Hepatite Infecciosa Canina: Adenovírus e Insuficiência Hepática
A hepatite infecciosa canina (HIC) é causada pelo Adenovírus Canino tipo 1 (CAV-1) — hepatite aguda fulminante, uveíte e 'olho azul' característico. Afeta filhotes não vacinados. A vacinação com CAV-2 previne a doença. Sem tratamento específico — suporte intensivo é essencial na fase aguda.
O Vira-lata de 3 meses chegou com febre de 40,8°C, vômito e diarreia com sangue — filhote de rua, sem vacinação. Dor abdominal intensa, petéquias nas mucosas. ALT: 2.800 U/L. TP > 120 segundos.
Na manhã do segundo dia de internação: opacidade corneana unilateral acinzentada — "olho azul".
Hepatite infecciosa canina. Plasma fresco congelado IV + suporte intensivo.
O "Olho Azul" — Sinal Patognomônico
Imunopatologia Corneana
O edema corneano unilateral (ou bilateral) da HIC é causado por um mecanismo imunomediado, não pela infecção direta do olho:
- CAV-1 infecta as células endoteliais da córnea
- Anticorpos se formam durante a resposta imune
- Imuno-complexos se depositam na câmara anterior
- Complemento é ativado → inflamação local
- Edema das células endoteliais corneanas → opacidade
Ocorre em dois momentos:
- Durante a doença: sinal de gravidade
- Durante a recuperação (e raramente após a vacinação com CAV-1, por isso a vacina atual usa CAV-2)
Na maioria dos cães: resolve espontaneamente em 3-4 semanas. Complicações raras: glaucoma secundário.
CAV-1 vs CAV-2 — Por que a Vacina Usa o Tipo 2
O CAV-1 causa a hepatite infecciosa — mas a vacina contém CAV-2:
- CAV-2 tem antígenos cruzados com CAV-1 → induz imunidade protetora contra ambos
- CAV-2 não causa hepatite nem o "olho azul" pós-vacinal
- A vacina com CAV-1 era usada anteriormente, mas causava uveíte pós-vacinal em alguns cães
Resultado: a vacina polivalente moderna (V8/V10) usa CAV-2 e confere proteção excelente contra a HIC sem os efeitos adversos oculares.
A Coagulopatia — O Determinante da Sobrevivência
A CID na HIC é causada por dois mecanismos:
- Dano hepático: hepatócitos necróticos → menos síntese de fatores de coagulação (fígado produz II, VII, IX, X, fibrinogênio)
- Vasculite endotelial: células endoteliais infectadas → ativação da coagulação intravascular
Por que o plasma fresco congelado é crítico: contém todos os fatores de coagulação em doses fisiológicas. A vitamina K1 só funciona se há hepatócitos viáveis para usar a vitamina — em necrose hepática grave, o fígado não consegue sintetizar os fatores mesmo com vitamina K.
Prognóstico
| Gravidade | Achados | Prognóstico | |---|---|---| | Leve | Febre + amigdalite, sem icterícia | Muito bom — recuperação 7-10 dias | | Moderada | Hepatite + coagulopatia leve | Bom com suporte intensivo | | Grave | CID + icterícia + hipoglicemia | Moderado a reservado | | Peraguda | Colapso em horas | Reservado — alta mortalidade | | "Olho azul" isolado (pós-doença) | Uveíte em recuperação | Muito bom — resolve em semanas |
Perguntas frequentes
O que é hepatite infecciosa canina e como é transmitida?+
A hepatite infecciosa canina (HIC) é causada pelo Adenovírus Canino tipo 1 (CAV-1), um vírus DNA não envelopado altamente resistente no ambiente. Nota: o CAV-2 (Adenovírus tipo 2) causa a traqueobronquite infecciosa — a vacina polivalente usa CAV-2 para criar imunidade cruzada contra o CAV-1, protegendo também contra a hepatite. Epidemiologia e transmissão: afeta cães de qualquer idade, mas filhotes entre 2-6 meses são os mais susceptíveis e mais gravemente afetados; transmissão: contato com secreções de cão infectado (urina, fezes, saliva, secreção ocular); o CAV-1 é excretado na urina por meses após a recuperação (portadores assintomáticos); o vírus é muito resistente: sobrevive semanas a meses em superfícies úmidas — difícil desinfecção sem desinfetantes específicos (hipoclorito funciona). Patogênese: CAV-1 entra pela via oral ou nasal → replica na amígdala e linfonodos regionais → viremia → tropismo especial pelos hepatócitos e células endoteliais; hepatócitos: necrose hepática centrilobular extensa → insuficiência hepática aguda; células endoteliais: vasculite sistêmica → edema, hemorragias, coagulopatia; câmara anterior do olho: edema corneano (acúmulo de imuno-complexos + complemento) → 'olho azul' (uveíte anterior).
Quais são os sinais de hepatite infecciosa canina?+
A HIC apresenta espectro variável — de morte peraguda a recuperação com sequelas. Forma peraguda (filhotes < 2 semanas, muito raramente): morte em horas sem sinais específicos; rara com vacinação adequada. Forma aguda (mais comum em filhotes não vacinados): período de incubação: 4-9 dias; febre alta (40-41°C): abrupta; vômito e diarreia: frequentemente hemorrágicos; dor abdominal intensa à palpação: hepatomegalia dolorosa; tonsilas aumentadas e dolorosas; linfadenopatia generalizada; coagulopatia: petéquias, equimoses, sangramento em locais de punção → Coagulação Intravascular Disseminada (CID); icterícia: nos casos mais graves (necrose hepática extensa); opacidade corneana unilateral ou bilateral: 'olho azul' (uveíte/ceratite) — pode aparecer na recuperação; anorexia profunda. Forma leve (cães parcialmente imunes): febre leve e autolimitada; amigdalite; recuperação em 5-7 dias. Achados laboratoriais: ALT muito elevada (> 10× referência): necrose hepatocelular; bilirrubina elevada: icterícia; TP/TTPA prolongados: coagulopatia; trombocitopenia: CID; hipoglicemia: insuficiência hepática; leucopenia seguida de leucocitose.
Como diagnosticar e tratar hepatite infecciosa canina?+
O diagnóstico é clínico + laboratorial — suspeitar em filhote não vacinado com hepatite aguda grave. Diagnóstico: clínico-laboratorial: filhote não vacinado + hepatite aguda + coagulopatia + 'olho azul' = alta suspeita; PCR para CAV-1 (swab conjuntival, urina, sangue): confirma a infecção; sorologia: títulos de anticorpos neutralizantes; histopatologia (post-mortem): inclusões intranucleares nos hepatócitos ('inclusões de Rubarth'); necrose hepática centrilobular; diagnóstico diferencial: cinomose (combinação com sinais neurológicos e respiratórios), leptospirose, envenenamento hepatotóxico, parvovirose (mais enterite hemorrágica), intussuscepção. Tratamento — suporte intensivo (não há antiviral específico): fluidoterapia IV: cristaloide isotônico para manutenção + correção de desidratação; dextrose 2,5-5% se hipoglicemia; plasma fresco congelado: CID + coagulopatia grave — repor fatores de coagulação; transfusão de sangue total: anemia grave por sangramento; vitamina K1 SC: coagulopatia (adjuvante ao plasma); antibióticos: amoxicilina-clavulanato: prevenir infecção bacteriana secundária (translocação intestinal); N-acetilcisteína IV: hepatoprotetor — evidência limitada mas utilizado; antieméticos (ondansetrona, maropitant): controle do vômito; monitoramento: glicemia a cada 6-8h, coagulograma diário, enzimas hepáticas. Olho azul: resolução espontânea na maioria dos casos em 3-4 semanas; prednisolona tópica: acelera a resolução da uveíte; não usar em casos com complicações.
Como prevenir hepatite infecciosa canina?+
A vacina polivalente (V8/V10) é altamente eficaz — a HIC é essencialmente uma doença de cães não vacinados. Vacina polivalente: contém CAV-2 (que induz imunidade cruzada contra CAV-1): o CAV-2 é menos patogênico que o CAV-1 e não causa o 'olho azul' pós-vacinal; imunidade duradoura: 1-3 anos dependendo do protocolo; protocolo padrão de filhotes: 3 doses: 45, 60-75 e 90-105 dias de vida; a última dose > 12 semanas é essencial — anticorpos maternos interferem; reforço: anual no primeiro ano, depois a cada 3 anos (protocolo WSAVA); imunidade de grupo: taxas de vacinação > 70-80% em uma população reduzem muito a circulação viral. Medidas ambientais: hipoclorito de sódio 1:30 em superfícies: inativa o CAV-1; evitar contato com fezes e urina de cães desconhecidos; cães recém-adquiridos: quarentena de 10-14 dias antes de contato com residentes. Importância da vacinação: a HIC era uma das principais causas de mortalidade em filhotes antes da vacinação em massa; hoje é rara em populações vacinadas, mas surtos ainda ocorrem em: comunidades sem acesso a veterinário, canis superlotados, filhotes de rua.
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