Prostatite em Cachorro: Inflamação da Próstata — Diagnóstico e Tratamento
A prostatite é a inflamação da próstata em cães machos inteiros — pode ser aguda (emergência febril) ou crônica (sinais sutis e recorrentes). E. coli é o principal agente. Castração é o pilar do tratamento definitivo. Abscesso prostático é complicação grave.
O Golden Retriever de 8 anos, inteiro, chegou à clínica com febre de 40,2°C, relutante a andar e com gotejamento de sangue pelo prepúcio. O tutor notou que o cão estava "travado" — andava com passos curtos, arqueando a coluna.
O toque retal confirmou o diagnóstico: próstata aumentada e dolorosa ao contato. Prostatite aguda bacteriana.
A Próstata Canina — Contexto Anatômico
Localização e Função
A próstata está localizada caudalmente à bexiga, em torno da uretra pélvica — envolve circunferencialmente a uretra como um anel.
Função: produz fluido prostático que compõe parte do sêmen; o fluido prostático protege os espermatozoides e contribui para o volume ejaculatório.
Influência hormonal: o crescimento e a manutenção da próstata dependem dos andrógenos — especialmente a di-hidrotestosterona (DHT), derivada da testosterona pela enzima 5-alfa redutase dentro da própria glândula.
Hiperplasia Benigna Prostática (HPB) — O Contexto da Prostatite
Em cães inteiros, a HPB é praticamente universal a partir dos 5-6 anos:
- 1-3 anos: próstata tamanho normal
- 3-5 anos: início da hiperplasia
- 5-8 anos: HPB moderada a grave na maioria dos machos inteiros
- > 8 anos: HPB muito frequente
A HPB em si raramente causa sinais graves — mas cria o ambiente propício para a prostatite bacteriana: tecido com circulação comprometida, quistos intraprostáticos, e menor concentração local de fatores imunes.
Importante: a castração reverte a HPB — a próstata regride 50-70% em 4-8 semanas após castração.
Patogênese da Prostatite Bacteriana
Via de Infecção
As bactérias chegam à próstata por duas vias principais:
Via ascendente (mais comum): bactérias da flora uretral ou da urina infectada migram retrogradamente pela uretra → entram na próstata pelos ductos prostáticos.
Via hematogênica: bacteremia a partir de outro foco infeccioso → disseminação para a próstata via circulação.
Agentes mais frequentes:
- Escherichia coli — 50-80% dos casos (uropatogênica)
- Staphylococcus pseudintermedius
- Streptococcus spp.
- Proteus mirabilis
- Klebsiella pneumoniae
- Brucella canis — sempre investigar em machos inteiros com prostatite + artrite + uveíte
A Barreira Hematoprostática
A próstata tem uma barreira entre a circulação sanguínea e o fluido prostático — similar à barreira hematoencefálica.
Implicação terapêutica: muitos antibióticos têm dificuldade de atravessar essa barreira em concentrações suficientes para eliminar as bactérias. Isso explica por que a prostatite é difícil de tratar e por que antibióticos específicos são necessários.
Na prostatite aguda: a inflamação intensifica rompe parcialmente a barreira → maioria dos antibióticos penetra melhor. Na prostatite crônica: a barreira está intacta → apenas antibióticos lipossolúveis de alta penetração funcionam bem.
Formas Clínicas
Prostatite Aguda
Apresentação: súbita, sistêmica, grave.
Risco principal: progressão para abscesso prostático ou sepse.
O cão fica doente em horas — os tutores percebem que "algo está muito errado" pelo estado geral do animal.
Prostatite Crônica
Apresentação: insidiosa, sinais sutis, recorrentes.
Sinais frequentes:
- Descarga prepucial intermitente (muco ou sangue)
- Uretrorragia episódica (sangue sem urinar)
- Infecções urinárias recorrentes
- Infertilidade em reprodutores
- Sem febre ou dor evidente — diferente da forma aguda
Diagnóstico: mais desafiador — o cão parece "razoavelmente bem" entre os episódios. Cultura de fluido prostático (via ejaculação fracionada ou lavagem prostática) é necessária.
Abscesso Prostático
Complicação grave da prostatite aguda não tratada ou de prostatite crônica com formação de coleção.
Risco: ruptura espontânea → peritonite biliar/prostática → choque séptico → alta mortalidade.
Sinais de alerta: deterioração clínica em cão com prostatite; palpação retal com próstata flutuante; ultrassom com área anecogênica (coleção líquida) na próstata.
Tratamento: emergência cirúrgica.
Diagnóstico
Ultrassonografia Prostática
É o exame de imagem de escolha — disponível na maioria das clínicas veterinárias.
O que avaliar:
- Tamanho: em relação à raça e ao peso
- Ecogenicidade: próstata normal é homogênea; prostatite → heterogênea, com áreas hipoecogênicas
- Quistos: áreas anecogênicas arredondadas — comuns na HPB
- Abscessos: áreas anecogênicas de conteúdo mais espesso, irregulares
- Linfonodos regionais: aumentados na prostatite/neoplasia
Diferencial: Neoplasia Prostática
Carcinoma prostático em cão é relativamente raro mas grave — e pode coexistir com prostatite.
| Característica | Prostatite/HPB | Neoplasia | |---|---|---| | Idade | Adulto a idoso | Geralmente idoso | | Castração | Regride com castração | Não regride (pode piorar) | | Metástases | Ausentes | Linfonodos, pulmão, osso | | PSA canino (TK-1) | Normal ou levemente elevado | Elevado | | Biópsia | Inflamação | Células neoplásicas |
Importante: cão castrado que desenvolve doença prostática → suspeitar sempre de neoplasia (a HPB não ocorre em castrados).
Tratamento
Suporte na Prostatite Aguda
Antes dos antibióticos, se o cão estiver em mau estado geral:
- Fluidoterapia intravenosa: correção da desidratação, suporte hemodinâmico
- Analgesia: metamizol (dipirona) 25 mg/kg IV ou IM; tramadol 2-5 mg/kg IM/IV
- Antieméticos: ondansetrona se vômito
- Jejum: se vômito ativo
Antibioticoterapia
Escolha inicial (antes do antibiograma):
Enrofloxacina é a primeira escolha pela excelente penetração prostática:
- 10-20 mg/kg VO ou IV 1x/dia
- Cobertura contra E. coli e Gram-negativos
Em casos graves (sepse):
- Ampicilina + gentamicina IV (enquanto aguarda cultura)
- Ou fluoroquinolona IV + metronidazol se suspeita de anaeróbios
Após cultura e antibiograma: ajustar conforme sensibilidade.
Duração mínima:
- Prostatite aguda: 4-6 semanas
- Prostatite crônica: 6-8 semanas
- Nunca interromper precocemente — a recidiva é quase garantida
Cirurgia do Abscesso Prostático
Marsupialização prostática:
- Incisão abdominal + drenagem do abscesso + sutura da cápsula prostática à parede abdominal
- Cria fístula de drenagem temporária → fecha espontaneamente em semanas
- Técnica mais simples, realizada mesmo em cães instáveis
Omentalização:
- Preenchimento da cavidade do abscesso com omento (tecido gorduroso abdominal)
- O omento tem propriedades anti-infecciosas e favorece a cicatrização
- Resultado excelente a longo prazo
Sempre associar castração no mesmo ato cirúrgico ou assim que o paciente estiver estável.
Prognóstico
| Forma | Prognóstico com Tratamento Adequado | |---|---| | Prostatite aguda, sem abscesso | Bom — resolução com antibióticos + castração | | Prostatite crônica | Bom com tratamento prolongado + castração | | Abscesso prostático, sem peritonite | Moderado — cirurgia necessária, mortalidade ~20-30% | | Abscesso com peritonite/ruptura | Reservado — alta mortalidade | | Prostatite por Brucella | Reservado — Brucella é difícil de erradicar; risco zoonótico |
Prevenção: a castração eletiva em cães machos inteiros sem função reprodutiva praticamente elimina o risco de prostatite — a próstata regride e deixa de ser substrato para infecção.
Todo macho inteiro com febre de origem obscura merece palpação prostática via retal — a prostatite aguda é uma das causas mais frequentes e mais facilmente identificáveis de febre em cães machos adultos.
Perguntas frequentes
O que é prostatite em cachorro?+
A prostatite é a inflamação da próstata em cães machos — pode ser bacteriana (mais comum) ou não bacteriana. A próstata é uma glândula acessória do sistema reprodutor masculino, localizada caudal à bexiga, em torno da uretra. Em cães inteiros, a próstata aumenta progressivamente com a idade sob influência dos andrógenos (testosterona e di-hidrotestosterona) — ao contrário de humanos, onde o aumento prostático benigno é mais comum, em cães inteiros a hiperplasia benigna prostática (HPB) é quase universal após os 5-6 anos. A HPB é o solo favorável para a prostatite bacteriana — o tecido hiperplásico tem circulação prejudicada e é mais suscetível à colonização bacteriana. Formas: prostatite aguda bacteriana — infecção ativa, quadro sistêmico grave (febre, dor, sepse); prostatite crônica bacteriana — infecção de baixo grau, sinais intermitentes sutis; abscesso prostático — coleção purulenta intraprostática — complicação grave, risco de sepse e ruptura; prostatite granulomatosa — rara, associada a fungos (Blastomyces, Coccidioides) ou causas não infecciosas.
Quais são os sinais de prostatite aguda em cachorro?+
A prostatite aguda é uma emergência — os sinais são claros e de início súbito. Febre: temperatura > 39,5°C — frequentemente > 40°C; o cão está claramente doente. Dor: dor abdominal caudal (região pélvica); relutância em andar normalmente — postura arqueada, passos curtos; vocalização ou resistência ao toque da região inguinal/pélvica. Sinais urinários: disúria (dificuldade de urinar); polaciúria (urina frequentemente em pequenas quantidades); uretrorragia — sangue gotejando pela uretra sem urinar; hematúria (sangue na urina). Descarga peniana: secreção purulenta ou sanguinolenta pelo prepúcio — especialmente entre as micções. Sinais gastrointestinais: constipação ou tenesmo (dificuldade de defecar) — próstata aumentada comprime o reto; vômito, anorexia, letargia. Nos casos graves: sepse — taquicardia, mucosas hiperêmicas ou pálidas, depressão severa; risco de ruptura de abscesso prostático → peritonite → choque.
Como diagnosticar prostatite em cachorro?+
O diagnóstico é baseado nos sinais clínicos, palpação, urinálise e imagem. Palpação retal (toque retal): dor intensa à palpação da próstata via retal — o veterinário introduz o dedo lubrificado pelo reto e palpa a próstata anteriormente; próstata aumentada, firme, dolorosa ao toque — na prostatite aguda; próstata assimétrica ou com flutuação — suspeita de abscesso. Palpação abdominal: próstata muito aumentada pode ser palpada via abdominal; dor à palpação da região caudal. Urinálise com cultura: bacteriúria, piúria (leucócitos > 5/campo de grande aumento); cultura e antibiograma de urina — identifica o agente (E. coli em 50-80% dos casos); outros agentes: Staphylococcus, Streptococcus, Proteus, Klebsiella, Brucella canis. Hemograma completo: leucocitose com neutrofilia e desvio à esquerda — infecção bacteriana ativa. Bioquímica: elevação de FA e ALT por hepatopatia reativa; ureia/creatinina se comprometimento renal. Ultrassonografia prostática: avaliação do tamanho, ecogenicidade, presença de abscessos (áreas anecogênicas) ou quistos; guia para aspiração/punção ecoguiada. Lavagem prostática: coleta de fluido prostático por massagem retal ou ejaculação forçada → citologia e cultura.
Como tratar prostatite em cachorro e qual o papel da castração?+
O tratamento da prostatite combina antibioticoterapia + castração como procedimento definitivo. Antibioticoterapia: a escolha do antibiótico é crítica — deve penetrar a barreira hematoprostática (barreira entre sangue e tecido prostático); antibióticos com boa penetração: enrofloxacina (10-20 mg/kg 1x/dia) — excelente penetração prostática; cloranfenicol (25-50 mg/kg 3x/dia); trimetoprima-sulfametoxazol (15 mg/kg 2x/dia); doxiciclina (5-10 mg/kg 2x/dia); a duração é prolongada: prostatite aguda — 4-6 semanas; prostatite crônica — 6-8 semanas ou mais; baseado na cultura e antibiograma. Castração: fundamental — remove a fonte de andrógenos → regressão da próstata em 4-8 semanas; a maioria das prostatites recidiva em cões não castrados; castração na prostatite aguda grave é realizada após estabilização do paciente (2-5 dias de antibióticos + suporte); na prostatite crônica, a castração pode ser eletiva após curso inicial de antibióticos. Abscesso prostático: emergência cirúrgica; drenagem cirúrgica (marsupialização prostática ou omentalização) + castração; risco de peritonite por ruptura espontânea; internação com suporte intensivo (fluidoterapia IV, analgesia, antibióticos IV). Prostatite crônica: além de antibióticos + castração; finasterida (inibidor da 5-alfa redutase): 0,1-0,5 mg/kg 1x/dia — reduz a próstata sem alterar fertilidade (se reprodutor); alternativa temporária à castração em reprodutores de valor.
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