Saúde

Hérnia Diafragmática em Cachorro: Órgãos Abdominais no Tórax

A hérnia diafragmática é a passagem de órgãos abdominais para a cavidade torácica através de ruptura ou defeito no diafragma — causa dispneia restritiva por compressão dos pulmões. Trauma (atropelamento) é a causa mais comum. Diagnóstico por radiografia torácica. Cirurgia de correção é o tratamento definitivo.

26 de maio de 2026·4 min de leitura

O Border Collie de 2 anos chegou à emergência trazido pelo tutor após atropelamento há 1 hora — dispneico, mucosas pálidas, taquicárdico. O tutor ouvia "barulho de bucho" com o ouvido perto do peito do cão.

Radiografia torácica: alças intestinais e opacidade hepática no hemitórax esquerdo. Coração desviado para a direita. Linha do diafragma não identificada.

Hérnia diafragmática traumática — estabilizar e operar.

O Diafragma — Mais do que uma Parede

A Anatomia

O diafragma é um músculo em forma de cúpula que separa:

  • Tórax (coração, pulmões)
  • Abdômen (fígado, estômago, intestinos, baço, rins)

Estrutura do diafragma canino:

  • Porção muscular: em torno da periferia — fibras que se contraem
  • Porção central tendinosa: no centro — não se contrai
  • Hiato esofágico: abertura para o esôfago
  • Hiato aórtico: para a aorta e ducto torácico
  • Veia cava caudal: abertura para a veia cava

Função do diafragma:

  • Principal músculo respiratório: contrai → desceu → pressão negativa intratorácica → pulmões se expandem (inspiração)
  • Separa as pressões: pressão negativa intratorácica vs. pressão positiva intra-abdominal

O Mecanismo do Trauma

No atropelamento ou queda:

  1. Impacto comprime o abdômen subitamente
  2. Pressão intra-abdominal dispara (0 para centenas de cmH₂O)
  3. O diafragma não suporta o gradiente de pressão → rasgamento
  4. Órgãos abdominais são "aspirados" para o tórax pela pressão negativa

Local de ruptura mais frequente: a porção muscular dorsal (mais fina, menos resistente) — geralmente unilateral, mais à esquerda.

Trauma Torácico Associado — O que Não Esquecer

A hérnia diafragmática traumática raramente vem sozinha. O mesmo trauma que rasga o diafragma pode causar:

Pneumotórax: acúmulo de ar no espaço pleural — frequente em trauma torácico.

Hemotórax: sangramento para o espaço pleural — compressão adicional dos pulmões.

Contusão pulmonar: o impacto contunde o parênquima pulmonar → hemorragia alveolar → comprometimento da troca gasosa.

Fraturas de costelas: podem lacerar o pulmão ou vasos intercostais.

Efusão pleural: pode ser hemática, quilosa ou transudativa.

A estabilização completa do trauma deve considerar TODAS essas lesões concomitantes — não apenas a hérnia.

PPDH — A Hérnia que Ninguém Lembra

O Defeito Congênito

Durante o desenvolvimento embrionário, o diafragma se forma a partir de:

  1. Septo transverso (forma a porção tendinosa central)
  2. Membranas pleuroperitoneal (laterais)
  3. Mesoesôfago dorsal
  4. Mesênquima da parede corporal

Na PPDH: falha na fusão do septo transverso com as membranas pleuroperitoneal → comunicação entre a cavidade pericárdica e a cavidade peritoneal → órgãos abdominais entram no pericárdio.

O pericárdio cresce ao redor dos órgãos herniados → imagem de silhueta cardíaca enormemente aumentada na radiografia — mas os sons cardíacos são normais.

Achados Clínicos Sugestivos de PPDH

  • Silhueta cardíaca muito grande na radiografia — sem sinais de ICC
  • Cão assintomático com "coração gigante" no raio-X
  • Efusão pericárdica em cão jovem sem neoplasia
  • Sons intestinais na auscultação torácica

A PPDH é compatível com vida longa sem tratamento — muitos cães vivem anos sem sinais. O tratamento cirúrgico é eletivo em cães assintomáticos.

Reexpansão Pulmonar — A Complicação Intraoperatória

Por que Acontece

O pulmão comprimido cronicamente (em hérnias de longa data) se adapta — atelectasia progressiva, surfactante reduzido.

Quando o diafragma é reparado e o pulmão pode se expandir novamente:

  1. Expansão rápida de tecido que estava atelectásico
  2. Aumento súbito do fluxo sanguíneo no pulmão expandido
  3. Aumento da permeabilidade capilar → edema pulmonar de reexpansão

Edema de reexpansão: sangue no espaço alveolar → grave comprometimento respiratório pós-operatório.

Prevenção: reexpansão gradual e controlada pelo dreno torácico — não inflar rapidamente.

Prognóstico Detalhado

| Situação | Mortalidade Cirúrgica | Prognóstico Longo Prazo | |---|---|---| | Aguda (< 24h), sem comorbidades | 5-15% | Excelente | | Subaguda (1-7 dias) | 10-20% | Bom | | Crônica (> 2 semanas) | 15-25% | Bom se órgãos viáveis | | Com estrangulamento intestinal | 30-50% | Moderado | | PPDH congênita, cirurgia eletiva | < 5% | Excelente | | PPDH com tamponamento | 15-30% | Moderado | | Hérnias múltiplas bilaterais | 30-40% | Reservado |

O tempo entre o trauma e a cirurgia é o principal fator prognóstico — hérnias agudas operadas em boas condições têm excelente prognóstico. A mensagem para tutores: qualquer cão que foi atropelado ou sofreu trauma contuso deve ser avaliado para hérnia diafragmática — mesmo que pareça "bem" nas horas seguintes.

Perguntas frequentes

O que é hérnia diafragmática em cachorro e quais são os tipos?+

A hérnia diafragmática é a passagem de órgãos abdominais para a cavidade torácica através de um defeito ou ruptura no diafragma — o músculo que separa o tórax do abdômen. Quando órgãos abdominais ocupam espaço no tórax, comprimem os pulmões → dispneia restritiva. Tipos: hérnia diafragmática traumática: ruptura do diafragma por trauma (atropelamento, queda de altura, trauma contuso); mais comum em cães jovens; o aumento súbito da pressão intra-abdominal no momento do trauma rasga o diafragma; órgãos que herniiam: omento (o mais frequente), intestino delgado, fígado, estômago, baço; hérnia diafragmática congênita peritoneopericárdica (PPDH): defeito congênito — falha no fechamento do septo transverso embrionário; o diafragma não se forma completamente → comunicação entre o pericárdio e a cavidade peritoneal (abdômen); órgãos abdominais entram diretamente no saco pericárdico; frequentemente assintomática por anos — descoberta incidental em radiografia; Weimaraner, Cocker Spaniel e raças de pelagem longa têm predisposição; hérnia hiatal: passagem do estômago para o tórax pelo hiato esofágico; associada a raças braquicefálicas (Bulldog, Pug); causa refluxo gastroesofágico e regurgitação; tratamento: cirúrgico (hiatoplastia) + imunossupressão se esofagite grave.

Quais são os sinais de hérnia diafragmática em cachorro?+

Os sinais dependem do tipo, tamanho da hérnia e dos órgãos herniados. Hérnia traumática aguda: dispneia intensa (muitas vezes o principal sinal pós-trauma); taquipneia, respiração abdominal paradoxal; sons cardíacos e respiratórios abafados no tórax; borborigmos (sons intestinais) audíveis com estetoscópio no tórax; mucosas pálidas a cianóticas em casos graves; choque hipovolêmico se hemorragia interna associada; sinais de trauma: abrasões, fraturas de costelas, pneumotórax, hemotórax concomitantes. Cronicamente (hérnia traumática não diagnosticada): dispneia de esforço — piora com exercício; intolerância ao exercício; vômito e anorexia — se intestino hernado e obstruído; o cão pode ter sobrevivido ao trauma inicial mas a hérnia não foi detectada; casos descobertos meses a anos após o trauma. PPDH (peritoneopericárdica congênita): frequentemente assintomática — cão chega para exame de rotina; se sintomática: dispneia leve, tosse crônica, intolerância ao exercício; sinais cardíacos se o coração for comprimido pelo líquido ou órgãos: tamponamento, arritmia; sons cardíacos abafados ou deslocados; distensão da silhueta cardíaca na radiografia — frequentemente descoberta por rotina. Hérnia hiatal: regurgitação crônica; esofagite de refluxo; tosse crônica (aspiração); pior após refeições.

Como diagnosticar hérnia diafragmática em cachorro?+

O diagnóstico é principalmente radiográfico. Radiografia torácica (projeções lateral e DV/VD): a base do diagnóstico; achados: perda do contorno diafragmático — não se vê a linha do diafragma claramente; alças intestinais no tórax — as alças com ar/conteúdo dentro da cavidade torácica; sombra hepática no tórax; desvio do coração e mediastino para o lado oposto à hérnia; silhueta cardíaca aumentada (PPDH); contraste gastrointestinal com bário: série de bário — confirma alças intestinais no tórax; PPDH: sombra cardíaca com gordura ou estruturas dentro; Ultrassom torácico e abdominal: pode visualizar órgãos abdominais dentro do tórax; avalia contração cardíaca (efusão pericárdica na PPDH?); limitação: o ar no tórax atrapalha a janela ultrassonográfica; TC torácica e abdominal: exame mais completo para planejamento cirúrgico; identifica todos os órgãos herniados; avalia integridade vascular dos órgãos hernados; detecta lesões concomitantes (pneumotórax, hemotórax, fraturas); fundamental para cirurgias complexas ou PPDH.

Como tratar hérnia diafragmática em cachorro e qual é o risco cirúrgico?+

O tratamento definitivo é cirúrgico — correção da ruptura ou defeito do diafragma com reposição dos órgãos ao abdômen. Estabilização pré-cirúrgica: oxigenoterapia: máscara ou gaiola de oxigênio — fundamental em cães dispneicos; posição: cão em decúbito esternal — alivia a pressão sobre os pulmões; toracocentese: se efusão pleural associada comprimindo ainda mais os pulmões — alivia a dispneia antes da cirurgia; analgesia: metadona ou morfina IV — reduz dor torácica e melhora a mecânica respiratória; não operar em crise respiratória grave — estabilizar primeiro. Cirurgia: acesso: laparotomia ventral (mediana) na maioria dos casos; para PPDH: esternotomia pode ser necessária; técnica: reposição dos órgãos ao abdômen — com cuidado para identificar aderências (crônicas); rafia do diafragma: sutura em padrão simples contínuo ou interrompido com fio absorvível de alta resistência (PDS, Maxon 0-2); se o tecido está destruído (crônico): patch de malha ou enxerto de peritônio; drenagem torácica: dreno torácico pós-operatório para reexpansão pulmonar; PPDH: acesso combinado abdominal-pericárdico. Riscos cirúrgicos: reexpansão pulmonar rápida: após a descompressão, o pulmão que estava atelectásico começa a se expandir → risco de edema de reexpansão; prevenção: reexpansão gradual pelo dreno torácico; hipotensão intraoperatória: anestesia + trauma → vasodilataçao; arrtimias: manipulação do pericárdio e coração na PPDH; aderências extensas em hérnias crônicas: risco de lesão dos órgãos. Prognóstico: agudo (< 24h do trauma), sem lesões graves concomitantes: excelente; crônico estável: bom; PPDH assintomática: excelente; com estrangulamento intestinal: reservado.