Saúde

Uveíte em Cachorro: Inflamação Ocular — Causas, Diagnóstico e Tratamento

Uveíte é a inflamação da úvea — íris, corpo ciliar e coroide. Causa dor intensa, olho vermelho, hipopion e pode levar a glaucoma secundário e cegueira. Golden Retriever tem uveíte pigmentária específica. Causas sistêmicas são as mais comuns no Brasil.

27 de maio de 2026·6 min de leitura

A uveíte — inflamação do trato uveal do olho — é uma das condições oftalmológicas mais complexas em cães, por duas razões: a dor que causa é intensa e o potencial de causar cegueira permanente é alto. Mas a complexidade maior está no diagnóstico: a uveíte é frequentemente o "sinal ocular" de uma doença sistêmica subjacente — e no Brasil, Leishmaniose e Ehrlichiose estão entre as causas mais importantes.

Tratar a uveíte sem identificar e tratar a causa sistêmica é tratar o sintoma — a inflamação continuará enquanto a doença de base persistir.

Anatomia da Úvea

A úvea é o trato vascular do olho, composto por três estruturas:

Íris: diafragma anterior, controla o diâmetro da pupila (mydriasis = pupila dilatada; miosis = pupila contraída). A uveíte anterior frequentemente causa miosis por espasmo do músculo esfíncter da pupila.

Corpo Ciliar: produz o humor aquoso, controla a acomodação do cristalino. A inflamação do corpo ciliar (ciclite) pode reduzir a produção de humor aquoso, causando hipotensão ocular.

Coroide: camada vascular posterior, nutre a retina. Inflamação da coroide (coroidite) pode comprometer a nutrição retiniana.

Classificação:

  • Uveíte anterior: íris + corpo ciliar (iridociclite) — mais comum, mais facilmente visualizável
  • Uveíte posterior: coroide + retina (coriorretinite)
  • Panuveíte: todas as estruturas uveal

Sinais Clínicos

Sinais de Uveíte Anterior

Blefarospasmo: olho semicerrado por dor — sinal de fotofobia e dor intensa.

Hiperemia: olho vermelho, especialmente na esclera perilimbal (ao redor da córnea) — "injeção ciliar".

Miosis: pupila contraída que não dilata adequadamente em ambiente escuro — espasmo do esfíncter.

Hipopion: nível de células inflamatórias (pus) na câmara anterior — aparece como líquido branco no canto inferior do olho. Sinal de uveíte grave.

Hifema: sangue na câmara anterior — frequente em uveíte associada a trombocitopenia (erliquiose). O olho parece "preenchido de sangue".

Flare aquoso: proteínas na câmara anterior — o humor aquoso perde transparência (visível em lâmpada de fenda como "névoa").

Precipitados ceráticos: depósitos celulares na córnea posterior — visíveis ao exame com lâmpada de fenda.

Pressão intraocular baixa (hiopotonia): redução da produção de humor aquoso pelo corpo ciliar inflamado. Tonometria (Tonovet ou Tono-Pen) mede a pressão — normal 10-20 mmHg; uveíte ativa frequentemente < 10 mmHg.

Sinais de Uveíte Posterior

Alterações de fundo de olho (exame com oftalmoscópio):

  • Opacidade vítrea
  • Descolamento de retina — emergência
  • Hemorragias retinianas
  • Granulomas coriorretinianos (leishmaniose, fungos)

Causas

Doenças Infecciosas — As Mais Importantes no Brasil

Leishmaniose Visceral (Leishmania infantum):

  • Uma das causas mais comuns de uveíte em cães no Brasil
  • Causa uveíte granulomatosa — infiltrado de macrófagos com o parasita
  • Associada a outros sinais sistêmicos: emagrecimento, alopecia, onicogrifose
  • Diagnóstico: sorologia (RIFI, ELISA), PCR
  • Tratamento: miltefosina (alopurinol adjuvante)

Ehrlichia canis (Erliquiose):

  • Trombocitopenia grave → hifema (sangue no olho)
  • Diagnóstico: hemograma (trombocitopenia), sorologia, PCR
  • Tratamento: doxiciclina 10 mg/kg por 28-30 dias

Leptospirose:

  • Causa uveíte em fase crônica — pode ser meses após a infecção aguda
  • Uveíte leptospiral: tipo recorrente, pode ser grave e bilateral

Brucella canis:

  • Uveíte + orquite/epididimite em machos; aborto em fêmeas
  • Zoonose — atenção ao manipular sangue e secreções
  • Diagnóstico: sorologia (RSAT, 2-ME RSAT), hemoculturas

Toxoplasma gondii:

  • Mais comum em gatos, mas pode causar uveíte em cães imunossuprimidos

Fungos sistêmicos:

  • Cryptococcus neoformans: granulomas uveal, meningoencefalite
  • Aspergillus (raro, geralmente imunossuprimido)

Uveíte Imunomediada

Uveíte Pigmentária do Golden Retriever (GRPU):

Condição específica da raça com base genética. Caracterizada por depósitos de pigmento uveal, bilateral na maioria dos casos, com progressão lenta mas inexorável.

Evolução: depósitos pigmentados → sinéquias (aderências íris-cristalino ou íris-córnea) → catarata → glaucoma secundário → cegueira.

Rastreamento: exame oftalmológico anual em Golden Retrievers adultos.

Uveíte Associada à Catarata:

Catarata hipermadura libera proteínas do cristalino que desencadeiam resposta inflamatória uveal — uveíte induzida por cristalino (LIU). Tratamento: remoção cirúrgica do cristalino (facoemulsificação) + tratamento anti-inflamatório.

Trauma

Trauma ocular contuso ou penetrante causa uveíte imediata. Tratamento: anti-inflamatórios + antibióticos se lesão penetrante.

Neoplasia

Linfoma: pode infiltrar a úvea — uveíte de difícil controle, frequentemente bilateral, associada a outros sinais de neoplasia sistêmica.

Melanoma uveal: tumor pigmentado da íris ou coroide — progressão local, raramente metastático em cães.

Diagnóstico

Exame Oftalmológico

Biomicroscopia com lâmpada de fenda: avaliação detalhada da câmara anterior — flare, precipitados, hipopion, hifema.

Tonometria: pressão intraocular — hiopotonia sugere uveíte ativa; hipertensão sugere glaucoma secundário.

Fundoscopia: avaliação da coroide, retina e vítreo — descolamento, granulomas, hemorragias.

Coloração com fluoresceína: descarta úlcera de córnea associada (muda o tratamento — corticosteroide tópico contraindicado com úlcera).

Investigação da Causa Sistêmica

Hemograma: trombocitopenia (erliquiose, imunomediado), anemia (leishmaniose, doença crônica).

Bioquímica sérica: função hepática, renal — afetada em doenças sistêmicas.

Sorologias: Leishmania (RIFI/ELISA), Ehrlichia (RIFI), Leptospira (MAT), Brucella.

PCR em sangue/urina: mais específico para vários agentes.

Urinálise: proteinúria em leishmaniose, cilindros em leptospirose.

Radiografia de tórax: massas pulmonares (linfoma, fungos).

Ultrassonografia ocular: quando opacidade impede fundoscopia direta — avalia vítreo, descolamento de retina.

Tratamento

Anti-inflamatórios Oculares

Corticosteroide tópico (prednisolona 1%, dexametasona):

  • Primeira linha para uveíte anterior sem úlcera de córnea
  • 4-6x/dia nas fases agudas; reduzir gradualmente
  • NUNCA usar com úlcera de córnea — retarda a cicatrização e facilita infecção bacteriana

AINE tópico (cetorolac, diclofenaco):

  • Alternativa quando há úlcera de córnea associada
  • Menos potente que corticosteroide

Corticosteroide subconjuntival ou intravítreo:

  • Para casos graves refratários ao tratamento tópico

Anti-inflamatório sistêmico:

  • Prednisolona oral: 1-2 mg/kg/dia para uveíte grave
  • Meloxicam: alternativa menos imunossupressora

Midriáticos

Atropina 1% colírio: 2-3x/dia.

Propósito: dilata a pupila (midriasis), prevenindo sinéquias (aderências íris-cristalino que formam em pupila contraída); reduz o espasmo ciliar e a dor associada.

Duração: usar até a inflamação resolver.

Tratamento da Causa Sistêmica

Obrigatório — sem controlar a causa, a uveíte recidivará ou persistirá:

  • Leishmaniose: miltefosina + alopurinol
  • Erliquiose: doxiciclina
  • Leptospirose: amoxicilina ou doxiciclina (fase crônica)

Monitoramento

Tonometria frequente durante o tratamento — uveíte cronificada pode causar glaucoma secundário pelo fechamento do ângulo de drenagem por inflamação e sinéquias.

Se pressão intraocular > 25 mmHg: iniciar antiglaucomatosos (dorzolamida, timolol) imediatamente.

Complicações

Sinéquias posteriores: aderências entre a íris e a cápsula anterior do cristalino — impedem dilatação pupilar (pupila em formato irregular, fixa).

Catarata: inflamação crônica do cristalino causa opacificação — comum após uveíte prolongada.

Descolamento de retina: especialmente em uveíte posterior — emergência oftalmológica.

Glaucoma secundário: a complicação mais devastadora — o ângulo de drenagem se fecha por inflamação, sinéquias ou rubeosis iridis. Causa hipertensão ocular e dano ao nervo óptico.

Phthisis bulbi: olho atrófico pós-inflamação crônica intensa — perda de função e volume.

Prognóstico

  • Uveíte aguda com causa identificada e tratada: bom — pode resolver completamente
  • Uveíte crônica ou recorrente: reservado — risco acumulado de sinéquias, catarata e glaucoma
  • GRPU do Golden Retriever: reservado para visão a longo prazo — maioria desenvolve glaucoma secundário
  • Uveíte por leishmaniose: controlável com tratamento, mas a leishmaniose em si é incurável — recidiva é esperada

O prognóstico melhora significativamente com diagnóstico precoce e tratamento agressivo da causa subjacente.

Perguntas frequentes

O que é uveíte em cachorro?+

Uveíte é a inflamação da úvea — o trato vascular do olho composto por íris (controla o diâmetro da pupila), corpo ciliar (produz humor aquoso e controla o cristalino) e coroide (vasculariza a retina). A úvea é altamente vascularizada e, por isso, responde rapidamente a processos inflamatórios tanto locais quanto sistêmicos. Sinais: olho vermelho (hiperemia), dor (blefarospasmo, fotofobia), pupila pequena (miose) que não dilata bem, hipopion (pus na câmara anterior — nível branco no canto inferior do olho), hifema (sangue na câmara anterior), redução da pressão intraocular (hiopotonia). Sem tratamento, a inflamação crônica causa sinéquias (aderências da íris), catarata, glaucoma secundário e cegueira.

O que causa uveíte em cachorro?+

As causas são diversas — uveíte é frequentemente o 'sinal ocular' de doença sistêmica: Doenças infecciosas (causa mais comum no Brasil): Leishmaniose visceral (muito prevalente no Brasil — causa uveíte granulomatosa), Ehrlichia canis (erliquiose — causa hifema por trombocitopenia), Leptospirose, Brucella canis, Toxoplasmose, fungos sistêmicos (Cryptococcus, Aspergillus). Causas imunomediadas: uveíte pigmentária do Golden Retriever (condição específica); uveíte associada à catarata hipermadura. Trauma. Neoplasia (linfoma ocular, melanoma uveal). Idiopática (sem causa identificada — 30-50% dos casos em algumas séries). No Brasil, sempre investigar Leishmania e Ehrlichia em cão com uveíte.

O que é uveíte pigmentária do Golden Retriever?+

Uveíte Pigmentária do Golden Retriever (GRPU — Golden Retriever Pigmentary Uveitis) é uma condição específica da raça — imunomediada, com componente genético. Caracterizada por depósitos de pigmento (melanina) em diversas estruturas oculares — íris, cápsula do cristalino, corpo vítreo. Frequentemente bilateral. Leva a catarata, sinéquias, glaucoma secundário e cegueira se não tratada. Afeta principalmente Golden Retrievers adultos (5-10 anos). Tratamento: corticosteroide tópico + ciclosporina ou tacrolimus tópicos a longo prazo. Prognóstico é reservado para manutenção da visão — muitos cães desenvolvem glaucoma secundário refratário.

Como tratar uveíte em cachorro?+

Tratamento depende da causa: Causa infecciosa: tratar a doença de base (doxiciclina para erliquiose, miltefosina para leishmaniose) + tratamento anti-inflamatório ocular. Anti-inflamatórios tópicos: corticosteroide tópico (prednisolona 1%, dexametasona) — NÃO usar se houver úlcera de córnea associada (causa deterioração). AINE tópico (cetorolac, diclofenaco): alternativa quando úlcera presente. Atropina 1% colírio: dilata a pupila (midríase), previne sinéquias e reduz dor. Anti-inflamatórios sistêmicos: meloxicam ou prednisolona oral em casos graves. Tratamento da causa imunomediada: ciclosporina tópica, tacrolimus. Monitoramento da pressão intraocular: uveíte pode causar glaucoma secundário — tonometria periódica obrigatória.