Hipertensão Arterial em Cachorro: Pressão Alta e Dano de Órgão-Alvo
A hipertensão arterial sistêmica em cães quase sempre é secundária a outra doença (DRC, Cushing, feocromocitoma, hipotireoidismo). Causa lesão retiniana (cegueira súbita), cardíaca, renal e neurológica. Amlodipina é o anti-hipertensivo de primeira escolha. Monitoramento regular da pressão é essencial em doenças crônicas.
O Cocker Spaniel de 10 anos com DRC grau 3 chegou porque "ficou cego do dia para a noite". O tutor notou que o cão estava se batendo nos móveis ao acordar.
Fundoscopia: descolamento de retina bilateral + hemorragias extensas. Pressão arterial: 210 mmHg sistólica.
Hipertensão grave com retinopatia hipertensiva. Amlodipina 0,3 mg/kg urgente + benazepril (já em uso para DRC aumentado).
A Cegueira Súbita — O Sinal mais Dramático
Por que a Retina é Vulnerável
A retina tem a maior taxa metabólica de qualquer tecido do organismo — depende de oxigenação contínua e perfeita dos vasos retianos. Quando a pressão arterial sobe muito:
Vasos retianos pequenos → não conseguem se autoregular acima de certos limites → ruptura de microvasos → hemorragia retinal → área sem perfusão → fotorreceptores morrem.
Mecanismo do descolamento: a pressão hidrostática elevada força a transudação de líquido para o espaço subretinal → acúmulo de líquido → levanta o epitélio pigmentado → descolamento.
Reversibilidade:
- Hemorragias sem descolamento → visão pode se recuperar com controle da HAS
- Descolamento recente (< 48h) → redução da pressão pode recolá-la
- Descolamento crônico (dias a semanas) → atrofia dos fotorreceptores → cegueira permanente
A urgência: cegueira hipertensiva é EMERGÊNCIA — cada hora aumenta o risco de cegueira permanente.
O Círculo Vicioso HAS + DRC
A hipertensão é causa E consequência da DRC:
DRC → rim lesado → SRAA ativado → angiotensina II
↓ vasoconstrição → hipertensão → glomeruloesclerose
↓ piora a DRC → mais SRAA → mais hipertensão...
Esse ciclo vicioso é a razão pela qual tratar a hipertensão em cães com DRC é tão prioritário quanto tratar a DRC em si — sem controle da pressão, a progressão da DRC é muito mais rápida.
O IECA interrompe o ciclo: ao bloquear a angiotensina II, reduz tanto a pressão sistêmica quanto a pressão intraglomerular — preservando a função renal.
Feocromocitoma — A Causa mais Grave
O feocromocitoma (tumor da medula adrenal) secreta adrenalina e noradrenalina de forma episódica — causando crises hipertensivas:
Apresentação típica:
- Pressão arterial extremamente variável (pode ser normal entre crises)
- Episódios de 160-250 mmHg por minutos a horas
- Associados a: taquicardia, agitação, colapso, epistaxe
- Glândula adrenal aumentada no ultrassom
Tratamento pré-cirúrgico obrigatório: fenoxibenzamina (bloqueador alfa-adrenérgico) 0,25-1,5 mg/kg/dia por 2-4 semanas antes da cirurgia — sem esse preparo, a manipulação cirúrgica pode causar crise hipertensiva fatal.
Prognóstico
| Situação | Prognóstico | |---|---| | HAS controlada, DRC estável | Bom — função visual preservada | | Cegueira súbita, tratamento < 24h | Moderado — possível recuperação parcial | | Cegueira com descolamento crônico | Ruim para a visão — controlável a doença | | HAS por Cushing tratado | Melhora com controle do cortisol | | Feocromocitoma ressecado | Muito bom — HAS pode se resolver completamente | | HAS sem controle da causa | Progressão de dano de órgão-alvo |
Perguntas frequentes
O que é hipertensão arterial em cachorro e quais são as causas?+
A hipertensão arterial sistêmica (HAS) é a elevação persistente da pressão arterial sistólica acima dos valores normais — em cães: normal < 140 mmHg; limítrofe: 140-160 mmHg; hipertensão: 160-179 mmHg; hipertensão grave: ≥ 180 mmHg. Em cães, a HAS quase sempre é secundária a outra doença — hipertensão primária (essencial) é rara (< 2% dos casos). Causas de HAS secundária em cães: doença renal crônica (DRC): causa mais frequente — o rim lesado ativa o sistema renina-angiotensina-aldosterona (SRAA) → vasoconstrição → hipertensão; a hipertensão agrava ainda mais a DRC → círculo vicioso; hiperadrenocorticismo (Cushing): o cortisol excessivo aumenta a angiotensina II e retém sódio; 60-80% dos cães com Cushing têm HAS; hipotireoidismo: T4 baixo → débito cardíaco reduzido → SRAA compensatório → HAS; feocromocitoma: tumor da medula adrenal produtor de adrenalina/noradrenalina → crises hipertensivas episódicas — causa mais grave; diabetes mellitus: nefropatia diabética + mecanismos vasculares; nefropatia perdedora de proteínas: proteinúria → hipertensão por mecanismos similares à DRC.
Quais são os sinais de hipertensão arterial em cachorro?+
A hipertensão é frequentemente silenciosa até que lesão de órgão-alvo ocorra — daí ser chamada de 'assassina silenciosa'. Órgão-alvo mais visível — retina: hemorragia retiniana: vasos retianos se rompem pela pressão alta; cegueira súbita: a complicação mais dramática — o cão acorda cego sem causa aparente; descolamento de retina: a pressão hidrostática eleva o epitélio pigmentado da retina; detectável ao exame de fundo de olho (fundoscopia); dilatação da pupila sem resposta à luz: em cegueira bilateral; o tutor nota que o cão está se batendo em móveis ou cambaleando. Sinais neurológicos (encefalopatia hipertensiva): convulsões: hipertensão grave → vasoespasmo cerebral → convulsões; edema cerebral; alterações comportamentais; síncope. Sinais cardíacos: sopro sistólico: hipertrofia ventricular esquerda por sobrecarga pressórica; galope (B4): câmara rígida; cardiomegalia (hipertrofia cardíaca); arritmias. Sinais renais: poliúria e polidipsia: agravamento da DRC; proteinúria crescente. Epistaxe: hemorragia nasal por vasos frágeis da mucosa nasal. Cegueira súbita em cão idoso sem causa ocular aparente = AFERIR A PRESSÃO IMEDIATAMENTE.
Como diagnosticar hipertensão arterial em cachorro?+
A mensuração da pressão arterial é o diagnóstico — a investigação da causa hipertensiva é obrigatória. Mensuração da pressão arterial: método Doppler (de escolha em cães): cuff no membro ou cauda; gel condutor; transdutor Doppler sobre a artéria; mensurar em ambiente calmo, após 5-10 minutos de adaptação; medir 5-7 vezes e tirar a média; artefatos: o 'efeito jaleco branco' existe em cães — a hipertensão de estresse pode falsear o diagnóstico; sempre confirmar em 2 consultas diferentes antes de tratar; Oscilometria: método automático — menos preciso em cães pequenos; valores diagnósticos: sistólica ≥ 160 mmHg confirmada em 2+ ocasiões. Investigação da causa: bioquímica: creatinina, ureia, BUN, fósforo — DRC?; urinálise + UPC (relação proteína:creatinina urinária): proteinúria = nefropatia?; T4 e TSH: hipotireoidismo?; cortisol pós-ACTH ou LDDST: Cushing?; ultrassom adrenal: feocromocitoma (glândulas adrenais aumentadas + nódulos); catecolaminas urinárias: quando feocromocitoma suspeito. Fundoscopia (exame de fundo de olho): avaliação obrigatória em todo cão com HAS; estágios de hipertensão retinal (IRIS): grau 1: tortuosidade vascular; grau 2: hemorragias puntiformes; grau 3: hemorragias confluentes + exsudatos; grau 4: descolamento de retina.
Como tratar hipertensão arterial em cachorro?+
Amlodipina é o anti-hipertensivo de primeira linha — sempre tratar a causa subjacente simultaneamente. Amlodipina: bloqueador dos canais de cálcio; 0,1-0,4 mg/kg/dia VO: início com 0,1-0,2 mg/kg, ajustar conforme resposta; reduz a pressão por vasodilatação periférica; efeito máximo: 2-4 semanas; monitoramento: pressão arterial semanal até estabilização; reduzir se hipotensão (< 120 mmHg sistólica); IECA (benazepril, enalapril): quando DRC com proteinúria: reduzem a pressão intraglomerular + têm efeito renoprotector; benazepril 0,25-0,5 mg/kg 1x/dia; não usar com hipercalemia; combinação amlodipina + IECA: primeira linha em DRC hipertensiva com proteinúria; sinergismo: amlodipina reduz a pressão sistêmica, IECA reduz a pressão intraglomerular. Urgência hipertensiva (PA ≥ 200 mmHg + sinais neurológicos/oculares): amlodipina 0,4 mg/kg + hidralazina 0,1-0,5 mg/kg SC (em crise grave); nitroprussiato de sódio IV: em emergência hospitalar; objetivo: reduzir 20-25% nas primeiras horas (não normalizar abruptamente — risco de isquemia cerebral). Tratamento da causa: DRC: IECA, fósforo, dieta renal; Cushing: trilostano; hipotireoidismo: levotiroxina; feocromocitoma: fenoxibenzamina pré-operatória + adrenalectomia; DM: insulina + controle glicêmico. Monitoramento crônico: pressão arterial a cada 1-3 meses (estável) ou mais frequente (ajuste de dose); bioquímica e urinálise conforme doença de base.
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