Uveíte em Cachorro: Inflamação Ocular — Causas, Diagnóstico e Tratamento
Uveíte é a inflamação da úvea — íris, corpo ciliar e coroide. Causa dor intensa, olho vermelho, hipopion e pode levar a glaucoma secundário e cegueira. Golden Retriever tem uveíte pigmentária específica. Causas sistêmicas são as mais comuns no Brasil.
A uveíte — inflamação do trato uveal do olho — é uma das condições oftalmológicas mais complexas em cães, por duas razões: a dor que causa é intensa e o potencial de causar cegueira permanente é alto. Mas a complexidade maior está no diagnóstico: a uveíte é frequentemente o "sinal ocular" de uma doença sistêmica subjacente — e no Brasil, Leishmaniose e Ehrlichiose estão entre as causas mais importantes.
Tratar a uveíte sem identificar e tratar a causa sistêmica é tratar o sintoma — a inflamação continuará enquanto a doença de base persistir.
Anatomia da Úvea
A úvea é o trato vascular do olho, composto por três estruturas:
Íris: diafragma anterior, controla o diâmetro da pupila (mydriasis = pupila dilatada; miosis = pupila contraída). A uveíte anterior frequentemente causa miosis por espasmo do músculo esfíncter da pupila.
Corpo Ciliar: produz o humor aquoso, controla a acomodação do cristalino. A inflamação do corpo ciliar (ciclite) pode reduzir a produção de humor aquoso, causando hipotensão ocular.
Coroide: camada vascular posterior, nutre a retina. Inflamação da coroide (coroidite) pode comprometer a nutrição retiniana.
Classificação:
- Uveíte anterior: íris + corpo ciliar (iridociclite) — mais comum, mais facilmente visualizável
- Uveíte posterior: coroide + retina (coriorretinite)
- Panuveíte: todas as estruturas uveal
Sinais Clínicos
Sinais de Uveíte Anterior
Blefarospasmo: olho semicerrado por dor — sinal de fotofobia e dor intensa.
Hiperemia: olho vermelho, especialmente na esclera perilimbal (ao redor da córnea) — "injeção ciliar".
Miosis: pupila contraída que não dilata adequadamente em ambiente escuro — espasmo do esfíncter.
Hipopion: nível de células inflamatórias (pus) na câmara anterior — aparece como líquido branco no canto inferior do olho. Sinal de uveíte grave.
Hifema: sangue na câmara anterior — frequente em uveíte associada a trombocitopenia (erliquiose). O olho parece "preenchido de sangue".
Flare aquoso: proteínas na câmara anterior — o humor aquoso perde transparência (visível em lâmpada de fenda como "névoa").
Precipitados ceráticos: depósitos celulares na córnea posterior — visíveis ao exame com lâmpada de fenda.
Pressão intraocular baixa (hiopotonia): redução da produção de humor aquoso pelo corpo ciliar inflamado. Tonometria (Tonovet ou Tono-Pen) mede a pressão — normal 10-20 mmHg; uveíte ativa frequentemente < 10 mmHg.
Sinais de Uveíte Posterior
Alterações de fundo de olho (exame com oftalmoscópio):
- Opacidade vítrea
- Descolamento de retina — emergência
- Hemorragias retinianas
- Granulomas coriorretinianos (leishmaniose, fungos)
Causas
Doenças Infecciosas — As Mais Importantes no Brasil
Leishmaniose Visceral (Leishmania infantum):
- Uma das causas mais comuns de uveíte em cães no Brasil
- Causa uveíte granulomatosa — infiltrado de macrófagos com o parasita
- Associada a outros sinais sistêmicos: emagrecimento, alopecia, onicogrifose
- Diagnóstico: sorologia (RIFI, ELISA), PCR
- Tratamento: miltefosina (alopurinol adjuvante)
Ehrlichia canis (Erliquiose):
- Trombocitopenia grave → hifema (sangue no olho)
- Diagnóstico: hemograma (trombocitopenia), sorologia, PCR
- Tratamento: doxiciclina 10 mg/kg por 28-30 dias
Leptospirose:
- Causa uveíte em fase crônica — pode ser meses após a infecção aguda
- Uveíte leptospiral: tipo recorrente, pode ser grave e bilateral
Brucella canis:
- Uveíte + orquite/epididimite em machos; aborto em fêmeas
- Zoonose — atenção ao manipular sangue e secreções
- Diagnóstico: sorologia (RSAT, 2-ME RSAT), hemoculturas
Toxoplasma gondii:
- Mais comum em gatos, mas pode causar uveíte em cães imunossuprimidos
Fungos sistêmicos:
- Cryptococcus neoformans: granulomas uveal, meningoencefalite
- Aspergillus (raro, geralmente imunossuprimido)
Uveíte Imunomediada
Uveíte Pigmentária do Golden Retriever (GRPU):
Condição específica da raça com base genética. Caracterizada por depósitos de pigmento uveal, bilateral na maioria dos casos, com progressão lenta mas inexorável.
Evolução: depósitos pigmentados → sinéquias (aderências íris-cristalino ou íris-córnea) → catarata → glaucoma secundário → cegueira.
Rastreamento: exame oftalmológico anual em Golden Retrievers adultos.
Uveíte Associada à Catarata:
Catarata hipermadura libera proteínas do cristalino que desencadeiam resposta inflamatória uveal — uveíte induzida por cristalino (LIU). Tratamento: remoção cirúrgica do cristalino (facoemulsificação) + tratamento anti-inflamatório.
Trauma
Trauma ocular contuso ou penetrante causa uveíte imediata. Tratamento: anti-inflamatórios + antibióticos se lesão penetrante.
Neoplasia
Linfoma: pode infiltrar a úvea — uveíte de difícil controle, frequentemente bilateral, associada a outros sinais de neoplasia sistêmica.
Melanoma uveal: tumor pigmentado da íris ou coroide — progressão local, raramente metastático em cães.
Diagnóstico
Exame Oftalmológico
Biomicroscopia com lâmpada de fenda: avaliação detalhada da câmara anterior — flare, precipitados, hipopion, hifema.
Tonometria: pressão intraocular — hiopotonia sugere uveíte ativa; hipertensão sugere glaucoma secundário.
Fundoscopia: avaliação da coroide, retina e vítreo — descolamento, granulomas, hemorragias.
Coloração com fluoresceína: descarta úlcera de córnea associada (muda o tratamento — corticosteroide tópico contraindicado com úlcera).
Investigação da Causa Sistêmica
Hemograma: trombocitopenia (erliquiose, imunomediado), anemia (leishmaniose, doença crônica).
Bioquímica sérica: função hepática, renal — afetada em doenças sistêmicas.
Sorologias: Leishmania (RIFI/ELISA), Ehrlichia (RIFI), Leptospira (MAT), Brucella.
PCR em sangue/urina: mais específico para vários agentes.
Urinálise: proteinúria em leishmaniose, cilindros em leptospirose.
Radiografia de tórax: massas pulmonares (linfoma, fungos).
Ultrassonografia ocular: quando opacidade impede fundoscopia direta — avalia vítreo, descolamento de retina.
Tratamento
Anti-inflamatórios Oculares
Corticosteroide tópico (prednisolona 1%, dexametasona):
- Primeira linha para uveíte anterior sem úlcera de córnea
- 4-6x/dia nas fases agudas; reduzir gradualmente
- NUNCA usar com úlcera de córnea — retarda a cicatrização e facilita infecção bacteriana
AINE tópico (cetorolac, diclofenaco):
- Alternativa quando há úlcera de córnea associada
- Menos potente que corticosteroide
Corticosteroide subconjuntival ou intravítreo:
- Para casos graves refratários ao tratamento tópico
Anti-inflamatório sistêmico:
- Prednisolona oral: 1-2 mg/kg/dia para uveíte grave
- Meloxicam: alternativa menos imunossupressora
Midriáticos
Atropina 1% colírio: 2-3x/dia.
Propósito: dilata a pupila (midriasis), prevenindo sinéquias (aderências íris-cristalino que formam em pupila contraída); reduz o espasmo ciliar e a dor associada.
Duração: usar até a inflamação resolver.
Tratamento da Causa Sistêmica
Obrigatório — sem controlar a causa, a uveíte recidivará ou persistirá:
- Leishmaniose: miltefosina + alopurinol
- Erliquiose: doxiciclina
- Leptospirose: amoxicilina ou doxiciclina (fase crônica)
Monitoramento
Tonometria frequente durante o tratamento — uveíte cronificada pode causar glaucoma secundário pelo fechamento do ângulo de drenagem por inflamação e sinéquias.
Se pressão intraocular > 25 mmHg: iniciar antiglaucomatosos (dorzolamida, timolol) imediatamente.
Complicações
Sinéquias posteriores: aderências entre a íris e a cápsula anterior do cristalino — impedem dilatação pupilar (pupila em formato irregular, fixa).
Catarata: inflamação crônica do cristalino causa opacificação — comum após uveíte prolongada.
Descolamento de retina: especialmente em uveíte posterior — emergência oftalmológica.
Glaucoma secundário: a complicação mais devastadora — o ângulo de drenagem se fecha por inflamação, sinéquias ou rubeosis iridis. Causa hipertensão ocular e dano ao nervo óptico.
Phthisis bulbi: olho atrófico pós-inflamação crônica intensa — perda de função e volume.
Prognóstico
- Uveíte aguda com causa identificada e tratada: bom — pode resolver completamente
- Uveíte crônica ou recorrente: reservado — risco acumulado de sinéquias, catarata e glaucoma
- GRPU do Golden Retriever: reservado para visão a longo prazo — maioria desenvolve glaucoma secundário
- Uveíte por leishmaniose: controlável com tratamento, mas a leishmaniose em si é incurável — recidiva é esperada
O prognóstico melhora significativamente com diagnóstico precoce e tratamento agressivo da causa subjacente.
Perguntas frequentes
O que é uveíte em cachorro?+
Uveíte é a inflamação da úvea — o trato vascular do olho composto por íris (controla o diâmetro da pupila), corpo ciliar (produz humor aquoso e controla o cristalino) e coroide (vasculariza a retina). A úvea é altamente vascularizada e, por isso, responde rapidamente a processos inflamatórios tanto locais quanto sistêmicos. Sinais: olho vermelho (hiperemia), dor (blefarospasmo, fotofobia), pupila pequena (miose) que não dilata bem, hipopion (pus na câmara anterior — nível branco no canto inferior do olho), hifema (sangue na câmara anterior), redução da pressão intraocular (hiopotonia). Sem tratamento, a inflamação crônica causa sinéquias (aderências da íris), catarata, glaucoma secundário e cegueira.
O que causa uveíte em cachorro?+
As causas são diversas — uveíte é frequentemente o 'sinal ocular' de doença sistêmica: Doenças infecciosas (causa mais comum no Brasil): Leishmaniose visceral (muito prevalente no Brasil — causa uveíte granulomatosa), Ehrlichia canis (erliquiose — causa hifema por trombocitopenia), Leptospirose, Brucella canis, Toxoplasmose, fungos sistêmicos (Cryptococcus, Aspergillus). Causas imunomediadas: uveíte pigmentária do Golden Retriever (condição específica); uveíte associada à catarata hipermadura. Trauma. Neoplasia (linfoma ocular, melanoma uveal). Idiopática (sem causa identificada — 30-50% dos casos em algumas séries). No Brasil, sempre investigar Leishmania e Ehrlichia em cão com uveíte.
O que é uveíte pigmentária do Golden Retriever?+
Uveíte Pigmentária do Golden Retriever (GRPU — Golden Retriever Pigmentary Uveitis) é uma condição específica da raça — imunomediada, com componente genético. Caracterizada por depósitos de pigmento (melanina) em diversas estruturas oculares — íris, cápsula do cristalino, corpo vítreo. Frequentemente bilateral. Leva a catarata, sinéquias, glaucoma secundário e cegueira se não tratada. Afeta principalmente Golden Retrievers adultos (5-10 anos). Tratamento: corticosteroide tópico + ciclosporina ou tacrolimus tópicos a longo prazo. Prognóstico é reservado para manutenção da visão — muitos cães desenvolvem glaucoma secundário refratário.
Como tratar uveíte em cachorro?+
Tratamento depende da causa: Causa infecciosa: tratar a doença de base (doxiciclina para erliquiose, miltefosina para leishmaniose) + tratamento anti-inflamatório ocular. Anti-inflamatórios tópicos: corticosteroide tópico (prednisolona 1%, dexametasona) — NÃO usar se houver úlcera de córnea associada (causa deterioração). AINE tópico (cetorolac, diclofenaco): alternativa quando úlcera presente. Atropina 1% colírio: dilata a pupila (midríase), previne sinéquias e reduz dor. Anti-inflamatórios sistêmicos: meloxicam ou prednisolona oral em casos graves. Tratamento da causa imunomediada: ciclosporina tópica, tacrolimus. Monitoramento da pressão intraocular: uveíte pode causar glaucoma secundário — tonometria periódica obrigatória.
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