Saúde

Traqueobronquite Infecciosa em Cachorro (Tosse dos Canis): Diagnóstico e Tratamento

A traqueobronquite infecciosa canina (TIC) — popularmente 'tosse dos canis' — é a infecção respiratória superior mais comum em cães. Tosse seca e produtiva típica após contato com outros cães. Bordetella bronchiseptica é o principal agente. Autolimitada na maioria dos casos; vacinação previne.

27 de maio de 2026·5 min de leitura

O tutor relata que o cão ficou 5 dias em um pet hotel enquanto a família viajava. Dois dias após retornar, começou a tossir — tosse alta, seca, paroxística, que parecia um "ganido" ou engasgamento. O cão está animado, come bem, sem febre.

Dez segundos de relato e o diagnóstico já está praticamente estabelecido: traqueobronquite infecciosa canina.

A Síndrome Respiratória de Múltiplos Agentes

A traqueobronquite infecciosa canina (TIC) é um exemplo clássico de doença multifatorial — vários agentes infecciosos, frequentemente atuando juntos, causam um espectro clínico relativamente uniforme:

Agentes Etiológicos

Bacterianos:

  • Bordetella bronchiseptica — o agente mais importante; adere ao epitélio respiratório ciliar e causa dano direto; produz citotoxinas que paralisam os cílios e dificultam a depuração mucociliar
  • Mycoplasma spp. — contribui para a cronicidade e complicações

Virais:

  • Parainfluenzavírus canino (CPI) — vírus altamente contagioso; causa inflamação epitelial traqueobrônquica
  • Adenovírus canino tipo 2 (CAV-2) — infecção respiratória; diferente do CAV-1 que causa hepatite
  • Vírus da cinomose (CDV) — nos casos graves com sinais sistêmicos — sempre descartar em cães não vacinados

Por que Múltiplos Agentes?

Cada agente prepara o terreno para o seguinte:

  1. Vírus respiratórios danificam o epitélio traqueobrônquico e suprimem a imunidade local
  2. Bordetella aproveita o epitélio danificado para aderir e colonizar
  3. Mycoplasma e outros agentes secundários complicam a infecção
  4. O resultado é inflamação traqueobrônquica intensa → tosse

Epidemiologia e Transmissão

Onde a Infecção Acontece

A TIC é chamada de "tosse dos canis" por razão — qualquer ambiente com alta densidade de cães é de risco:

  • Canis e pet hotels — o ambiente de maior risco; cães de múltiplas procedências, estresse, ventilação compartilhada
  • Petshops — especialmente aquelas com área de banho e tosa coletivos
  • Exposições e feiras caninas — contato direto com cães de todo o país
  • Parques e praças com cão — menor risco que canis, mas possível
  • Clínicas veterinárias — cães doentes em sala de espera

Transmissão

Via aérea: gotículas respiratórias expelidas pela tosse — a mais importante.

Fômites: superfícies contaminadas com secreção respiratória — comedouros, bebedouros, pisos de canil.

Contato direto: focinho a focinho.

Período de incubação: 5-7 dias após exposição.

Período de contagiosidade: 2-3 semanas após início dos sinais (ou mais em cães sem tratamento).

Diagnóstico Clínico

A Tosse Característica — Como Avaliar

Elicitação: pressionar suavemente a traqueia (região cervical) em cão acordado → tosse paroxística imediata em TIC ativa.

Qualidade: seca, alta, estridente — como "latido oco" ou guincho. Diferente da tosse úmida e produtiva da pneumonia.

Contexto: tosse aparece 5-7 dias após exposição a outros cães.

Resolução com descanso: o cão fica quieto e a tosse melhora — episódios piores quando excitado ou puxado pela trela.

Quando Investigar Mais

A maioria dos casos de TIC não requer exames complementares. Mas os seguintes achados justificam investigação:

| Achado | Exame Indicado | |---|---| | Febre > 39,5°C | Hemograma, PCR, radiografia torácica | | Dispneia | Radiografia torácica urgente | | Tosse > 14 dias sem melhora | Radiografia torácica, lavado broncoalveolar | | Cão imunossuprimido | Cultura e antibiograma | | Surto em canil | Cultura de swab nasofaríngeo para Bordetella |

Diferencial: Colapso Traqueal

Em raças toy (Yorkshire, Chihuahua, Pomerânia, Maltês), o colapso traqueal pode mimetizar perfeitamente a TIC:

  • Tosse seca, de "ganso" ou "choro"
  • Piora com excitação, calor, trela no pescoço
  • Cão animado e sem febre

Como diferenciar: o colapso traqueal é crônico (meses a anos); a TIC tem início recente + contexto de exposição a outros cães. Radiografia em inspiração e expiração pode confirmar o colapso.

Tratamento

Protocolo por Gravidade

TIC leve (cão saudável, sem febre, com apetite):

  • Repouso — reduzir atividade física intensa
  • Peitoral ao invés de trela — evitar pressão na traqueia
  • Aguardar resolução espontânea (7-14 dias)
  • Monitorização diária

TIC moderada (tosse intensa, sem febre, ou febre baixa):

  • Doxiciclina 5-10 mg/kg VO 2x/dia por 7-10 dias
  • Peitoral, repouso
  • Nebulização com soro fisiológico 2-3x/dia (5 minutos) — umidifica as vias aéreas

TIC grave (febre alta, dispneia, produção purulenta = pneumonia bacteriana):

  • Internação para suporte
  • Oxigenoterapia se dispneia
  • Antibióticos IV: ampicilina-sulbactam + enrofloxacina
  • Radiografia torácica para avaliar extensão da pneumonia
  • Após estabilização: doxiciclina VO por 3-4 semanas

O Papel dos Antitussígenos

Os antitussígenos (butorfanol, codeína, dextrometorfano) suprimem a tosse — mas a tosse tem função de depuração mucociliar:

Usar antitussígenos quando:

  • Tosse impede o descanso (noturna, muito frequente)
  • Tosse seca e improdutiva — sem função de limpeza
  • Nunca em casos de pneumonia — a tosse é necessária para expectorar

Butorfanol é o antitussígeno de escolha em veterinária — 0,05-0,1 mg/kg VO 2-3x/dia.

Vacinação

Intranasal vs. Parenteral

| Característica | Intranasal | Parenteral | |---|---|---| | Via de aplicação | Gotas no nariz | Subcutânea ou IM | | Imunidade gerada | IgA local (mucosa) | IgG sistêmica | | Proteção para Bordetella | Excelente | Moderada | | Início de proteção | 3-5 dias | 2-3 semanas | | Agentes cobertos | Bordetella + CPI | Bordetella + CPI + CAV-2 | | Risco pós-vacinal | Tosse leve 1-5 dias | Mínimo |

Para cão que vai ao pet hotel amanhã: a vacina intranasal com 3-5 dias de antecedência oferece proteção significativa. A parenteral requer 2-3 semanas para eficácia plena.

Cuidado Após Vacinação Intranasal

A vacina intranasal contém Bordetella e CPI vivos atenuados — após a aplicação, o cão pode apresentar tosse leve por 1-5 dias. Isso não é doença — é resposta imune normal à vacina ao vivo. Informar o tutor para evitar confusão com a doença natural.

Prevenção em Canis e Pet Hotels

Para estabelecimentos que recebem múltiplos cães:

  • Exigir vacinação comprovada contra TIC (instranasal ou polivalente)
  • Separar cães doentes (com tosse) dos sadios — quarentena imediata
  • Ventilação adequada — renovação de ar evita concentração de aerossóis
  • Limpeza e desinfecção regular de superfícies (quaternário de amônio, hipoclorito diluído)
  • Evitar superlotação — fator de risco importante

A traqueobronquite infecciosa canina raramente mata — mas causa desconforto significativo ao cão e preocupação ao tutor. A vacinação regular, especialmente em cães com exposição frequente a outros animais, é a melhor estratégia preventiva.

Perguntas frequentes

O que é traqueobronquite infecciosa canina (tosse dos canis)?+

A traqueobronquite infecciosa canina (TIC) é uma síndrome respiratória infecciosa altamente contagiosa que afeta o trato respiratório superior (traqueia e brônquios) de cães. É popularmente conhecida como 'tosse dos canis' porque ocorre frequentemente após cães frequentarem ambientes com muitos outros animais: canis, petshops, exposições, parques de cão, pet hotels, clínicas veterinárias. É causada por múltiplos agentes infecciosos agindo de forma sinérgica: Bordetella bronchiseptica — a bactéria mais importante; Parainfluenzavírus canino (CPI); Adenovírus canino tipo 2 (CAV-2); Vírus da cinomose canina (CDV) — nos casos graves; Mycoplasma spp.; Herpesvírus canino. O período de incubação é de 5-7 dias após o contato. A transmissão é por aerossóis (gotículas respiratórias) e fômites (superfícies contaminadas). A doença é tipicamente autolimitada em cães saudáveis — resolve em 1-3 semanas sem tratamento específico. Cães imunocomprometidos, filhotes e idosos podem desenvolver complicações graves (pneumonia bacteriana).

Qual é a tosse característica da tosse dos canis?+

A tosse da traqueobronquite infecciosa canina é bastante característica — uma vez que o tutor a ouve, dificilmente confunde com outras tosses. Características da tosse: 'seca e áspera' — tosse alta, estridente, que parece 'latido' ou 'guincho'; frequentemente descrita como se o cão estivesse engasgado com algo na garganta; episódios de tosse paroxística — vários acessos seguidos de tosse intensa; frequentemente termina com o cão 'cuspindo' muco branco ou espumoso (reflexo de tosse + secreção traqueal); eliciada pela excitação, exercício, pressão no pescoço (trela), palpação traqueal. Ausência de sinais sistêmicos (caso não complicado): cão está animado, come bem, sem febre; apenas a tosse incomoda. Quando suspeitar de complicação: febre > 39,5°C; letargia intensa, anorexia; tosse produtiva com secreção verde/amarela; dispneia (respiração rápida ou com esforço); esses sinais sugerem pneumonia bacteriana — emergência. Diagnóstico diferencial da tosse: colapso traqueal — tosse crônica em raças toy, pior ao puxar a trela; corpo estranho na faringe — tosse súbita e intensa única; cardiopatia com edema pulmonar — tosse noturna, intolerância ao exercício; IVDD cervical — tosse ao pressionar o pescoço mas acompanhada de dor.

A tosse dos canis precisa de antibiótico?+

Na maioria dos casos, não — a traqueobronquite infecciosa em cão saudável é autolimitada. Sem antibiótico: cão saudável, sem febre, comendo bem, apenas com tosse → pode-se aguardar resolução espontânea em 7-14 dias; repouso, evitar exercício intenso, evitar trela (usar peitoral); evitar ambientes com outros cães durante o período contagioso (2-3 semanas). Com antibiótico: indicado quando: febre > 39,5°C; mais de 10 dias de tosse sem melhora; produção de secreção mucopurulenta; cão imunocomprometido, filhote jovem ou idoso; suspeita de pneumonia bacteriana. Antibióticos de escolha: doxiciclina — 5-10 mg/kg VO 2x/dia — coberttura excelente para Bordetella e Mycoplasma; amoxicilina-clavulanato — 20 mg/kg VO 2x/dia — alternativa de amplo espectro; azitromicina — 5-10 mg/kg VO 1x/dia por 5 dias — boa cobertura para Bordetella. Duração: 7-10 dias para casos não complicados; 3-4 semanas para pneumonia bacteriana. Outros tratamentos sintomáticos: antitussígenos (butorfanol, dextrometorfano) — apenas em tosse seca muito intensa, pois a tosse tem função protetora; nebulização com soro fisiológico — fluidifica secreções; broncodilatadores se broncoespasmo associado.

A vacina contra tosse dos canis protege o cachorro?+

Sim — existe vacinação eficaz contra os principais agentes da traqueobronquite infecciosa. Vacinas disponíveis no Brasil: vacina intranasal (Bordetella bronchiseptica + Parainfluenzavírus) — via intranasal (gotas no nariz); imunidade local (IgA na mucosa traqueal) — mais eficaz que a via sistêmica para proteção da mucosa respiratória; início de proteção em 3-5 dias; revacinação anual. Vacina parenteral (subcutânea ou intramuscular) — inclui Bordetella, Parainfluenzavírus, Adenovírus canino; parte das vacinas polivalentes (V8, V10); menor proteção contra Bordetella que a intranasal isolada; mas protege contra os outros componentes virais. Quando vacinar: idealmente antes de exposição a ambientes de risco (canil, pet hotel, exposição); a vacina intranasal pode ser aplicada 3-5 dias antes da internação; revacinação anual para cães que frequentam ambientes de risco. Proteção: a vacinação não garante 100% de proteção — pode-se adoecer mesmo vacinado; mas a doença em vacinado é geralmente mais leve e de resolução mais rápida. Cuidado: a vacina intranasal contém Bordetella viva atenuada — cão vacinado pode ter tosse leve por 1-5 dias após a aplicação.