Saúde

Trombocitopenia Imunomediada (IMTP) em Cachorro: Plaquetas Baixas por Autoimunidade

A Trombocitopenia Imunomediada (IMTP) é a causa mais comum de plaquetas baixas em cães — anticorpos destroem as plaquetas. Petéquias, equimoses e hemorragias são os sinais. Cocker Spaniel e Poodle têm predisposição. Imunossupressão com prednisolona é o tratamento inicial.

27 de maio de 2026·7 min de leitura

A Trombocitopenia Imunomediada é uma das doenças imunomediadas mais frequentes em cães — e uma das que mais surpreende o tutor, porque o cão que "estava bem ontem" é trazido à clínica com manchas vermelhas nas gengivas e nas orelhas, sangramento espontâneo e plaquetas em 8.000/μL (quando o normal é 300.000+).

A apresentação dramática contrasta com o prognóstico — a maioria dos cães responde bem ao imunossupressor, e a remissão completa é alcançada em semanas. O desafio são os casos refratários e a prevenção de hemorragias fatais durante a fase inicial, antes do tratamento fazer efeito.

Plaquetas e Hemostasia Primária

As plaquetas são fragmentos celulares derivados dos megacariócitos da medula óssea. Sua função principal é a hemostasia primária:

  1. Quando um vaso sanguíneo é lesado, o subendotélio exposto captura plaquetas circulantes via fator de von Willebrand
  2. Plaquetas ativadas liberam grânulos que recrudam mais plaquetas (ativação em cascata)
  3. Forma-se o tampão plaquetário — obstrui o vaso lesado transitoriamente
  4. O sistema de coagulação (fatores plasmáticos) então forma o coágulo de fibrina permanente sobre o tampão

Sem plaquetas em número adequado: o tampão não se forma → sangramentos espontâneos em locais de microtraumas vasculares fisiológicos → petéquias, equimoses, hemorragias mucosas.

Plaquetopenia grave (< 20.000-30.000/μL): risco de hemorragia espontânea intracraniana — emergência com risco de morte.

Mecanismo da IMTP

IMTP Primária (Idiopática)

Autoanticorpos IgG se ligam a antígenos na superfície das plaquetas (glicoproteínas IIb/IIIa, Ib — os mesmos que se ligam ao fator von Willebrand e ao fibrinogênio).

Plaquetas revestidas por IgG são reconhecidas pelos receptores Fc dos macrófagos do baço e do fígado (sistema reticuloendotelial) → fagocitose → destruição.

Simultaneamente, os megacariócitos na medula óssea também podem ser alvos dos autoanticorpos → produção comprometida.

Por que o sistema imune ataca as próprias plaquetas? Não completamente elucidado. Fatores genéticos (predisposição de raça), gatilhos infecciosos prévios (mimetismo molecular) e alterações na regulação dos linfócitos T regulatórios são hipóteses estudadas.

IMTP Secundária

A autoimunidade contra plaquetas é desencadeada por uma condição subjacente:

Doenças infecciosas:

  • Ehrlichia canis — plaquetopenia é o achado mais consistente da erliquiose; pode ser por destruição imunomediada ou supressão da medula
  • Leishmania — trombocitopenia imunomediada em leishmaniose crônica
  • Anaplasma platys — plaquetopenia cíclica específica
  • Babesia — destruição plaquetária direta + imunomediada

Doenças imunomediadas sistêmicas:

  • LES (Lúpus Eritematoso Sistêmico) — a IMTP pode ser uma das manifestações do LES

Neoplasias:

  • Linfoma, leucemia, mastocitoma — paraneoplásico

Fármacos:

  • Sulfonamidas, cefalosporinas, fenobarbital, carprofen — raramente

Raças Predispostas

  • Cocker Spaniel Inglês e Americano — risco marcadamente aumentado
  • Poodle (todas as variedades)
  • Golden Retriever
  • Dobermann
  • Schnauzer Miniatura
  • German Shepherd

Fêmeas são mais afetadas que machos (padrão similar ao de outras doenças autoimunes).

Sinais Clínicos

Hemorragias Tipo Plaquetário

Petéquias (< 3 mm): pontos vermelhos puntiformes em:

  • Gengiva e mucosa oral
  • Conjuntiva (parte branca do olho)
  • Vulva e prepúcio
  • Pele (especialmente abdome com pelo escasso)
  • Pavilhão auricular (inside da orelha)
  • Esclerótica (sinal "dentro do olho")

Equimoses (> 3 mm): manchas roxas irregulares nas mucosas e pele.

Hematomas subcutâneos: em sítios de punção venosa ou trauma leve.

Hemorragias Externas

  • Epistaxe (sangramento nasal) espontânea
  • Hemorragia gengival ao comer
  • Hematúria
  • Melena ou hematoquesia

Hemorragias Internas — As Mais Perigosas

  • Hemorragia intracraniana: convulsões agudas, déficits neurológicos, alteração de consciência → emergência
  • Hemorragia retroperitoneal: dor abdominal, queda de hematócrito sem sangramento externo
  • Hemotórax: dispneia, abolição de sons pulmonares

Estado Geral

O cão com IMTP primária frequentemente está alerta e aparentemente bem (sem febre, sem letargia grave) exceto pelos sinais hemorrágicos. Isso surpreende os tutores.

IMTP secundária: os sinais da doença de base (febre, letargia, linfadenopatia) se somam.

Diagnóstico

Hemograma

Plaquetopenia severa — o achado central.

| Contagem de plaquetas | Risco hemorrágico | |---|---| | 50.000-150.000/μL | Risco leve | | 20.000-50.000/μL | Risco moderado | | < 20.000/μL | Risco alto de hemorragia espontânea | | < 10.000/μL | Risco crítico — emergência |

Macroplaquetas (plaquetas grandes): presença de macroplaquetas indica produção medular compensatória ativa — sinal de que a medula está respondendo à destruição periférica.

Anemia: eventual (por hemorragia crônica ou associação com AHIM — Anemia Hemolítica Imunomediada; "síndrome de Evans").

Esfregaço de Sangue Periférico

Confirma a plaquetopenia e exclui pseudoplaquetopenia (agregação em EDTA) e microorganismos (Ehrlichia, Anaplasma — corpúsculos de inclusão nos leucócitos ou plaquetas).

Coagulograma

TP e TTPA normais na IMTP pura — diferencia de CIVD (onde TP e TTPA estão prolongados).

Investigação de Causa Secundária

Painel completo em todo caso de IMTP:

  • Ehrlichia/Anaplasma: sorologia SNAP 4Dx ou PCR
  • Leishmania: sorologia (RIFI ou ELISA) + PCR
  • Babesia: esfregaço e sorologia
  • ANA: triagem para LES
  • Ultrassonografia abdominal + radiografia torácica: pesquisa de neoplasia

Mielograma (Aspirado de Medula Óssea)

Quando indicado:

  • Resposta inadequada ao tratamento
  • Pancitopenia (todas as linhagens hematológicas comprometidas)
  • Suspeita de neoplasia ou aplasia medular

Padrão de IMTP: megacariócitos aumentados (hiperplasia megacariocítica reativa — a medula tenta compensar a destruição periférica).

Padrão de aplasia/hipoplasia: megacariócitos reduzidos ou ausentes → falha de produção, não destruição periférica → diagnóstico e tratamento diferentes.

Tratamento

Suporte Inicial

Repouso absoluto: minimizar traumas físicos e manipulações durante a fase de plaquetopenia grave.

Evitar injeções intramusculares: risco de hematoma intramuscular grande.

NÃO dar AINEs (anti-inflamatórios não esteroidais), AAS, ou anticoagulantes — interferem com a função plaquetária residual.

Acesso venoso: cateter IV para medicações — veia cefálica com pressão de 5-10 minutos após punção.

Prednisolona — Primeira Linha

Dose imunossupressora: 1-2 mg/kg/dia VO.

Mecanismo:

  • Reduz a produção de autoanticorpos pelos linfócitos B
  • Inibe a função dos macrófagos esplênicos (reduz a fagocitose de plaquetas opsonizadas)
  • Aumenta a expressão de receptores Fc inibitórios

Resposta esperada: plaquetas começam a subir em 5-7 dias; alvo de remissão (> 100.000/μL): 2-3 semanas.

Redução gradual: após remissão (plaquetas normais por 4-6 semanas), reduzir em 25% a cada 4-6 semanas. Total: 3-4 meses de tratamento em remissão da primeira recidiva.

Recidiva: muito frequente — 40-60% dos cães recidivam ao tentar reduzir ou suspender a prednisolona. Recidiva não indica prognóstico grave — reintrodução da dose imunossupressora geralmente resolve.

Azatioprina — Segunda Linha / Poupador de Esteroide

Dose: 1,5-2 mg/kg/dia VO.

Indicação: resposta insuficiente à prednisolona isolada, ou para reduzir a dose de corticoide nos cães com efeitos colaterais intensos.

Latência: 4-6 semanas para efeito máximo.

Monitoramento: hemograma quinzenal inicial — pode causar mielossupressão.

Imunoglobulina Humana IV (IVIG)

Indicação: casos graves com hemorragia ativa ou plaquetas < 10.000/μL, quando resposta rápida é necessária enquanto o imunossupressor não faz efeito.

Dose: 0,5-1 g/kg IV em infusão lenta (4-6 horas).

Mecanismo: satura receptores Fc nos macrófagos esplênicos → plaquetas opsonizadas não são destruídas.

Resposta: aumento de plaquetas em 24-72 horas — temporário (5-7 dias), serve como ponte para o imunossupressor.

Custo: elevado (produto humano usado em veterinária "off-label").

Ciclosporina

Dose: 5-10 mg/kg/dia VO.

Alternativa ou adjuvante à azatioprina — útil em casos corticodependentes.

Vincristina em Baixa Dose

Estimula a produção e liberação de plaquetas pelos megacariócitos — efeito em 5-7 dias.

Dose baixa (diferente da dose quimioterápica): 0,01 mg/kg IV 1x/semana.

Adjuvante em casos com resposta lenta.

Esplenectomia

Para IMTP refratária (sem remissão após 2+ imunossupressores) ou corticodependência severa:

O baço é o principal órgão de destruição das plaquetas opsonizadas e o principal produtor de autoanticorpos. A esplenectomia remove ambas as funções.

Taxa de resposta: 60-70% de melhora significativa.

Prognóstico

IMTP primária com resposta à prednisolona: bom — cura com tratamento em muitos casos; alguns animais precisam de manutenção de baixa dose por longo prazo.

IMTP com complicação de hemorragia intracraniana: prognóstico reservado a grave.

IMTP refratária (sem resposta após múltiplos imunossupressores): reservado.

IMTP secundária: depende da doença de base — ehrlichiose tratada geralmente resolve a plaquetopenia; leishmaniose com comprometimento renal grave tem prognóstico menos favorável.

Monitoramento com hemograma seriado é fundamental durante o tratamento e nos meses seguintes — detectar recidiva precocemente antes do número de plaquetas cair a níveis críticos.

Perguntas frequentes

O que é trombocitopenia imunomediada em cachorro?+

Trombocitopenia Imunomediada Primária (IMTP) — também chamada PTI (Púrpura Trombocitopênica Idiopática) ou ITP (Immune Thrombocytopenia) — é a destruição das plaquetas mediada por autoanticorpos. O sistema imune produz anticorpos IgG que se ligam à superfície das plaquetas (e/ou megacariócitos, as células que produzem plaquetas na medula óssea), marcando-as para destruição pelo baço e pelo fígado. O resultado é queda acentuada do número de plaquetas (plaquetopenia severa — frequentemente < 20.000/μL, normal 200.000-500.000/μL). Com plaquetas baixas, a hemostasia primária (formação do tampão plaquetário) fica comprometida → hemorragias. A IMTP primária é idiopática (sem causa identificável); a secundária ocorre em associação a outras doenças (leishmaniose, ehrlichia, lupus, neoplasias) que desencadeiam a autoimunidade.

Quais são os sinais de trombocitopenia imunomediada em cachorro?+

Os sinais refletem a falha na hemostasia primária (plaquetária) — hemorragias espontâneas em locais que dependem de plaquetas para parar: Petéquias (pontos vermelhos minúsculos, 1-3 mm) e equimoses (manchas roxas maiores) na pele, nas mucosas (gengiva, conjuntiva, vulva) e na esclerótica ocular — o sinal mais característico e fácil de identificar. Epistaxe (sangramento nasal espontâneo). Hifema (sangue no olho — câmara anterior). Melena (fezes enegrecidas por sangue digerido) ou hematoquesia (sangue vivo nas fezes). Hematúria (sangue na urina). Hemorragia vaginal fora do cio. Em casos graves: hemorragia intracraniana (emergência), hemorragia pulmonar, hemorragia retroperitoneal. Importante: o cão com IMTP isolada frequentemente está alerta e bem até as petéquias ou o sangramento serem percebidos pelo tutor — não é sempre que o cão parece 'doente'.

Como diagnosticar trombocitopenia imunomediada em cachorro?+

Hemograma: plaquetopenia severa (< 50.000-30.000/μL — frequentemente < 20.000/μL na IMTP grave). Morfologia das plaquetas: plaquetas grandes (macroplaquetas) indicam produção medular compensatória ativa — sinal positivo de que a medula está respondendo. Esfregaço de sangue periférico (manual): confirma a plaquetopenia e exclui pseudoplaquetopenia por agregação in vitro. Mielograma (aspirado de medula óssea): número de megacariócitos aumentado (produção ativa com destruição periférica — padrão de IMTP) vs. reduzido (falha de produção = aplasia). O mielograma não é obrigatório em todos os casos mas é importante para distinguir IMTP de aplasia de medula. Investigação de causas secundárias (IMTP secundária): sorologia/PCR para Ehrlichia, Leishmania, Anaplasma; ANA (anticorpos antinucleares — LES); pesquisa de neoplasia (ultrassonografia abdominal, radiografia torácica); medicamentos que podem causar plaquetopenia. Tempo de coagulação (TP, TTPA): normais na IMTP pura (apenas plaquetas comprometidas, não os fatores de coagulação) — diferenciam de CIVD.

Como tratar trombocitopenia imunomediada em cachorro?+

Tratamento imunossupressor é a base. Prednisolona: 1-2 mg/kg/dia VO (dose imunossupressora) — reduz a destruição de plaquetas pelo baço e inibe a produção de autoanticorpos; resposta em 5-14 dias; plaquetas geralmente sobem para > 100.000/μL em 2-3 semanas. Após remissão: redução gradual ao longo de 3-4 meses para encontrar a dose mínima eficaz. Azatioprina: 1,5-2 mg/kg/dia — adicionada se resposta lenta ou incompleta à prednisolona, ou para reduzir a dose de corticoide; efeito com latência de 4-6 semanas. Ciclosporina: 5-10 mg/kg/dia VO — alternativa ou adjuvante. Imunoglobulina humana IV (IVIG): 0,5-1 g/kg IV — resposta rápida (24-72h), mecanismo: satura os receptores Fc no baço, impedindo a destruição das plaquetas marcadas com anticorpo; custo alto, uso em casos graves com hemorragia ativa ou plaquetas < 10.000/μL. Transfusão de plaquetas: raramente disponível; sem duração (plaquetas transfundidas são destruídas em horas pela IMTP ativa); reservada para hemorragia com risco de morte enquanto o imunossupressor não fez efeito. Esplenectomia: para IMTP refratária ou corticodependente — o baço é o principal órgão de destruição das plaquetas; disponível como terceira linha.