Saúde

Prostatite em Cachorro: Inflamação da Próstata — Diagnóstico e Tratamento

A prostatite é a inflamação da próstata em cães machos inteiros — pode ser aguda (emergência febril) ou crônica (sinais sutis e recorrentes). E. coli é o principal agente. Castração é o pilar do tratamento definitivo. Abscesso prostático é complicação grave.

27 de maio de 2026·5 min de leitura

O Golden Retriever de 8 anos, inteiro, chegou à clínica com febre de 40,2°C, relutante a andar e com gotejamento de sangue pelo prepúcio. O tutor notou que o cão estava "travado" — andava com passos curtos, arqueando a coluna.

O toque retal confirmou o diagnóstico: próstata aumentada e dolorosa ao contato. Prostatite aguda bacteriana.

A Próstata Canina — Contexto Anatômico

Localização e Função

A próstata está localizada caudalmente à bexiga, em torno da uretra pélvica — envolve circunferencialmente a uretra como um anel.

Função: produz fluido prostático que compõe parte do sêmen; o fluido prostático protege os espermatozoides e contribui para o volume ejaculatório.

Influência hormonal: o crescimento e a manutenção da próstata dependem dos andrógenos — especialmente a di-hidrotestosterona (DHT), derivada da testosterona pela enzima 5-alfa redutase dentro da própria glândula.

Hiperplasia Benigna Prostática (HPB) — O Contexto da Prostatite

Em cães inteiros, a HPB é praticamente universal a partir dos 5-6 anos:

  • 1-3 anos: próstata tamanho normal
  • 3-5 anos: início da hiperplasia
  • 5-8 anos: HPB moderada a grave na maioria dos machos inteiros
  • > 8 anos: HPB muito frequente

A HPB em si raramente causa sinais graves — mas cria o ambiente propício para a prostatite bacteriana: tecido com circulação comprometida, quistos intraprostáticos, e menor concentração local de fatores imunes.

Importante: a castração reverte a HPB — a próstata regride 50-70% em 4-8 semanas após castração.

Patogênese da Prostatite Bacteriana

Via de Infecção

As bactérias chegam à próstata por duas vias principais:

Via ascendente (mais comum): bactérias da flora uretral ou da urina infectada migram retrogradamente pela uretra → entram na próstata pelos ductos prostáticos.

Via hematogênica: bacteremia a partir de outro foco infeccioso → disseminação para a próstata via circulação.

Agentes mais frequentes:

  • Escherichia coli — 50-80% dos casos (uropatogênica)
  • Staphylococcus pseudintermedius
  • Streptococcus spp.
  • Proteus mirabilis
  • Klebsiella pneumoniae
  • Brucella canis — sempre investigar em machos inteiros com prostatite + artrite + uveíte

A Barreira Hematoprostática

A próstata tem uma barreira entre a circulação sanguínea e o fluido prostático — similar à barreira hematoencefálica.

Implicação terapêutica: muitos antibióticos têm dificuldade de atravessar essa barreira em concentrações suficientes para eliminar as bactérias. Isso explica por que a prostatite é difícil de tratar e por que antibióticos específicos são necessários.

Na prostatite aguda: a inflamação intensifica rompe parcialmente a barreira → maioria dos antibióticos penetra melhor. Na prostatite crônica: a barreira está intacta → apenas antibióticos lipossolúveis de alta penetração funcionam bem.

Formas Clínicas

Prostatite Aguda

Apresentação: súbita, sistêmica, grave.

Risco principal: progressão para abscesso prostático ou sepse.

O cão fica doente em horas — os tutores percebem que "algo está muito errado" pelo estado geral do animal.

Prostatite Crônica

Apresentação: insidiosa, sinais sutis, recorrentes.

Sinais frequentes:

  • Descarga prepucial intermitente (muco ou sangue)
  • Uretrorragia episódica (sangue sem urinar)
  • Infecções urinárias recorrentes
  • Infertilidade em reprodutores
  • Sem febre ou dor evidente — diferente da forma aguda

Diagnóstico: mais desafiador — o cão parece "razoavelmente bem" entre os episódios. Cultura de fluido prostático (via ejaculação fracionada ou lavagem prostática) é necessária.

Abscesso Prostático

Complicação grave da prostatite aguda não tratada ou de prostatite crônica com formação de coleção.

Risco: ruptura espontânea → peritonite biliar/prostática → choque séptico → alta mortalidade.

Sinais de alerta: deterioração clínica em cão com prostatite; palpação retal com próstata flutuante; ultrassom com área anecogênica (coleção líquida) na próstata.

Tratamento: emergência cirúrgica.

Diagnóstico

Ultrassonografia Prostática

É o exame de imagem de escolha — disponível na maioria das clínicas veterinárias.

O que avaliar:

  • Tamanho: em relação à raça e ao peso
  • Ecogenicidade: próstata normal é homogênea; prostatite → heterogênea, com áreas hipoecogênicas
  • Quistos: áreas anecogênicas arredondadas — comuns na HPB
  • Abscessos: áreas anecogênicas de conteúdo mais espesso, irregulares
  • Linfonodos regionais: aumentados na prostatite/neoplasia

Diferencial: Neoplasia Prostática

Carcinoma prostático em cão é relativamente raro mas grave — e pode coexistir com prostatite.

| Característica | Prostatite/HPB | Neoplasia | |---|---|---| | Idade | Adulto a idoso | Geralmente idoso | | Castração | Regride com castração | Não regride (pode piorar) | | Metástases | Ausentes | Linfonodos, pulmão, osso | | PSA canino (TK-1) | Normal ou levemente elevado | Elevado | | Biópsia | Inflamação | Células neoplásicas |

Importante: cão castrado que desenvolve doença prostática → suspeitar sempre de neoplasia (a HPB não ocorre em castrados).

Tratamento

Suporte na Prostatite Aguda

Antes dos antibióticos, se o cão estiver em mau estado geral:

  • Fluidoterapia intravenosa: correção da desidratação, suporte hemodinâmico
  • Analgesia: metamizol (dipirona) 25 mg/kg IV ou IM; tramadol 2-5 mg/kg IM/IV
  • Antieméticos: ondansetrona se vômito
  • Jejum: se vômito ativo

Antibioticoterapia

Escolha inicial (antes do antibiograma):

Enrofloxacina é a primeira escolha pela excelente penetração prostática:

  • 10-20 mg/kg VO ou IV 1x/dia
  • Cobertura contra E. coli e Gram-negativos

Em casos graves (sepse):

  • Ampicilina + gentamicina IV (enquanto aguarda cultura)
  • Ou fluoroquinolona IV + metronidazol se suspeita de anaeróbios

Após cultura e antibiograma: ajustar conforme sensibilidade.

Duração mínima:

  • Prostatite aguda: 4-6 semanas
  • Prostatite crônica: 6-8 semanas
  • Nunca interromper precocemente — a recidiva é quase garantida

Cirurgia do Abscesso Prostático

Marsupialização prostática:

  • Incisão abdominal + drenagem do abscesso + sutura da cápsula prostática à parede abdominal
  • Cria fístula de drenagem temporária → fecha espontaneamente em semanas
  • Técnica mais simples, realizada mesmo em cães instáveis

Omentalização:

  • Preenchimento da cavidade do abscesso com omento (tecido gorduroso abdominal)
  • O omento tem propriedades anti-infecciosas e favorece a cicatrização
  • Resultado excelente a longo prazo

Sempre associar castração no mesmo ato cirúrgico ou assim que o paciente estiver estável.

Prognóstico

| Forma | Prognóstico com Tratamento Adequado | |---|---| | Prostatite aguda, sem abscesso | Bom — resolução com antibióticos + castração | | Prostatite crônica | Bom com tratamento prolongado + castração | | Abscesso prostático, sem peritonite | Moderado — cirurgia necessária, mortalidade ~20-30% | | Abscesso com peritonite/ruptura | Reservado — alta mortalidade | | Prostatite por Brucella | Reservado — Brucella é difícil de erradicar; risco zoonótico |

Prevenção: a castração eletiva em cães machos inteiros sem função reprodutiva praticamente elimina o risco de prostatite — a próstata regride e deixa de ser substrato para infecção.

Todo macho inteiro com febre de origem obscura merece palpação prostática via retal — a prostatite aguda é uma das causas mais frequentes e mais facilmente identificáveis de febre em cães machos adultos.

Perguntas frequentes

O que é prostatite em cachorro?+

A prostatite é a inflamação da próstata em cães machos — pode ser bacteriana (mais comum) ou não bacteriana. A próstata é uma glândula acessória do sistema reprodutor masculino, localizada caudal à bexiga, em torno da uretra. Em cães inteiros, a próstata aumenta progressivamente com a idade sob influência dos andrógenos (testosterona e di-hidrotestosterona) — ao contrário de humanos, onde o aumento prostático benigno é mais comum, em cães inteiros a hiperplasia benigna prostática (HPB) é quase universal após os 5-6 anos. A HPB é o solo favorável para a prostatite bacteriana — o tecido hiperplásico tem circulação prejudicada e é mais suscetível à colonização bacteriana. Formas: prostatite aguda bacteriana — infecção ativa, quadro sistêmico grave (febre, dor, sepse); prostatite crônica bacteriana — infecção de baixo grau, sinais intermitentes sutis; abscesso prostático — coleção purulenta intraprostática — complicação grave, risco de sepse e ruptura; prostatite granulomatosa — rara, associada a fungos (Blastomyces, Coccidioides) ou causas não infecciosas.

Quais são os sinais de prostatite aguda em cachorro?+

A prostatite aguda é uma emergência — os sinais são claros e de início súbito. Febre: temperatura > 39,5°C — frequentemente > 40°C; o cão está claramente doente. Dor: dor abdominal caudal (região pélvica); relutância em andar normalmente — postura arqueada, passos curtos; vocalização ou resistência ao toque da região inguinal/pélvica. Sinais urinários: disúria (dificuldade de urinar); polaciúria (urina frequentemente em pequenas quantidades); uretrorragia — sangue gotejando pela uretra sem urinar; hematúria (sangue na urina). Descarga peniana: secreção purulenta ou sanguinolenta pelo prepúcio — especialmente entre as micções. Sinais gastrointestinais: constipação ou tenesmo (dificuldade de defecar) — próstata aumentada comprime o reto; vômito, anorexia, letargia. Nos casos graves: sepse — taquicardia, mucosas hiperêmicas ou pálidas, depressão severa; risco de ruptura de abscesso prostático → peritonite → choque.

Como diagnosticar prostatite em cachorro?+

O diagnóstico é baseado nos sinais clínicos, palpação, urinálise e imagem. Palpação retal (toque retal): dor intensa à palpação da próstata via retal — o veterinário introduz o dedo lubrificado pelo reto e palpa a próstata anteriormente; próstata aumentada, firme, dolorosa ao toque — na prostatite aguda; próstata assimétrica ou com flutuação — suspeita de abscesso. Palpação abdominal: próstata muito aumentada pode ser palpada via abdominal; dor à palpação da região caudal. Urinálise com cultura: bacteriúria, piúria (leucócitos > 5/campo de grande aumento); cultura e antibiograma de urina — identifica o agente (E. coli em 50-80% dos casos); outros agentes: Staphylococcus, Streptococcus, Proteus, Klebsiella, Brucella canis. Hemograma completo: leucocitose com neutrofilia e desvio à esquerda — infecção bacteriana ativa. Bioquímica: elevação de FA e ALT por hepatopatia reativa; ureia/creatinina se comprometimento renal. Ultrassonografia prostática: avaliação do tamanho, ecogenicidade, presença de abscessos (áreas anecogênicas) ou quistos; guia para aspiração/punção ecoguiada. Lavagem prostática: coleta de fluido prostático por massagem retal ou ejaculação forçada → citologia e cultura.

Como tratar prostatite em cachorro e qual o papel da castração?+

O tratamento da prostatite combina antibioticoterapia + castração como procedimento definitivo. Antibioticoterapia: a escolha do antibiótico é crítica — deve penetrar a barreira hematoprostática (barreira entre sangue e tecido prostático); antibióticos com boa penetração: enrofloxacina (10-20 mg/kg 1x/dia) — excelente penetração prostática; cloranfenicol (25-50 mg/kg 3x/dia); trimetoprima-sulfametoxazol (15 mg/kg 2x/dia); doxiciclina (5-10 mg/kg 2x/dia); a duração é prolongada: prostatite aguda — 4-6 semanas; prostatite crônica — 6-8 semanas ou mais; baseado na cultura e antibiograma. Castração: fundamental — remove a fonte de andrógenos → regressão da próstata em 4-8 semanas; a maioria das prostatites recidiva em cões não castrados; castração na prostatite aguda grave é realizada após estabilização do paciente (2-5 dias de antibióticos + suporte); na prostatite crônica, a castração pode ser eletiva após curso inicial de antibióticos. Abscesso prostático: emergência cirúrgica; drenagem cirúrgica (marsupialização prostática ou omentalização) + castração; risco de peritonite por ruptura espontânea; internação com suporte intensivo (fluidoterapia IV, analgesia, antibióticos IV). Prostatite crônica: além de antibióticos + castração; finasterida (inibidor da 5-alfa redutase): 0,1-0,5 mg/kg 1x/dia — reduz a próstata sem alterar fertilidade (se reprodutor); alternativa temporária à castração em reprodutores de valor.