Hipernatremia em Cachorro: Sódio Alto e Risco Neurológico
A hipernatremia é o sódio sérico acima de 155 mEq/L — causa desidratação celular, contração cerebral e risco de hemorragia intracraniana. Acesso restrito à água, diabetes insipidus e hiperaldosteronismo são causas frequentes. A correção deve ser LENTA: correção rápida causa edema cerebral paradoxal. Não ultrapassar 0,5 mEq/L/hora na normalização.
O Husky Siberiano de 4 anos foi encontrado em coma após escapar e ficar 48h exposto ao calor sem acesso à água. SpO2 92%, mucosas secas, taquicardia.
Sódio sérico: 179 mEq/L. Osmolaridade calculada: 372 mOsm/kg (normal: 290-310).
Hipernatremia grave por desidratação hipertônica. Glicose 5% IV a 3 mL/kg/hora — taxa calculada para correção em 72h.
O Paradoxo da Correção Rápida
Por que Tratar Rápido Pode Matar
A hipernatremia crônica cria uma armadilha bioquímica:
Adaptação cerebral: quando o sódio sobe gradualmente (> 24-48h), as células cerebrais produzem osmólitos orgânicos intracelulares (sorbitol, mioinositol, glutamina) para equilibrar a osmolaridade e evitar o encolhimento celular.
O problema: quando o sódio sérico é corrigido rapidamente, a osmolaridade extracelular cai depressa — mas os osmólitos intracelulares ainda estão lá. O gradiente osmótico se inverte: água entra nas células → edema celular → edema cerebral → herniação.
Resultado paradoxal: o cão melhora clinicamente com a queda do sódio, depois deteriora por edema cerebral.
A regra dos 0,5 mEq/L/hora garante que a queda da osmolaridade seja gradual o suficiente para que os osmólitos intracelulares sejam eliminados no mesmo ritmo.
Diabetes Insipidus — Poliúria que Não Lembra Diabetes
O DI causa poliúria maciça — cães podem urinar 5-15× o volume normal por dia. Tutor frequentemente descreve "poça enorme de urina ao acordar", "bebeu o potinho todo em poucas horas".
Diferença crucial do diabetes mellitus:
- DI: urina muito diluída (densidade < 1.006), sem glicose na urina
- DM: urina densa, glicosúria obrigatória, hiperglicemia sérica
O teste mais simples: fita de urina — se não tem glicose, não é DM.
Sal de Degelo — Uma Causa Sazonal no Sul do Brasil
Em regiões de inverno mais intenso (Serra Gaúcha, Curitiba, Santa Catarina), cloreto de sódio e de magnésio são usados nas ruas. Cães lambem as patas após passeio → ingesta de sal → hipernatremia aguda.
Apresentação: hipernatremia aguda (horas) após passeio em dia frio + rua tratada. Cão desenvolvendo tremores, vômito, agitação.
Diferença da crônica: a hipernatremia aguda (< 24h) pode ser corrigida mais rapidamente — os osmólitos cerebrais não tiveram tempo de se acumular.
Prognóstico
| Causa | Na+ ao diagnóstico | Prognóstico | |---|---|---| | Acesso restrito à água, sem coma | < 170 mEq/L | Muito bom — correção gradual | | DI central tratado com DDAVP | Qualquer | Bom — controle crônico | | DI nefrogênico — causa tratável | Qualquer | Bom se causa resolvida | | Hipernatremia grave com convulsões | > 175 mEq/L | Moderado a reservado | | Coma + sinais de herniação | > 180 mEq/L | Reservado | | Edema cerebral por correção rápida | Pós-tratamento | Reservado |
Perguntas frequentes
O que é hipernatremia em cachorro e quais são as causas?+
A hipernatremia é definida como sódio sérico > 155 mEq/L (referência: 141-152 mEq/L em cães). O sódio é o principal cátion extracelular — controla a osmolaridade plasmática. Na hipernatremia, a osmolaridade do plasma sobe → a água sai das células para o extracelular (gradiente osmótico) → desidratação celular. Causas de hipernatremia: Perda de água livre em excesso ao sódio (mais comum): diabetes insipidus central (DI central): deficiência de ADH (vasopressina) → poliúria hipotônica maciça; causas: neoplasia hipofisária, trauma craniano, idiopático; diabetes insipidus nefrogênico: ADH produzida mas rim não responde → poliúria hipotônica; causas: hipercalcemia crônica, hipocalemia crônica, amiloidose medular renal; diarreia osmótica: perda de fluido hipotônico; poliúria por qualquer causa sem acesso adequado à água. Ingestão ou retenção excessiva de sódio: hiperalimentação com solução salina hipertônica IV (erro terapêutico); consumo de água salgada (praias, poças salinas); ingestão de sal de degelo (cloreto de sódio ou de magnésio) nas ruas no inverno; hiperaldosteronismo primário: retenção renal de Na+ → hipernatremia leve a moderada. Acesso restrito à água: paciente incapacitado (neurológico, ortopédico) sem água disponível; anorexia + febre + acesso restrito: risco em pacientes hospitalizados.
Quais são os sinais de hipernatremia em cachorro?+
Os sinais neurológicos dominam — o cérebro é o órgão mais sensível à hipernatremia. Sinais neurológicos (pela desidratação cerebral): irritabilidade e inquietação: primeiros sinais em hipernatremia leve-moderada; ataxia e desorientação; convulsões: desidratação cerebral grave (sódio > 170-175 mEq/L); rigidez muscular; opistótono: extensão forçada do pescoço e dorso; coma; hemorragia intracraniana: vasos de ponte ('bridging veins') entre o córtex e a dura-máter se rompem quando o cérebro contrai pelo gradiente osmótico → hematoma subdural. Sinais de desidratação: mucosas secas; TPC > 2 segundos; perda de turgor cutâneo: 'sinal da prega' persistente; taquicardia; oligúria (volume urinário reduzido). Sinais específicos por causa: DI central: poliúria + polidipsia maciça (5-20× o normal) + urina muito diluída; a hipernatremia ocorre quando o animal não consegue ingerir água suficiente para compensar a perda; diarreia: sinais de desidratação com vômito/diarreia. Gradiente de gravidade: Na+ 155-160 mEq/L: leve — sinais sutis; Na+ 160-170 mEq/L: moderada — ataxia, irritabilidade; Na+ > 170 mEq/L: grave — convulsões, coma; Na+ > 180 mEq/L: muito grave — risco de vida.
Como tratar hipernatremia em cachorro?+
A regra mais importante: corrigir LENTAMENTE. A correção rápida é tão perigosa quanto a hipernatremia em si. Por que a correção lenta é essencial: na hipernatremia crônica (> 24-48h), o cérebro produz 'osmólitos idiogênicos' intracelulares para equilibrar a osmolaridade; se o sódio sérico cai rápido → osmolaridade do plasma cai → gradiente reverso → água entra nas células cerebrais → edema cerebral paradoxal → herniação; taxa máxima segura de correção: 0,5 mEq/L/hora (máximo 10-12 mEq/L em 24h). Escolha do fluido: hipernatremia leve a moderada sem choque: solução glicosada 5% (água livre) VO ou IV: dilui o sódio sem adicionar mais eletrólitos; hipernatremia com hipovolemia (choque): salina isotônica (0,9%) primeiro: restaurar volume circulatório (prioridade); depois mudar para hipotônica (0,45% ou glicose 5%) para corrigir sódio; fórmula do déficit de água livre: déficit (L) = peso corporal (kg) × 0,6 × [(Na+ atual / Na+ desejado) - 1]; repor o déficit calculado em 48-72 horas; monitorar Na+ sérico a cada 4-6h durante a correção. Tratamento da causa: DI central: desmopressina (DDAVP): análogo sintético da vasopressina; intranasal 1-4 µg a cada 12-24h; ou SC 1-2 µg a cada 12-24h; DI nefrogênico: tratar a causa (hipercalcemia, hipocalemia); restrição salina + tiazídico (paradoxalmente reduz diurese no DI nefrogênico); ingestão de sal: diluição com água livre + monitorar glicemia.
O que é diabetes insipidus em cachorro?+
O diabetes insipidus (DI) é uma das causas mais importantes de hipernatremia e poliúria maciça em cães — e é frequentemente confundido com outras causas de PUPD. Fisiopatologia: DI central: hipotálamo ou hipófise não produz ou não secreta ADH (vasopressina); sem ADH: ductos coletores renais não reabsorvem água → poliúria de urina diluída; poliúria compensatória → polidipsia intensa (beber para compensar a perda); DI nefrogênico: ADH é produzida normalmente, mas o rim não responde; receptores V2 nos ductos coletores não funcionam; causas: hipercalcemia crônica → downregulation de receptores V2; hipocalemia crônica → inibição da adenilil ciclase; medicamentos: corticosteroides, lítio. Diagnóstico diferencial — PUPD: antes de diagnosticar DI, excluir: diabetes mellitus (glicosúria), hiperadrenocorticismo (cortisol), doença renal (isostenúria por perda de capacidade de concentração), pielonefrite, hipercalcemia; teste de privação hídrica: mede a resposta renal à desidratação — monitorado pelo veterinário; cão normal: osmolaridade urinária > 1.200 mOsm/kg após privação; DI central/nefrogênico: não concentra mesmo com desidratação; teste de desmopressina: DI central: urina concentra após DDAVP (rim responde à ADH exógena); DI nefrogênico: não concentra nem com DDAVP (rim não responde).
Continue lendo
Síndrome de Wobbler em Cachorro: Compressão Cervical e Ataxia
A síndrome de Wobbler (espondilomielopatia cervical) é a compressão da medula espinhal no segmento cervical — causa ataxia dos membros posteriores com marcha 'cambaleante'. Doberman e Great Dane são as raças mais afetadas. Tratamento cirúrgico (distração-estabilização) é definitivo em casos graves. Diagnóstico por RM cervical.
Úlcera Corneal em Cachorro: Diagnóstico com Fluoresceína e Tratamento
A úlcera corneal é a erosão do epitélio da córnea — causa dor, blefaroespasmo e lacrimejamento. Diagnóstico pelo teste de fluoresceína (mancha verde). Braquicefálicos são os mais afetados. Antibiótico tópico e colírio lubrificante para úlceras simples. Úlcera estromal profunda e descemetocele são emergências cirúrgicas.
Tumor Venéreo Transmissível em Cachorro (TVT): Diagnóstico e Tratamento
O tumor venéreo transmissível (TVT) é um tumor biologicamente único — transmitido por contato direto (cópula) como um aloenxerto de células tumorais vivas. Causa lesões genitais exuberantes. Única neoplasia canina transmissível. Quimioterapia com vincristina tem taxa de cura > 95%. Endêmico em cidades brasileiras com cães errantes.