Saúde

Anemia Aplásica em Cachorro: Falência da Medula Óssea

A anemia aplásica (aplasia medular) é a falência da medula óssea na produção de células sanguíneas — pancitopenia com anemia arregenerativa, neutropenia e trombocitopenia. Estrógeno exógeno (piometra, tumor testicular), drogas (cloranfenicol, quimioterapia) e causa idiopática/imunomediada. Diagnóstico por mielograma. Prognóstico reservado — suporte intensivo e transplante de medula.

28 de maio de 2026·2 min de leitura

A cadela de 5 anos foi trazida com sangramento gengival espontâneo e mucosas muito pálidas. Três semanas antes, o tutor havia dado "uma injeção abortiva" — estradiol cipionato — porque não queria a ninhada.

Hemograma: hematócrito 12%, plaquetas 8.000/µL, neutrófilos 200/µL. Pancitopenia grave. Mielograma: medula com > 90% de adipócitos, praticamente sem precursores hematopoéticos.

Aplasia medular por estrógeno exógeno. Transfusões de suporte. O cão não sobreviveu.

Por Que o Estrógeno Destrói a Medula

O estrógeno tem efeito mielossupressor direto nas células-tronco hematopoéticas em cães:

  1. Estrógeno → liga-se a receptores nas células progenitoras da medula
  2. Inibe a proliferação de todas as linhagens (eritrócitos, neutrófilos, plaquetas)
  3. Dose alta ou exposição prolongada → aplasia irreversível
  4. A medula é substituída por tecido adiposo
  5. Sem progenitores → sem células novas → pancitopenia progressiva

Cães são muito mais sensíveis ao estrógeno que humanos — doses usadas como abortivo em humanos são letais para cães.

Mielograma — O Exame Que Mostra a Medula

A biópsia/aspirado de medula óssea é insubstituível:

| Achado no mielograma | Interpretação | |---|---| | Medula celular com progenitores | Normal | | Progenitores reduzidos + gordura | Hipoplasia moderada | | > 75% adipócitos, < 25% células | Aplasia grave | | > 90% adipócitos | Aplasia muito grave | | Mielofibrose (fibrose substituindo medula) | Pior prognóstico |

Pancitopenia — Os Três Problemas

| Linhagem afetada | Célula | Consequência clínica | |---|---|---| | Eritroide | Hemácias ↓ | Anemia grave, palidez, fraqueza | | Mieloide | Neutrófilos ↓ | Infecções fatais, sepse | | Megacariocítica | Plaquetas ↓ | Hemorragias espontâneas |

O Estradiol Cipionato Como "Abortivo" — Uma Prática Perigosa

O estradiol cipionato é contraindicado em cães como contraceptivo de emergência:

  • Amplamente disponível em farmácias veterinárias no Brasil
  • Utilizado erroneamente por tutores como abortivo
  • Causa aplasia medular fatal com frequência
  • Opção segura: aglepristone (anti-progesteroide) + orientação veterinária

Prognóstico

| Situação | Prognóstico | |---|---| | Estrógeno exógeno, diagnóstico precoce | Reservado — muitos não sobrevivem | | Tumor de Sertoli + castração precoce | Moderado — recuperação possível | | Piometra + OVH precoce | Moderado — depende do grau | | Ehrlichia + doxiciclina | Moderado a bom | | Aplasia idiopática + ciclosporina | Reservado |

Perguntas frequentes

O que é anemia aplásica e quais são as causas em cães?+

A anemia aplásica (aplasia medular) é uma síndrome de falência da medula óssea caracterizada pela redução ou ausência de células progenitoras hematopoéticas na medula — levando à pancitopenia (anemia + neutropenia + trombocitopenia) grave e progressiva. A medula óssea normalmente produz continuamente: eritrócitos (hemácias): via progenitores eritroides; leucócitos (principalmente neutrófilos): via progenitores mieloides; plaquetas: via megacariócitos; na aplasia, todas estas linhagens falham. Causas em cães: Estrógeno (causa mais importante em cães): administração exógena de estrógeno: usada erroneamente como abortivo → aplasia dose-dependente; tumor de células de Sertoli em macho criptorquídico: produz estradiol → aplasia; piometra de colo fechado: produz estrógeno em excesso → aplasia; o estrógeno é mielossupressor potente em cães — muito mais que em humanos; Drogas mielossupressoras: cloranfenicol (antibiótico): uso prolongado → aplasia idiossincrática; quimioterápicos: cisplatina, ciclofosfamida em superdose; cefalosporinas e sulfonamidas: raramente; Infecções: Ehrlichia canis: fase crônica pode causar aplasia medular; Parvovírus: aplasia transitória; Causa imunomediada (idiopática): similar à aplasia aplásica humana — linfócitos T atacam as células-tronco da medula.

Quais são os sinais clínicos da anemia aplásica e como diagnosticar?+

Sinais clínicos: resultam da pancitopenia — ausência das três linhagens celulares. Sinais da anemia (eritrócitos baixos): mucosas pálidas, letargia, intolerância ao exercício, taquicardia, fraqueza; Sinais da neutropenia (neutrófilos baixos): febre sem foco óbvio; infecções oportunistas (bactérias, fungos); sepse — risco de vida; qualquer ferida pode se tornar grave por falta de defesas; Sinais da trombocitopenia (plaquetas baixas): petéquias, equimoses na pele e mucosas; sangramento após ferimentos mínimos; epistaxe, melena, hematúria; hemorragias espontâneas em casos graves. Diagnóstico: Hemograma completo: pancitopenia — anemia + neutropenia + trombocitopenia; anemia arregenerativa: sem reticulócitos (medula não consegue compensar); Mielograma (punção de medula óssea): exame fundamental — única forma de confirmar aplasia; achado: medula hipocelular com substituição por gordura ('medula adiposa'); ausência ou drástica redução de progenitores; pode mostrar mielofibrose (fibrose medular); Exames específicos: pesquisa de Ehrlichia (PCR, RIFI); histórico de estrógeno (abortivo dado? tumor testicular?); níveis de estradiol sérico se suspeita de tumor de Sertoli; ultrassonografia: tumor testicular, piometra.

Como tratar a anemia aplásica canina?+

O tratamento da aplasia medular é um dos mais desafiadores da medicina veterinária. Tratamento da causa subjacente: Estrógeno endógeno (tumor Sertoli, piometra): remoção cirúrgica imediata — castração, ovariossalpingohisterectomia; pode haver recuperação medular após remoção da fonte de estrógeno, mas lenta (meses); Ehrlichia: doxiciclina 5-10 mg/kg 2×/dia por 4-6 semanas; recuperação medular possível mas lenta; Drogas: suspender imediatamente a droga causadora; Suporte transfusional: transfusão de concentrado de hemácias: anemia grave (Hct < 12-15%); transfusão de concentrado de plaquetas: sangramento ativo + plaquetas < 20.000/µL; plasma fresco congelado: coagulopatia; Prevenção de infecção: isolamento do cão com neutrófilos < 1.000/µL; antibióticos profiláticos em neutropenia grave; antifúngico profilático; monitoramento intensivo de temperatura; Tratamento imunossupressor (aplasia idiopática): ciclosporina A 10-15 mg/kg/dia: inibe linfócitos T que atacam a medula; azatioprina: imunossupressor adicional; danazol: esteroide androgênico com efeito estimulante medular; G-CSF (fator estimulante de colônia de granulócitos): estimula produção de neutrófilos; Transplante de medula óssea: realizado em centros especializados (raramente no Brasil); recurso de última instância.

Qual é o prognóstico da anemia aplásica canina?+

Prognóstico: reservado na maioria dos casos — a aplasia medular canina tem alta mortalidade. Fatores favoráveis: causa identificada e removida (especialmente estrógeno); diagnóstico precoce antes de infecções oportunistas graves; acesso a suporte transfusional intensivo; Causa por estrógeno (piometra, Sertoli): remoção da fonte + suporte: prognóstico moderado a reservado; medula pode se recuperar em semanas a meses após remoção da fonte; muitos cães não sobrevivem ao período de aplasia mesmo com suporte; Ehrlichia: com doxiciclina: possível recuperação medular; prognóstico melhor que outras causas; Causa idiopática/imunomediada: prognóstico reservado — sem causa removível; ciclosporina pode estabilizar mas resposta é imprevisível; Estrógeno exógeno (abortivo): a administração de estradiol cipionato como abortivo em cães é altamente perigosa; muitos cães morrem de aplasia após essa prática; prevenção: nunca usar estrógeno como abortivo em cães; opções seguras: aglepristone (anti-progesteroide) ou consulta veterinária pós-acidente. Cuidados de suporte: o período crítico é antes da recuperação medular; infecções bacterianas em neutropênicos graves podem ser fatais em horas; a transfusão prolonga a vida mas não cura — o objetivo é aguentar até a medula se recuperar.