Saúde

Doença de Von Willebrand em Cachorro: Coagulopatia Hereditária

A doença de von Willebrand (DVW) é a coagulopatia hereditária mais comum em cães — déficit do fator de von Willebrand (vWF) que medeia a adesão plaquetária. Causa sangramento espontâneo e sangramento excessivo em procedimentos. Dobermann é a raça mais afetada no Brasil. Teste genético disponível.

27 de maio de 2026·5 min de leitura

O tutor trouxe o Dobermann para castração eletiva. Antes da cirurgia, o veterinário perguntou: "Ele já foi testado para Von Willebrand?"

O tutor não sabia que existia esse teste. Mas essa pergunta poderia prevenir um sangramento cirúrgico grave.

O Fator de von Willebrand — Por que é Essencial

Hemostasia Primária vs. Secundária

A coagulação sanguínea ocorre em duas fases complementares:

Hemostasia primária: plaquetas aderem ao local de lesão vascular e formam o "tampão plaquetário" — o primeiro selo para parar o sangramento.

Hemostasia secundária: a cascata de coagulação (fatores I-XIII) amplifica o sinal e forma o coágulo de fibrina estável — o segundo e definitivo selo.

O vWF atua na hemostasia primária:

  1. Adesão plaquetária: quando o endotélio é lesado, o colágeno subendotelial é exposto. O vWF se liga ao colágeno E às plaquetas (via receptor GPIb) — funcionando como uma ponte que ancora as plaquetas no local da lesão.

  2. Transporte do fator VIII: o vWF protege o fator VIII de ser degradado prematuramente no plasma. Sem vWF, o fator VIII tem meia-vida muito reduzida.

Sem vWF:

  • Plaquetas não aderem adequadamente ao endotélio lesado
  • O tampão plaquetário não se forma
  • O sangramento é prolongado e excessivo

Por que a DVW é Diferente da Hemofilia

| Característica | DVW | Hemofilia A (fator VIII) | |---|---|---| | Defeito | vWF (adesão plaquetária) | Fator VIII (cascata) | | Tempo de sangramento | Prolongado | Normal | | TTPA (tempo de tromboplastina) | Pode estar aumentado (se fator VIII baixo) | Muito aumentado | | Tipo de sangramento | Mucosas, superfícies | Músculos, articulações | | Raça mais afetada | Dobermann | Irish Setter, Golden |

A DVW no Dobermann Brasileiro

Prevalência na Raça

O Dobermann é a raça mais associada à DVW no Brasil e no mundo. Estudos em diferentes populações indicam que:

  • 50-70% dos Dobermanns têm DVW tipo 1 (portadores ou afetados)
  • A mutação específica no gene vWF foi identificada — teste de DNA é possível

A mutação do Dobermann é pontual — uma substituição em um único nucleotídeo que resulta em produção reduzida de vWF. Cães homozigotos (dois alelos afetados) têm DVW tipo 1 com níveis de vWF muito baixos; heterozigotos (um alelo afetado) têm déficit parcial, geralmente assintomático.

Por que o Dobermann é Especialmente Suscetível a Sangramento Cirúrgico

Além da DVW, o Dobermann tem predisposição à hipotireoidismo — e o hipotireoidismo reduz os níveis de vWF. Um Dobermann hipotireoidiano com DVW tem risco ainda maior de sangramento.

Portanto: Dobermann programado para cirurgia deve ser testado para:

  1. DVW (vWF:Ag ou teste genético)
  2. Hipotireoidismo (T4 livre, TSH)

Raças com DVW Tipo 3 (Grave)

Enquanto a maioria das raças tem DVW tipo 1 (déficit parcial), algumas raças têm DVW tipo 3 — deficiência quase completa de vWF:

Scottish Terrier: DVW tipo 3 autossômica recessiva; cães afetados têm sangramento espontâneo grave desde filhotes.

Chesapeake Bay Retriever: DVW tipo 2 — vWF produzido mas disfuncional.

Kooikerhondje: DVW tipo 3 — relatada principalmente em países nórdicos.

Nesses cães: a simples castração pode causar morte por sangramento sem preparação adequada.

Diagnóstico — Escolhendo o Teste Certo

Qual Teste Usar?

Cenário 1: Dobermann para cirurgia eletiva em tempo hábil:Teste genético de DNA — definitivo, realizado uma vez, não afetado por outras doenças.

Cenário 2: Qualquer raça de risco para cirurgia de emergência:BMBT como triagem rápida + vWF:Ag se disponível.

Cenário 3: Raça de risco desconhecida, investigação geral:vWF:Ag quantitativo.

O BMBT — Técnica Correta

Padronização é essencial:

  1. Dobra do lábio superior fixada (para expor a mucosa)
  2. Incisão padronizada de 5 mm de comprimento × 1 mm de profundidade (lanceta padronizada)
  3. Absorção do sangue com papel-filtro a cada 30 segundos, sem tocar a ferida
  4. Registrar o tempo até parar o sangramento

Normal: < 2 minutos em maioria dos laboratórios.

DVW: > 3-4 minutos tipicamente.

Cuidado: o BMBT é sensível a técnica e a trombocitopenia — sempre verificar plaquetas antes.

Manejo Cirúrgico

Protocolo Desmopressina

A desmopressina (DDAVP) é o principal tratamento preventivo para DVW tipo 1 em cirurgias eletivas:

Mecanismo: libera vWF pré-formado e armazenado em corpos de Weibel-Palade das células endoteliais e de grânulos alfa das plaquetas. O resultado é aumento rápido (em 30-60 minutos) dos níveis plasmáticos de vWF — 2-4 vezes acima do basal.

Duração: o efeito dura 1-4 horas. Uma segunda dose tem menor efeito (taquifilaxia — os estoques foram liberados pela primeira dose).

Protocolo cirúrgico:

  • 1 µg/kg SC ou IV lento (10-15 min), 30-60 minutos antes da incisão
  • Pode repetir uma vez durante a cirurgia se necessário
  • Não usar mais de 2 doses — a taquifilaxia torna as doses adicionais ineficazes

Importante: a desmopressina não funciona na DVW tipo 3 — não há vWF para liberar.

Plasma Fresco Congelado

Cada mL de PFC contém ~0,5-1 unidade de vWF (e fator VIII).

Dose pré-cirúrgica: 10-20 mL/kg IV, administrado em 30-60 minutos antes da cirurgia.

Indicações: DVW tipo 3; DVW tipo 1 grave com BMBT muito prolongado; sangramento ativo em DVW.

Cuidados Pós-Operatórios

  • Observação do sítio cirúrgico por 48-72h
  • Evitar AINEs que inibem a função plaquetária (incluindo meloxicam, carprofeno) por 5-7 dias
  • Evitar heparina
  • Restrição de atividade para evitar trauma no sítio

Programa de Reprodução e Genética

Para criadores de Dobermann e outras raças afetadas, a testagem genética permite:

  • Identificar cães afetados (dois alelos mutados) — não usar como reprodutores
  • Identificar portadores (um alelo mutado) — usar com critério, cruzando com cões normais
  • Eliminar progressivamente a mutação da linhagem

O cruzamento portador × normal gera:

  • 50% filhotes normais (não portadores)
  • 50% portadores (geralmente assintomáticos)
  • 0% afetados

O cruzamento portador × portador gera:

  • 25% normais, 50% portadores, 25% afetados — risco desnecessário.

A rastreabilidade genética é a ferramenta mais poderosa para reduzir a prevalência de DVW nas raças afetadas ao longo das gerações.

Perguntas frequentes

O que é doença de von Willebrand em cachorro?+

A doença de von Willebrand (DVW) é a coagulopatia (distúrbio da coagulação) hereditária mais comum em cães. É causada pela deficiência quantitativa (pouco vWF) ou qualitativa (vWF anormal) do fator de von Willebrand (vWF). O vWF é uma glicoproteína produzida pelas células endoteliais e pelas plaquetas que desempenha dois papéis fundamentais na hemostasia: mediação da adesão plaquetária — o vWF funciona como 'cola' entre as plaquetas e o endotélio lesado (hemostasia primária); transporte e proteção do fator VIII da coagulação — o vWF carrega o fator VIII no sangue, protegendo-o da degradação. Três tipos de DVW: tipo 1 — deficiência quantitativa parcial (o mais comum; vWF presente mas em quantidade reduzida); tipo 2 — defeito qualitativo (vWF presente mas disfuncional); tipo 3 — deficiência quantitativa completa (ausência total de vWF — o mais grave). Raças afetadas: tipo 1: Dobermann (a raça mais estudada — 50-70% são portadores em alguns estudos), Rottweiler, Pastor Alemão, Golden Retriever, Pembroke Welsh Corgi, Standard Schnauzer, Basset Hound; tipo 3 (mais grave): Scottish Terrier, Chesapeake Bay Retriever, Kooikerhondje, Shetland Sheepdog.

Quais são os sinais de Von Willebrand em cachorro?+

Os sinais dependem do tipo de DVW e da gravidade do déficit. Tipo 1 (mais comum, mais leve): muitos cães com tipo 1 são assintomáticos durante a vida — o déficit só é descoberto em sangramento excessivo durante cirurgia; episódios de sangramento leve a moderado: epistaxe (sangramento pelo nariz) espontânea; sangramento gengival após brincadeiras ou toque; sangramento prolongado após corte das unhas (se a polpa for atingida); hematomas após trauma mínimo; sangramento prolongado após cirurgia (castração, biópsia). Tipo 3 (mais grave, mais raro): sangramento espontâneo frequente: epistaxe recorrente; sangramento gengivial espontâneo; hemartrose (sangramento nas articulações) — incomum em DVW, mais em hemofilia; hematúria (sangue na urina); melena (sangue nas fezes). Eventos de risco: qualquer procedimento cirúrgico (incluindo castração eletiva) em cão não testado pode resultar em sangramento excessivo grave; extração dentária, biópsia, colocação de catéter IV. Diagnóstico prévio é fundamental antes de qualquer cirurgia em raças de risco.

Como diagnosticar Von Willebrand em cachorro?+

O diagnóstico pode ser feito por teste funcional (quantificação de vWF) ou por teste genético (para raças com mutações conhecidas). Quantificação do antígeno de vWF (vWF:Ag): medida da quantidade de vWF no plasma; resultado expresso como porcentagem do normal; normal: > 70% (pode variar por laboratório); DVW tipo 1: 15-50% (déficit parcial); DVW tipo 3: < 1% (ausência quase total); cão com vWF:Ag 50-70%: zona cinzenta — pode ter sangramento leve; cão com vWF:Ag > 70%: normal — improvável DVW. Importante: o vWF:Ag pode variar com o estado de saúde — hipotireoidismo, inflamação aguda, estresse podem alterar o resultado; idealmente testar cão saudável, sem estresse, fora de período inflamatório. Tempo de sangramento da mucosa bucal (BMBT): mede o tempo para parar o sangramento após incisão padronizada na mucosa bucal; normal: < 2 minutos; DVW: prolongado (> 3-4 minutos); teste funcional simples, mas com variabilidade; mais útil como teste de triagem pré-cirúrgico em raças de risco. Teste genético de DNA: disponível para raças específicas onde a mutação é conhecida; Dobermann: mutação no gene do vWF identificada — teste de DNA PCR disponível; classificação: normal, portador (um alelo afetado — geralmente assintomático), afetado (dois alelos afetados — DVW tipo 1 ou 3 dependendo da raça); vantagem: teste definitivo, realizado uma vez na vida, independente do estado de saúde.

Como manejar cirurgia em cachorro com Von Willebrand?+

A preparação pré-cirúrgica adequada pode prevenir complicações hemorrágicas em cão com DVW. Triagem pré-cirúrgica em raças de risco: testagem de DVW antes de qualquer cirurgia eletiva em Dobermann, Scottish Terrier e outras raças de risco; BMBT (tempo de sangramento bucal) como triagem rápida de emergência. Desmopressina (DDAVP): análogo sintético da vasopressina (ADH); mecanismo: induz a liberação de vWF armazenado nas células endoteliais → aumenta os níveis plasmáticos em 2-4 vezes por 30-60 minutos; dose: 1 µg/kg SC ou IV, 30-60 minutos antes da cirurgia; eficaz principalmente no tipo 1 (onde há vWF armazenado); não funciona no tipo 3 (não há vWF para liberar); pode ser repetida 1-2x, com efeito diminuindo progressivamente (taquifilaxia). Plasma fresco congelado (PFC): contém vWF e fator VIII; indicado em: sangramento ativo grave em cão com DVW; pré-cirúrgico em tipo 3 ou quando a desmopressina é insuficiente; dose: 10-20 mL/kg IV antes e durante a cirurgia. Concentrado de vWF/fator VIII: disponível em medicina humana; raramente disponível em veterinária no Brasil. Cuidados cirúrgicos: hemostasia meticulosa; eletrocauterização generosa; fios de sutura absorvíveis de boa qualidade; evitar anticoagulantes e AINEs no pré e pós-operatório; monitorizar o sítio cirúrgico por 48-72h pós-operatório.