Carcinoma Adrenocortical Canino: ADH e Tumor de Adrenal
O carcinoma adrenocortical é a forma maligna do hiperadrenocorticismo adrenal-dependente (ADH) — 15% dos casos de Cushing. Diferente do PDH (hipofisário), o ADH tem adrenal contralateral atrofiada e frequentemente ACTH suprimido. Adrenalectomia é o tratamento definitivo. Suporte com trilostano pré-cirúrgico e glucocorticoide pós-operatório imediato são críticos.
O Poodle de 10 anos chegou com sinais clássicos de Cushing — polidipsia, poliúria, barriga pendular, alopecia simétrica — mas o ACTH plasmático estava suprimido (< 5 pg/mL) e o ultrassom mostrou massa adrenal esquerda de 4 cm com adrenal direita atrofiada.
Teste de supressão com dexametasona em dose alta: sem supressão. TC abdominal: massa adrenal esquerda de 4,2 cm, bordas irregulares, sem trombose de veia cava.
ADH — provavelmente carcinoma. Trilostano por 3 semanas para preparo pré-cirúrgico, depois adrenalectomia esquerda.
Por que ADH Exige Uma Abordagem Completamente Diferente do PDH
O ACTH Suprimido Como Chave Diagnóstica
No PDH, o tumor hipofisário produz ACTH em excesso → ambas as adrenais são estimuladas → hipertrofia bilateral.
No ADH, acontece o oposto:
- Tumor adrenocortical produz cortisol autonomamente
- Cortisol elevado → feedback negativo hipofisário → ACTH suprimido
- Adrenal contralateral (sem ACTH) → atrofia progressiva
Consequência crítica: quando o tumor é removido, a adrenal contralateral atrofiada não funciona — o cão entra em crise de Addison aguda sem suporte de glicocorticoide.
A Cirurgia — Preparação e Riscos
Preparo com Trilostano
O trilostano pré-operatório normaliza o cortisol por 2-4 semanas:
- Melhora a cicatrização (hipercortisolemia prejudica)
- Reduz o risco tromboembólico
- Melhora a resposta imunológica
- Permite avaliação do comportamento do tumor sob controle hormonal
O Risco da Veia Cava Caudal
A adrenal direita drena diretamente para a veia cava caudal — carcinomas à direita frequentemente invadem ou tromboam a veia cava, tornando a ressecção tecnicamente muito mais complexa e arriscada.
Protocolo de avaliação pré-cirúrgica:
- TC de abdômen e tórax: invasão vascular + metástases
- Ecocardiografia: extensão do trombo para o átrio direito (raro mas possível)
Suporte com Glicocorticoide — O Cuidado Mais Crítico
| Momento | Protocolo | |---|---| | Intraoperatório | Hidrocortisona 0,5-1 mg/kg/hora IV | | Pós-op imediato (24h) | Hidrocortisona 1-2 mg/kg IV a cada 6-8h | | 1ª semana | Prednisolona 1 mg/kg/dia VO | | 2ª a 4ª semana | Prednisolona 0,5 mg/kg/dia (desmame gradual) | | 1-3 meses | Prednisolona 0,1-0,2 mg/kg em dias alternados | | Desmame final | Guiado pelo teste de estimulação com ACTH |
O cão que recebe alta sem glicocorticoide adequado pode morrer em casa de hipoadrenocorticismo agudo.
Prognóstico
| Situação | Tratamento | Prognóstico | |---|---|---| | Adenoma, ressecção completa | Adrenalectomia | Excelente — curado | | Carcinoma localizado, sem metástases | Adrenalectomia | Bom — 2-3 anos mediana | | Carcinoma com trombose veia cava | Adrenalectomia + trombectomia | Moderado — alto risco cirúrgico | | Carcinoma com metástases | Trilostano paliativo | Reservado — meses | | Recorrência local pós-adrenalectomia | Reoperação ou trilostano | Reservado |
Perguntas frequentes
O que é o hiperadrenocorticismo adrenal-dependente (ADH) e como difere do PDH?+
O hiperadrenocorticismo (Cushing) pode ser causado por tumor hipofisário (PDH — pituitary-dependent hyperadrenocorticism, 80-85% dos casos) ou por tumor adrenocortical unilateral (ADH — adrenal-dependent hyperadrenocorticism, 15-20% dos casos). No ADH: tumor funcional da adrenal (adenoma ou carcinoma) → produção autônoma de cortisol → feedback negativo suprime o ACTH hipofisário → ACTH plasmático baixo ou indetectável; adrenal contralateral: atrofia por ausência de estímulo ACTH → a adrenal oposta ao tumor fica pequena e atrófica; imagem: massa adrenal unilateral ao ultrassom + adrenal contralateral atrofiada = ADH até prova em contrário. No PDH: microadenoma ou macroadenoma hipofisário → ACTH elevado → ambas as adrenais hipertrofiam (bilateral, simétrico); ACTH plasmático: alto ou normal (nunca suprimido). Diagnóstico diferencial: Teste de supressão com dexametasona em dose baixa (TSDBD): PDH: suprime parcialmente (nem sempre) ou não suprime; ADH: NÃO suprime — o cortisol permanece alto porque a produção é autônoma; Teste de supressão com dexametasona em dose ALTA (TSDAD): PDH: suprime em 50-75% dos casos (macroadenoma pode não suprimir); ADH: NÃO suprime (produção autônoma, não responde a feedback). ACTH plasmático: ADH: < 10 pg/mL (suprimido); PDH: > 45 pg/mL (normal a elevado); esse teste é o mais discriminatório. Distinguir ADH do PDH é fundamental: impacta radicalmente o tratamento (adrenalectomia vs trilostano/mitotano).«
Como diferenciar adenoma de carcinoma adrenocortical no cão?+
A distinção entre adenoma e carcinoma adrenocortical é importante para o prognóstico, mas frequentemente só é definitiva na histopatologia pós-cirúrgica. Critérios de imagem que sugerem carcinoma: Tamanho: tumores > 5 cm são muito mais frequentemente malignos; adenomas geralmente < 3 cm; Invasão vascular: trombose da veia cava caudal ou veia renal ao ultrassom ou TC — quase patognomônico de carcinoma; Bordas irregulares: carcinoma invade capsular e estruturas adjacentes; adenoma: massa bem delimitada, homogênea; Metástases: carcinoma metastatiza para fígado, pulmão, linfonodos regionais; TC de tórax e abdômen: avaliação de metástases antes da cirurgia. Achados laboratoriais: ambos elevam o cortisol; ambos suprimem o ACTH; sem marcadores séricos específicos que distinguem. Histopatologia: índice mitótico elevado → malignidade; invasão capsular, vascular e perineural → carcinoma; carcinoma adrenocortical canino frequentemente é de células grandes, pleomórfico. Implicações clínicas: adenoma: adrenalectomia curativa; carcinoma: adrenalectomia pode ser curativa se localizado, mas metástases (30-50% dos casos) determinam prognóstico; monitoramento pós-operatório mais intenso no carcinoma.
Como realizar a adrenalectomia e quais os cuidados perioperatórios?+
A adrenalectomia para ADH é uma cirurgia de alta complexidade que exige preparo cuidadoso. Preparo pré-operatório: Trilostano: iniciar 2-4 semanas antes da cirurgia para normalizar o cortisol: reduz a hipercortisolemia que aumenta o risco anestésico; melhora cicatrização, função imune e coagulação; Avaliação de tromboembolismo: TEP é complicação frequente no Cushing — avaliação pré-op; profilaxia anticoagulante (heparina de baixo peso molecular). Cirurgia: acesso retroperitoneal ou celiotomia por flanco; ligação cuidadosa da veia adrenal (drena para veia cava caudal ou veia renal); se trombose da veia cava: cirurgia de alto risco — considerada contraindicação relativa; tumor à direita: mais próximo da veia cava caudal = maior risco cirúrgico. Suporte perioperatório — CRÍTICO: Hidrocortisona IV perioperatória: a adrenal contralateral está atrofiada (sem ACTH por meses) → não produzirá cortisol após a remoção do tumor → crise addisoniana aguda; administrar hidrocortisona 0,5-1 mg/kg/hora IV durante a cirurgia; prednisolona VO nas primeiras semanas pós-operatórias com desmame gradual. Período de recuperação: insuficiência adrenocortical transitória: dura semanas a meses enquanto a adrenal contralateral se recupera; monitorar: hipoglicemia, hipotensão, hipercalemia, hiponatremia; cortisol sérico pós-op: medir 1, 4, 8 semanas após cirurgia.
Qual é o prognóstico do carcinoma adrenocortical canino e como monitorar após o tratamento?+
O prognóstico varia conforme o estágio no momento do diagnóstico. Prognóstico por situação: Adenoma ressecado com margens limpas: cura (sobrevida igual a cão normal); Carcinoma localizado (sem invasão vascular, sem metástases): sobrevida mediana 2-3 anos com adrenalectomia; Carcinoma com trombose da veia cava: sobrevida mediana 6-12 meses; risco cirúrgico muito alto; Carcinoma com metástases: sobrevida mediana 2-6 meses; trilostano paliativo. Tratamento do carcinoma irressecável ou metastático: Trilostano: controla os sinais de hipercortisolemia; NÃO é antitumoral; paliativo; Mitotano: adrenocorticolítico — destrói o córtex adrenal; pode reduzir a massa tumoral; dose de indução 40-50 mg/kg/dia até hipocortisolemia; raramente utilizado hoje (substituído pelo trilostano). Monitoramento pós-operatório: Ultrassom abdominal: 3, 6, 12 meses — recorrência local ou metástase hepática; TC de tórax: 6 meses — metástase pulmonar; Cortisol sérico ou teste de estimulação com ACTH: avaliação da recuperação adrenal; sinais de insuficiência adrenal: anorexia, fraqueza, hipotensão — tratar com prednisolona. Recuperação adrenal contralateral: pode levar 6-18 meses; alguns cães precisam de suporte com prednisolona por 1 ano ou mais; teste de ACTH positivo confirma recuperação funcional.
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