Saúde

Angiostrongilose Canina: Angiostrongylus vasorum e Coagulopatia

Angiostrongylus vasorum é o 'verme do coração-pulmão' — vive nas artérias pulmonares e no coração direito do cão. Causa coagulopatia grave (CIVD), hipertensão pulmonar e tosse crônica. Endêmica no Brasil em regiões com lesmas e caramujos. Fenbendazol é o tratamento de escolha. Diagnóstico por Baermann nas fezes (larvas L1).

27 de maio de 2026·2 min de leitura

O Golden Retriever de 2 anos chegou com hematoma subcutâneo espontâneo no flanco — "apareceu do nada, sem trauma" — e tosse seca há 6 semanas.

Hemograma: plaquetas 68.000/µL. TP: 28s (normal: 6-8s). TTPA: 65s (normal: 10-12s). Fibrinogênio: 0,8 g/dL.

Baermann: larvas L1 de Angiostrongylus vasorum. Radiografia: infiltrado intersticial heterogêneo bilateral.

Angiostrongilose com CIVD. Fenbendazol 25 mg/kg 2×/dia × 7 dias + plasma fresco congelado 15 mL/kg.

O Hematoma Espontâneo — O Sinal que Ninguém Espera de um Parasita

Por que um Verme Causa CIVD

A fisiopatologia da coagulopatia por A. vasorum é complexa:

  1. Ovos e larvas nas artérias pulmonares → ativação do endotélio vascular
  2. Endotélio ativado → libera fator tissular → cascata de coagulação
  3. Consumo excessivo de fatores de coagulação e plaquetas → CIVD
  4. Paradoxo: coagulação ativada → mas o consumo leva a sangramento

Resultado: hematomas em múltiplos locais sem trauma, epistaxe, hemoptise, sangramento cirúrgico excessivo.

O diagnóstico raramente é pensado: veterinário vê hematoma espontâneo + trombocitopenia → pensa erliquiose (muito mais comum). A tosse crônica concomitante é o sinal que faz suspeitar de parasita pulmonar.

O Baermann — A Técnica para Larvas Vivas

O exame de Baermann é diferente do EPF (exame parasitológico de fezes) convencional:

  • O EPF busca ovos pesados que flutuam
  • O Baermann usa a termotactismo das larvas: fezes suspensas em água morna → larvas L1 migram ativamente para o fundo
  • Técnica: fezes frescas em gaze sobre funil com água morna 37-40°C → sedimento coletado após 30-60 minutos → microscopia
  • Sensibilidade limitada: repetir em 3 dias consecutivos aumenta a sensibilidade

Milbemicina — O Preventivo que Funciona

Em áreas endêmicas, a milbemicina oxima mensal previne A. vasorum com eficácia comprovada:

  • Mata as larvas L3 antes de se tornarem adultas nas artérias pulmonares
  • O mesmo produto previne Dirofilaria (mosquito), Ancylostoma e Toxocara
  • Uma pipeta mensal cobre múltiplas parasitoses endêmicas

Prognóstico

| Situação | Tratamento | Prognóstico | |---|---|---| | Tosse crônica, sem coagulopatia | Fenbendazol | Excelente | | Coagulopatia leve (TP 1,5-2×) | Fenbendazol + monitoramento | Bom | | CIVD com hematomas | Fenbendazol + PFC | Bom a moderado | | CIVD com hemorragia grave | Fenbendazol + suporte intensivo | Moderado | | Sangramento SNC | Tratamento intensivo | Reservado | | Prevenção com milbemicina mensal | Profilaxia | Excelente |

Perguntas frequentes

O que é Angiostrongylus vasorum e como o cão se infecta?+

Angiostrongylus vasorum é um nematódeo metaestrongilídeo que, no estágio adulto, parasita as artérias pulmonares e o ventrículo direito do cão. É chamado de 'French Heartworm' (verme do coração francês) para distingui-lo do Dirofilaria immitis (Heartworm americano). Ciclo biológico: hospedeiro definitivo: cão (e raposa, coiote); hospedeiro intermediário obrigatório: lesmas e caramujos terrestres (Arion, Limax, Helix): larvas L1 eliminadas nas fezes do cão → penetram na lesma → se desenvolvem até L3 infectante; hospedeiros paratênicos (facultativos): rãs, cobras, pássaros — ingerem a lesma infectada; cão se infecta: ingestão de lesma infectada (direta ou contaminando a água e comida); ingestão de hospedeiro paratênico; Migração no cão: larvas L3 ingeridas → intestino → parede intestinal → via linfática e sanguínea → coração direito e artérias pulmonares → tornam-se adultos → fêmeas depositam ovos nas artérias pulmonares → eclodem em larvas L1 → migram para alvéolos → sobem para bronquíolos → são tossidas, deglutidas → eliminadas nas fezes. Distribuição no Brasil: presença confirmada em várias regiões; especialmente em áreas úmidas com alta densidade de lesmas e caramujos; colega endêmica da dirofilariose em algumas regiões. Predileção: cães jovens e raças de caça (pelo hábito de ingerir lesmas).

Quais são os sinais de angiostrongilose em cachorro?+

A angiostrongilose tem espectro clínico diverso — da tosse crônica à coagulopatia potencialmente fatal. Sinais respiratórios: tosse crônica progressiva: tosse seca ou produtiva em cão jovem; intolerância ao exercício: cansaço com atividades leves; dispneia: em casos avançados; hipertensão pulmonar: decorrente dos vermes nas artérias pulmonares. Coagulopatia (a manifestação mais grave e característica): CIVD (coagulação intravascular disseminada) e alterações de coagulação: os ovos e larvas nas artérias pulmonares ativam a cascata de coagulação; sangramento em múltiplos locais: hematomas subcutâneos espontâneos: 'manchas roxas' que aparecem sem trauma; hemoptise (tosse com sangue); epistaxe; sangramento após ferimentos triviais; sangramento em cavidades: hemotórax, hemoabdômen, sangramento SNC; protrombina (TP) e TTPA prolongados; trombocitopenia. Outros sinais: sinais neurológicos: sangramento no SNC; hemorragia ocular: hifema; efusão pleural e pericárdica. Diagnóstico: Baermann nas fezes: método de escolha para larvas L1: larvas migram ativamente para o fundo do copo com água morna; sensibilidade razoável: repetir em dias diferentes; Radiografia torácica: infiltrado alveolar/intersticial heterogêneo; cardiomegalia direita em casos crônicos; TC torácica: mais sensível para a doença pulmonar; hemograma: trombocitopenia + anemia; coagulograma: TP e TTPA prolongados; fibrinogênio baixo + D-dímero elevado: CIVD.

Como tratar angiostrongilose em cachorro?+

O tratamento visa eliminar os vermes adultos e controlar as complicações hemorrágicas. Anti-helmínticos: Fenbendazol: 25-50 mg/kg/dia VO por 7-21 dias: tratamento de escolha; protocolo mais usado: 25 mg/kg 2×/dia por 7 dias — repetir após 3 semanas; eficaz contra adultos e larvas; Milbemicina oxima: 0,5 mg/kg/semana VO: eficaz como tratamento e como profilaxia; alternativa ao fenbendazol; Moxidectina (spot-on): faz parte de pipetas antiparasitárias preventivas; atividade comprovada contra A. vasorum. Manejo da coagulopatia (quando presente): Plasma fresco congelado (PFC): 10-20 mL/kg IV: repõe fatores de coagulação; indicado se TP/TTPA > 2× o normal ou hemorragia ativa; Vitamina K1: 2-5 mg/kg SC ou IM: pode ter papel adjuvante (controverso); Transfusão de sangue total: se anemia grave associada; Plasma e plaquetas: trombocitopenia severa com sangramento ativo. Risco de exacerbação: a morte maciça dos vermes durante o tratamento pode liberar antígenos → piora inflamatória transitória; corticoide (prednisolona 1 mg/kg/dia): prevenção da reação inflamatória pós-tratamento; especialmente em cargas parasitárias muito altas. Prevenção: milbemicina oxima mensal: prevenção da infecção em áreas endêmicas; evitar que o cão ingira lesmas e caramujos; controle ambiental: redução de lesmas no jardim com produtos moluscicidas.

Como diferenciar angiostrongilose de dirofilariose no cão com tosse e problemas cardíacos?+

Angiostrongylus vasorum e Dirofilaria immitis são os dois principais parasitas cardiopulmonares do cão — com diferenças clínicas e diagnósticas importantes. Semelhanças: ambos parasitam o coração e artérias pulmonares; tosse crônica, hipertensão pulmonar, intolerância ao exercício; cardiomegalia direita ao radiografia; alterações nos pulmões (infiltrado, nodulação). Diferenças fundamentais: Localização: Dirofilaria: artérias pulmonares (vermes adultos muito longos: 15-30 cm); Angiostrongylus: artérias pulmonares menores e ventrículo direito (vermes menores: 1-2 cm). Coagulopatia: Dirofilaria: rara, exceto na síndrome da veia cava; Angiostrongylus: frequente — CIVD com hematomas espontâneos: característica marcante. Hospedeiro intermediário: Dirofilaria: mosquito (picada); Angiostrongylus: lesma/caramujo (ingestão). Diagnóstico: Dirofilaria: teste de antígeno (ELISA): detecção de fêmeas adultas; microfilaremia: microfilárias circulantes; Angiostrongylus: Baermann nas fezes: larvas L1; anticorpos específicos; TC torácica com diferença de padrão. Distribuição: Dirofilaria: costeiro (mosquito) — Rio de Janeiro, SP, litoral; Angiostrongylus: qualquer área úmida com lesmas. Tratamento: Dirofilaria: melarsomine (adulticida) + protocolo específico; Angiostrongylus: fenbendazol; protocolos distintos. Diagnóstico concomitante: em áreas endêmicas para ambos — testar para os dois.