Otite Média e Interna em Cachorro: Infecção do Ouvido Médio
A otite média é a infecção da caixa do tímpano — geralmente extensão de otite externa crônica. Causa dor facial, síndrome de Horner e surdez condutiva. Diagnóstico por otoscopia, radiografia ou TC bolhas timpânicas. Tratamento com lavagem e antibióticos por 6-8 semanas. Pode evoluir para otite interna com déficits vestibulares.
O Cocker Spaniel de 8 anos com histórico de otite externa recorrente há 4 anos chegou com o olho esquerdo "diferente" — pupila menor, terceira pálpebra protraída, olho levemente afundado. Sacudindo a cabeça e coçando a orelha esquerda.
Síndrome de Horner esquerda. Otoscopia: secreção castanha no canal esquerdo, membrana timpânica não visível.
Otite média esquerda — extensão de otite externa crônica mal controlada.
A Anatomia que Explica os Sinais
O Ouvido Médio do Cão
O ouvido médio do cão é uma cavidade óssea — a bolha timpânica (bullae tympanicae) — localizada na base do crânio. Contém:
Ossículos: martelo → bigorna → estribo — cadeia que amplifica e transmite as vibrações sonoras da membrana timpânica para o ouvido interno.
Janela oval: onde o estribo se conecta ao ouvido interno.
Tuba de Eustáquio: conecta o ouvido médio à nasofaringe — equaliza pressão.
Estruturas neurais próximas:
- Nervo facial (CN VII): passa pelo canal facial dentro da bolha
- Nervo corda do tímpano: ramo do facial, passa pela bolha
- Cadeia simpática cervical: passa pela superfície da bolha timpânica → ao tronco → ao olho
Por que a Síndrome de Horner
A cadeia simpática do olho tem um percurso longo:
- Hipotálamo → medula → corno lateral da medula espinal torácica (C8-T2)
- Saindo da medula → gânglio estrelado cervical caudal → nervo vago → sobe pelo pescoço
- Passa pela superfície da bolha timpânica
- Entra no crânio → passa pelo seio cavernoso → inerva o músculo dilatador da íris, músculo de Müller, músculo retrator do bulbo
Otite média → inflamação da bolha → compressão da cadeia simpática → síndrome de Horner ipsilateral
Os quatro sinais do Horner (todos ipsilaterais):
- Miose (pupila pequeña — sem dilatação simpática)
- Prolapso da terceira pálpebra
- Ptose (pálpebra superior caída)
- Enoftalmia (olho afundado)
A Cascata: Otite Externa → Média → Interna
Como a Infecção Progride
Otite externa não resolvida → inflamação crônica do canal → espessamento do epitélio → estenose gradual → mudança do microbioma → Pseudomonas substitui Staphylococcus/Malassezia.
Otite externa com exsudato em quantidade → pressão na membrana timpânica → micro-rupturas → otite média começa.
Otite média não tratada → erosão da parede óssea da bolha → extensão ao nervo facial → extensão ao ouvido interno (labirinto).
Extensão ao ouvido interno:
- Cóclea: surdez neurossensorial (irreversível, diferente da surdez condutiva da otite média)
- Labirinto vestibular: síndrome vestibular periférica
Síndrome Vestibular Periférica vs. Central
A otite interna causa síndrome vestibular periférica — importante distinguir da central (que indica doença do tronco encefálico):
| Característica | Periférica (otite interna) | Central (tronco encefálico) | |---|---|---| | Nistagmo | Horizontal, direção fixa | Vertical ou rotacional, muda direção | | Déficits de nervos cranianos | Apenas CN VII, CN VIII | Múltiplos NCs | | Propriocepção | Normal | Pode estar alterada | | Estado mental | Alerta | Deprimido | | Síndrome de Horner | Comum | Menos comum | | Vômito | Frequente (labirinto) | Variável |
A inclinação da cabeça ocorre nas duas formas — não diferencia periférica de central.
Pseudomonas na Otite Crônica — O Problema do Biofilme
Pseudomonas aeruginosa é um patógeno oportunista que coloniza ouvidos com otite crônica e é notoriamente difícil de erradicar:
Por que é resistente:
- Produz biofilme polissacarídico — matrix que protege as bactérias dos antibióticos e do sistema imune
- Múltiplos mecanismos de resistência intrínseca
- Adquire resistência rapidamente sob pressão antibiótica
Sensibilidade: praticamente apenas fluoroquinolonas sistêmicas (enrofloxacina, marbofloxacina) e tópicas (ciprofloxacino, polimixina B).
Importância da cultura: o antibiograma é ESSENCIAL em otite crônica com Pseudomonas — resistência às fluoroquinolonas está aumentando.
A Surdez — Condutiva vs. Neurossensorial
| Tipo | Mecanismo | Localização | Reversibilidade | |---|---|---|---| | Condutiva | Transmissão mecânica prejudicada | Ouvido médio (ossículos, exsudato) | Reversível com tratamento | | Neurossensorial | Dano às células ciliadas da cóclea | Ouvido interno | Irreversível |
O cão com otite média tem surdez condutiva ipsilateral — reversível se o tratamento for adequado.
Com extensão ao ouvido interno (otite interna), se a cóclea for danificada, a surdez neurossensorial é permanente.
Prognóstico
| Situação | Prognóstico | |---|---| | Otite média, tratamento precoce | Bom — resolução com antibiótico prolongado | | Síndrome de Horner, otite tratada | Bom — Horner resolve em semanas a meses | | Otite interna (síndrome vestibular) | Moderado — déficits vestibulares podem ser permanentes | | Paralisia do facial, otite tratada | Moderado — pode não resolver completamente | | Surdez condutiva, ouvido médio tratado | Bom — resolução na maioria | | Surdez neurossensorial (ouvido interno) | Reservado — irreversível | | Otite média crônica, cirurgia | Bom em longo prazo |
A mensagem mais importante sobre otite média: é quase sempre consequência de otite externa mal tratada. Cada episódio de otite externa "que o cão sempre tem" é uma oportunidade de evitar a progressão para o ouvido médio — com tratamento correto, cultura/antibiograma e investigação da causa de base.
Perguntas frequentes
O que é otite média e como ela difere da otite externa em cachorro?+
A otite média é a infecção da caixa do tímpano (cavidade do ouvido médio), enquanto a otite externa é a infecção do canal auditivo externo. Anatomia do ouvido do cão: ouvido externo: pavilhão auricular + canal auditivo externo (vertical e horizontal); a membrana timpânica separa o ouvido externo do médio; ouvido médio: a bolha timpânica (bullae tympanicae) — cavidade óssea contendo os ossículos (martelo, bigorna, estribo) e a tuba de Eustáquio; ouvido interno: labirinto membranoso (cóclea — audição; canais semicirculares + utrículo — equilíbrio). Como a otite média se desenvolve: extensão direta de otite externa crônica (mais comum em cães): a otite externa não tratada ou mal tratada causa perfuração da membrana timpânica → infecção invade o ouvido médio; otite externa + membrana timpânica perfurada = porta aberta para o ouvido médio; ascensão via tuba de Eustáquio (mais comum em gatos): infecção de via aérea superior sobe pela tuba; menos comum em cães; pólipo nasofar íngeo; corpo estranho. Agentes causadores: Staphylococcus pseudintermedius, Pseudomonas aeruginosa, Malassezia pachydermatis (levedura), Proteus spp. — os mesmos da otite externa; Pseudomonas é especialmente frequente em otite média crônica e resistente. Raças predispostas à otite crônica (e portanto à otite média): Cocker Spaniel Americano, Basset Hound, Labrador, Shar Pei, Bulldog.
Quais são os sinais de otite média e interna em cachorro?+
Os sinais de otite média vão além da otite externa — são sinais de extensão profunda da infecção. Sinais de otite externa (que persistem): sacudir a cabeça, coçar a orelha; secreção auricular e odor; dor à manipulação do pavilhão; esses sinais existem na otite externa — quando aparecem os próximos sinais, houve extensão para o médio. Síndrome de Horner ipsilateral (o sinal mais específico de otite média): miose (pupila pequena) — paresia do músculo dilatador da íris (simpático); prolapso da terceira pálpebra — relaxamento do músculo retrator do bulbo; ptose (pálpebra superior caída) — paresia do músculo de Müller; enoftalmia (olho afundado) — todos do mesmo lado da orelha afetada; esses sinais ocorrem porque a cadeia simpática cervical passa próxima à bolha timpânica — a inflamação interrompe a sinalização simpática; resolução da síndrome de Horner confirma tratamento adequado. Surdez condutiva: os ossículos do ouvido médio transmitem as vibrações sonoras — com infecção e exsudato no ouvido médio, a condução do som falha; surdez ipsilateral ao ouvido afetado; bilateral se os dois ouvidos afetados. Dor facial/paralisia do nervo facial: o nervo facial passa pelo canal facial próximo à bolha timpânica; paralisia facial ipsilateral: desvio do nariz, lábio caído do lado afetado, olho que não fecha (lagoftalmia); mais raro — indica extensão grave. Sinais de otite interna (extensão à cóclea/labirinto): síndrome vestibular: inclinação da cabeça (head tilt) para o lado afetado; ataxia e queda para o lado afetado; nistagmo (movimentos rítmicos dos olhos); náusea e vômito (labirinto estimulado); em casos bilaterais: 'head bob' (cabeça balança para os dois lados).
Como diagnosticar otite média em cachorro?+
O diagnóstico exige avaliação da membrana timpânica e imagem da bolha timpânica. Otoscopia com vídeo-otoscópio: visualização direta da membrana timpânica; membrana normal: semitransparente, com luz reflexa ('cone de luz') visível; membrana rompida (perfurada): abertura na membrana — pode ser visível; membrana hiperêmica ou opaca: sugere otite média; exsudato na membrana: crosta, secreção; em otite crônica intensa, o canal pode estar estenótico → dificulta a visualização; necessário sedação/anestesia para exame adequado — a dor impede a cooperação do cão. Miringotomia diagnóstica: punção deliberada da membrana com agulha longa — aspira o conteúdo da caixa timpânica para cultura; permite diagnóstico bacteriológico definitivo — essencial para escolha do antibiótico; procedimento realizado sob anestesia geral. Radiografia das bolhas timpânicas (projeção rostrocaudal de boca aberta ou ventrodorsal): esclerose (opacificação) da bolha timpânica — normalmente é radiotransparente (preenchida por ar); espessamento das paredes ósseas da bolha; limitação: sensibilidade de apenas 60-70% — falso negativo frequente em fases iniciais. TC das bolhas timpânicas: exame de eleição para avaliação completa; detecta precocemente a esclerose e o exsudato; avalia a extensão ao ouvido interno, ao nervo facial, ao meato interno; superiore à radiografia para planejamento cirúrgico.
Como tratar otite média em cachorro?+
O tratamento requer acesso ao ouvido médio + antibiótico de longa duração. Lavagem do ouvido médio (miringotomia terapêutica): sob anestesia geral; abertura da membrana timpânica (se não perfurada) e lavagem da caixa timpânica com soro fisiológico morno; aspiração do exsudato; coletar material para cultura antes de lavar; repetir a cada 2-4 semanas se necessário; o canal deve estar limpo e permeável antes de instalar medicação. Antibioticoterapia: duração mínima: 6-8 semanas (ouvido médio é tecido mal vascularizado — antibiótico demora a penetrar); baseada na cultura/antibiograma (o agente do ouvido médio pode ser diferente do ouvido externo); Pseudomonas (comum no ouvido médio): enrofloxacina sistêmica 10-20 mg/kg 1x/dia OU marbofloxacina 2-5,5 mg/kg 1x/dia; Staphylococcus: cefalexina 25-30 mg/kg 2x/dia; infecção por Malassezia: itraconazol ou fluconazol sistêmico. Medicação tópica no ouvido médio: apenas produtos seguros para membrana rompida (sem álcool, sem solventes); fluoroquinolona tópica (ciprofloxacino otic) diluída em soro — colocar diretamente no ouvido médio; CUIDADO: aminoglicosídeos (gentamicina, tobramicina) são ototóxicos — nunca usar em membrana perfurada. Tratamento cirúrgico: osteotomia ventral da bolha (TECA-BO) — ablação do canal auditivo externo + osteotomia da bolha: indicada quando: otite média crônica com destruição extensa, fístulas, osteomielite da bolha, neoplasia de orelha; permite limpeza da bolha e biópsia; prognóstico cirúrgico: bom quando neoplasia excluída.
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