Doença de Von Willebrand em Cachorro: Coagulopatia Hereditária
A doença de von Willebrand (DVW) é a coagulopatia hereditária mais comum em cães — déficit do fator de von Willebrand (vWF) que medeia a adesão plaquetária. Causa sangramento espontâneo e sangramento excessivo em procedimentos. Dobermann é a raça mais afetada no Brasil. Teste genético disponível.
O tutor trouxe o Dobermann para castração eletiva. Antes da cirurgia, o veterinário perguntou: "Ele já foi testado para Von Willebrand?"
O tutor não sabia que existia esse teste. Mas essa pergunta poderia prevenir um sangramento cirúrgico grave.
O Fator de von Willebrand — Por que é Essencial
Hemostasia Primária vs. Secundária
A coagulação sanguínea ocorre em duas fases complementares:
Hemostasia primária: plaquetas aderem ao local de lesão vascular e formam o "tampão plaquetário" — o primeiro selo para parar o sangramento.
Hemostasia secundária: a cascata de coagulação (fatores I-XIII) amplifica o sinal e forma o coágulo de fibrina estável — o segundo e definitivo selo.
O vWF atua na hemostasia primária:
-
Adesão plaquetária: quando o endotélio é lesado, o colágeno subendotelial é exposto. O vWF se liga ao colágeno E às plaquetas (via receptor GPIb) — funcionando como uma ponte que ancora as plaquetas no local da lesão.
-
Transporte do fator VIII: o vWF protege o fator VIII de ser degradado prematuramente no plasma. Sem vWF, o fator VIII tem meia-vida muito reduzida.
Sem vWF:
- Plaquetas não aderem adequadamente ao endotélio lesado
- O tampão plaquetário não se forma
- O sangramento é prolongado e excessivo
Por que a DVW é Diferente da Hemofilia
| Característica | DVW | Hemofilia A (fator VIII) | |---|---|---| | Defeito | vWF (adesão plaquetária) | Fator VIII (cascata) | | Tempo de sangramento | Prolongado | Normal | | TTPA (tempo de tromboplastina) | Pode estar aumentado (se fator VIII baixo) | Muito aumentado | | Tipo de sangramento | Mucosas, superfícies | Músculos, articulações | | Raça mais afetada | Dobermann | Irish Setter, Golden |
A DVW no Dobermann Brasileiro
Prevalência na Raça
O Dobermann é a raça mais associada à DVW no Brasil e no mundo. Estudos em diferentes populações indicam que:
- 50-70% dos Dobermanns têm DVW tipo 1 (portadores ou afetados)
- A mutação específica no gene vWF foi identificada — teste de DNA é possível
A mutação do Dobermann é pontual — uma substituição em um único nucleotídeo que resulta em produção reduzida de vWF. Cães homozigotos (dois alelos afetados) têm DVW tipo 1 com níveis de vWF muito baixos; heterozigotos (um alelo afetado) têm déficit parcial, geralmente assintomático.
Por que o Dobermann é Especialmente Suscetível a Sangramento Cirúrgico
Além da DVW, o Dobermann tem predisposição à hipotireoidismo — e o hipotireoidismo reduz os níveis de vWF. Um Dobermann hipotireoidiano com DVW tem risco ainda maior de sangramento.
Portanto: Dobermann programado para cirurgia deve ser testado para:
- DVW (vWF:Ag ou teste genético)
- Hipotireoidismo (T4 livre, TSH)
Raças com DVW Tipo 3 (Grave)
Enquanto a maioria das raças tem DVW tipo 1 (déficit parcial), algumas raças têm DVW tipo 3 — deficiência quase completa de vWF:
Scottish Terrier: DVW tipo 3 autossômica recessiva; cães afetados têm sangramento espontâneo grave desde filhotes.
Chesapeake Bay Retriever: DVW tipo 2 — vWF produzido mas disfuncional.
Kooikerhondje: DVW tipo 3 — relatada principalmente em países nórdicos.
Nesses cães: a simples castração pode causar morte por sangramento sem preparação adequada.
Diagnóstico — Escolhendo o Teste Certo
Qual Teste Usar?
Cenário 1: Dobermann para cirurgia eletiva em tempo hábil: → Teste genético de DNA — definitivo, realizado uma vez, não afetado por outras doenças.
Cenário 2: Qualquer raça de risco para cirurgia de emergência: → BMBT como triagem rápida + vWF:Ag se disponível.
Cenário 3: Raça de risco desconhecida, investigação geral: → vWF:Ag quantitativo.
O BMBT — Técnica Correta
Padronização é essencial:
- Dobra do lábio superior fixada (para expor a mucosa)
- Incisão padronizada de 5 mm de comprimento × 1 mm de profundidade (lanceta padronizada)
- Absorção do sangue com papel-filtro a cada 30 segundos, sem tocar a ferida
- Registrar o tempo até parar o sangramento
Normal: < 2 minutos em maioria dos laboratórios.
DVW: > 3-4 minutos tipicamente.
Cuidado: o BMBT é sensível a técnica e a trombocitopenia — sempre verificar plaquetas antes.
Manejo Cirúrgico
Protocolo Desmopressina
A desmopressina (DDAVP) é o principal tratamento preventivo para DVW tipo 1 em cirurgias eletivas:
Mecanismo: libera vWF pré-formado e armazenado em corpos de Weibel-Palade das células endoteliais e de grânulos alfa das plaquetas. O resultado é aumento rápido (em 30-60 minutos) dos níveis plasmáticos de vWF — 2-4 vezes acima do basal.
Duração: o efeito dura 1-4 horas. Uma segunda dose tem menor efeito (taquifilaxia — os estoques foram liberados pela primeira dose).
Protocolo cirúrgico:
- 1 µg/kg SC ou IV lento (10-15 min), 30-60 minutos antes da incisão
- Pode repetir uma vez durante a cirurgia se necessário
- Não usar mais de 2 doses — a taquifilaxia torna as doses adicionais ineficazes
Importante: a desmopressina não funciona na DVW tipo 3 — não há vWF para liberar.
Plasma Fresco Congelado
Cada mL de PFC contém ~0,5-1 unidade de vWF (e fator VIII).
Dose pré-cirúrgica: 10-20 mL/kg IV, administrado em 30-60 minutos antes da cirurgia.
Indicações: DVW tipo 3; DVW tipo 1 grave com BMBT muito prolongado; sangramento ativo em DVW.
Cuidados Pós-Operatórios
- Observação do sítio cirúrgico por 48-72h
- Evitar AINEs que inibem a função plaquetária (incluindo meloxicam, carprofeno) por 5-7 dias
- Evitar heparina
- Restrição de atividade para evitar trauma no sítio
Programa de Reprodução e Genética
Para criadores de Dobermann e outras raças afetadas, a testagem genética permite:
- Identificar cães afetados (dois alelos mutados) — não usar como reprodutores
- Identificar portadores (um alelo mutado) — usar com critério, cruzando com cões normais
- Eliminar progressivamente a mutação da linhagem
O cruzamento portador × normal gera:
- 50% filhotes normais (não portadores)
- 50% portadores (geralmente assintomáticos)
- 0% afetados
O cruzamento portador × portador gera:
- 25% normais, 50% portadores, 25% afetados — risco desnecessário.
A rastreabilidade genética é a ferramenta mais poderosa para reduzir a prevalência de DVW nas raças afetadas ao longo das gerações.
Perguntas frequentes
O que é doença de von Willebrand em cachorro?+
A doença de von Willebrand (DVW) é a coagulopatia (distúrbio da coagulação) hereditária mais comum em cães. É causada pela deficiência quantitativa (pouco vWF) ou qualitativa (vWF anormal) do fator de von Willebrand (vWF). O vWF é uma glicoproteína produzida pelas células endoteliais e pelas plaquetas que desempenha dois papéis fundamentais na hemostasia: mediação da adesão plaquetária — o vWF funciona como 'cola' entre as plaquetas e o endotélio lesado (hemostasia primária); transporte e proteção do fator VIII da coagulação — o vWF carrega o fator VIII no sangue, protegendo-o da degradação. Três tipos de DVW: tipo 1 — deficiência quantitativa parcial (o mais comum; vWF presente mas em quantidade reduzida); tipo 2 — defeito qualitativo (vWF presente mas disfuncional); tipo 3 — deficiência quantitativa completa (ausência total de vWF — o mais grave). Raças afetadas: tipo 1: Dobermann (a raça mais estudada — 50-70% são portadores em alguns estudos), Rottweiler, Pastor Alemão, Golden Retriever, Pembroke Welsh Corgi, Standard Schnauzer, Basset Hound; tipo 3 (mais grave): Scottish Terrier, Chesapeake Bay Retriever, Kooikerhondje, Shetland Sheepdog.
Quais são os sinais de Von Willebrand em cachorro?+
Os sinais dependem do tipo de DVW e da gravidade do déficit. Tipo 1 (mais comum, mais leve): muitos cães com tipo 1 são assintomáticos durante a vida — o déficit só é descoberto em sangramento excessivo durante cirurgia; episódios de sangramento leve a moderado: epistaxe (sangramento pelo nariz) espontânea; sangramento gengival após brincadeiras ou toque; sangramento prolongado após corte das unhas (se a polpa for atingida); hematomas após trauma mínimo; sangramento prolongado após cirurgia (castração, biópsia). Tipo 3 (mais grave, mais raro): sangramento espontâneo frequente: epistaxe recorrente; sangramento gengivial espontâneo; hemartrose (sangramento nas articulações) — incomum em DVW, mais em hemofilia; hematúria (sangue na urina); melena (sangue nas fezes). Eventos de risco: qualquer procedimento cirúrgico (incluindo castração eletiva) em cão não testado pode resultar em sangramento excessivo grave; extração dentária, biópsia, colocação de catéter IV. Diagnóstico prévio é fundamental antes de qualquer cirurgia em raças de risco.
Como diagnosticar Von Willebrand em cachorro?+
O diagnóstico pode ser feito por teste funcional (quantificação de vWF) ou por teste genético (para raças com mutações conhecidas). Quantificação do antígeno de vWF (vWF:Ag): medida da quantidade de vWF no plasma; resultado expresso como porcentagem do normal; normal: > 70% (pode variar por laboratório); DVW tipo 1: 15-50% (déficit parcial); DVW tipo 3: < 1% (ausência quase total); cão com vWF:Ag 50-70%: zona cinzenta — pode ter sangramento leve; cão com vWF:Ag > 70%: normal — improvável DVW. Importante: o vWF:Ag pode variar com o estado de saúde — hipotireoidismo, inflamação aguda, estresse podem alterar o resultado; idealmente testar cão saudável, sem estresse, fora de período inflamatório. Tempo de sangramento da mucosa bucal (BMBT): mede o tempo para parar o sangramento após incisão padronizada na mucosa bucal; normal: < 2 minutos; DVW: prolongado (> 3-4 minutos); teste funcional simples, mas com variabilidade; mais útil como teste de triagem pré-cirúrgico em raças de risco. Teste genético de DNA: disponível para raças específicas onde a mutação é conhecida; Dobermann: mutação no gene do vWF identificada — teste de DNA PCR disponível; classificação: normal, portador (um alelo afetado — geralmente assintomático), afetado (dois alelos afetados — DVW tipo 1 ou 3 dependendo da raça); vantagem: teste definitivo, realizado uma vez na vida, independente do estado de saúde.
Como manejar cirurgia em cachorro com Von Willebrand?+
A preparação pré-cirúrgica adequada pode prevenir complicações hemorrágicas em cão com DVW. Triagem pré-cirúrgica em raças de risco: testagem de DVW antes de qualquer cirurgia eletiva em Dobermann, Scottish Terrier e outras raças de risco; BMBT (tempo de sangramento bucal) como triagem rápida de emergência. Desmopressina (DDAVP): análogo sintético da vasopressina (ADH); mecanismo: induz a liberação de vWF armazenado nas células endoteliais → aumenta os níveis plasmáticos em 2-4 vezes por 30-60 minutos; dose: 1 µg/kg SC ou IV, 30-60 minutos antes da cirurgia; eficaz principalmente no tipo 1 (onde há vWF armazenado); não funciona no tipo 3 (não há vWF para liberar); pode ser repetida 1-2x, com efeito diminuindo progressivamente (taquifilaxia). Plasma fresco congelado (PFC): contém vWF e fator VIII; indicado em: sangramento ativo grave em cão com DVW; pré-cirúrgico em tipo 3 ou quando a desmopressina é insuficiente; dose: 10-20 mL/kg IV antes e durante a cirurgia. Concentrado de vWF/fator VIII: disponível em medicina humana; raramente disponível em veterinária no Brasil. Cuidados cirúrgicos: hemostasia meticulosa; eletrocauterização generosa; fios de sutura absorvíveis de boa qualidade; evitar anticoagulantes e AINEs no pré e pós-operatório; monitorizar o sítio cirúrgico por 48-72h pós-operatório.
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