Displasia da Valva Mitral em Cachorro: Defeito Cardíaco Congênito
A displasia da valva mitral (DVM) é a malformação congênita da valva entre o átrio esquerdo e o ventrículo esquerdo — causa regurgitação mitral grave desde filhote. Labrador Retriever, Bull Terrier e Great Dane são as raças mais afetadas. Diagnóstico por ecocardiografia. Tratamento médico com diuréticos e IECA para insuficiência cardíaca.
O Bull Terrier de 8 meses chegou para vacinação — o veterinário detectou sopro intenso (grau V/VI) no ápice cardíaco esquerdo. O tutor não sabia de nenhum problema. O filhote estava ativo, brincando normalmente.
Ecocardiografia: folhetos mitrais espessados com coaptação inadequada. Doppler: jato de regurgitação mitral moderado a grave. AE/Ao: 1,5. Fração de encurtamento: 38% (preservada).
DVM moderada — fase B2 (cardiomegalia sem ICC). Pimobendan + IECA iniciados.
DVM vs. Doença Mixomatosa Mitral — Não São a Mesma Coisa
Por que a Distinção Importa
Ambas causam regurgitação mitral com sopro, mas são doenças completamente distintas:
Doença mixomatosa mitral (DMM):
- Adquirida, degenerativa
- Aparece em cães adultos (5-12 anos)
- Afeta principalmente raças pequenas (Cavalier King Charles Spaniel, Poodle, Chihuahua)
- Progressão lenta ao longo de anos
- Os folhetos são normais na origem mas ficam mixomatosos com o tempo
Displasia da valva mitral (DVM):
- Congênita — presente desde o nascimento
- Aparece em filhotes e adultos jovens
- Afeta principalmente raças grandes (Labrador, Bull Terrier, Great Dane)
- Progressão variável — pode ser grave desde o início
- Os folhetos são estruturalmente anormais desde a formação
O sopro desde filhote é o dado mais importante para distinguir clinicamente — na DMM, o sopro aparece em adultos; na DVM, está presente no primeiro exame do filhote.
A Hemodinâmica da Regurgitação Crônica
O Ciclo de Adaptação Cardíaca
A regurgitação mitral coloca o coração em um desafio volumétrico:
A cada batimento:
- 100 mL de sangue deve ir para a aorta (débito sistêmico)
- Se 30 mL regurgitam para o AE = fração regurgitante 30%
- O VE precisa bombear 130 mL para entregar 100 mL à circulação
Adaptação:
- VE dilata (acomoda maior volume)
- VE hipertrofia (gera mais força)
- AE dilata (acomoda o volume regurgitante)
Essa compensação funciona por anos — cão assintomático apesar da regurgitação.
Descompensação: quando o VE não consegue mais compensar → pressão de enchimento aumenta → congestão venosa pulmonar → edema pulmonar (ICC esquerda).
Por que a Fibrilação Atrial é Temida
O AE dilatado é eletricamente instável — fibras musculares atriais esticadas ativam ectopicamente. Quando começa a fibrilação atrial:
- AE bate de forma caótica (400-600 impulsos/min)
- Ventrículo responde irregularmente (120-180 bpm)
- Taquicardia persistente → taquicardiomiopatia (o miocárdio se deteriora por taquicardia crônica)
- Perda da contribuição atrial ao enchimento ventricular → débito cai
Tratamento da FA: digoxina + diltiazem (controle da frequência ventricular) ou sotalol (controle de ritmo). A cardioversão raramente é tentada em cães.
Pimobendan — O Medicamento Central na ICC Canina
Como Age
O pimobendan é único — tem dois mecanismos simultâneos:
Inotrópico positivo (sensibilizador de cálcio): aumenta a sensibilidade das miofilamentos ao cálcio → a contração cardíaca fica mais forte sem aumentar o consumo de O₂ (diferente da digoxina e dobutamina).
Vasodilatador: inibe a fosfodiesterase III → vasodilatação arteriolar e venosa → reduz a pré e pós-carga.
Resultado: o coração bate mais forte (mais débito) e trabalha contra menos resistência — combinação ideal para ICC.
Evidência no Estudo EPIC e QUEST
O estudo EPIC (2016) mostrou que pimobendan em cães com DMM em estágio B2 (cardiomegalia, sem ICC) atrasou o início da ICC em média 15 meses.
O estudo QUEST confirmou benefício em ICC já estabelecida.
Hoje, pimobendan é o medicamento mais importante no arsenal da cardiologia veterinária.
Monitorização em Casa — O Papel do Tutor
Frequência Respiratória em Repouso (FRR)
Em cão com DVM, monitorar a FRR em repouso (dormindo) é a ferramenta mais simples para detectar ICC precocemente em casa:
Normal: < 30 movimentos respiratórios por minuto durante o sono.
Alerta: ≥ 30 respirações por minuto durante o sono por dois dias consecutivos = investigar edema pulmonar.
Técnica: contar os movimentos do abdômen/tórax por 1 minuto enquanto o cão dorme profundamente. Fazer 2x/semana em cães com DVM grave.
Prognóstico
| Estágio | Sobrevida Estimada | |---|---| | B1 (sopro, sem cardiomegalia) | Anos — vida normal | | B2 (cardiomegalia, sem ICC), com pimobendan | 2-4 anos adicionais antes de ICC | | C (ICC compensada com medicamentos) | 12-24 meses com tratamento | | D (ICC refratária) | Semanas a poucos meses | | Com fibrilação atrial | Prognóstico piora 30-40% |
A DVM em raças grandes tem pior prognóstico que a DMM em raças pequenas porque: a raça grande tem maior carga volumétrica, a DVM é frequentemente mais grave anatomicamente, e o coração grande tem menor reserva compensatória. O diagnóstico precoce (triagem de filhotes de raças predispostas) e a intervenção no momento certo (B2) melhoram significativamente o prognóstico.
Perguntas frequentes
O que é displasia da valva mitral em cachorro?+
A displasia da valva mitral (DVM) é uma malformação congênita da valva mitral — a valva que separa o átrio esquerdo (AE) do ventrículo esquerdo (VE). Normalmente, a valva mitral fecha completamente durante a sístole (contração do VE), impedindo que o sangue reflua para o AE. Na DVM, os folhetos valvares são malformados — espessados, encurtados, com implantação anômala das cordas tendíneas ou com fenestração — e a valva não fecha adequadamente → regurgitação mitral (RM): sangue volta para o AE durante a sístole. Isso é diferente da doença mixomatosa mitral (DMM) — a causa mais comum de RM em cães adultos pequenos (Cavalier King Charles Spaniel, Poodle). A DMM é adquirida e degenerativa. A DVM é congênita — presente desde o nascimento. Consequências hemodinâmicas: o sangue que regurgita para o AE dilata o AE progressivamente; o VE precisa compensar a perda → dilata e hipertrofia (sobrecarga volumétrica); com o tempo → insuficiência cardíaca congestiva (ICC) esquerda → edema pulmonar. Raças predispostas: Labrador Retriever — uma das raças mais afetadas; Bull Terrier; Great Dane; Golden Retriever; Newfoundland; Irish Wolfhound; German Shepherd (Pastor Alemão). A DVM coexiste frequentemente com estenose mitral congênita em alguns cães.
Quais são os sinais de displasia mitral em cachorro?+
Os sinais dependem da gravidade da regurgitação e da fase da doença. DVM leve-moderada (compensada): sopro cardíaco sistólico descoberto ao exame de rotina; o cão está assintomático — exercício normal, sem tosse; o sopro está presente desde filhote (característico da causa congênita); grau do sopro: III-VI/VI; localização: apical esquerdo (5° espaço intercostal esquerdo). DVM grave — insuficiência cardíaca congestiva: tosse: especialmente à noite ou ao deitar (edema pulmonar → irritação dos brônquios pelo líquido); taquipneia e dispneia: respiração acelerada, esforço respiratório visível; cansaço fácil, intolerância ao exercício; ortopneia: cão prefere ficar em pé, recusa deitar (decúbito piora a dispneia); cianose em casos graves; síncope de esforço — débito cardíaco insuficiente no exercício; perda de peso — caquexia cardíaca. Atualmente ICC — em cão jovem (filhote a adulto jovem de raça grande): sopro cardíaco + edema pulmonar ao raio-X + sinais respiratórios em cão jovem → suspeitar de cardiopatia congênita, incluindo DVM. Fibrilação atrial: em cães com DVM e AE muito dilatado — fibrilação atrial → taquicardia → piora da ICC.
Como diagnosticar displasia mitral em cachorro?+
O diagnóstico é por ecocardiografia — é o exame central para avaliar a anatomia e a hemodinâmica. Ecocardiografia com Doppler: avaliação anatômica: folhetos mitrais espessados, irregulares, com coaptação anômala; cordas tendíneas curtas ou malformadas; prolapso ou flail de folheto; Doppler colorido: fluxo de regurgitação (jato azul/vermelho turbulento no AE durante a sístole); área e direção do jato de regurgitação; avaliação de gravidade: fração de encurtamento do VE (FS); diâmetro do AE/aorta — ratio > 1,6 = AE marcadamente dilatado; volume de regurgitação estimado; VHS (vertebral heart score) no raio-X — correlaciona tamanho cardíaco. Radiografia torácica: cardiomegalia — especialmente aumento do AE (bordo caudal dorsal da silhueta); edema pulmonar intersticial ou alveolar (padrão perivascular ou infiltrado alveolar nos lobos caudais); linha B de Kerley (estrias de Kerley) — edema intersticial; VHS > 10,5 vertebral body scores = cardiomegalia significativa. Eletrocardiograma: P mitrale (onda P larga, entalhada) — dilatação do AE; eixo normal ou levemente desviado para a esquerda; fibrilação atrial se presente — ondas P ausentes, linha de base irregular, complexos QRS irregulares. Cateterismo cardíaco: raramente necessário — eco é suficiente na maioria.
Como tratar displasia mitral em cachorro?+
Não existe correção cirúrgica amplamente disponível para DVM em cães no Brasil — o tratamento é médico (manejo da insuficiência cardíaca). DVM compensada (sem ICC, sem sinais clínicos): sem medicamentos — estudos não mostram benefício de tratar preventivamente em cães sem ICC; monitorização com eco a cada 6-12 meses; exercício moderado sem restrição. ICC estágio B2 (cardiomegalia significativa, sem sinais): pimobendan 0,25-0,3 mg/kg 2x/dia — inodilatador (melhora a contração e dilata os vasos): retarda o início da ICC sintomática; evidência baseada no estudo EPIC (DCM) e QUEST (mitral); IECA (enalapril 0,25-0,5 mg/kg 2x/dia ou benazepril 0,25-0,5 mg/kg 1x/dia): neuroprotetor, reduz a pós-carga; ajuda a retardar a progressão. ICC estágio C (sinais clínicos): furosemida 1-4 mg/kg 2-3x/dia VO — diurético de alça; reduz o edema pulmonar; pimobendan: obrigatório — melhora a performance cardíaca; IECA: enalapril ou benazepril; espironolactona 2 mg/kg 1x/dia: poupador de potássio + antialdosterônico → cardioprotegido; dieta com restrição moderada de sódio. ICC grave / refratária (estágio D): furosemida IV em crise: 4-8 mg/kg IV para urgência — edema pulmonar agudo; oxigenoterapia em gaiola de oxigênio; nitroprussiato IV (em hospital): vasodilatador venoarterial de ação rápida em ICC grave; dobutamina IV: em choque cardiogênico; combinação de múltiplos diuréticos: furosemida + hidroclorotiazida em casos refratários. Cirurgia de reparo mitral: realizada em centros especializados no Japão e EUA — bypass cardiopulmonar + reparo ou substituição da valva; não disponível de rotina no Brasil; custo extremamente alto, alta mortalidade em cães.
Continue lendo
Síndrome de Wobbler em Cachorro: Compressão Cervical e Ataxia
A síndrome de Wobbler (espondilomielopatia cervical) é a compressão da medula espinhal no segmento cervical — causa ataxia dos membros posteriores com marcha 'cambaleante'. Doberman e Great Dane são as raças mais afetadas. Tratamento cirúrgico (distração-estabilização) é definitivo em casos graves. Diagnóstico por RM cervical.
Úlcera Corneal em Cachorro: Diagnóstico com Fluoresceína e Tratamento
A úlcera corneal é a erosão do epitélio da córnea — causa dor, blefaroespasmo e lacrimejamento. Diagnóstico pelo teste de fluoresceína (mancha verde). Braquicefálicos são os mais afetados. Antibiótico tópico e colírio lubrificante para úlceras simples. Úlcera estromal profunda e descemetocele são emergências cirúrgicas.
Tumor Venéreo Transmissível em Cachorro (TVT): Diagnóstico e Tratamento
O tumor venéreo transmissível (TVT) é um tumor biologicamente único — transmitido por contato direto (cópula) como um aloenxerto de células tumorais vivas. Causa lesões genitais exuberantes. Única neoplasia canina transmissível. Quimioterapia com vincristina tem taxa de cura > 95%. Endêmico em cidades brasileiras com cães errantes.