Discoespondilite em Cachorro: Infecção do Disco Intervertebral
A discoespondilite é a infecção bacteriana (ou fúngica) do disco intervertebral e das vértebras adjacentes — causa dor vertebral intensa e pode comprimir a medula espinal. Staphylococcus e Brucella canis são os principais agentes. Diagnóstico por radiografia e RM. Antibioticoterapia prolongada por 2-3 meses.
O Labrador macho inteiro de 5 anos chegou com dor lombar intensa de evolução de 3 semanas — se recusava a subir escadas, gemia ao se levantar. Febre de 39,4°C. Prostatite havia 2 meses (antibiótico por 2 semanas "que não adiantou").
Radiografia: lise das placas terminais entre L2-L3, espaço discal colapsado. Brucella canis RSAT: 1:200.
Discoespondilite por Brucella — zoonose. Notificação e orientação ao tutor sobre risco.
Anatomia da Infecção
Por que o Disco Intervertebral É Vulnerável
O disco intervertebral adulto é avascular — não tem circulação própria. Os nutrientes chegam por difusão das placas terminais vertebrais (que são vascularizadas).
Na discoespondilite: bactérias chegam ao disco pela circulação das placas terminais → colonizam o tecido avascular (onde as defesas imunes têm acesso limitado) → infecção estabelecida.
Localização mais frequente: junções lombares — L2-L3, L3-L4, L6-L7, L7-S1 — pela maior mobilidade e stress mecânico.
A Via Hematogênica
- Foco infeccioso em outro órgão (bexiga, próstata, pele, dentes, coração)
- Bacteremia transitória
- Bactérias se depositam nas placas terminais vertebrais (rico fluxo capilar lento)
- Infecção se estabelece no disco
- Progressão para os corpos vertebrais adjacentes
Por isso: todo cão com discoespondilite precisa de investigação do foco primário — sem tratar a fonte, a recidiva é certa.
Brucella canis — O Agente mais Temido
A Zoonose
A Brucella canis é uma das pouquíssimas zoonoses que cão para humano é confirmada e documentada. Embora o risco para humanos seja baixo (comparado com B. abortus bovina), existe:
Transmissão para humanos: contato direto com secreções infecciosas do cão — principalmente secreções genitais (descarga vaginal pós-aborto, sêmen), sangue.
Grupos de risco: veterinários, criadores, pessoas que manipulam o cão sem luvas.
Implicação prática: quando diagnosticada discoespondilite por Brucella, o tutor DEVE ser orientado:
- Usar luvas ao manipular o cão
- Consultar médico para triagem
- A castração do cão reduz (mas não elimina) a excreção bacteriana
Por que Brucella É Difícil de Tratar
A Brucella é uma bactéria intracelular — se esconde dentro de macrófagos. Antibióticos que não penetram bem nas células têm efeito limitado.
Antibióticos que penetram intracelularmente:
- Doxiciclina (tetraciclina) — boa penetração intracelular
- Rifampicina — excelente penetração intracelular
- Fluoroquinolonas (enrofloxacina) — penetração intermediária
Por que o tratamento duplo: combinação de dois agentes com penetração intracelular — reduz a seleção de resistência e melhora a eficácia.
Por que "não cura": mesmo após meses de antibiótico, a Brucella pode persistir em santuários intracelulares (tecido linfóide, macrófagos). Sorologia pode permanecer positiva por meses após o tratamento.
A Evolução Radiográfica — Lenta, mas Diagnóstica
As Fases Radiográficas
Fase precoce (primeiras 3-4 semanas): radiografia pode ser NORMAL — a destruição óssea ainda não é visível. Nessa fase, a RM é o único exame que detecta a doença.
Fase intermediária (4-8 semanas):
- Irregularidade/lise das placas terminais (endplates) — as bordas do corpo vertebral ficam "corroídas"
- Colapso progressivo do espaço discal
- Esclerose perilesional (reação do osso ao redor)
Fase tardia (> 8 semanas):
- Lise extensa — o disco pode "desaparecer" na radiografia
- Esclerose marcada
- Possível fusão (anquilose) entre vértebras — sinal de cicatrização, mas indica doença crônica estabelecida
Monitorização radiográfica: a cada 4-6 semanas durante o tratamento. A estabilização (sem progressão da lise) indica resposta ao tratamento.
Complicações — Quando Operar
Abscesso Epidural
A infecção pode se estender ao espaço epidural → abscesso epidural → compressão medular aguda.
Sinais de alarme: deterioração neurológica rápida em cão com discoespondilite já em tratamento.
Indicação cirúrgica absoluta: déficit neurológico grave e rápido por compressão.
Instabilidade Vertebral
Destruição extensa dos corpos vertebrais → instabilidade → luxação/fratura patológica.
Pode requerer estabilização cirúrgica com implantes (placas, pinos, cimento) mesmo sem compressão medular.
Monitorização do Tratamento
Parâmetros de Resposta
Clínicos:
- Melhora da dor em 5-10 dias com antibiótico adequado
- Retorno do apetite e da atividade
Laboratoriais:
- Leucograma: normalização da leucocitose
- Proteína C reativa (PCR): cai com tratamento eficaz — útil para monitorar
- Brucella: sorologia pode demorar meses para negativar — não usar como critério de interrupção isoladamente
Radiográficos:
- Estabilização — o critério mais importante
- A melhora radiográfica é lenta — não esperar resolução para suspender o antibiótico
Quando Suspeitar de Falha
- Sem melhora clínica após 7-10 dias de antibiótico
- Agente resistente ao antibiótico empiricamente escolhido
- Causa fúngica não suspeitada (Aspergillus)
- Foco primário não tratado
Prognóstico
| Situação | Prognóstico | |---|---| | Sem déficit neurológico, tratamento precoce | Bom — resolução em 2-3 meses | | Com déficit leve, tratamento precoce | Moderado a bom | | Déficit grave, cirurgia | Moderado — dependente da duração | | Brucella canis | Reservado — recidiva frequente, portador crônico | | Fúngica (Aspergillus sistêmico) | Reservado — doença grave de base | | Paraplegia com arreflexia | Reservado a grave |
A discoespondilite é tratável na maioria dos casos — mas exige o tempo necessário de antibiótico. Interrupção precoce é a causa mais comum de recidiva.
Perguntas frequentes
O que é discoespondilite em cachorro?+
A discoespondilite é a infecção do disco intervertebral (discite) com envolvimento das vértebras adjacentes (osteomielite vertebral) — daí o nome: disco + espondilo (vértebra) + ite (inflamação/infecção). Diferente da hérnia de disco (PIVD) — que é uma doença degenerativa mecânica —, a discoespondilite é uma doença infecciosa. A bactéria ou fungo chega ao disco por via hematogênica (bacteremia a partir de outro foco infeccioso) ou por extensão direta (mordida, cirurgia de coluna, corpo estranho migratório). Agentes bacterianos mais comuns: Staphylococcus pseudintermedius/aureus — o mais frequente; Streptococcus canis; Escherichia coli; Brucella canis — importante porque exige tratamento diferente e é zoonose; Discospondylus (gram-negativos anaeróbios) — em corpos estranhos migratórios. Agentes fúngicos: Aspergillus spp. — especialmente em cães imunocomprometidos ou com aspergilose sistêmica; Cryptococcus, Candida — raros. Focos primários de bacteremia: infecção urinária, endocardite bacteriana, abscessos dentários, prostatite, piotórax, infecção cutânea — qualquer foco infeccioso pode semear o disco por via hematogênica. Raças com maior predisposição: raças grandes e gigantes (discos maiores, mais vascularizados); machos inteiros (maior risco de prostatite → bacteremia → discoespondilite).
Quais são os sinais de discoespondilite em cachorro?+
Os sinais variam com a localização e a gravidade da infecção. Dor vertebral — o sinal mais consistente: localizada ao segmento acometido; coluna lombar (mais comum) — o cão se recusa a subir escadas, geme ao se levantar; coluna torácica — arqueamento do dorso, relutância ao movimento; coluna cervical — o cão evita mover o pescoço, latidos dolorosos; percussão vertebral dolorosa sobre o local acometido — teste diagnóstico simples; o cão pode estar relutante a ser tocado nas costas. Sinais neurológicos (quando há compressão medular): parese ou plegia dos membros pelvinos (compressão lombar) — déficit proprioceptivo, fraqueza; ataxia e paresia dos quatro membros (compressão torácica ou cervical); incontinência urinária e fecal; em casos graves: paraplegia. Sinais sistêmicos de infecção: febre — pode ser leve a alta; anorexia, letargia; perda de peso em casos crônicos; não todos os cães têm febre — a discoespondilite pode ser subaguda/crônica sem febre evidente. Brucella canis — apresentação especial: além da discoespondilite, pode ter: orquite, epididimite (macho inteiro); aborto (fêmea); linfoadenopatia; uveíte.
Como diagnosticar discoespondilite em cachorro?+
O diagnóstico requer correlação de imagem + microbiologia. Radiografia vertebral (projeções lateral e VD): primeiro exame — acessível; achados clássicos (mas demoram 3-4 semanas para aparecer): lise das placas terminais vertebrais (endplates) — as bordas dos corpos vertebrais ficam irregulares; colapso do espaço discal; esclerose vertebral (reação do osso à infecção); o disco infectado fica 'comido' nas bordas. Ressonância magnética (RM): exame mais sensível — detecta discoespondilite antes das alterações radiográficas; hipossinal T1 e hipersinal T2 no disco e corpos vertebrais adjacentes; permite avaliar extensão para o canal espinal (abscesso epidural); indica se há compressão medular. TC (tomografia): boa para avaliar destruição óssea; menos sensível que RM para inflamação precoce; útil quando RM não disponível. Microbiologia: hemoculturas (2-3 amostras em 24h, em pico febril): identificam o agente em 40-60% dos casos; guiam a antibioticoterapia; cultura de urina (urocultura): a infecção urinária pode ser o foco primário; sorologia para Brucella canis: RSAT (teste rápido de aglutinação em soro) como triagem; AGID (imunodifusão em gel de ágar) como confirmação; biópsia vertebral guiada por TC: em casos refratários ou com crescimento negativo; punção do disco infectado para cultura.
Como tratar discoespondilite em cachorro?+
O tratamento é antibioticoterapia prolongada — a duração é o fator mais crítico para evitar recidiva. Antibioticoterapia empírica (antes do resultado de cultura): amoxicilina-clavulanato 20 mg/kg 2-3x/dia VO — cobre Staphylococcus e anaeróbios; enrofloxacina 10-20 mg/kg 1x/dia — boa penetração tecidual, cobre Gram-negativos; combinação amoxicilina-clavulanato + enrofloxacina para cobertura ampla; ajuste após resultado de cultura/antibiograma. Duração do tratamento: mínimo 6-8 semanas para casos leves; 3-4 meses para casos graves ou quando a resposta é lenta; critério de suspensão: resolução dos sinais clínicos + normalização de proteína C reativa e leucograma + controle radiográfico mostrando estabilização. Brucella canis — protocolo especial: protocolo de longa duração: doxiciclina 10 mg/kg 2x/dia + rifampicina 10-15 mg/kg 1x/dia — por 4-6 semanas, repetir após intervalo; erradicação difícil — a Brucella sobrevive intracelularmente; cão provavelmente permanece portador crônico; avaliação de castração (reduz a carga bacteriana). Tratamento cirúrgico: indicado quando: compressão medular grave com déficit neurológico; abscesso epidural extenso; falha do tratamento clínico com progressão; remoção do tecido infectado + descompressão medular; implantes podem ser necessários em casos com instabilidade vertebral. Restrição de movimento: repouso em gaiola ou ambiente restrito por 4-8 semanas; colar elizabetano para prevenir lambedura da coluna em cães que tentam alcançá-la; monitorização neurológica semanal nas primeiras 4 semanas. Analgesia: meloxicam 0,1-0,2 mg/kg 1x/dia para dor — mas anti-inflamatórios podem mascarar sinais de deterioração; gabapentina 5-10 mg/kg 2-3x/dia — para dor neuropática.
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