (Hetastarch, Voluven): ficam mais tempo no intravascular; mas: controversos em choque hemorrágico — possível piorar a coagulação; Plasma fresco congelado (FFP): ideal para choque hemorrágico + coagulopatia: repõe volume + fatores de coagulação; Concentrado de hemácias / sangue total: choque hemorrágico com anemia grave (Ht < 20%): repor capacidade de transporte de oxigênio. Protocolo de ressuscitação: Bolus inicial de cristaloide: cão em choque descompensado: 20-30 mL/kg IV em 15-20 minutos; pode repetir até 3 vezes (total 60-90 mL/kg) conforme resposta; reavaliação após cada bolus: melhora dos parâmetros de perfusão (FC, TPC, PA)?; Ressuscitação permissiva (choque hemorrágico ativo): em hemorragia não controlada: PA sistólica alvo de 60-80 mmHg (não 90+); evitar ressuscitação agressiva antes de controle da hemorragia — piora o sangramento; Choque hemorrágico grave: plasma ou sangue total + cirurgia de controle da hemorragia.

Quando usar vasopressores e quais as complicações da ressuscitação?+

Nem todo choque responde apenas a fluidos — vasopressores são necessários quando a hipotensão persiste após ressuscitação volumétrica adequada. Indicações de vasopressores: choque distributivo (séptico, anafilático): vasoplegia — os vasos estão vasodilatados, volume não é o problema principal; hipotensão refratária após 60-90 mL/kg de cristaloide + coloides; choque cardiogênico: débito cardíaco baixo por falência do miocárdio. Vasopressores em cão: Noradrenalina (norepinefrina): vasopressor de escolha para choque séptico: agonista alfa-1 → vasoconstrição → aumento da pressão arterial; dose: 0,1-2 µg/kg/min CRI; Dopamina: doses baixas (2-5 µg/kg/min): inotrópico dopaminérgico; doses moderadas (5-10 µg/kg/min): inotrópico beta-1 + leve vasoconstrição; doses altas (> 10 µg/kg/min): vasopressor alfa-1; Vasopressina: dose fixa: 0,01-0,04 U/kg/min; Dobutamina: inotrópico positivo para choque cardiogênico. Complicações da ressuscitação excessiva: Sobrecarga hídrica: edema pulmonar: especialmente em cardiopatas ou nefropatas; efusão pleural; Acidose hiperclorêmica: excesso de SF 0,9% → Cl⁻ alto → acidose metabólica sem anion gap; usar RL como primeira escolha; Hipotermia: fluidos frios agravam a hipotermia → aquecer antes de infundir em hipotérmicos; Diluição: grande volume de cristaloide → dilui hemácias e fatores de coagulação → piora anemia e coagulopatia no choque hemorrágico.