Nefrite Intersticial em Cachorro: Inflamação Renal Difusa
A nefrite intersticial é a inflamação do interstício renal — causa DRC progressiva em cães. Leptospirose é a principal causa de nefrite intersticial aguda no Brasil. Também causada por medicamentos (AINE, aminoglicosídeos), infecções crônicas e doenças imunomediadas. Diagnóstico por biópsia renal. Tratamento da causa + suporte renal.
O Beagle de 4 anos chegou com anorexia há 2 dias, vômito incoercível e prostração. Temperatura: 40,1°C. Mucosas levemente ictéricas. Muito doloroso à palpação abdominal cranial, especialmente região renal esquerda.
Creatinina: 8,4 mg/dL. BUN: 190 mg/dL. Urina: densidade 1.010, 3+ proteína, cilindrúria granulosa. Trombocitopenia: 68.000/µL.
Leptospirose com nefrite intersticial aguda grave e oligúria — internação, penicilina IV, fluidoterapia intensiva.
O Rim e o Interstício — Uma Perspectiva Funcional
Anatomia do Nefron e o Interstício
O néfron é a unidade funcional do rim — cada cão tem 200.000 a 800.000 néfrons por rim. Cada néfron consiste de:
- Glomérulo (filtração)
- Túbulo proximal, alça de Henle, túbulo distal (reabsorção e secreção)
- Ducto coletor
O interstício é o tecido entre os túbulos — contém:
- Fibroblastos (produtores de eritropoietina)
- Vasos peritubulares (nutrição dos túbulos)
- Células imunes residentes (macrófagos, linfócitos)
- Matriz extracelular (colágeno, fibronectina)
Na nefrite intersticial: a inflamação destrói essa arquitetura de suporte → os túbulos ficam sem nutrição adequada → necrose tubular → perda de néfrons → redução progressiva do filtrado glomerular.
A Fibrose — O Inimigo Lento
A inflamação crônica no interstício ativa os fibroblastos → produção excessiva de colágeno → fibrose intersticial.
A fibrose renal é irreversível — os néfrons substituídos por fibrose não voltam. É por isso que DRC progressa mesmo após controle da inflamação: a fibrose já estabelecida continua comprimindo e sufocando os néfrons remanescentes.
O ciclo vicioso da DRC: Perda de néfrons → néfrons remanescentes hipertrofiam (hiperfiltração) → hipertensão glomerular → mais esclerose glomerular → mais perda de néfrons.
Leptospirose — A Nefrite Bacteriana Mais Urgente do Brasil
O Agente
Leptospira interrogans é uma espiroqueta que infecta cães via contato da mucosa ou pele abrasada com água ou solo contaminado por urina de roedores infectados.
Sorovares mais comuns no Brasil:
- Icterohaemorrhagiae (roedores — mais virulento)
- Canicola (cães portadores)
- Copenhageni
- Grippotyphosa
- Pomona
A espiroqueta entra na corrente sanguínea → bacteremia → lesão de múltiplos órgãos:
- Rins: nefrite intersticial aguda (nefrose leptospiral)
- Fígado: hepatite (icterícia em casos graves)
- Pulmão: síndrome hemorrágica pulmonar leptospiral
- Olhos: uveíte leptospiral (pode ocorrer semanas após a infecção aguda)
Por que Oligúria É Tão Grave
A oligúria (diurese < 0,5 mL/kg/h) indica que o rim está em falência — não está filtrando adequadamente.
Consequências da oligúria:
- Acúmulo de toxinas urêmicas → uremia → encefalopatia, vômito, anorexia
- Hipercalemia → arritmias cardíacas fatais
- Acidose metabólica
- Sobrecarga de volume com os fluidos terapêuticos
A anúria (sem produção de urina mesmo com hidratação adequada) é a apresentação mais grave — mortalidade muito alta sem diálise.
Diálise Peritoneal — Quando Tudo Mais Falha
Em cão com anúria refratária a fluidos e furosemida:
Técnica:
- Cateter peritoneal colocado na cavidade abdominal
- Solução de diálise introduzida (1,5-3 L por sessão)
- Mantida por 20-30 minutos (tempo de equilíbrio)
- Drenada — carrega consigo as toxinas urêmicas por gradiente osmótico/difusão
- Repetir continuamente (24h/dia) por 3-7 dias
Objetivo: "lavar" o sangue através do peritônio como filtro, até que os rins recuperem função suficiente.
Disponível em: hospitais veterinários de referência — não é rotina na maioria das clínicas.
Leptospirose como Zoonose — A Responsabilidade do Veterinário
A leptospirose canina é zoonose de alta relevância no Brasil — especialmente em áreas de enchente.
Risco de transmissão do cão para o humano:
- A urina do cão infectado contém leptospiras durante semanas a meses
- Contato direto com a urina sem proteção = risco de infecção humana
- Veterinários, enfermeiros veterinários e tutores são grupos de risco
Orientação ao tutor do cão com leptospirose:
- Usar luvas descartáveis para limpar a urina do cão
- Não lavar o cão no banheiro de casa — usar área externa
- Desinfectar o local com hipoclorito de sódio 1%
- Consultar médico se desenvolver febre, dor muscular ou icterícia nas próximas 2-4 semanas
- Notificar a Vigilância Epidemiológica municipal (leptospirose é doença de notificação compulsória no Brasil)
A Nefrotoxicidade por AINE — Um Problema Prevenível
Os AINE (carprofeno, meloxicam, cetoprofeno, ácido acetilsalicílico) são amplamente usados e podem causar nefrite intersticial por mecanismo diferente:
Mecanismo: as prostaglandinas PGE2 e PGI2 mantêm a vasodilatação das arteríolas aferentes dos glomérulos. Na hipovolemia ou hipotensão, as prostaglandinas são essenciais para manter a perfusão renal.
AINE bloqueia as prostaglandinas → vasoconstrição aferente → isquemia glomerular e tubular → NIA.
Grupos de risco para nefrotoxicidade por AINE:
- Cães desidratados
- Cães com DRC prévia
- Cães idosos (menor reserva renal)
- Cães em anestesia geral (hipotensão)
- Combinação com aminoglicosídeos
Regra prática: nunca prescrever AINE em cão com qualquer grau de DRC sem monitorização renal seriada.
Prognóstico
| Causa | Prognóstico com Tratamento Adequado | |---|---| | Leptospirose, diurese preservada | Bom — recuperação em 2-4 semanas | | Leptospirose com oligúria | Moderado — 50-70% de recuperação | | Leptospirose com anúria | Reservado — < 30% sem diálise | | AINE, suspenso precocemente | Moderado a bom | | Pielonefrite crônica, tratada | Moderado — risco de fibrose | | NIC estabelecida, DRC | Reservado — progressão a longo prazo | | NIA imunomediada | Moderado a bom com imunossupressão |
A nefrite intersticial aguda pode ser reversível — a intervenção precoce é determinante. A nefrite crônica fibrosante é irreversível, mas progressão pode ser retardada com manejo adequado da DRC.
Perguntas frequentes
O que é nefrite intersticial em cachorro e como difere de outras nefropatias?+
A nefrite intersticial é a inflamação do interstício renal — o tecido de suporte entre os túbulos renais (diferente da glomerulonefrite, que afeta os glomérulos, e da nefrose tubular, que afeta os túbulos diretamente). O interstício renal é composto de fibroblastos, células de suporte, vasos e células imunes residentes. Na nefrite intersticial, células inflamatórias (linfócitos, plasmócitos, neutrófilos ou eosinófilos) infiltram esse interstício → inflamação → fibrose → perda de néfrons. Tipos por tempo de evolução: nefrite intersticial aguda (NIA): instalação súbita; geralmente reversível se causa identificada e tratada; leptospirose, medicamentos, infecção pielonefrítica; nefrite intersticial crônica (NIC): progressão lenta; causa fibrose e DRC; frequentemente a 'via final' de múltiplas nefropatias crônicas. Causas: infecciosas (mais comuns em cães no Brasil): leptospirose — a principal causa de nefrite intersticial aguda no Brasil; pielonefrite ascendente (E. coli, Proteus); leishmaniose (nefrite tubulointersticial); ehrlichiose, anaplasmose; medicamentosas (AINE e aminoglicosídeos): AINE: bloqueiam prostaglandinas → vasoconstricção das arteríolas aferentes → isquemia tubular e intersticial; aminoglicosídeos (gentamicina, amicacina): acúmulo nos túbulos proximais → nefrotoxicidade direta; imunomediadas: nefrite tubulointersticial imunomediada → resposta contra antígenos tubulares; hipercalcemia crônica: depositação de cálcio no interstício (nefropatia hipercalcêmica).
Quais são os sinais de nefrite intersticial em cachorro?+
Os sinais dependem da agudez, extensão e causa subjacente. Nefrite intersticial aguda (ex: leptospirose): instalação súbita em cão jovem a adulto; anorexia e vômito intenso; dor lombar — o cão se esquiva à palpação da região renal; oligúria ou anúria — produção de urina muito reduzida (pior sinal — indica lesão renal grave); icterícia (se leptospirose hepática associada — síndrome de Weil); mucosas ictéricas; febre e prostração; hemorragias (leptospirose pode causar coagulopatia); urina muito escura (hemoglobinúria ou bilirrubinúria). Nefrite intersticial crônica — sinais de DRC: poliúria e polidipsia (PU/PD): o rim perde a capacidade de concentrar urina → produz urina diluída em grande quantidade → o cão bebe mais para compensar; perda de peso progressiva; anorexia e vômito — pela uremia (toxinas urêmicas irritam o trato gastrointestinal); letargia crescente; ulceração oral (urêmica — amônia irrita a mucosa oral); mucosas pálidas (anemia da DRC — EPO reduzida); fraqueza, tremores em estágios avançados. Sinais específicos da causa: leptospirose: febre, icterícia, anorexia aguda, hemorragias, mialgias (cão reluta ao caminhar); pielonefrite: febre, dor lombar, poliúria/polidipsia; medicamentosa: início após início de AINE ou aminoglicosídeo.
Como diagnosticar nefrite intersticial em cachorro?+
O diagnóstico começa com marcadores de função renal e imagem, e é confirmado por biópsia. Marcadores de função renal: creatinina sérica: eleva quando > 75% dos néfrons estão comprometidos — marcador tardio; ureia sérica: eleva proporcionalmente à creatinina, mas mais influenciada pela dieta; SDMA (dimetil-arginina simétrica): eleva quando > 40% dos néfrons comprometidos — marcador precoce de DRC; creatinina urinária: ureia/creatinina ratio; urinálise: densidade urinária < 1.030 (perda de concentração); proteinúria (RPCU > 0,5 sugere doença glomerular ou tubular); cilindrúria (leucocitários, granulares) na nefrite; sedimento com leucócitos em pielonefrite/NIA; hemograma: anemia não regenerativa (DRC crônica); leucocitose (infecção bacteriana associada); trombocitopenia (leptospirose); Ultrassom renal: rins aumentados e hipoecoicos na NIA aguda; rins pequenos e hiperecóicos na NIC crônica (fibrose); irregularidade cortical em DRC avançada; pielonefrite: dilatação da pelve renal (pielectasia), conteúdo ecogênico. Investigação etiológica: sorologia para leptospirose: MAT (microaglutinação = gold standard) — queda de 4x entre amostras confirma; leptospirose PCR em urina (mais sensível na fase aguda); leishmaniose: RIFI/ELISA; urocultura: infecção bacteriana das vias urinárias; biópsia renal: guiada por ultrassom — rins ecoicos ou com lesão focal; confirma a histopatologia; guia prognóstico (quantidade de fibrose).
Como tratar nefrite intersticial em cachorro?+
O tratamento prioriza a causa de base + suporte renal. Leptospirose — emergência: penicilina G cristalina IV 25.000-40.000 UI/kg IV 4-6x/dia — fase bacterêmica (primeiras 48-72h); amoxicilina IV depois → VO por 14 dias no total; doxiciclina 10 mg/kg/dia VO por 14 dias: elimina o portador renal ('fase portadora'); preferida após a fase aguda; fluidoterapia intensiva IV: corrigir desidratação e desequilíbrios eletrolíticos; na oligúria: furosemida IV para estimular diurese (após hidratação adequada — nunca antes); diálise peritoneal: em anúria refratária a fluidos e furosemida — salva vidas; transplante de rim: não disponível no Brasil em cães. Nefrite por AINE ou aminoglicosídeo: suspensão imediata da droga causadora; fluidoterapia de suporte; se oligúria: furosemida IV + dopamina (dose renal: 2-5 µg/kg/min) — controverso; a função renal pode recuperar parcialmente após suspensão do tóxico. Pielonefrite: antibiótico baseado em cultura de urina (urocultura + antibiograma): duração mínima 4-6 semanas (o rim tem difícil penetração antibiótica); enrofloxacina ou amoxicilina-clavulanato — boa penetração renal; imagem de controle após tratamento (ultrassom). Nefrite intersticial crônica (DRC estabelecida): dieta renal: redução de proteína, fósforo, sódio; phosphate binders (hidróxido de alumínio, sevelamer): reduzem a absorção de fósforo intestinal; IECA (enalapril): neuroprotetor — reduz proteinúria e progressão; eritropoietina (epoetina) SC: se anemia grave (Hct < 20%); amlodipina: para hipertensão renal; RPCU seriado: monitorar proteinúria.
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