Feocromocitoma em Cachorro: Tumor da Adrenal e Crises Hipertensivas
O feocromocitoma é o tumor da medula adrenal produtor de catecolaminas — causa crises hipertensivas episódicas, colapso e pode invadir a veia cava. German Shepherd e Labrador são os mais afetados. Fenoxibenzamina é obrigatória antes da cirurgia. Adrenalectomia é o único tratamento curativo.
O German Shepherd de 10 anos chegou com o terceiro episódio de "desmaio súbito" — cada episódio durava 5-10 minutos e o cão se recuperava completamente. Pressão na consulta: 182 mmHg sistólica.
Ultrassom abdominal: massa adrenal direita de 4 cm, heterogênea, com trombo na veia cava caudal.
Metanefrinas urinárias: 4,8 µg/mg creatinina (referência < 1,0).
Feocromocitoma. Fenoxibenzamina 2 semanas antes da adrenalectomia.
A Armadilha Cirúrgica Sem Preparação
O Que Acontece na Cirurgia Sem Fenoxibenzamina
Durante a adrenalectomia de feocromocitoma não preparado:
- Ligação ou incisão do tumor → compressão → liberação maciça de catecolaminas no sangue venoso
- Adrenalina + noradrenalina → vasoconstrição generalizada extrema + taquicardia intensa
- Pressão sistólica sobe para 250-300 mmHg em segundos
- Ruptura de vasos cerebrais, edema pulmonar, arritmias fatais, parada cardíaca
Casos reais: feocromocitomas humanos e veterinários não preparados têm mortalidade cirúrgica de 30-50%. Com preparação adequada: < 5%.
A fenoxibenzamina "ocupa" os receptores alfa antes do cirurgião: quando o tumor libera as catecolaminas intraoperatórias, os receptores alfa já estão bloqueados → a hipertensão não acontece.
Beta Depois do Alfa — A Sequência Obrigatória
O erro clássico: administrar beta-bloqueador sem bloqueio alfa adequado primeiro.
Por que é perigoso: a adrenalina ativa tanto receptores alfa (vasoconstrição) quanto beta (vasodilatação periférica via beta-2 + aumento do débito cardíaco). Se bloqueamos apenas o beta:
- Os receptores alfa ficam livres → vasoconstrição intensa sem a vasodilatação beta
- Hipertensão grave sem taquicardia compensatória
A regra: alfa ANTES do beta. Sempre.
O Trombo Tumoral na Veia Cava
A extensão do feocromocitoma para a veia cava é uma das complicações mais graves — presente em até 40% dos casos:
Mecanismo: o tumor é vascularizado e cresce diretamente pela parede da veia cava → células tumorais no lúmen venoso → trombo tumoral que pode se fragmentar e causar embolia pulmonar.
Implicação cirúrgica: a ressecção exige controle proximal e distal da veia cava antes de manusear o tumor — procedimento de alta complexidade em medicina veterinária.
Prognóstico
| Situação | Prognóstico | |---|---| | Feocromocitoma benigno, ressecção completa | Excelente — possível cura | | Maligno sem metástase, ressecção completa | Bom — sobrevida 1-3 anos | | Invasão de veia cava, ressecção completa | Moderado | | Metástase ao diagnóstico | Paliativo — sobrevida variável | | Cirurgia sem preparação farmacológica | Risco de morte intraoperatória |
Perguntas frequentes
O que é feocromocitoma em cachorro?+
O feocromocitoma é uma neoplasia das células cromafins da medula da glândula adrenal — secreta catecolaminas (adrenalina e noradrenalina) de forma autônoma e episódica. Diferente do adenoma adrenocortical (que causa Cushing pela córtex), o feocromocitoma origina-se da medula adrenal (tecido neural modificado). Epidemiologia e características: mais comum em cães idosos (9-11 anos); sem predisposição sexual clara; raças mais reportadas: German Shepherd, Labrador, Boxer; 50% são unilaterais benignos (adulto isolado); 50% são malignos ou invasivos: invasão local da veia cava caudal ou aorta é frequente (até 40% dos casos); metástase: linfonodos, fígado, pulmão. Fisiologia das catecolaminas: adrenalina e noradrenalina atuam em receptores alfa e beta-adrenérgicos: efeitos alfa: vasoconstrição → hipertensão arterial grave; efeitos beta: taquicardia, aumento da contratilidade cardíaca, arritmias; secreção episódica pelo tumor → crises hipertensivas intermitentes; variabilidade diagnóstica: entre crises, a pressão pode ser completamente normal.
Quais são os sinais de feocromocitoma em cachorro?+
Os sinais são episódicos e relacionados à liberação súbita de catecolaminas. Crise adrenérgica típica: colapso ou síncope súbita: queda repentina, geralmente sem convulsão — diferente do insulinoma; o cão 'desmaia' por poucos minutos a horas; fraqueza muscular profunda; agitação e inquietação intensa: antes ou durante a crise; taquipneia e taquicardia: frequência cardíaca pode atingir 200 bpm; mucosas pálidas ou hiperêmicas; sudorese (patas úmidas): raro em cães. Entre as crises (intervalo): o cão pode parecer completamente normal; ou: fraqueza crônica sutil; cansaço fácil; intolerância ao exercício. Sinais por invasão vascular (veia cava): edema de membros posteriores: obstrução do retorno venoso; ascite: compressão portal; síndrome de Budd-Chiari-like: obstrução das veias hepáticas. Descoberta incidental: muitos feocromocitomas são descobertos em ultrassom abdominal por outra razão; 'incidentaloma adrenal' → investigar função hormonal. Diferença do Cushing adrenal: Cushing: sinais crônicos (poliúria, abdômen pendular, alopecia); Feocromocitoma: crises episódicas agudas, raramente crônico e insidioso.
Como diagnosticar feocromocitoma em cachorro?+
O diagnóstico é desafiador pela natureza episódica — a pressão pode ser normal na consulta. Pressão arterial: variável: pode estar 160-250 mmHg durante crise ou normal entre crises; medições seriadas são mais informativas; monitoramento domiciliar com Holter de pressão (raramente disponível) pode captar crises. Ultrassom adrenal: glândula adrenal aumentada: > 7,5 mm de espessura indica aumento; massa adrenal: forma irregular, heterogênea; invasão de veia cava: trombo tumoral visível na veia cava; ambas as adrenais devem ser avaliadas. TC abdominal: superior ao ultrassom: detecta massas menores; avalia extensão da invasão vascular; identifica metástases. Dosagem de catecolaminas: catecolaminas plasmáticas (epinefrina, norepinefrina): elevadas durante ou logo após crises; coleta difícil (valor cai rapidamente pós-crise); metanefrinas urinárias (metanephrines): produtos do metabolismo das catecolaminas na urina de 24h; mais estáveis que as catecolaminas diretas; exame de escolha quando disponível; exame histopatológico: confirmação definitiva pós-ressecção. Diagnóstico diferencial do incidentaloma adrenal: adenoma adrenocortical (Cushing): testes de cortisol; adenocarcinoma adrenocortical: citologia; metástase adrenal: história oncológica.
Como tratar feocromocitoma em cachorro?+
Preparação farmacológica pré-operatória é OBRIGATÓRIA — sem ela, a cirurgia pode ser fatal. Preparação pré-cirúrgica com fenoxibenzamina: fenoxibenzamina: bloqueador alfa-adrenérgico não competitivo; 0,25-1,5 mg/kg/dia VO em dose única ou dividida; por 2-4 semanas antes da cirurgia; objetivo: bloquear os receptores alfa → impedir a vasoconstrição durante a manipulação cirúrgica do tumor; sem fenoxibenzamina: manipulação do tumor → liberação maciça de catecolaminas → crise hipertensiva (250+ mmHg) intraoperatória → parada cardíaca; beta-bloqueador (propranolol, atenolol): adicionar SOMENTE após bloqueio alfa adequado: beta sem alfa = piora da hipertensão (vasoconstricção sem taquicardia compensa); 0,2-1 mg/kg/dia VO. Adrenalectomia — cirurgia: abordagem laparotômica: acesso retroperitoneal; laparoscópica: possível em tumores < 5 cm sem invasão; ligadura dos vasos adrenais antes da dissecção: para minimizar liberação intraoperatória; envio do espécime para histopatologia: confirma feocromocitoma e avalia margens; invasão de veia cava: complicação grave — ressecção com circulação extracorpórea em casos extremos. Monitoramento intraoperatório: pressão arterial contínua (linha arterial); ECG contínuo; preparação para crises: nitroprussiato de sódio, fentolamina IV. Pós-operatório: hipotensão pós-ressecção: o bloqueio adrenérgico + remoção do tumor → queda de pressão; fluidos IV + descontinuação gradual da fenoxibenzamina; insuficiência adrenal: se adrenal contralateral atrofiada → suplementação de cortisol; monitoramento de metástases: TC a cada 3-6 meses.
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