Saúde

Gastrite Crônica em Cachorro: Vômito Crônico — Diagnóstico e Tratamento

A gastrite crônica é a inflamação persistente da mucosa gástrica — causa vômito crônico recorrente, geralmente de alimento digerido ou bile, sem sinais sistêmicos graves. Diagnóstico definitivo por endoscopia com biópsia. Causas incluem dieta inadequada, Helicobacter, IBD e neoplasia. Tratamento dirigido à causa.

27 de maio de 2026·4 min de leitura

O tutor relata: "ele vomita 2-3 vezes por semana há 3 meses". O cão está com peso estável, come bem entre os episódios e parece animado. O vômito é geralmente de bile ou de comida digerida várias horas após a refeição.

Hemograma e bioquímica normais. Ultrassom sem achados específicos. Candidato ideal para endoscopia diagnóstica.

A Gastrite Crônica na Perspectiva Clínica

Por que "Crônica" Muda Tudo

A gastrite aguda (dura 1-3 dias) é uma das condições mais comuns em cães — ingestão de lixo, pasto, objeto — resolve espontaneamente com jejum e suporte. Raríssimamente exige investigação.

A gastrite crônica (vômito persistente > 3 semanas) é outra história — exige investigação sistemática porque:

  1. Causas são diversas — algumas graves (neoplasia, IBD, falha renal)
  2. Tratamento sintomático sem diagnóstico específico é ineficaz a longo prazo
  3. A progressão sem tratamento pode levar à desnutrição, úlcera péptica, sangramento

O Espectro de Gravidade

| Apresentação | Urgência | |---|---| | Vômito ocasional, cão bem, sem perda de peso | Investigação eletiva | | Vômito frequente + anorexia + perda de peso | Investigação urgente | | Vômito com sangue (hematemese) | Urgente — endoscopia em dias | | Vômito + melena (fezes escuras = sangue digerido) | Urgente — sangramento gástrico | | Vômito + sinais sistêmicos graves | Emergência |

Helicobacter em Cães — Controvérsia

O que é Helicobacter

A Helicobacter pylori é a bactéria causadora da gastrite e úlcera péptica em humanos. Mas em cães, a situação é mais complexa:

Espécies em cães: não é H. pylori mas H. heilmannii, H. felis, H. bizzozeronii e outras espécies — morfologicamente similares mas geneticamente distintas.

Prevalência: muito alta — estudos encontram Helicobacter em 60-90% dos cães saudáveis e com gastrite.

O paradoxo: se a prevalência é tão alta em cães saudáveis, a bactéria causa gastrite ou é apenas comensal oportunista?

O Papel Real do Helicobacter em Cães

A evidência atual sugere:

  • Helicobacter em cão provavelmente contribui para a gastrite em alguns casos
  • Mas não é a causa primária na maioria dos casos — ao contrário da úlcera humana onde H. pylori é causa direta
  • Tratar o Helicobacter pode ajudar, mas raramente é suficiente sem tratar outras causas (IBD, dieta)

Indicação de tratamento: protocolo triplo apenas quando:

  • Histopatologia mostra gastrite neutrofílica com bactérias espirais
  • Outras causas foram excluídas
  • Quantidade de bactérias é alta na biópsia

Endoscopia — O Procedimento Central

Como é Feita

A gastroscopia veterinária é realizada sob anestesia geral:

  1. Jejum de 12-24h antes
  2. Anestesia geral
  3. Endoscópio flexível introduzido pela boca
  4. Progressão pelo esôfago → estômago → duodeno
  5. Visualização sistemática de todas as regiões
  6. Biópsia de múltiplos pontos

O que é avaliado:

  • Esôfago: esofagite de refluxo, corpo estranho
  • Estômago: mucosa, corpo, antro, piloro
  • Duodeno: vili intestinais, parasitas (giárdia), IBD

Achados Endoscópicos Relevantes

Mucosa normal: rosada, uniforme, brilhante.

Gastrite: eritema (vermelhidão), superfície irregular, erosões superficiais.

Úlcera: defeito na mucosa — escavado, bordas irregulares. Pode sangrar.

Massa: projeção sólida na mucosa — biópsia obrigatória (linfoma? adenocarcinoma?).

Helicobacter: espirais visíveis a olho nu em imersão — mas a visualização direta é pouco sensível.

Tratamento por Causa

IBD Linfocítica-Plasmocítica (Causa Mais Comum)

É a forma mais frequente de gastrite crônica com causa identificável — parte do espectro de IBD canina.

Protocolo:

  • Prednisona 1-2 mg/kg/dia × 4-6 semanas → redução gradual por 4-6 meses
  • Dieta hipoalergênica simultânea (proteína hidrolisada ou nova)
  • Azatioprina em casos refratários

Hipersensibilidade Alimentar (IBD Eosinofílica)

A infiltração eosinofílica na biópsia sugere reação a componente alimentar.

Protocolo:

  • Dieta de exclusão por 8-12 semanas (proteína nova que o cão nunca comeu: pato, canguru, tartaruga, cavalo — rações de prescrição)
  • Ou dieta com proteína hidrolisada (os componentes proteicos são tão pequenos que o sistema imune não os reconhece)
  • Se resposta: a dieta é a causa — manter indefinidamente

Refluxo Biliar e Síndrome do Vômito Bilioso

Fisiopatologia: bile reflui do duodeno para o estômago → irrita a mucosa.

Sinais: vômito de bile especialmente pela manhã (jejum noturno longo).

Tratamento:

  • Refeição pequena antes de dormir — reduz o jejum noturno
  • Metoclopramida 0,5 mg/kg 3x/dia — pró-cinético que melhora o esvaziamento gástrico
  • Omeprazol para proteção da mucosa

Gastrite Urêmica

Em cães com doença renal crônica, a ureia acumulada é convertida em amônia na mucosa gástrica → irritação química → gastrite + úlcera.

Tratamento: manejo da DRC (dieta renal + fluidos) + omeprazol + sucralfato.

Prognóstico

| Causa | Prognóstico | |---|---| | Dieta inadequada, corrigida | Excelente — resolução em semanas | | Helicobacter, tratamento triplo | Bom — resolução em maioria | | IBD linfocítica-plasmocítica | Moderado — controle crônico necessário | | Hipersensibilidade alimentar + dieta exclusão | Bom se aderência à dieta | | Neoplasia gástrica (linfoma) | Variável — depende da quimioterapia | | Adenocarcinoma gástrico | Reservado | | Gastrite urêmica, DRC avançada | Reservado |

A gastrite crônica raramente é fatal em si — mas pode ser o sinal de uma doença subjacente grave que exige diagnóstico. O vômito crônico "que o tutor já se acostumou" merece investigação — não é normal um cão vomitar semanalmente por meses.

Perguntas frequentes

O que é gastrite crônica em cachorro?+

A gastrite crônica é a inflamação persistente (> 3 semanas) da mucosa gástrica em cães — diferente da gastrite aguda (que resolve em dias). A mucosa gástrica cobre a superfície interna do estômago e é responsável pela produção de ácido clorídrico, muco protetor e enzimas digestivas. Na gastrite crônica: a mucosa fica infiltrada por células inflamatórias; o processo inflamatório pode ser linfocítico, plasmocítico, eosinofílico, neutrofílico ou misto; a inflamação crônica leva à disfunção gástrica: esvaziamento gástrico retardado, produção excessiva ou insuficiente de ácido, alteração da motilidade. Causas: dieta: ingestão crônica de ossos, alimentos inadequados, comida de mesa; Helicobacter spp. — bactérias que colonizam a mucosa gástrica (papel controverso em cães, mas provavelmente contribuem em alguns casos); doença inflamatória intestinal (IBD) — a gastrite pode ser parte de uma IBD difusa; corpo estranho gástrico crônico (fio, tecido); refluxo biliar: bile entra no estômago pelo piloro → irrita a mucosa; gastroparesia (esvaziamento gástrico retardado) de causa idiopática; insuficiência renal: ureia irrita a mucosa gástrica (gastrite urêmica); neoplasia gástrica (linfoma gástrico, adenocarcinoma) — mais rara, mais em cães idosos.

Quais são os sinais de gastrite crônica em cachorro?+

O sinal principal é o vômito crônico — mas o padrão de vômito ajuda a orientar o diagnóstico. Padrão do vômito na gastrite crônica: frequência: 1-5x por semana (não necessariamente diário); relação com a alimentação: vômito de alimento digerido horas após comer — esvaziamento retardado; vômito de bile (líquido amarelo-esverdeado) em jejum — refluxo biliar; 'síndrome do vômito bilioso': o cão vomita bile pela manhã, antes do café — por jejum prolongado; náusea sem vômito: o cão come grama excessivamente (tentativa de induzir vômito para aliviar o desconforto), lambe superfícies, engole saliva. Outros sinais: anorexia ou hiporexia — redução do apetite; perda de peso leve a moderada; pelo sem brilho; dor abdominal à palpação da região cranial; estado geral geralmente preservado — diferente da gastrite aguda que causa prostração. O que diferencia da gastroenterite aguda: a gastrite crônica tem duração > 3-4 semanas; o cão está 'razoavelmente bem' apesar do vômito frequente; não há diarreia significativa (exceto se IBD com envolvimento intestinal); o hemograma/bioquímica geralmente são normais ou levemente alterados.

Como diagnosticar gastrite crônica em cachorro?+

O diagnóstico definitivo exige endoscopia com biópsia — exames de rotina são inespecíficos. Exames de triagem: hemograma + bioquímica: geralmente normais; hipoproteinemia em gastrite por perda proteica; azotemia em gastrite urêmica; radiografia abdominal: exclui corpo estranho radiodenso, avalia tamanho gástrico; ultrassonografia abdominal: avalia espessamento da parede gástrica (> 5-7 mm suspeito de neoplasia ou IBD grave); avalia linfonodos regionais; pesquisa de corpo estranho; urinálise e relação proteína/creatinina: excluir nefropatia como causa; TSH e T4: hipotireoidismo pode causar gastroparesia; cortisol basal: hiperadrenocorticismo pode causar úlcera/gastrite. Endoscopia digestiva alta (gastroscopia): padrão-ouro — visualiza diretamente a mucosa gástrica; achados: eritema (vermelhidão) da mucosa; erosões e úlceras; espessamento ou irregularidade da mucosa; mucosa com aspecto 'em calçamento de pedras' (IBD); presença de Helicobacter (espiral em imersão) — visualização direta; biópsia de múltiplas regiões (fundo, corpo, antro, piloro) para histopatologia. Histopatologia: classifica o tipo de inflamação: linfocítica-plasmocítica (mais comum, IBD), eosinofílica (hipersensibilidade alimentar), neutrofílica (H. pylori-like), mista; exclui neoplasia; quantifica a extensão do dano. Teste para Helicobacter: biópsia com coloração de Warthin-Starry; teste de urease rápido (RUT); PCR em biópsia — mais sensível.

Qual é o tratamento da gastrite crônica em cachorro?+

O tratamento é dirigido à causa identificada e ao controle dos sintomas. Tratamento de suporte (todos os casos): dieta altamente digestível: ração de prescrição gastrointestinal (Hill's i/d, Royal Canin Gastrointestinal, Purina EN); refeições menores e mais frequentes (3-4x/dia) — reduz a quantidade de ácido e facilita o esvaziamento; protetor gástrico: omeprazol 0,5-1 mg/kg VO 1x/dia — inibidor da bomba de prótons; reduz a acidez e protege a mucosa; sucralfato 500 mg-1 g VO 2-3x/dia em jejum: forma película protetora sobre a mucosa (especialmente útil em úlceras). Antieméticos (para controle do vômito): maropitant (Cerenia) 2 mg/kg VO 1x/dia — antiemético de escolha; metoclopramida 0,5 mg/kg VO 3x/dia — pró-cinético + antiemético; ondansetrona 0,5-1 mg/kg VO 2-3x/dia. Tratamento da causa: Helicobacter: amoxicilina 20 mg/kg 2x/dia + metronidazol 20 mg/kg 2x/dia + omeprazol 1 mg/kg 1x/dia — protocolo triplo por 10-14 dias (similar ao humano); erradicação nem sempre é necessária — Helicobacter em cão não tem papel tão claro quanto no humano; IBD linfocítica-plasmocítica: prednisolona imunossupressora + dieta hipoalergênica; hipersensibilidade alimentar (IBD eosinofílica): dieta de exclusão (proteína nova ou hidrolisada) por 8-12 semanas; neoplasia gástrica: quimioterapia (linfoma) ou ressecção cirúrgica (adenocarcinoma focal); refluxo biliar: cisaprida ou metoclopramida (pró-cinéticos) para melhorar o esvaziamento gástrico + omeprazol; dar refeição pequena antes de dormir (evita jejum prolongado noturno).