Acidose Metabólica em Cachorro: Ânion Gap e Bicarbonato
A acidose metabólica é o distúrbio ácido-base mais comum em cães criticamente doentes — caracterizada por pH < 7,35 e HCO3 < 18 mEq/L. O cálculo do ânion gap distingue causas por ganho de ácido (AG elevado: cetoacidose, uremia, lactacidose) das por perda de bicarbonato (AG normal: diarreia grave, IRC). O tratamento é da causa — bicarbonato IV apenas em pH < 7,1.
O Rottweiler de 6 anos chegou em choque hipovolêmico após 3 dias de vômito e diarreia profusa. PA: 60 mmHg sistólica. FC: 160 bpm. Mucosas brancas, TPC > 3s.
Gasometria: pH 7,18. HCO3: 8 mEq/L. PaCO2: 22 mmHg. Lactato: 8,4 mmol/L. Na: 142. Cl: 105.
Ânion gap: 142 − (105 + 8) = 29 mEq/L. Acidose metabólica com AG elevado — lactacidose por choque.
Ringer lactato 90 mL/kg/h (choque) → lactato 3,1 mmol/L em 2h. Bicarbonato não necessário.
O Ânion Gap — A Bússola do Diagnóstico
Por que Calcular o AG Antes de Tratar
O ânion gap não é apenas um número — é uma ferramenta de triagem que aponta para a causa:
| AG elevado (> 24) | AG normal (12-24) | |---|---| | L-lactato (choque, anemia, sepse) | Diarreia intensa | | Corpos cetônicos (DKA) | IRC + acidose tubular | | Uremia (sulfatos, fosfatos) | SF 0,9% em excesso | | Etilenoglicol (anticongelante) | Hipoadrenocorticismo |
Regra prática: AG elevado em cão criticamente doente → pensar em choque (lactato), cetoacidose (glicemia), ou intoxicação (anamnese).
O Paradoxo do Ringer Lactato na Acidose
O Ringer lactato contém lactato de sódio 28 mEq/L — e parece contraintuitivo usá-lo em lactacidose. Por que funciona:
- O lactato do Ringer é o L-lactato (isômero metabolizável)
- No fígado com perfusão adequada: lactato → piruvato → glicose → bicarbonato
- O SF 0,9% contém 154 mEq/L de Cl⁻ → hipercloremia → acidose hiperclorêmica sobreposta
- Em choque hipovolêmico: Ringer lactato restaura melhor o pH do que SF
A exceção: choque hepático grave ou hiperlactatemia classe IV (> 10 mmol/L) → o fígado não metaboliza o lactato do Ringer → usar SF 0,9% ou PlasmaLyte.
Quando NÃO Dar Bicarbonato
O bicarbonato IV é tentador — parece lógico "corrigir" o pH diretamente. Os riscos:
- Hipopotassemia: K⁺ entra para dentro das células junto com H⁺ → hipopotassemia → arritmia
- Paradoxo do LCR: CO2 produzido pelo bicarbonato atravessa a barreira hematoencefálica (HCO3⁻ não) → pH do LCR piora → depressão neurológica piora
- Alcalose de rebote: se a causa for corrigida simultaneamente → pH sobe demais
Regra: tratar o pH < 7,1 com bicarbonato. Acima disso — tratar a causa.
Prognóstico
| Causa | Lactato | Prognóstico | |---|---|---| | Choque hipovolêmico, responsivo à fluidoterapia | > 5, cai com fluido | Bom | | DKA, sem complicações | Variável | Bom com tratamento | | Sepse (lactato persistente) | > 5 que não cai | Reservado | | Choque cardiogênico | > 4, refratário | Muito reservado | | Intoxicação por etilenoglicol | AG > 30 | Reservado — IRC | | pH < 7,1, choque refratário | > 8 | Muito reservado |
Perguntas frequentes
O que é acidose metabólica e como calcular o ânion gap no cão?+
A acidose metabólica é definida por pH arterial < 7,35 com bicarbonato plasmático < 18 mEq/L — é o distúrbio ácido-base mais comum em medicina veterinária de emergência. Fisiopatologia: ácidos fixos (não voláteis) se acumulam no plasma → consomem HCO3 → HCO3 cai → pH cai; compensação respiratória: hiperventilação aumenta a eliminação de CO2 → PaCO2 cai → parcialmente compensa a acidose (mas não normaliza o pH). O ânion gap (AG): AG = Na⁺ − (Cl⁻ + HCO3⁻); valor normal no cão: 12-24 mEq/L; o AG representa os ânions não mensurados (albumina, fosfato, sulfato, ácidos orgânicos). Acidose com AG elevado (> 24 mEq/L): acúmulo de ácidos que consomem HCO3 e adicionam ânions não mensurados; causas: L-lactato (choque, hipóxia): lactacidose — mais comum; corpos cetônicos (cetoacidose diabética): cetonemia; uremia (IRC aguda/crônica): ácidos urêmicos: sulfatos, fosfatos; intoxicações: etilenoglicol, salicilatos, metanol (menos comum em cães). Acidose com AG normal (hiperclorêmica): perda de HCO3 ou incapacidade de secreção de H⁺; causas: diarreia intensa: perda de HCO3 no conteúdo intestinal; acidose tubular renal: falha renal na excreção de H⁺; fluidoterapia excessiva com SF 0,9%: hipercloremia dilucional; hipoadrenocorticismo: perda de HCO3.
Quais são os sinais de acidose metabólica em cachorro?+
Os sinais clínicos da acidose metabólica dependem da gravidade e da doença de base. Sinais respiratórios (compensação): respiração de Kussmaul: respiração profunda, lenta e regular — padrão compensatório; taquipneia: aumento da frequência respiratória; o tutor pode perceber que o cão 'respira fundo de forma estranha'. Sinais cardiovasculares: hipotensão: acidose reduz a responsividade dos vasos aos catecolaminas; arritmias: acidose altera o limiar dos canais de cálcio cardíacos; bradicardia em acidose grave. Sinais neurológicos (em pH < 7,2): depressão, letargia; obnubilação → coma em pH < 7,1; não há convulsões típicas (diferente da alcalose). Sinais gerais: fraqueza muscular profunda; anorexia; vômito (especialmente em cetoacidose e uremia). Gasometria arterial: pH < 7,35; HCO3 baixo (< 18 mEq/L); PaCO2 baixo (compensação respiratória); BE (excesso de base) negativo (< -4 mEq/L). Lactato: lactato > 2 mmol/L: lactacidose; lactato > 5 mmol/L: prognóstico reservado; lactato venoso periférico: alternativa aceitável ao arterial; monitorar resposta ao tratamento: lactato deve cair com fluidoterapia e suporte.
Como tratar acidose metabólica em cachorro?+
O tratamento da acidose metabólica é primariamente da causa — o bicarbonato IV é reservado para acidoses graves sem causa corrigível rapidamente. Tratar a causa (sempre): lactacidose por choque: fluidoterapia agressiva com SF ou Ringer lactato → restaurar perfusão → lactato cai; cetoacidose diabética: insulinoterapia + fluidoterapia → resolver a cetose; diarreia grave: reidratação com Ringer lactato (não SF 0,9% → piora a hipercloremia); uremia: fluidoterapia + suporte renal; hipoadrenocorticismo: corticoide + SF 0,9%. Bicarbonato de sódio IV — quando usar: pH < 7,1 com HCO3 < 10 mEq/L: situação de risco de vida; hiperpotassemia grave com acidose: K⁺ > 7,5 mEq/L — bicarbonato pode redistribuir K⁺ para dentro das células; cause não corrigível rapidamente; NÃO usar bicarbonato de rotina em acidose moderada — risco: hiperosmolaridade, hipopotassemia (K⁺ entra na célula), alcalose de rebote, piora paradoxal da acidose do LCR. Cálculo da dose de bicarbonato: dose = Peso (kg) × 0,3 × déficit de HCO3 (mEq/L); déficit = HCO3 desejado − HCO3 atual; corrigir apenas 50% do déficit nas primeiras 4-6h; meta: pH > 7,2, não necessariamente normalizar o pH. Ringer lactato vs SF 0,9%: Ringer lactato: o lactato é metabolizado em bicarbonato no fígado → leve efeito alcalinizante; na acidose hiperclorêmica (AG normal): Ringer lactato é superior ao SF; na acidose com AG elevado: qualquer cristaloide serve — corrigir a causa.
Como diferenciar acidose metabólica de alcalose respiratória no cão com taquipneia?+
Taquipneia pode ser resposta compensatória à acidose metabólica OU pode ser o distúrbio primário (alcalose respiratória). A diferenciação exige gasometria. Gasometria — interpretação sistemática: Passo 1: pH < 7,35 → acidose; pH > 7,45 → alcalose; Passo 2: olhar HCO3 e PaCO2: acidose + HCO3 baixo: primariamente metabólica; acidose + PaCO2 alto: primariamente respiratória; alcalose + HCO3 alto: primariamente metabólica; alcalose + PaCO2 baixo: primariamente respiratória. Compensação esperada na acidose metabólica: PaCO2 esperado = (1,5 × HCO3 atual) + 8 (± 2): fórmula de Winter; se PaCO2 observado < esperado: alcalose respiratória sobreposta; se PaCO2 observado > esperado: acidose respiratória sobreposta (hipoventilação — sinal grave). Distúrbios mistos comuns: acidose metabólica + respiratória: choque cardiogênico com insuficiência respiratória: muito grave; acidose metabólica + alcalose respiratória: sepse precoce (hiperventilação + acidose láctica); acidose metabólica + alcalose metabólica: vômito intenso (perda de HCl = alcalose) + diarreia (perda de HCO3 = acidose). Ânion gap corrigido por albumina: hipoalbuminemia (comum em doentes críticos) reduz o AG falsamente → AG corrigido = AG medido + 2,5 × (albumina normal − albumina do paciente); usar AG corrigido sempre que albumina < 2,5 g/dL.
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