Saúde

Luxação Coxofemoral em Cachorro: Quadril Deslocado — Redução e Cirurgia

A luxação coxofemoral é o deslocamento da cabeça do fêmur para fora do acetábulo — causa claudicação aguda intensa após trauma. A direção craniodorsal é a mais comum. Redução fechada (sem cirurgia) é a primeira tentativa. Cirurgia indicada quando a redução fechada falha ou há displasia associada.

27 de maio de 2026·5 min de leitura

A tutora viu o momento: o cão pulou do sofá, escorregou ao pousar e soltou um grito. Imediatamente parou de apoiar o membro posterior direito — levantava o pé do chão completamente, andando em três patas.

Ao exame, o veterinário notou o grande trocânter deslocado dorsalmente — o membro estava em rotação interna. Radiografia confirmou: luxação coxofemoral craniodorsal.

Anatomia da Articulação Coxofemoral

Estabilizadores da Articulação do Quadril

A articulação do quadril (coxofemoral) é do tipo "bola e encaixe" (ball-and-socket joint) — a cabeça do fêmur (esférica) encaixa no acetábulo (côncavo):

Ligamento redondo: ligamento curto que conecta a fóvea da cabeça femoral ao fundo do acetábulo. É o primeiro estabilizador a romper durante a luxação — sua ruptura é o evento inicial que permite o deslocamento.

Cápsula articular: envoltório fibroso que envolve toda a articulação. Ruptura parcial ou completa durante a luxação.

Musculatura glútea e da coxa: os músculos periarticulares são os estabilizadores dinâmicos — mantêm a articulação alinhada durante o movimento. Após a luxação, esses músculos ficam em espasmo.

A Luxação Craniodorsal — Por que é a Mais Comum

Na maioria dos traumas (atropelamento), a força age com o membro em semiflexão e abdução. Esse posicionamento favorece o deslocamento craniodorsal — a cabeça femoral se desloca para cima e para a frente do acetábulo.

Anatomia do deslocamento craniodorsal:

  • A cabeça femoral fica posicionada acima e cranialmente ao acetábulo
  • O membro fica aparentemente mais curto (a cabeça não está no encaixe, reduzindo o comprimento efetivo do membro)
  • O grande trocânter fica mais dorsal (sobe junto com a cabeça)
  • O membro fica em rotação interna e adução — pé "virado para dentro"

Diagnóstico

Exame Ortopédico — Sinais Específicos

Teste do triângulo anatômico: Normalmente, três pontos formam um triângulo equilátero: grande trocânter, tuberosidade isquiática, e espinha ilíaca dorsal.

Na luxação craniodorsal, o grande trocânter se move cranialmente — o triângulo fica assimétrico comparado ao lado contralateral.

Palpação do grande trocânter: Com o cão em decúbito lateral, comparar a posição do grande trocânter em ambos os lados. Na luxação, o trocânter afetado está mais elevado (mais dorsal) que o normal.

Teste de Ortolani: Embora seja classicamente descrito para displasia, pode ajudar a distinguir luxação de outras lesões.

Radiografia

Projeção VD (ventrodorsal) e lateral:

Projeção VD: a cabeça femoral aparece claramente fora do acetábulo — craniodorsal (mais cranial e dorsal) ou caudoventral (mais ventral).

Importante: sempre avaliar o acetábulo na radiografia — displasia coxofemoral coexistente muda completamente o plano de tratamento.

Avaliação da displasia: acetábulo raso, cabeça femoral aplanada, subluxação bilateral → a redução fechada tem prognóstico muito pior.

Redução Fechada — Técnica em Detalhe

Preparação

Anestesia geral obrigatória: o relaxamento muscular total é essencial — é impossível reduzir com o cão consciente (dor + espasmo muscular).

Adicionar relaxante muscular: metocarbamol ou benzodiazepínico durante a indução — reduz o espasmo.

Técnica de Redução Craniodorsal

A manobra mais usada é a técnica de "alavanca":

  1. Cão em decúbito dorsal, membro afetado para cima
  2. Um ajudante estabiliza a pelve
  3. O veterinário faz tração axial do membro (puxa o fêmur para baixo, afastando a cabeça do rim do acetábulo)
  4. Simultaneamente, rotação externa do membro
  5. Ao sentir a cabeça "liberada", empurra caudalmente (em direção ao acetábulo) + rotação interna
  6. Sensação de "clique" ou "pop" quando a cabeça entra no acetábulo

Bandagem de Ehmer — Manutenção da Redução

Após confirmação radiográfica da redução, a bandagem de Ehmer mantém o quadril reduzido:

Posição: o membro é fixado em flexão do quadril + abdução + rotação interna. Essa posição mantém a cabeça femoral centrada no acetábulo.

Materiais: atadura de gaze, algodão, faixa elástica.

Cuidados:

  • Verificar diariamente a circulação do membro (pé frio, edema = bandagem muito apertada)
  • Não permitir que o cão mastigue a bandagem
  • Retirada após 7-14 dias

Após remoção da bandagem: repouso estrito por 3-4 semanas; exercícios progressivos após esse período; radiografias de controle.

Excisão Artroplastia da Cabeça Femoral (FHO)

O Que é a FHO

A FHO é a remoção cirúrgica da cabeça e do colo do fêmur. Parece radical — mas tem boa funcionalidade:

Após a FHO, o fêmur é mantido no lugar pela musculatura periarticular. Com o tempo, forma-se uma pseudo-articulação fibrosa — sem osso, apenas tecido fibroso entre o fêmur e o acetábulo.

Por que Funciona em Cães Pequenos

Em humanos, a FHO sem substituição protética leva a claudicação permanente e dor — porque nosso peso corporal é grande demais para uma pseudo-articulação suportar.

Em cães pequenos (< 15-20 kg), a massa muscular periarticular e o peso corporal menor permitem que a pseudo-articulação funcione adequadamente. A claudicação residual é mínima em cães com boa musculatura.

Fisioterapia pós-FHO é fundamental:

  • Iniciar movimento passivo imediatamente (24-48h após cirurgia)
  • Hidroterapia em 2-3 semanas
  • Fortalecimento muscular progressivo
  • A musculatura é o que sustenta a pseudo-articulação — quanto melhor a musculatura, melhor o resultado

Prognóstico

| Situação | Prognóstico | |---|---| | Redução fechada bem-sucedida, sem displasia | Bom — 40-50% sem recidiva com bandagem | | Toggle pin em cão sem displasia | Bom — 70-80% sucesso | | FHO em cão < 20 kg | Bom — retorno funcional em maioria | | FHO em cão > 25 kg | Moderado — claudicação residual mais frequente | | Prótese total de quadril | Excelente — melhor resultado funcional em grandes | | Luxação em displasia grave não corrigida | Reservado — recidiva frequente |

A luxação coxofemoral é urgência ortopédica — quanto mais rápido o tratamento, maior a chance de sucesso da redução fechada e menor o dano articular. Todo cão que para de apoiar um membro posterior após trauma deve ser examinado com urgência.

Perguntas frequentes

O que é luxação coxofemoral em cachorro?+

A luxação coxofemoral é o deslocamento da cabeça do fêmur para fora do acetábulo — a articulação do quadril. É a luxação articular mais comum em cães. A articulação coxofemoral normal é mantida no lugar por: ligamento redondo (ligamento da cabeça do fêmur) — conecta diretamente a cabeça femoral ao acetábulo; cápsula articular — envolve toda a articulação; musculatura periarticular — músculos glúteos e da coxa. No trauma, essas estruturas se rompem e a cabeça do fêmur sai do acetábulo. Direções de luxação: craniodorsal — a mais comum (90% dos casos): a cabeça do fêmur se desloca para cima e para frente; caudoventral — menos comum (10%): a cabeça se desloca para baixo e para dentro. Causas: atropelamento (causa mais frequente em cães); queda de altura; trauma direto intenso; displasia coxofemoral grave — a articulação displásica é mais propensa à luxação mesmo com traumas menores.

Quais são os sinais de luxação coxofemoral em cachorro?+

A luxação coxofemoral causa claudicação intensa e aguda — o tutor frequentemente vê o momento do trauma. Claudicação aguda: o cão para de apoiar o membro posterior imediatamente após o trauma; claudicação de grau IV ou V (não apoia o membro no chão); em luxação craniodorsal, o membro afetado parece mais curto; em luxação caudoventral, o membro parece mais longo e em abdução (afastado do corpo). Sinais clínicos ao exame: dor intensa à manipulação do quadril; o membro está em posição anormal: na luxação craniodorsal — rotação interna e adução do membro; crepitação (estralo) ao tentar mover o quadril — mas cuidado ao manipular (dor intensa); grande trocânter em posição anormal — em luxação craniodorsal, o trocânter está mais dorsal e cranial que o normal; o triângulo de referência anatômica (trocânter maior-tuberosidade isquiática-espinha ilíaca dorsal) está alterado — teste diagnóstico importante. Urgência: luxação coxofemoral é urgência ortopédica — quanto mais tempo deslocada, maior o dano à cartilagem articular e mais difícil a redução; idealmente tratar nas primeiras 24-48h.

Como é feita a redução da luxação coxofemoral em cachorro?+

O tratamento inicial é a tentativa de redução fechada (sem cirurgia) sob anestesia geral. Redução fechada — técnica de Ehmer: o cão é anestesiado e relaxado completamente; técnica de alavanca/tração: tração do membro para afastar a cabeça femoral do acetábulo; rotação e posicionamento para alinhar a cabeça com o acetábulo; liberação rápida — a cabeça 'clica' de volta ao acetábulo; confirmação: radiografia pós-redução para confirmar posicionamento correto. Após redução fechada bem-sucedida: bandagem de Ehmer: tipagem especial do membro posterior em flexão e abdução; mantém o quadril reduzido por 7-14 dias; o membro fica 'enrolado' de forma que a cabeça femoral seja mantida no acetábulo; repouso absoluto por 3-4 semanas após remoção da bandagem; radiografias de controle para confirmar manutenção. Taxa de sucesso da redução fechada: 40-50% — luxação mantida sem recidiva; fatores que pioram o prognóstico da redução fechada: displasia coxofemoral coexistente, tempo longo desde a luxação (> 48-72h), luxações prévias. Quando a redução fechada falha (recidiva dentro de dias): indicação de tratamento cirúrgico.

Quando é necessária cirurgia para luxação coxofemoral em cachorro?+

A cirurgia é indicada quando a redução fechada falha ou não é viável. Indicações para cirurgia: falha da redução fechada (recidiva após bandagem); tempo desde a luxação > 72h (redução fechada mais difícil); displasia coxofemoral grave coexistente (o quadril displásico vai recidivar); fraturas acetabulares associadas que impedem a manutenção da redução. Técnicas cirúrgicas: reconstrução do ligamento redondo sintético: substituição do ligamento redondo rompido por sutura protética; mantém a articulação estabilizada durante a cicatrização da cápsula; mais indicada em cães jovens sem displasia; toggle pin (pino transbacetabular): pino colocado pelo acetábulo, com fio de sutura conectado à cabeça femoral; funciona como substituto do ligamento redondo; boa taxa de sucesso (70-80%). Excisão artroplastia da cabeça femoral (FHO — Femoral Head Ostectomy): remoção cirúrgica da cabeça e do colo do fêmur; sem articulação mecânica — uma pseudo-articulação fibrosa se forma; indicada em cães de pequeno e médio porte (< 20 kg) ou quando a articulação está muito danificada; resultado funcional: claudicação residual mínima a ausente na maioria dos casos pequenos; em cães grandes: resultado mais variável. Prótese total de quadril (THR): substitui o acetábulo e a cabeça femoral por implantes metálicos e plásticos; o melhor resultado funcional em cães de grande porte; custo elevado; disponível em centros especializados no Brasil; indica-se quando a articulação está destruída e o cão é grande o suficiente para os implantes disponíveis.