Trombocitopenia Imunomediada (IMTP) em Cachorro: Plaquetas Baixas por Autoimunidade
A Trombocitopenia Imunomediada (IMTP) é a causa mais comum de plaquetas baixas em cães — anticorpos destroem as plaquetas. Petéquias, equimoses e hemorragias são os sinais. Cocker Spaniel e Poodle têm predisposição. Imunossupressão com prednisolona é o tratamento inicial.
A Trombocitopenia Imunomediada é uma das doenças imunomediadas mais frequentes em cães — e uma das que mais surpreende o tutor, porque o cão que "estava bem ontem" é trazido à clínica com manchas vermelhas nas gengivas e nas orelhas, sangramento espontâneo e plaquetas em 8.000/μL (quando o normal é 300.000+).
A apresentação dramática contrasta com o prognóstico — a maioria dos cães responde bem ao imunossupressor, e a remissão completa é alcançada em semanas. O desafio são os casos refratários e a prevenção de hemorragias fatais durante a fase inicial, antes do tratamento fazer efeito.
Plaquetas e Hemostasia Primária
As plaquetas são fragmentos celulares derivados dos megacariócitos da medula óssea. Sua função principal é a hemostasia primária:
- Quando um vaso sanguíneo é lesado, o subendotélio exposto captura plaquetas circulantes via fator de von Willebrand
- Plaquetas ativadas liberam grânulos que recrudam mais plaquetas (ativação em cascata)
- Forma-se o tampão plaquetário — obstrui o vaso lesado transitoriamente
- O sistema de coagulação (fatores plasmáticos) então forma o coágulo de fibrina permanente sobre o tampão
Sem plaquetas em número adequado: o tampão não se forma → sangramentos espontâneos em locais de microtraumas vasculares fisiológicos → petéquias, equimoses, hemorragias mucosas.
Plaquetopenia grave (< 20.000-30.000/μL): risco de hemorragia espontânea intracraniana — emergência com risco de morte.
Mecanismo da IMTP
IMTP Primária (Idiopática)
Autoanticorpos IgG se ligam a antígenos na superfície das plaquetas (glicoproteínas IIb/IIIa, Ib — os mesmos que se ligam ao fator von Willebrand e ao fibrinogênio).
Plaquetas revestidas por IgG são reconhecidas pelos receptores Fc dos macrófagos do baço e do fígado (sistema reticuloendotelial) → fagocitose → destruição.
Simultaneamente, os megacariócitos na medula óssea também podem ser alvos dos autoanticorpos → produção comprometida.
Por que o sistema imune ataca as próprias plaquetas? Não completamente elucidado. Fatores genéticos (predisposição de raça), gatilhos infecciosos prévios (mimetismo molecular) e alterações na regulação dos linfócitos T regulatórios são hipóteses estudadas.
IMTP Secundária
A autoimunidade contra plaquetas é desencadeada por uma condição subjacente:
Doenças infecciosas:
- Ehrlichia canis — plaquetopenia é o achado mais consistente da erliquiose; pode ser por destruição imunomediada ou supressão da medula
- Leishmania — trombocitopenia imunomediada em leishmaniose crônica
- Anaplasma platys — plaquetopenia cíclica específica
- Babesia — destruição plaquetária direta + imunomediada
Doenças imunomediadas sistêmicas:
- LES (Lúpus Eritematoso Sistêmico) — a IMTP pode ser uma das manifestações do LES
Neoplasias:
- Linfoma, leucemia, mastocitoma — paraneoplásico
Fármacos:
- Sulfonamidas, cefalosporinas, fenobarbital, carprofen — raramente
Raças Predispostas
- Cocker Spaniel Inglês e Americano — risco marcadamente aumentado
- Poodle (todas as variedades)
- Golden Retriever
- Dobermann
- Schnauzer Miniatura
- German Shepherd
Fêmeas são mais afetadas que machos (padrão similar ao de outras doenças autoimunes).
Sinais Clínicos
Hemorragias Tipo Plaquetário
Petéquias (< 3 mm): pontos vermelhos puntiformes em:
- Gengiva e mucosa oral
- Conjuntiva (parte branca do olho)
- Vulva e prepúcio
- Pele (especialmente abdome com pelo escasso)
- Pavilhão auricular (inside da orelha)
- Esclerótica (sinal "dentro do olho")
Equimoses (> 3 mm): manchas roxas irregulares nas mucosas e pele.
Hematomas subcutâneos: em sítios de punção venosa ou trauma leve.
Hemorragias Externas
- Epistaxe (sangramento nasal) espontânea
- Hemorragia gengival ao comer
- Hematúria
- Melena ou hematoquesia
Hemorragias Internas — As Mais Perigosas
- Hemorragia intracraniana: convulsões agudas, déficits neurológicos, alteração de consciência → emergência
- Hemorragia retroperitoneal: dor abdominal, queda de hematócrito sem sangramento externo
- Hemotórax: dispneia, abolição de sons pulmonares
Estado Geral
O cão com IMTP primária frequentemente está alerta e aparentemente bem (sem febre, sem letargia grave) exceto pelos sinais hemorrágicos. Isso surpreende os tutores.
IMTP secundária: os sinais da doença de base (febre, letargia, linfadenopatia) se somam.
Diagnóstico
Hemograma
Plaquetopenia severa — o achado central.
| Contagem de plaquetas | Risco hemorrágico | |---|---| | 50.000-150.000/μL | Risco leve | | 20.000-50.000/μL | Risco moderado | | < 20.000/μL | Risco alto de hemorragia espontânea | | < 10.000/μL | Risco crítico — emergência |
Macroplaquetas (plaquetas grandes): presença de macroplaquetas indica produção medular compensatória ativa — sinal de que a medula está respondendo à destruição periférica.
Anemia: eventual (por hemorragia crônica ou associação com AHIM — Anemia Hemolítica Imunomediada; "síndrome de Evans").
Esfregaço de Sangue Periférico
Confirma a plaquetopenia e exclui pseudoplaquetopenia (agregação em EDTA) e microorganismos (Ehrlichia, Anaplasma — corpúsculos de inclusão nos leucócitos ou plaquetas).
Coagulograma
TP e TTPA normais na IMTP pura — diferencia de CIVD (onde TP e TTPA estão prolongados).
Investigação de Causa Secundária
Painel completo em todo caso de IMTP:
- Ehrlichia/Anaplasma: sorologia SNAP 4Dx ou PCR
- Leishmania: sorologia (RIFI ou ELISA) + PCR
- Babesia: esfregaço e sorologia
- ANA: triagem para LES
- Ultrassonografia abdominal + radiografia torácica: pesquisa de neoplasia
Mielograma (Aspirado de Medula Óssea)
Quando indicado:
- Resposta inadequada ao tratamento
- Pancitopenia (todas as linhagens hematológicas comprometidas)
- Suspeita de neoplasia ou aplasia medular
Padrão de IMTP: megacariócitos aumentados (hiperplasia megacariocítica reativa — a medula tenta compensar a destruição periférica).
Padrão de aplasia/hipoplasia: megacariócitos reduzidos ou ausentes → falha de produção, não destruição periférica → diagnóstico e tratamento diferentes.
Tratamento
Suporte Inicial
Repouso absoluto: minimizar traumas físicos e manipulações durante a fase de plaquetopenia grave.
Evitar injeções intramusculares: risco de hematoma intramuscular grande.
NÃO dar AINEs (anti-inflamatórios não esteroidais), AAS, ou anticoagulantes — interferem com a função plaquetária residual.
Acesso venoso: cateter IV para medicações — veia cefálica com pressão de 5-10 minutos após punção.
Prednisolona — Primeira Linha
Dose imunossupressora: 1-2 mg/kg/dia VO.
Mecanismo:
- Reduz a produção de autoanticorpos pelos linfócitos B
- Inibe a função dos macrófagos esplênicos (reduz a fagocitose de plaquetas opsonizadas)
- Aumenta a expressão de receptores Fc inibitórios
Resposta esperada: plaquetas começam a subir em 5-7 dias; alvo de remissão (> 100.000/μL): 2-3 semanas.
Redução gradual: após remissão (plaquetas normais por 4-6 semanas), reduzir em 25% a cada 4-6 semanas. Total: 3-4 meses de tratamento em remissão da primeira recidiva.
Recidiva: muito frequente — 40-60% dos cães recidivam ao tentar reduzir ou suspender a prednisolona. Recidiva não indica prognóstico grave — reintrodução da dose imunossupressora geralmente resolve.
Azatioprina — Segunda Linha / Poupador de Esteroide
Dose: 1,5-2 mg/kg/dia VO.
Indicação: resposta insuficiente à prednisolona isolada, ou para reduzir a dose de corticoide nos cães com efeitos colaterais intensos.
Latência: 4-6 semanas para efeito máximo.
Monitoramento: hemograma quinzenal inicial — pode causar mielossupressão.
Imunoglobulina Humana IV (IVIG)
Indicação: casos graves com hemorragia ativa ou plaquetas < 10.000/μL, quando resposta rápida é necessária enquanto o imunossupressor não faz efeito.
Dose: 0,5-1 g/kg IV em infusão lenta (4-6 horas).
Mecanismo: satura receptores Fc nos macrófagos esplênicos → plaquetas opsonizadas não são destruídas.
Resposta: aumento de plaquetas em 24-72 horas — temporário (5-7 dias), serve como ponte para o imunossupressor.
Custo: elevado (produto humano usado em veterinária "off-label").
Ciclosporina
Dose: 5-10 mg/kg/dia VO.
Alternativa ou adjuvante à azatioprina — útil em casos corticodependentes.
Vincristina em Baixa Dose
Estimula a produção e liberação de plaquetas pelos megacariócitos — efeito em 5-7 dias.
Dose baixa (diferente da dose quimioterápica): 0,01 mg/kg IV 1x/semana.
Adjuvante em casos com resposta lenta.
Esplenectomia
Para IMTP refratária (sem remissão após 2+ imunossupressores) ou corticodependência severa:
O baço é o principal órgão de destruição das plaquetas opsonizadas e o principal produtor de autoanticorpos. A esplenectomia remove ambas as funções.
Taxa de resposta: 60-70% de melhora significativa.
Prognóstico
IMTP primária com resposta à prednisolona: bom — cura com tratamento em muitos casos; alguns animais precisam de manutenção de baixa dose por longo prazo.
IMTP com complicação de hemorragia intracraniana: prognóstico reservado a grave.
IMTP refratária (sem resposta após múltiplos imunossupressores): reservado.
IMTP secundária: depende da doença de base — ehrlichiose tratada geralmente resolve a plaquetopenia; leishmaniose com comprometimento renal grave tem prognóstico menos favorável.
Monitoramento com hemograma seriado é fundamental durante o tratamento e nos meses seguintes — detectar recidiva precocemente antes do número de plaquetas cair a níveis críticos.
Perguntas frequentes
O que é trombocitopenia imunomediada em cachorro?+
Trombocitopenia Imunomediada Primária (IMTP) — também chamada PTI (Púrpura Trombocitopênica Idiopática) ou ITP (Immune Thrombocytopenia) — é a destruição das plaquetas mediada por autoanticorpos. O sistema imune produz anticorpos IgG que se ligam à superfície das plaquetas (e/ou megacariócitos, as células que produzem plaquetas na medula óssea), marcando-as para destruição pelo baço e pelo fígado. O resultado é queda acentuada do número de plaquetas (plaquetopenia severa — frequentemente < 20.000/μL, normal 200.000-500.000/μL). Com plaquetas baixas, a hemostasia primária (formação do tampão plaquetário) fica comprometida → hemorragias. A IMTP primária é idiopática (sem causa identificável); a secundária ocorre em associação a outras doenças (leishmaniose, ehrlichia, lupus, neoplasias) que desencadeiam a autoimunidade.
Quais são os sinais de trombocitopenia imunomediada em cachorro?+
Os sinais refletem a falha na hemostasia primária (plaquetária) — hemorragias espontâneas em locais que dependem de plaquetas para parar: Petéquias (pontos vermelhos minúsculos, 1-3 mm) e equimoses (manchas roxas maiores) na pele, nas mucosas (gengiva, conjuntiva, vulva) e na esclerótica ocular — o sinal mais característico e fácil de identificar. Epistaxe (sangramento nasal espontâneo). Hifema (sangue no olho — câmara anterior). Melena (fezes enegrecidas por sangue digerido) ou hematoquesia (sangue vivo nas fezes). Hematúria (sangue na urina). Hemorragia vaginal fora do cio. Em casos graves: hemorragia intracraniana (emergência), hemorragia pulmonar, hemorragia retroperitoneal. Importante: o cão com IMTP isolada frequentemente está alerta e bem até as petéquias ou o sangramento serem percebidos pelo tutor — não é sempre que o cão parece 'doente'.
Como diagnosticar trombocitopenia imunomediada em cachorro?+
Hemograma: plaquetopenia severa (< 50.000-30.000/μL — frequentemente < 20.000/μL na IMTP grave). Morfologia das plaquetas: plaquetas grandes (macroplaquetas) indicam produção medular compensatória ativa — sinal positivo de que a medula está respondendo. Esfregaço de sangue periférico (manual): confirma a plaquetopenia e exclui pseudoplaquetopenia por agregação in vitro. Mielograma (aspirado de medula óssea): número de megacariócitos aumentado (produção ativa com destruição periférica — padrão de IMTP) vs. reduzido (falha de produção = aplasia). O mielograma não é obrigatório em todos os casos mas é importante para distinguir IMTP de aplasia de medula. Investigação de causas secundárias (IMTP secundária): sorologia/PCR para Ehrlichia, Leishmania, Anaplasma; ANA (anticorpos antinucleares — LES); pesquisa de neoplasia (ultrassonografia abdominal, radiografia torácica); medicamentos que podem causar plaquetopenia. Tempo de coagulação (TP, TTPA): normais na IMTP pura (apenas plaquetas comprometidas, não os fatores de coagulação) — diferenciam de CIVD.
Como tratar trombocitopenia imunomediada em cachorro?+
Tratamento imunossupressor é a base. Prednisolona: 1-2 mg/kg/dia VO (dose imunossupressora) — reduz a destruição de plaquetas pelo baço e inibe a produção de autoanticorpos; resposta em 5-14 dias; plaquetas geralmente sobem para > 100.000/μL em 2-3 semanas. Após remissão: redução gradual ao longo de 3-4 meses para encontrar a dose mínima eficaz. Azatioprina: 1,5-2 mg/kg/dia — adicionada se resposta lenta ou incompleta à prednisolona, ou para reduzir a dose de corticoide; efeito com latência de 4-6 semanas. Ciclosporina: 5-10 mg/kg/dia VO — alternativa ou adjuvante. Imunoglobulina humana IV (IVIG): 0,5-1 g/kg IV — resposta rápida (24-72h), mecanismo: satura os receptores Fc no baço, impedindo a destruição das plaquetas marcadas com anticorpo; custo alto, uso em casos graves com hemorragia ativa ou plaquetas < 10.000/μL. Transfusão de plaquetas: raramente disponível; sem duração (plaquetas transfundidas são destruídas em horas pela IMTP ativa); reservada para hemorragia com risco de morte enquanto o imunossupressor não fez efeito. Esplenectomia: para IMTP refratária ou corticodependente — o baço é o principal órgão de destruição das plaquetas; disponível como terceira linha.
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