Saúde

Siringomielia em Cachorro: Dor Fantasma e Cavidade na Medula

A siringomielia (SM) é a formação de cavidades cheias de líquido dentro da medula espinhal — causa dor neuropática intensa, arranhado no ar e hipersensibilidade cervical. Cavalier King Charles Spaniel é a raça mais afetada, associada à malformação de Chiari. Gabapentina é o pilar do tratamento. Cirurgia de descompressão em casos graves.

27 de maio de 2026·3 min de leitura

O Cavalier King Charles Spaniel de 2 anos chegou porque "coçava o ombro no ar com a pata traseira" — sem tocar o corpo — especialmente ao acordar e ao colocar a coleira. O tutor achava que era "tique nervoso".

Ao toque no pescoço: reação exagerada, fuga. Colocar coleira: o cão latia antes mesmo de ser tocado.

RM crânio e cervical: malformação de Chiari-like com herniação cerebelar, sirix C2-C5 de 3 mm.

Siringomielia grau 2. Gabapentina + omeprazol + troca para peitoral.

O "Arranhado no Ar" — Entendendo a Dor Fantasma

Por que o Cão Coça Sem Coçar

O gesto de coçar envolve um reflexo espinhal bem estabelecido: estímulo pruriginoso → aferente sensitivo → medula espinhal → arco reflexo → efetores motores. A sirix comprime internamente as fibras sensitivas da medula que conduzem informações do pescoço e ombro — sem nenhum estímulo externo.

O que acontece: a compressão interna da medula gera descargas espontâneas nas fibras sensitivas comprimidas → o sistema nervoso interpreta como "coceira" na região do ombro/pescoço → desencadeia o reflexo de coçar → o cão coça no ar porque o estímulo é central, não periférico.

A coceira fantasma: é análoga à dor no membro fantasma de humanos amputados — o cérebro recebe um sinal que não corresponde a um estímulo real na periferia.

Por que Piora com a Coleira

A coleira exerce pressão no pescoço, que modifica o fluxo do LCR ao redor da coluna cervical — em cães com SM, mesmo pequenas variações de pressão no LCR amplificam a dor neuropática.

Solução imediata: trocar coleira por peitoral — simples, custo zero, e frequentemente resulta em melhora clínica perceptível.

A Malformação de Chiari no CKCS — Não é Exceção

A maioria dos tutores de CKCS se surpreende ao saber que mais de 95% da raça tem algum grau de malformação de Chiari-like — é a norma anatômica da raça, não uma anomalia rara.

Como isso aconteceu: a seleção para o crânio redondo e a face curta (braquicefalia) compressa a fossa craniana posterior → o cerebelo não tem espaço suficiente e protui levemente para o forame magno.

Por isso a raça precisa de rastreio: CKCS usados para reprodução deveriam ser submetidos a RM de rastreio (protocolo CKCSC de RM para CM/SM), especialmente antes da reprodução.

Gabapentina — Mecanismo Específico para Dor Neuropática

A gabapentina não é um analgésico comum — não inibe COX-2 como os AINEs, não bloqueia receptores opioides. Seu mecanismo:

  1. Liga-se à subunidade α2δ dos canais de cálcio voltagem-dependentes nos neurônios de segunda ordem da dor
  2. Reduz a entrada de cálcio → menos liberação de neurotransmissores pró-nociceptivos (glutamato, substância P)
  3. Resultado: reduz a sensibilização central — "desliga" o sinal de dor amplificado

Por que é específica para SM: AINEs tratam inflamação → não há inflamação na dor neuropática da SM. Opioides embotam a percepção → funcionam parcialmente mas com efeitos colaterais. A gabapentina age exatamente no mecanismo de geração da dor neuropática.

Prognóstico

| Grau de SM | Sinais clínicos | Resposta ao tratamento | |---|---|---| | Grau 1 (< 2 mm) | Dor leve, arranhado ocasional | Excelente com gabapentina | | Grau 2 (2-5 mm) | Dor moderada, arranhado frequente | Boa a moderada — pode precisar de cirurgia | | Grau 3 (> 5 mm) | Dor grave, déficit neurológico | Cirurgia recomendada; dor pode persistir | | Progressão rápida | Qualquer grau em piora | Cirurgia indicada |

A siringomielia no CKCS é uma doença crônica — não existe "cura" no sentido estrito. O objetivo é o controle da dor neuropática e a manutenção da qualidade de vida. Muitos cães vivem anos com SM bem controlada farmacologicamente.

Perguntas frequentes

O que é siringomielia em cachorro e qual sua relação com a malformação de Chiari?+

A siringomielia (SM) é a formação de cavidades anormais cheias de líquido cefalorraquidiano (LCR) dentro do parênquima da medula espinhal — causando compressão interna das fibras nervosas de dentro para fora. Em cães, a causa mais comum é a malformação de Chiari-like (CM) — uma malformação congênita em que o crânio é muito pequeno para o cerebelo (overcrowding), forçando o cerebelo para dentro do forame magno e obstruindo o fluxo normal do LCR. Quando o LCR não flui livremente do crânio para a coluna, cria-se um gradiente de pressão que força o líquido para dentro do tecido medular → sirix (cavidade). Por que o Cavalier King Charles Spaniel (CKCS): a braquicefalia do CKCS resulta em uma fossa caudal craniana proporcionalmente pequena demais para o cerebelo; a malformação de Chiari-like é quase universal na raça (>95% têm algum grau de CM na RM); SM clinicamente significativa: 25-35% dos CKCS; outras raças afetadas: Griffon Bruxelense; King Charles Spaniel; Yorkshire Terrier (raro); qualquer raça braquicefálica pode ser afetada em menor grau.

Quais são os sinais de siringomielia em cachorro?+

Os sinais de SM são dominados por dor neuropática — diferente da dor inflamatória comum, é uma dor central, de difícil controle. O sinal mais característico: 'arranhado no ar' (phantom scratching): o cão coça o ombro, pescoço ou orelha no ar — sem contato com a pele; parece 'coçar fantasma'; o gesto de coçar não tem substrato físico — é reflexo de dor neuropática cervical; especialmente ao colocar coleira, ao acordar, ou durante exercício; é o sinal mais específico de SM no CKCS — quando presente, deve sempre ser investigado. Outros sinais de dor neuropática: vocalizações espontâneas — o cão geme ou late sem razão aparente; hipersensibilidade ao toque: qualquer toque no pescoço, ombro ou orelha provoca resposta exagerada — latidos, fuga; o cão se recusa a ser acariciado nessas regiões; cabeça inclinada persistente (head tilt); resistência a colocar coleira. Sinais de déficit neurológico (SM extensa): ataxia dos membros posteriores ou anteriores; paraparesia; incoordenação dos membros; em casos graves, tetraparesia. Cronologia: SM pode aparecer em filhotes de 6 meses a adultos de anos; sinal de 'arranhado no ar' frequentemente começa em animais jovens (1-3 anos em CKCS).

Como diagnosticar siringomielia em cachorro?+

A RM do crânio e coluna cervical é o único exame que confirma SM — radiografia e TC são insuficientes. RM de crânio e coluna cervical: malformação de Chiari-like: cerebelo herniado para dentro do forame magno (herniação cerebelar); LCR obstruído na junção craniocervical; sirix: cavidade hiperintensa em T2 dentro da medula espinhal cervical; localização mais comum: C2-C5; extensão variável: desde pequena fenda até cavidade que ocupa >50% do diâmetro medular; fissura siringomiélica sem sirix verdadeiro também possível. Gradação: grau 0: CM sem SM; grau 1: SM < 2 mm; grau 2: SM 2-5 mm; grau 3: SM > 5 mm ou centromeduolar extensa. Exame neurológico: pode ser completamente normal em casos leves; deficits neurológicos em casos extensos; hipersensibilidade cervical ao exame físico (toque, movimentação do pescoço). Diagnóstico diferencial: otite media/interna: sinais vestibulares; epilepsia: crises, não dor; dor musculoesquelética cervical: sem arranhado no ar; síndrome de Horner: ptose, miose, enoftalmia — frequentemente presente em SM cervical.

Como tratar siringomielia em cachorro?+

O tratamento é voltado para o controle da dor neuropática e, em casos graves, cirurgia para restaurar o fluxo de LCR. Tratamento farmacológico — dor neuropática: gabapentina — o pilar do tratamento: 10-20 mg/kg 2-3x/dia; age nos canais de cálcio voltagem-dependentes das células nociceptivas → reduz transmissão da dor neuropática; início de efeito: 1-2 semanas; maioria dos cães mostra melhora significativa do arranhado no ar e das vocalizações; pregabalina: alternativa à gabapentina — 2-4 mg/kg 2x/dia — melhor biodisponibilidade oral; omeprazol: reduz a produção de LCR pelos plexos coróides → reduz pressão sobre a sirix; 1 mg/kg/dia; mecanismo controverso mas utilizado clinicamente; melhoram alguns cães; furosemida: também reduz produção de LCR — 1-2 mg/kg/dia; usada em combinação com omeprazol; AINEs: apenas se componente inflamatório associado; meloxicam 0,1 mg/kg/dia; não tratam a dor neuropática per se; adaptações: coleira → peitoral (elimina pressão cervical); cama elevada; evitar hiperextensão do pescoço. Tratamento cirúrgico — descompressão craniocervical: indicações: SM progressiva, sinais neurológicos graves, dor intratável com farmacologia; técnica: craniectomia suboccipital + laminectomia C1 — cria espaço para o cerebelo e restaura fluxo de LCR; resultados: 80% dos casos param a progressão; 30-50% têm redução da sirix; a dor neuropática pode persistir mesmo após cirurgia bem-sucedida. Prognóstico: casos leves, bem controlados farmacologicamente: qualidade de vida satisfatória por anos; casos graves com extensa SM: progressão mesmo com tratamento.