Mieloma Múltiplo em Cachorro: Neoplasia de Plasmócitos — Diagnóstico e Quimioterapia
O mieloma múltiplo é uma neoplasia maligna de plasmócitos que invade a medula óssea — produz proteína M (paraproteína) em excesso. Causa dor óssea, hipercalcemia, anemia e insuficiência renal. Pastor Alemão é predisposto. Quimioterapia com melfalan e prednisona oferece remissão prolongada.
O cão de 9 anos chega com queixa de "dor nas costas" que não melhora com anti-inflamatório. O veterinário pede uma bioquímica básica e descobre hipercalcemia. Pede a eletroforese de proteínas e encontra um pico monoclonal alto na região gama.
Esses dois achados juntos — hipercalcemia + pico monoclonal — são a combinação clássica do mieloma múltiplo até prova em contrário.
Biologia do Mieloma Múltiplo
Origem — Os Plasmócitos
Os plasmócitos são células B diferenciadas do sistema imune adaptativo — sua função é produzir anticorpos (imunoglobulinas) em resposta a antígenos específicos.
Em condições normais:
- Cada clone de plasmócito produz um anticorpo específico para um antígeno específico
- A diversidade de clones = diversidade de anticorpos = imunidade humoral eficiente
No mieloma:
- Um único clone de plasmócito se torna maligno e prolifera de forma descontrolada
- Esse clone produz quantidades maciças de uma única imunoglobulina monoclonal — a paraproteína
- A paraproteína é funcionalemnte inútil (não reconhece antígenos específicos) mas ocupa espaço no sangue
- Os plasmócitos normais (produtores de anticorpos úteis) são substituídos → imunossupressão
O Que a Proteína M Faz
No sangue:
- Aumenta a viscosidade sanguínea → síndrome da hiperviscosidade
- Interfere com a coagulação
- Suprime a produção de imunoglobulinas normais → infecções recorrentes
Nos rins:
- As cadeias leves da imunoglobulina (cadeias kappa ou lambda, menores que a imunoglobulina completa) são filtradas pelos glomérulos
- Precipitam nos túbulos renais → cilindros tubulares → obstrução → "rim de mieloma" → insuficiência renal
Por Que o Mieloma Destrói Osso
Os plasmócitos malignos produzem citocinas (RANK-L, MIP-1α, IL-6) que ativam osteoclastos — células que degradam o osso.
Resultado:
- Lesões osteolíticas ("buracos") no osso esponjoso das vértebras, costelas, úmero, fêmur
- Liberação de cálcio → hipercalcemia
- Fragilidade óssea → fraturas patológicas
Diagnóstico
Critérios Diagnósticos
O diagnóstico requer pelo menos dois de quatro critérios:
1. Pico monoclonal na eletroforese de proteínas:
- Padrão de eletroforese sérica: região das gamaglobulinas com pico estreito e elevado ("spike") em vez do padrão normal de curva distribuída
- IgA, IgG ou IgM monoclonal — em cães, IgA e IgG são os mais comuns
- Este é o achado mais diagnóstico — em cão com hipercalcemia + dor óssea + pico monoclonal, o diagnóstico é quase certo
2. Plasmócitos na medula óssea:
- Aspirado de medula óssea (esterno, crista ilíaca): > 5-10% de plasmócitos = suspeita; > 20% = diagnóstico
- Mieloma é diagnóstico quando a maioria dos plasmócitos tem morfologia plasmocitomática atípica
3. Lesões osteolíticas:
- Radiografia do esqueleto (coluna vertebral, crânio, úmero, fêmur): áreas de radiolucência ("buracos") no osso esponjoso
- Não confundir com osteoporose difusa — as lesões de mieloma são focais, circulares, bem demarcadas
4. Proteína de Bence-Jones urinária:
- Cadeias leves da imunoglobulina monoclonal detectadas na urina
- Eletroforese de urina ou imunoeletroforese urinária
Algoritmo Diagnóstico Prático
- Suspeita inicial: cão adulto idoso com PU/PD + dor óssea + anemia
- Bioquímica: hipercalcemia + uremia (frequentes)
- Eletroforese de proteínas séricas: pico monoclonal → diagnóstico presuntivo
- Aspirado de medula óssea: confirma infiltração por plasmócitos
- Radiografia esquelética: lesões osteolíticas
- Urinálise + eletroforese urinária: proteína de Bence-Jones
Diagnósticos Diferenciais
| Condição | Como Diferencia | |---|---| | Plasmocitoma solitário | Tumor único sem generalização na medula | | Linfoma | Linfadenopatia, imunofenótipo diferente na biópsia | | Hiperglobulinemia por leishmaniose | Eletroforese: pico policlonal (difuso), não monoclonal | | Ehrlichiose crônica | Hiperglobulinemia policlonal; sorologia positiva | | Hipercalcemia por linfoma | Ausência de pico monoclonal |
Importante: hiperglobulinemia (proteínas totais elevadas) com pico policlonal na eletroforese = doença infecciosa ou inflamatória crônica (leishmaniose, erliquiose). Pico monoclonal = mieloma ou plasmocitoma até prova em contrário.
Complicações
Síndrome da Hiperviscosidade
Quando a proteína M eleva muito a viscosidade do sangue:
- Cegueira súbita — vasos retinianos bloqueados, descolamento de retina
- Sangramento — epistaxe, sangramento gengival, petéquias (proteína M interfere com plaquetas)
- Sinais neurológicos — desorientação, ataxia, convulsões
- Insuficiência cardíaca — o coração trabalha contra sangue espesso
Emergência: hiperviscosidade sintomática com cegueira ou hemorragia.
Tratamento emergencial: plasmaférese (remoção do plasma com proteína M) ou flebotomia (remoção de sangue total) como medida paliativa imediata.
Hipercalcemia
Cálcio sérico > 12 mg/dL causa:
- Poliúria e polidipsia (interfere na concentração renal)
- Constipação, vômito, anorexia
- Fraqueza muscular
- Arritmias cardíacas
- Calcificação renal → insuficiência renal irreversível
Insuficiência Renal
Dupla causa no mieloma:
- Proteína de Bence-Jones nos túbulos → obstrução
- Hipercalcemia → calcificação renal
Reversível no início com tratamento, mas pode ser irreversível se prolongado.
Fraturas Patológicas
Lesões osteolíticas graves → fratura de vértebra → compressão medular → paraplegia.
Luxações patológicas também possíveis.
Tratamento
Protocolo Principal: Melfalan + Prednisona
Primeira linha de tratamento para mieloma múltiplo canino.
Melfalan (agente alquilante — alkylating agent):
- Alquila o DNA das células plasmocitárias → bloqueia a replicação
- Dose: 0,05-0,1 mg/kg VO 1x/dia por 10 dias, depois 0,05 mg/kg em dias alternados
- Alternativa: 7 mg/m² VO 1x/dia por 5 dias, repetir a cada 3 semanas
- Monitorizar: mielossupressão (hemograma a cada 2-3 semanas)
Prednisona:
- 0,5-1 mg/kg VO 1x/dia por 10-14 dias, depois 0,5 mg/kg em dias alternados
- Efeito antiproliferativo sobre os plasmócitos
- Adjuvante para hipercalcemia
Taxa de resposta:
- Remissão completa (proteína M indetectável): 40-50%
- Remissão parcial (> 50% de redução da proteína M): 30-40%
- Sem resposta: 10-20%
Sobrevida mediana em respondedores: 540 dias (aproximadamente 18 meses) — resposta notável para uma neoplasia disseminada.
Manejo da Hipercalcemia
Urgente quando cálcio > 14 mg/dL ou sintomático:
Fluidos IV: NaCl 0,9% — aumenta a excreção urinária de cálcio (diurese salina).
Pamidronato dissódico (bisfosfonato):
- 1-2 mg/kg IV em infusão lenta (2-4 horas)
- Inibe os osteoclastos → reduz a liberação de cálcio do osso
- Efeito em 24-72 horas
Furosemida (após hidratação adequada): aumenta a excreção renal de cálcio.
Corticosteroides: adjuvante (reduzem a absorção intestinal de cálcio e têm efeito anti-mieloma).
Manejo da Dor Óssea
- AINEs (meloxicam, carprofeno)
- Opioides em casos de dor moderada a grave
- Radioterapia paliativa localizada: para lesões dolorosas específicas (especialmente vértebras com risco de compressão medular)
Monitorização da Resposta
A eletroforese de proteínas é o marcador de resposta principal:
- Realizada mensalmente nas primeiras fases do tratamento
- Redução do pico monoclonal = resposta ao tratamento
- Reaumento = recidiva → considerar segundo protocolo
Hemograma: monitorizar mielossupressão (neutropenia, trombocitopenia) pelo melfalan.
Prognóstico
| Situação | Sobrevida Mediana | |---|---| | Respondedores ao tratamento | 18 meses (540 dias) | | Não respondedores | Semanas a poucos meses | | Com insuficiência renal grave ao diagnóstico | Reservado — pior prognóstico | | Com compressão medular | Depende da recuperação neurológica |
Fatores de bom prognóstico:
- Resposta ao melfalan nas primeiras semanas
- Sem insuficiência renal estabelecida
- Hipercalcemia reversível
Fatores de mau prognóstico:
- Insuficiência renal avançada (ureia > 100 mg/dL)
- Hipercalcemia refratária
- Síndrome de hiperviscosidade grave
- Compressão medular com paraplegia
O mieloma múltiplo é um dos tumores hematológicos com melhor resposta à quimioterapia em cães — ao contrário de muitos tumores sólidos, o melfalan oferece remissão prolongada e qualidade de vida mantida em cães que respondem ao tratamento.
Perguntas frequentes
O que é mieloma múltiplo em cachorro?+
O mieloma múltiplo é uma neoplasia maligna originada de plasmócitos — as células do sistema imune responsáveis pela produção de anticorpos (imunoglobulinas). No mieloma, um clone de plasmócitos malignos prolifera de forma descontrolada na medula óssea, produzindo uma imunoglobulina monoclonal disfuncional em excesso — chamada proteína M ou paraproteína. Essa proteína monoclonal é detectável na eletroforese de proteínas séricas como um pico estreito e elevado (padrão chamado de 'spike' ou 'pico monoclonal'). O mieloma tem quatro consequências principais: 1) Destruição óssea — os plasmócitos malignos ativam osteoclastos → lesões osteolíticas (buracos nos ossos) → dor óssea e fraturas patológicas; 2) Hipercalcemia — a destruição óssea libera cálcio na corrente sanguínea; 3) Anemia — a medula óssea infiltrada tem menos espaço para eritrócitos; 4) Insuficiência renal — a proteína monoclonal precipita nos túbulos renais → 'rim de mieloma'.
Quais são os sinais de mieloma múltiplo em cachorro?+
Os sinais são variáveis e frequentemente inespecíficos no início. Dor e problemas musculoesqueléticos: dor óssea que piora com o movimento — o cão reluta a correr, subir escadas; claudicação de causa não aparente; fraturas patológicas (fraturas sem trauma adequado — o osso quebra com uma simples guinada). Sinais de hipercalcemia: polidipsia e poliúria (PU/PD) — os primeiros sinais frequentemente; fraqueza muscular, letargia; vômito e anorexia; arritmias cardíacas. Sinais de anemia: mucosas pálidas, intolerância ao exercício, taquicardia, fraqueza. Sinais de insuficiência renal: uremia — azotemia, vômito, halitose urêmica. Sinais neurológicos: paraparesia ou paraplegia — quando lesões osteolíticas na coluna vertebral comprimem a medula espinal; síndrome da hiperviscosidade — a proteína M em excesso espessa o sangue → cegueira súbita, sangramento nas mucosas (epistaxe, sangramento gengival), déficits neurológicos. Raças predispostas: Pastor Alemão tem maior incidência; Poodle, Golden Retriever também documentados. Média de idade: 8-9 anos.
Como é feito o diagnóstico de mieloma múltiplo em cachorro?+
O diagnóstico requer a presença de pelo menos dois de quatro critérios diagnósticos (critérios de Matus modificados): 1) Pico monoclonal na eletroforese de proteínas séricas ou urinárias (proteína de Bence-Jones na urina); 2) Infiltração de plasmócitos na medula óssea — aspirado de medula óssea com > 5-20% de plasmócitos; 3) Lesões ósseas osteolíticas na radiografia; 4) Proteína de Bence-Jones na urina (cadeias leves de imunoglobulina — filtradas e detectadas na urina). Exames fundamentais: eletroforese de proteínas séricas — o 'pico monoclonal' (spike) na região gama é o achado mais diagnóstico; bioquímica: cálcio elevado, ureia e creatinina elevadas (renal); hemograma: anemia normocítica/normocrômica, trombocitopenia possível; aspirado de medula óssea: plasmócitos em excesso (> 5-10% = suspeita, > 20% = diagnóstico); radiografia esquelética: lesões osteolíticas ('buracos') em vértebras, costelas, úmero, fêmur; urinálise: proteinúria por Bence-Jones.
Mieloma múltiplo em cachorro tem cura? Qual é o tratamento?+
O mieloma múltiplo em cães não tem cura — mas o tratamento quimioterápico induz remissão prolongada com boa qualidade de vida na maioria dos casos. Protocolo de primeira linha: Melfalan + Prednisona. Melfalan (agente alquilante): 0,05-0,1 mg/kg VO 1x/dia por 10 dias, depois 1x a cada 3 semanas; alternativa: 7 mg/m² VO 1x/dia por 5 dias a cada 3 semanas. Prednisona: 0,5-1 mg/kg VO 1x/dia por 10 dias, depois em dias alternados. Taxa de resposta: 40-50% de remissão completa (proteína M indetectável), 30-40% de remissão parcial (> 50% de redução) → no total, 70-90% dos cães respondem ao tratamento. Sobrevida mediana: 540 dias (cães que respondem) vs. semanas (sem tratamento). Manejo da hipercalcemia: fluidos IV (NaCl 0,9%) + pamidronato dissódico (1-2 mg/kg IV em infusão lenta) — bisfosfonato que inibe os osteoclastos; furosemida após hidratação. Manejo da síndrome de hiperviscosidade: plasmaférese (disponível em centros especializados) ou flebotomia (remoção de sangue) como medida emergencial. Monitorização: eletroforese mensal para avaliar resposta ao tratamento.
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