Saúde

Pitiose em Cachorro: Fungo Aquático — Doença Endêmica no Brasil

A pitiose é causada pelo Pythium insidiosum — um pseudo-fungo aquático endêmico em regiões tropicais e subtropicais, especialmente no Centro-Oeste e Nordeste brasileiros. Causa lesões cutâneas infiltrativas e forma gastrointestinal grave. Tratamento cirúrgico + imunoterapia com vacina específica.

27 de maio de 2026·6 min de leitura

A pitiose é uma das doenças mais subestimadas da medicina veterinária brasileira — comum no Pantanal, no Nordeste e em outras regiões tropicais, mas frequentemente desconhecida por médicos veterinários que não foram formados em contato com a doença.

Um cão que mora próximo a lagoas, riachos ou áreas alagadas, com uma lesão cutânea que não responde a antibióticos, que cresce progressivamente e tem trajetos fistulosos — deve ser imediatamente investigado para pitiose.

O Agente: Pythium insidiosum

Classificação

Pythium insidiosum não é um fungo — apesar de ser frequentemente chamado de "fungo aquático". Está classificado no reino Stramenopila, classe Oomycetes — mais relacionado a algas heterotróficas do que a fungos verdadeiros.

Implicação clínica fundamental: a parede celular do P. insidiosum é composta de celulose e glucanas não-ergosterólicas — não contém ergosterol, que é o alvo dos antifúngicos convencionais (azóis, anfotericina B). Isso explica porque a maioria dos antifúngicos é ineficaz contra a pitiose.

Ciclo de Vida

Zoósporos: a forma infectiva. Zoósporos biflagelados nadam na água e são atraídos por pêlos, feridas ou membranas mucosas de hospedeiros — um processo chamado de quimiotaxia.

Infecção: os zoósporos encistam na pele lesada ou na mucosa, penetram no tecido e germinam em hifas que invadem progressivamente os tecidos adjacentes.

Não há transmissão entre animais: a doença não se transmite entre cães ou de cão para humano diretamente — a fonte é sempre a água contaminada.

Distribuição no Brasil

Endêmica em:

  • Pantanal (MT/MS) — maior prevalência, altamente endêmica
  • Nordeste — especialmente regiões com açudes e lagoas temporárias
  • Goiás, Minas Gerais — focos conhecidos
  • Sul do Brasil (RS, SC, PR) — casos esporádicos em áreas alagadas

Sazonalidade: maior incidência nos períodos chuvosos e de inundação — quando os zoósporos se dispersam amplamente nas águas de enchente.

Formas Clínicas

Pitiose Cutânea (Mais Comum em Cães)

Localização preferencial:

  • Membros (especialmente posteriores e perineal — pela frequência de contato com água)
  • Região inguinal e perineal
  • Face, focinho, lábios
  • Tronco (em contato com solo úmido)

Evolução típica:

Fase inicial:

  • Pequena lesão ulcerada ou nodular no ponto de entrada dos zoósporos
  • Prurido intenso — o cão lambe e morde constantemente
  • Crescimento rápido — diferente de outras lesões cutâneas

Fase estabelecida:

  • Massa infiltrativa com bordas irregulares e tecido inflamado ao redor
  • Múltiplos trajetos fistulosos — canais que drenam para a superfície
  • Secreção serossanguinolenta pelos trajetos
  • Kunkers (leskunkeres): nódulos duros, amarelados, de consistência firme dentro do tecido ou nos trajetos fistulosos — são acúmulos de hifas com exsudato inflamatório; específicos da pitiose (e zigomicose)

Fase avançada:

  • Invasão de tecido muscular e osso subjacente
  • Necrose extensa
  • Amputação pode ser necessária

Pitiose Gastrointestinal

Muito menos comum em cães que em equinos, mas descrita.

Localização: estômago e intestino delgado (jejuno, íleo).

Apresentação:

  • Perda de peso progressiva e marcada
  • Vômito crônico
  • Massa palpável no abdômen (em alguns casos)
  • Obstrução intestinal parcial ou completa

Diagnóstico tardio é comum — os sinais são inespecíficos e a doença é raramente cogitada inicialmente.

Diagnóstico

Suspeita Clínica

Perfil epidemiológico + lesão característica:

  • Cão com acesso a água parada/alagada em região endêmica
  • Lesão cutânea ulcerada, infiltrativa, com trajetos fistulosos e kunkers
  • Ausência de resposta a antibióticos e antifúngicos convencionais

Kunkers são praticamente patognomônicos — quando presentes, a pitiose é o diagnóstico mais provável.

Citologia

Aspiração ou imprint dos kunkers ou da borda da lesão:

  • Hifas amplas (2-7 µm), pauciceptadas (poucos septos), filamentosas
  • Infiltrado inflamatório eosinofílico e piogranulomatoso ao redor das hifas

A citologia pode sugerir pitiose mas não é definitiva.

Histopatologia

Biópsia da lesão:

  • Inflamação piogranulomatosa com eosinófilos
  • Hifas amplas, pauciceptadas visíveis com coloração especial (GMS — Grocott Methenamine Silver)
  • Padrão de "tubo vazio" — as hifas ficam frequentemente vazias na histologia (o microrganismo colapsa)

Sorologia (ELISA, Imunodifusão)

Detecção de anticorpos anti-Pythium:

  • ELISA com antígenos de P. insidiosum — sensível e específico
  • Disponível em laboratórios de referência no Brasil (UFPR, alguns laboratórios veterinários)
  • Títulos elevados + quadro clínico = diagnóstico presuntivo sólido

PCR

Detecção do DNA de P. insidiosum em tecido ou secreção:

  • Alta especificidade
  • Disponível em laboratórios especializados

Cultura

Crescimento do P. insidiosum em meios específicos (água com isco vegetal ou meio PYG) — confirma diagnóstico mas é lento e requer laboratório especializado.

Tratamento

Cirurgia — Fundamental

Ressecção ampla é o pilar do tratamento da pitiose cutânea.

Objetivos:

  • Remover todo o tecido infiltrado com margens de 2-3 cm em todos os planos
  • Incluir tecido profundo (fáscia, músculo) se necessário

Desafios:

  • As hifas infiltram além da lesão macroscopicamente visível
  • Margens comprometidas → recidiva muito provável

Amputação: frequentemente necessária para pitiose de membros extensa ou com invasão óssea — é a abordagem que oferece melhores margens.

Pitiose gastrointestinal: enterectomia + anastomose — ressecção do segmento afetado com 5-10 cm de margem em cada extremidade.

Imunoterapia — A Inovação Brasileira

A vacina de Pythium insidiosum é uma das contribuições mais importantes da medicina veterinária brasileira ao tratamento de doenças fúngicas/pseudofúngicas.

Mecanismo:

  • A vacina contém antígenos de zoósporos e/ou hifas do P. insidiosum
  • Estimula a resposta imune celular (Th1) contra o parasita
  • O sistema imune passa a reconhecer e combater as hifas que escaparam da cirurgia

Protocolo:

  • 4-6 injeções SC a cada 2 semanas
  • Algumas formulações: 1 dose a cada 14-21 dias por 6 meses
  • Pode ser repetida em caso de recidiva

Resultado em combinação com cirurgia (estudos brasileiros):

  • Remissão completa em 50-70% dos casos cutâneos
  • Resposta significativamente melhor que cirurgia isolada

Onde obter no Brasil:

  • CPPI (Centro de Pesquisa e Processamento de Alimentos) — UFPR
  • Alguns laboratórios veterinários especializados
  • Clínicas de dermatologia veterinária em regiões endêmicas

Antifúngicos — Papel Limitado

A parede celular de celulose do P. insidiosum torna os antifúngicos convencionais ineficazes:

  • Azóis (itraconazol, fluconazol, voriconazol): geralmente ineficazes isolados
  • Anfotericina B: ineficaz (age no ergosterol, ausente na parede do Pythium)
  • Terbinafina: tem alguma atividade — usada como adjuvante (5-10 mg/kg VO 1x/dia)
  • Combinação terbinafina + itraconazol: sinergia em alguns estudos — mais usado como adjuvante pós-cirurgia com vacina

Prognóstico

| Forma e Situação | Prognóstico | |---|---| | Cutânea, lesão pequena, cirurgia ampla + vacina | Bom — 60-70% remissão | | Cutânea, lesão extensa sem invasão óssea, amputação + vacina | Moderado a bom | | Cutânea, invasão óssea, amputação + vacina | Moderado | | Gastrointestinal, diagnóstico precoce, cirurgia + vacina | Reservado | | Gastrointestinal avançada | Ruim — alta mortalidade |

Recidiva: mesmo com remissão completa, recidiva em 20-40% dos casos — monitorização cuidadosa e imunoterapia de manutenção são importantes.

Prevenção

Em regiões endêmicas (Pantanal, Nordeste):

  • Evitar contato de feridas abertas com água de lagos, açudes e áreas alagadas
  • Vacinar cães de trabalho ou fazenda que vivem em contato com água
  • Examinar regularmente cães de raças de trabalho pela pele, especialmente nos membros

A pitiose é um exemplo de doença em que o conhecimento regional faz toda a diferença no diagnóstico — um veterinário que trabalha no Pantanal pensa em pitiose na primeira consulta; um veterinário de cidade grande pode levar meses para cogitar o diagnóstico.

Perguntas frequentes

O que é pitiose em cachorro?+

A pitiose é uma doença infecciosa causada pelo Pythium insidiosum — um organismo pertencente ao reino Stramenopila (Oomycetes), vulgarmente chamado de 'pseudo-fungo' ou 'fungo aquático'. Apesar do nome informal, o P. insidiosum não é um fungo verdadeiro — está mais relacionado a algas do que a fungos, o que tem implicações importantes no tratamento (antifúngicos convencionais geralmente não são eficazes). Endêmica em regiões tropicais e subtropicais com presença de áreas alagadas — no Brasil, é especialmente prevalente no Pantanal (Mato Grosso, Mato Grosso do Sul), no Nordeste, em Goiás e em partes do Sul. A transmissão ocorre pelo contato de feridas ou mucosas com água contaminada por zoósporos (a forma infectiva do parasita). Em cães, existem duas formas principais: cutânea (a mais comum em cães) — lesões na pele com tecido necrótico e trajetos fistulosos; gastrointestinal — infecção do tubo digestivo com massa obstruti e muito agressiva.

Como identificar pitiose em cachorro?+

As apresentações variam conforme a forma clínica. Forma cutânea (mais comum em cães): lesões na pele e tecido subcutâneo, especialmente em membros, perineal, inguinal, face e pescoço; aspecto típico — massa infiltrativa com múltiplos trajetos fistulosos que drenam secreção serossanguinolenta; no interior das lesões pode haver tecido necrótico firme amarelado chamado de 'kunkers' ou 'leskunkeres' (acúmulo de hifas com exsudato inflamatório); as lesões são pruriginosas — o cão lambe e morde constantemente; crescimento rápido, resistência a antibióticos e antifúngicos convencionais. Forma gastrointestinal (mais grave, menos comum em cães): massa no estômago ou intestino delgado; perda de peso progressiva, vômito, diarreia ou constipação; o segmento intestinal afetado pode ser palpado como massa abdominal; sem tratamento, obstrução intestinal completa e morte.

A pitiose tem cura em cachorro?+

O prognóstico depende do diagnóstico precoce e da localização da doença. Forma cutânea com diagnóstico precoce e ressecção cirúrgica ampla: prognóstico moderado a bom — recidiva em 20-40% dos casos mesmo após cirurgia ampla; combinação de cirurgia + imunoterapia com vacina melhora significativamente os resultados. Forma gastrointestinal: prognóstico reservado — o diagnóstico frequentemente é tardio (quando a massa já está volumosa); a ressecção cirúrgica é difícil ou impossível em casos avançados; mortalidade alta mesmo com tratamento. Sem tratamento: a pitiose cutânea avança progressivamente, pode invadir osso e tecidos profundos; a forma gastrointestinal é invariavelmente fatal. A imunoterapia (vacina de Pythium) melhorou o prognóstico significativamente no Brasil — produzida no Brasil pelo CPPI e por laboratórios especializados; em combinação com cirurgia, remissão em 50-70% dos casos cutâneos em estudos brasileiros.

Como é feito o tratamento da pitiose em cachorro?+

O tratamento da pitiose é multimodal. Cirurgia — fundamental: ressecção ampla de toda a lesão com margens de 2-3 cm; o objetivo é remover todo o tecido infiltrado pelo P. insidiosum; na forma gastrointestinal: enterectomia (ressecção do segmento intestinal afetado); na forma cutânea: pode exigir amputação do membro em casos com invasão óssea ou muito extensa. Imunoterapia (vacina de Pythium insidiosum): vacina produzida com antígenos do P. insidiosum; estimula a resposta imune Th1 contra o parasita; protocolo: 4-6 injeções SC a cada 2 semanas; no Brasil, disponível no CPPI (Centro de Pesquisa e Processamento de Alimentos) da UFPR e outros centros especializados; taxas de resposta: 50-70% de remissão completa nos casos cutâneos com cirurgia + vacina. Antifúngicos: papel limitado — o P. insidiosum tem parede celular de celulose (não ergosterol), tornando os azóis e anfotericina B geralmente ineficazes; itraconazol associado à terbinafina pode ter algum efeito adjuvante. Terbinafina: 5-10 mg/kg VO 1x/dia — tem alguma atividade; usada como adjuvante.