Policitemia em Cachorro: Excesso de Glóbulos Vermelhos
A policitemia é o aumento anormal dos glóbulos vermelhos (hematócrito > 65%) — causa hiperviscosidade sanguínea, trombose, convulsões e mucosas vermelho-escuras. Pode ser relativa (desidratação), absoluta secundária (eritropoietina elevada) ou vera (proliferação medular). Flebotomia e hidroxiureia são os pilares do tratamento.
O Poodle de 10 anos chegou com convulsões repetidas e mucosas visivelmente hiperêmicas — 'mais vermelhas que o normal, quase roxas'. Hematócrito: 78%. Sem desidratação clinicamente evidente.
SpO2: 98%. EPO sérica: 2,1 mU/mL (baixa — referência 3,0-10,0). Ultrassom abdominal: sem massa renal ou hepática.
Policitemia vera. Flebotomia de 15 mL/kg imediata + hidroxiureia iniciada.
O Paradoxo do Sangue Vermelho que Não Oxigena
Hiperviscosidade — Quando Mais Eritrócitos é Pior
A lógica parece ser: mais eritrócitos = mais oxigênio transportado. Mas a relação não é linear:
- Eritrócitos demais → sangue viscoso como xarope
- Capilares cerebrais são minúsculos — o sangue espesso não passa eficientemente
- Eritrócitos "empacotam" nos capilares → fluxo lento → hipóxia localizada paradoxal
- Ativação da coagulação → microtrombos → infartos lacunares cerebrais
As mucosas vermelho-escuras são o sinal visual mais imediato: a alta concentração de hemoglobina torna o sangue visivelmente mais vermelho, especialmente nas conjuntivas.
EPO — O Hormônio Que Conta a História
A eritropoietina (EPO) é o marcador que diferencia as formas de policitemia:
| EPO | SpO2 | Diagnóstico provável | |---|---|---| | Elevada | < 94% | Secundária por hipóxia | | Elevada | Normal | Secundária ectópica (tumor) | | Normal ou baixa | Normal | Policitemia vera | | Irrelevante | — | Relativa (checar hidratação) |
Na policitemia vera, as células precursoras se multiplicam autonomamente — não precisam do sinal da EPO. Por isso a EPO fica baixa: o feedback negativo funciona (medula não precisaria de estímulo), mas as células continuam se multiplicando de qualquer forma.
A Flebotomia — Tratamento Mais Antigo e Mais Eficaz
A sangria terapêutica é contraintuitiva mas eficaz:
- Remove eritrócitos diretamente do sangue
- Reduz a viscosidade imediatamente
- Melhora o fluxo microvascular cerebral
- O volume removido é reposto com salina → volume plasmático mantido, hematócrito cai
Taxa de resposta: melhora neurológica (redução das convulsões) em 48-72h após a primeira flebotomia na maioria dos casos.
Prognóstico
| Causa | Situação | Prognóstico | |---|---|---| | Relativa por desidratação | Qualquer | Excelente | | Secundária — cisto renal | Exérese possível | Muito bom | | Secundária — carcinoma renal | Localizado | Bom pós-nefrectomia | | Secundária — carcinoma renal | Metastático | Reservado | | Vera — sem complicação | Tratamento crônico | Moderado — 2-4 anos | | Vera — com AVC/trombose | Complicação aguda | Reservado |
Perguntas frequentes
O que é policitemia em cachorro e quais são as causas?+
A policitemia (eritrocitose) é o aumento anormal do número de eritrócitos, concentração de hemoglobina e hematócrito no sangue — hematócrito > 65% em cães (referência: 37-55%). Classificação da policitemia: Policitemia relativa — não há aumento real de eritrócitos: desidratação grave: redução do volume plasmático → concentração relativa dos eritrócitos; 'pseudopolicitemia' por splenic contraction: adrenalina ou medo pode contrair o baço (reservatório de eritrócitos) → liberação de eritrócitos para circulação; tratamento: reidratação corrige o hematócrito. Policitemia absoluta secundária: aumento real de eritrócitos por estímulo de eritropoietina (EPO) elevada; EPO elevada por hipóxia tecidual (causa fisiológica): doenças pulmonares crônicas, cardiopatias congênitas com shunt D→E (tetralogia de Fallot), altitude elevada; EPO elevada por produção ectópica (causa patológica): carcinoma renal, cistos renais, tumor hepático, hemangiossarcoma → secreção autônoma de EPO sem hipóxia. Policitemia vera (policitemia rubra vera — PRV): neoplasia mieloproliferativa das células precursoras eritroides; proliferação clonal autônoma independente de EPO; EPO baixa ou normal (ausência de estímulo, mas eritrócitos se multiplicam autonomamente); rara em cães; mais comum em cães de meia-idade a idosos.
Quais são os sinais de policitemia em cachorro?+
Os sinais refletem a hiperviscosidade sanguínea — o sangue 'espesso' não flui bem nos capilares. Sinais neurológicos — os mais frequentes: convulsões: hiperviscosidade → microtrombose cerebral + hipóxia cerebral relativa; ataxia e paresia: infartos lacunares; desorientação e alterações comportamentais: encefalopatia hiperviscosa; cegueira: trombose da artéria retiniana. Sinais cardiovasculares: mucosas vermelho-escuras (hiperêmicas): hallmark da policitemia — conjuntivas e mucosas mais vermelhas que o normal; taquicardia; hipertensão arterial: aumento da resistência vascular por viscosidade; epistaxe recorrente: vasos dilatados e congestionados. Sinais gerais: poliúria e polidipsia: hiperviscosidade e hipertensão afetam a função renal; prurido: histamina liberada por basófilos (especialmente na policitemia vera); hemorragia espontânea: paradoxalmente — plaquetas 'consomem' nos microtrombos → trombocitopenia por consumo; esplenomegalia: no PRV por proliferação extramedular. Achados laboratoriais: hematócrito > 65%: confirmação; eritrócitos > 9 × 10⁶/µL; EPO sérica: elevada = secundária; baixa/normal = policitemia vera; SpO2: se < 94% = secundária por hipóxia; ultrassom abdominal: pesquisar massa renal, cisto, tumor hepático (secundária ectópica).
Como diagnosticar e tratar policitemia em cachorro?+
O diagnóstico exige diferenciar as 3 formas — o tratamento é diferente para cada uma. Diagnóstico diferencial: passo 1: excluir policitemia relativa — hidratar o paciente e repetir hematócrito 24-48h; passo 2: medir SpO2/gasometria: se PaO2 < 80 mmHg ou SpO2 < 94% → secundária por hipóxia → investigar pulmão e coração; passo 3: dosagem de EPO sérica: EPO elevada + SpO2 normal = secundária ectópica (tumor renal ou hepático); EPO baixa ou normal + SpO2 normal = policitemia vera; passo 4: ultrassom + TC abdominal: pesquisar massa renal, cisto, tumor. Tratamento — policitemia vera: flebotomia (sangria terapêutica): remover 10-20 mL/kg de sangue → substituir por salina fisiológica para manter volume; objetivo: hematócrito < 55%; repetir semanalmente até estabilização; hidroxiureia: quimioterápico que inibe a síntese de DNA nas células precursoras; 30 mg/kg/dia VO por 7-10 dias, reduzindo para 15 mg/kg/dia de manutenção; monitorar hemograma a cada 2 semanas (risco de mielossupressão excessiva); asprina de baixa dose: antiplaquetário para reduzir risco tromboembólico. Tratamento — secundária ectópica: ressecção do tumor produtor de EPO: normalização do hematócrito pós-cirurgia; policitemia vera: tratamento cirúrgico raramente possível — manejo médico crônico; secundária por hipóxia: tratar a doença de base (ICC, DPOC).
Qual é o prognóstico da policitemia em cachorro?+
O prognóstico depende fundamentalmente da causa e se há complicações tromboembólicas. Policitemia relativa por desidratação: excelente — resolução com reidratação; Policitemia secundária a cisto renal benigno: muito bom — resolução após exérese do cisto; nefropexia ou drenagem do cisto em casos simples. Policitemia secundária a carcinoma renal: depende do estadiamento: tumor localizado → nefrectomia → cura; metástase → paliativo; EPO normaliza após nefrectomia se sem metástase. Policitemia vera (PRV): doença crônica progressiva; com flebotomia + hidroxiureia: sobrevida média 2-4 anos; sem tratamento: trombose, AVC, insuficiência orgânica múltipla; principais causas de morte: tromboembolia cerebral, insuficiência renal, transformação em leucemia (rara em cães). Complicações que pioram o prognóstico: AVC estabelecido; trombose mesentérica ou renal; insuficiência renal crônica por hiperviscosidade.
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