Peritonite em Cachorro: Inflamação da Cavidade Abdominal
A peritonite é a inflamação da cavidade peritoneal — causa abdômen agudo, sepse e choque com alta mortalidade. Perfuração de víscera, deiscência de anastomose e corpo estranho perfurante são causas comuns. Cirurgia de emergência com lavagem peritoneal e antibióticos de largo espectro são essenciais.
A cadela Labrador de 7 anos chegou com dor abdominal progressiva há 2 dias, febre de 40,2°C e vômito repetido. Abdômen em tábua à palpação, gemia ao ser tocada. Mucosas hiperêmicas.
Abdominocentese: líquido turvo-amarelado, glicose peritoneal 8 mg/dL (glicemia sérica: 98 mg/dL). Neutrófilos degenerados com bactérias intracelulares na citologia.
Peritonite séptica. Antibióticos IV e cirurgia de emergência.
O Peritônio — Uma Superfície Enorme de Absorção
Por que a Peritonite É Tão Grave Sistemicamente
O peritônio tem uma área total de aproximadamente 1,8 m² em um cão de porte médio — equivalente à superfície corporal total. Essa área enorme tem:
- Rica vascularização
- Células mesoteliais com alta capacidade de absorção
- Macrófagos residentes
Quando contaminado por bactérias ou bile:
- As bactérias se multiplicam no líquido peritoneal quente e nutritivo
- Toxinas bacterianas e mediadores inflamatórios são absorvidos massivamente pela membrana peritoneal
- Translocação direta de bactérias para a circulação sistêmica (via vasos linfáticos e portais)
- Cascata inflamatória sistêmica → SIRS (Síndrome Inflamatória Responsiva Sistêmica) → sepse
Por que a progressão é tão rápida: a superfície de absorção enorme significa que a sepse se instala em horas, não dias. A janela de oportunidade cirúrgica é estreita.
Exsudato Peritoneal — O que Acontece no Espaço Peritoneal
A inflamação peritoneal produz exsudato rico em proteínas, células inflamatórias e fibrina. A fibrina tem papel duplo:
Inicialmente protetora: a fibrina encapsula o foco inflamatório → restringe a contaminação (peritonite focal).
Depois problemática: a fibrina forma aderências entre alças intestinais → íleo adinâmico pós-operatório prolongado.
A Deiscência de Anastomose — A Complicação Cirúrgica mais Temida
Quando um cirurgião realiza ressecção intestinal e anastomose (reconexão das extremidades), a principal complicação é a deiscência (abertura da sutura):
Fatores de risco:
- Má perfusão das bordas anastomóticas (isquemia)
- Infecção local pré-operatória
- Tensão na sutura
- Desnutrição (tecido cicatriza mal)
- Corticoterapia (diminui a cicatrização)
Quando acontece: geralmente 3-5 dias após a cirurgia.
Por que é catastrófico: conteúdo intestinal derrama na cavidade → peritonite séptica grave → segunda cirurgia de emergência → mortalidade muito alta.
Sinais de alerta pós-operatório: piora da dor abdominal, vômito ressurgente, febre, letargia — qualquer deterioração em cão operado nos primeiros 7 dias deve ser investigada urgentemente.
O Desafio da Nutrição na Peritonite
Cães com peritonite e cirurgia abdominal frequentemente não conseguem comer por dias — mas o intestino precisa de nutrição para recuperar sua função de barreira.
Sem nutrição enteral: o epitélio intestinal se atrofia → a barreira intestinal falha → translocação bacteriana → piora da sepse.
Com nutrição enteral precoce (12-24h após a cirurgia):
- O epitélio recebe nutrientes diretamente do lúmen
- A barreira intestinal é mantida
- A recuperação é mais rápida
Sonda nasogástrica: colocada durante a cirurgia ou nas primeiras horas pós-operatórias → dieta líquida em infusão contínua lenta.
Prognóstico
| Situação | Mortalidade | |---|---| | Peritonite focal, diagnóstico precoce | 10-20% | | Peritonite difusa, cirurgia < 6h após instalação | 20-40% | | Peritonite com choque séptico | 40-60% | | Peritonite biliar, ruptura vesicular | 30-50% | | Deiscência de anastomose | 50-70% | | Uroabdômen (ruptura de bexiga) | 20-30% (melhor que outros tipos) | | Peritonite por piómetra rota | 30-50% |
A peritonite é uma das emergências cirúrgicas mais exigentes em medicina veterinária. A decisão de operar não deve ser postergada esperando "estabilização completa" — frequentemente a única forma de estabilizar é remover a fonte de contaminação cirurgicamente.
Perguntas frequentes
O que é peritonite em cachorro e quais são as causas?+
A peritonite é a inflamação da cavidade peritoneal — o espaço que envolve os órgãos abdominais e é revestido pelo peritônio (membrana serosa). Quando contaminantes (bactérias, bile, conteúdo gastrointestinal, urina) chegam ao espaço peritoneal, desencadeiam inflamação grave → translocação bacteriana → sepse → choque séptico → falência de múltiplos órgãos. Causas mais frequentes: perfuração gastrointestinal: corpo estranho (osso, palito) que perfura estômago ou intestino; úlcera gástrica perfurada; torção gástrica com necrose; neoplasia intestinal perfurada; vazamento de anastomose (deiscência após cirurgia); ruptura de órgão: ruptura uterina (piómetra) — peritonite séptica uterina; peritonite biliar (ruptura de vesícula biliar ou ducto biliar); uroabdômen (ruptura de bexiga — peritonite urinosa); ruptura de abscesso (prostático, hepático); causas iatrogênicas: deiscência de sutura após cirurgia abdominal; contaminação durante cirurgia. Tipos: séptica: contaminação bacteriana — a mais comum e mais grave; não séptica: bile, urina — inicialmente sem bactérias, mas progridem para séptica; focal: limitada a uma área (abscesso peritoneal); difusa (generalizada): comprometimento de toda a cavidade → pior prognóstico.
Quais são os sinais de peritonite em cachorro?+
A peritonite tem apresentação de abdômen agudo — emergência cirúrgica. Sinais de peritonite estabelecida: dor abdominal intensa: o cão recusa se mover, caminha de forma rígida, gemidos ao ser tocado; abdômen 'em tábua' à palpação — contração muscular voluntária para proteger a dor (défense musculaire); postura de prece: membros anteriores estendidos no chão, posterior elevado; vômito: frequente, pode conter bile ou sangue; distensão abdominal: líquido inflamatório + gas acumulam; febre alta (39-41°C) — em peritonite séptica; mucosas hiperêmicas (vermelhas) inicialmente → pálidas/cianóticas em choque; taquicardia intensa; prostração e colapso em casos avançados. Sinais de choque séptico (estágio avançado): mucosas pálidas ou cinzas; TRC (tempo de reenchimento capilar) > 2 segundos; pulso fraco, filiforme; hipotermia (temperatura cai paradoxalmente em choque grave); olhos fundos (desidratação intensa); sonolência; sem choque séptico tratado → mortalidade > 80%. Peritonite subaguda (apresentação mais insidiosa): anorexia e vômito por dias antes de deterioração; dor abdominal moderada; letargia progressiva; sem sinais de choque inicial.
Como diagnosticar peritonite em cachorro?+
O diagnóstico combina clínica + laboratório + imagem + abdominocentese. Abdominocentese diagnóstica: punção da cavidade abdominal com agulha ou cateter; líquido peritoneal: turbido, purulento (peritonite séptica) ou amarelado (biliar); NÃO coagula normalmente — diferente de sangue; análise: citologia (neutrófilos degenerados, bactérias intracelulares = peritonite séptica); cultura e antibiograma; glicose: glicose peritoneal < 50% da glicemia sérica = peritonite séptica (bactérias consomem a glicose); lactato: lactato peritoneal > 2 mmol/L acima do lactato sérico = peritonite séptica. Ultrassom abdominal: líquido livre na cavidade — peritoneal: com partículas, septos; gás livre peritoneal (pneumoperitoneum) — indica perfuração de víscera oca; avalia órgãos: vólvulo gástrico, ruptura esplênica, uterina; na peritonite biliar: vesícula biliar colapsada ou ausente + líquido ecogênico perivesicular. Radiografia abdominal: gás livre sub-diafragmático (pneumoperitoneum) — indica perfuração: ar aparece como banda negra entre o fígado e o diafragma na projeção lateral; padrão de 'vidro fosco' generalizado — líquido livre obscurece as bordas dos órgãos. Laboratorial: hemograma: leucocitose com desvio à esquerda (neutrófilos aumentados + bastões); ou leucopenia com desvio à esquerda (choque séptico grave — pior sinal); bioquímica: hipoglicemia (sepse grave), elevação de creatinina (disfunção renal por hipoperfusão), ALT elevada; lactato sérico: > 4 mmol/L = hipoperfusão sistêmica grave.
Como tratar peritonite em cachorro?+
A peritonite é uma emergência — a demora em cirurgiar aumenta exponencialmente a mortalidade. Estabilização pré-cirúrgica (30-60 minutos máximo): fluidoterapia agressiva IV: cristaloides (Ringer lactato 90 mL/kg/h) ± coloides; objetivo: restaurar perfusão tecidual (pressão arterial sistólica > 80 mmHg, mucosas rosadas); antibioticoterapia IV imediata (antes da cirurgia): ampicilina 20 mg/kg IV 3x/dia + enrofloxacina 10 mg/kg IV 1x/dia + metronidazol 15 mg/kg IV 2x/dia — cobertura para flora intestinal mista (Gram+, Gram-, anaeróbios); ou amoxicilina-clavulanato IV como alternativa; analgesia IV: metadona ou fentanil; oxigenoterapia. Cirurgia: laparotomia exploratória: incisão ampla, do xifoide ao púbis; identificação e tratamento da causa: perfuração: sutura ou ressecção da área perfurada + anastomose; útero (piómetra rota): ovariohisterectomia; vesícula biliar: colecistectomia; ruptura de bexiga: cistorrafia; lavagem peritoneal: irrigação com 200-500 mL de soro fisiológico morno por kg até o líquido de drenagem ficar claro; o objetivo é reduzir ao máximo a contaminação bacteriana; drenagem pós-operatória: drenos de Penrose ou drenos de sucção fechados — para drenar secreção residual; drenagem aberta do abdômen ('open abdomen'): em casos muito graves — o abdômen é fechado apenas parcialmente, com reavaliação e novas lavagens a cada 24-48h. Cuidados pós-operatórios (UTI veterinária): fluidoterapia IV continua por 48-72h; antibióticos IV por 5-7 dias (até estabilização) → VO por 7-14 dias; analgesia contínua (CRI de fentanil ou morfina); nutrição enteral precoce (sonda nasogástrica nas primeiras 12-24h) — fundamental para recuperação intestinal; monitorização intensiva: pressão arterial, oximetria, diurese, glicemia, lactato.
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