Demodiciose em Cachorro: Sarna Demodécica — Tratamento e Prognóstico
A demodiciose é causada pela proliferação excessiva do ácaro Demodex canis — normalmente presente em baixas densidades na pele do cão. Forma localizada tem resolução espontânea; forma generalizada exige tratamento prolongado. Isoxazolinas (fluralaner, sarolaner, afoxolaner) são altamente eficazes. Buscar doença imunossupressora de base em adultos.
O Shar Pei de 2 anos chegou com alopecia multifocal na face, pescoço e tronco — progressiva há 2 meses. Pele eritematosa, seborreica, com comedões. Odor desagradável.
Raspagem cutânea profunda: inúmeros ácaros Demodex canis, adultos e imaturos, em todos os campos.
Demodiciose generalizada juvenil — raspagem fácil, diagnóstico inequívoco. Mas em Shar Pei, cuidado: a pele espessada pode reduzir a sensibilidade da raspagem.
Demodex canis — O Ácaro que Vive em Todo Cão
A Ecologia Normal
Demodex canis é um ácaro cigar-shaped (em forma de charuto) que vive permanentemente nos folículos pilosos e glândulas sebáceas de todos os cães saudáveis.
Ciclo de vida: ovo → larva (6 patas) → protoninfa → deutonimfa → adulto (8 patas). Todo o ciclo ocorre no folículo, em 20-35 dias.
Transmissão: exclusivamente da mãe para os filhotes nas primeiras 72 horas de vida, durante a amamentação. Não há transmissão entre cães adultos.
Em cão saudável: sistema imune celular (principalmente linfócitos T regulatórios e células NK) controla a população de Demodex em densidades subclínicas.
O Colapso do Controle Imune
Para proliferação excessiva ocorrer, o sistema imune precisa "falhar" na sua vigilância do folículo:
Em filhotes: os linfócitos T específicos para antígenos de Demodex ainda não estão desenvolvidos → o ácaro prolifera temporariamente. Com a maturação imune (8-18 meses), o controle é restabelecido.
Em adultos: algo suprime ativamente a resposta imune (Cushing, linfoma, medicamentos) ou o sistema imune estava geneticamente predisposto a não controlar Demodex.
O Paradoxo do Demodex — Não É Contagioso
Este é o ponto mais mal entendido pelos tutores:
Por que não há risco para outros cães: todo cão adulto já tem Demodex. O problema não é adquirir o ácaro — é não conseguir controlá-lo. Colocar um cão com demodiciose ao lado de um cão saudável não vai transmitir a doença (o cão saudável tem sistema imune competente).
Por que não há risco para humanos: Demodex canis não infesta humanos (humanos têm suas próprias espécies de Demodex — D. folliculorum e D. brevis — geneticamente distintas).
Implicação prática: isolamento do cão com demodiciose não é necessário.
Formas Clínicas — Como Reconhecer
Demodiciose Localizada
Critérios: ≤ 4 lesões, < 2,5 cm de diâmetro cada, sem confluência.
Aspecto: manchas de alopecia (pela queda dos pelos infectados), eritema leve, descamação.
Localização típica: periocular, perioral, membros anteriores.
Conduta: observação ativa por 4-8 semanas. Na maioria dos casos, a lesão para de crescer e começa a repilação (pelos novos nascem no centro da lesão).
Sinal de progresso: repilação central com apenas eritema na borda.
Demodiciose Generalizada
Critérios: > 4 lesões OU coalescência de lesões OU comprometimento de toda uma região corporal.
Aspecto completo:
- Alopecia: pelos caem pela foliculite; a pele fica exposta e eritematosa
- Comedões: pelos mortos retidos obstruem o orifício folicular
- Seborréia: produção excessiva de sebo pelos folículos inflamados
- Pústulas: quando Staphylococcus pseudintermedius aproveita a porta de entrada → pioderma secundária
- Crostas e exsudato: em infecção bacteriana grave
- Hiperpigmentação: nas áreas cronicamente inflamadas
- Linfadenopatia: nos casos mais graves
Pododermatite Demodécica
Forma temida — acomete os espaços interdigitais e é extremamente dolorosa:
- Edema interdigital intenso
- Eritema e calor
- Fístulas drenando material serossanguinolento
- O cão lambe as patas compulsivamente (agravando a infecção bacteriana secundária)
Por que é difícil de tratar: a pele espessa dos espaços interdigitais dificulta a penetração dos medicamentos; a umidade favorece a infecção bacteriana; o cão lambe e reinfecta continuamente.
Monitorização do Tratamento — As Raspagens Seriadas
Por que Raspar Mensalmente
O critério de cura é objetivo — não clínico. Muitos cães têm repilação completa mas ainda têm ácaros vivos nos folículos. Se o tratamento for interrompido antes das raspagens negativas, os ácaros remanescentes se proliferam novamente.
Protocolo de raspagem de monitorização:
- Raspar os mesmos 3-5 locais a cada 4 semanas
- Contar os ácaros vivos e mortos
- Demodex morto (imóvel): indica resposta ao tratamento
- Demodex vivo (movimentos das patas): ainda há infecção ativa
- Critério de cura: 2 raspagens mensais consecutivas sem ácaros vivos
A Armadilha da "Cura Clínica"
Pelos crescendo de volta não significa que o tratamento pode ser interrompido. A repilação indica que a inflamação folicular reduziu, mas os ácaros podem ainda estar presentes em menor número.
A regra: dois exames mensais negativos — não um.
Demodiciose vs. Sarna Sarcóptica — A Distinção Importante
| Característica | Demodiciose | Sarna Sarcóptica | |---|---|---| | Ácaro | Demodex canis (comensal) | Sarcoptes scabiei var. canis | | Prurido | Leve (quando há pioderma) | Intenso — o maior sinal | | Contagiosidade | Não contagiosa | Altamente contagiosa | | Risco para humanos | Nenhum | Sarna temporária | | Raspagem | Positiva facilmente | Negativa em 50% dos casos | | Localização | Qualquer parte do corpo | Bordas das orelhas, cotovelos, abdômen | | Tratamento | Isoxazolinas | Isoxazolinas, ivermectina, selamectina |
Prognóstico
| Forma | Prognóstico | |---|---| | Localizada juvenil | Excelente — 90% resolução espontânea | | Generalizada juvenil, sem pioderma grave | Bom com isoxazolina — 80-90% cura | | Generalizada adulta sem causa de base | Moderado a bom | | Generalizada adulta com causa de base (Cushing, linfoma) | Dependente da causa de base | | Pododermatite demodécica | Moderado — tratamento prolongado, recidiva possível | | Generalizada refratária (múltiplos tratamentos) | Reservado |
A demodiciose é uma das dermatoses que mais se beneficiou das novas terapias. Antes das isoxazolinas, tratamentos com amitraz eram eficazes mas com efeitos adversos significativos. Hoje, um comprimido mensal (ou a cada 3 meses) com alta segurança transformou o prognóstico.
Perguntas frequentes
O que é demodiciose em cachorro e como o Demodex se prolifera?+
A demodiciose (ou sarna demodécica) é uma dermatose causada pela proliferação excessiva do ácaro Demodex canis nos folículos pilosos da pele do cão. O Demodex canis é um ácaro comensal — vive normalmente na pele de todos os cães em baixíssimas densidades, transmitido pela mãe nas primeiras horas de vida, e normalmente controlado pelo sistema imune. Quando o sistema imune falha em controlar o ácaro, ocorre proliferação excessiva → inflamação folicular → alopecia, seborréia e infecção secundária. Por que o sistema imune falha: Filhotes (imaturidade imunológica): o sistema imune celular (linfócitos T) ainda está imaturo — demodiciose juvenil; a maioria resolve espontaneamente com a maturação imune; adultos (imunossupressão adquirida): hiperadrenocorticismo (Cushing), hipotireoidismo, neoplasia (especialmente linfoma), quimioterapia/imunossupressores crônicos, má nutrição, estresse crônico — qualquer causa de imunossupressão pode desencadear demodiciose adulta. Predisposição genética: algumas raças têm predisposição hereditária — Shar Pei, Bulldog Inglês, Dogue de Bordeaux, West Highland White Terrier, Basset Hound, Dálmata, Boxer — provavelmente defeito nos linfócitos T específicos para Demodex. Demodex não é contagioso para humanos e raramente para outros cães (adultos com sistema imune normal).
Quais são os tipos e os sinais de demodiciose em cachorro?+
A demodiciose é dividida em localizada e generalizada — a distinção determina o tratamento e o prognóstico. Demodiciose localizada: ≤ 4 lesões isoladas, não confluentes, circunscritas; geralmente na face (ao redor dos olhos, lábios, nariz) ou membros anteriores; alopecia focal (pelos caem no local), eritema leve, descamação; sem prurido (o Demodex não causa prurido per se — o prurido surge com infecção bacteriana secundária); 90% dos casos juvenis resolvem espontaneamente em 1-2 meses sem tratamento específico. Demodiciose generalizada: > 4 lesões OU envolvimento de área extensa OU comprometimento de toda uma pata; formas: generalizada jovem (< 18 meses) e generalizada adulta (> 18 meses); sinais: alopecia multifocal a difusa; eritema, seborréia, descamação; comedões (pelos quebrados retidos nos folículos obstruídos); pústulas e crostas — quando há pioderma secundário (Staphylococcus); odor desagradável — pela infecção bacteriana secundária; linfadenopatia generalizada em casos graves; pododermatite demodécica (forma especial): infecção dos espaços interdigitais; patas inchadas, eritema intenso, fístulas; extremamente dolorosa; mais difícil de tratar — por questões de penetração do medicamento.
Como diagnosticar demodiciose em cachorro?+
O diagnóstico é simples na maioria dos casos — rarefação do pelo na raspagem de pele. Raspagem cutânea profunda: técnica: dobrar a pele entre os dedos (para 'expulsar' os ácaros dos folículos) e raspar profundamente até sangrar; o material é examinado diretamente ao microscópio; encontrar > 1-2 ácaros por campo ou ácaros imaturos em grande quantidade confirma; sensibilidade: 80-90% para formas clássicas; cuidado com pele espessada (Shar Pei, pés) — pode ser menos sensível. Tricograma (exame dos pelos arrancados): puxar pelos com pinça hemostática e examinar o bulbo ao microscópio; menos invasivo; sensibilidade: 70-80%; útil em locais difíceis de raspar (ao redor dos olhos, área interdigital). Biópsia de pele: quando a raspagem é negativa mas a suspeita clínica é alta (Shar Pei, áreas fibróticas); histopatologia: foliculite e furunculose com ácaros dentro dos folículos; permite avaliar a extensão e a inflamação. Diagnóstico de causa de base (em adultos): hemograma + bioquímica completa; dosagem de cortisol basal ± teste de supressão com dexametasona (para Cushing); T4 livre + TSH (para hipotireoidismo); radiografia de tórax + ultrassom abdominal (para neoplasia); sangue periférico para linfócitos atípicos (linfoma). Em adultos com demodiciose generalizada sem história de imunossupressão medicamentosa, a investigação de doença de base é OBRIGATÓRIA — a demodiciose pode ser o primeiro sinal de uma neoplasia.
Como tratar demodiciose em cachorro com isoxazolinas?+
O tratamento revolucionou nas últimas décadas — as isoxazolinas tornaram o tratamento muito mais eficaz e simples. Isoxazolinas — o tratamento de escolha: fluralaner (Bravecto): 25-56 mg/kg VO a cada 12 semanas; altamente eficaz — estudos mostram > 99% redução de ácaros; sarolaner (Simparica): 2-4 mg/kg VO mensal; afoxolaner (NexGard): 2,5-6,8 mg/kg VO mensal; mecanismo: bloqueiam canais de cloro dependentes de glutamato e receptores GABA dos artrópodes → paralisia e morte do ácaro; muito bem tolerados; segurança estabelecida em crias e gestantes (consultar bula). Protocolo de tratamento: demodiciose localizada: geralmente não tratar — 90% de resolução espontânea; monitorizar para não progredir para generalizada; demodiciose generalizada: isoxazolina mensalmente (afoxolaner ou sarolaner) OU a cada 12 semanas (fluralaner); duração: até duas raspagens mensais consecutivas negativas — geralmente 3-6 meses; não interromper antes das raspagens negativas — recidiva é quase certa; pododermatite: tratamento mais longo (6-12 meses); banhos de cetoconazol 2% ou clorexidina para auxiliar. Tratamento da pioderma secundária: antibioticoterapia sistêmica: cefalexina 20-30 mg/kg 2-3x/dia VO por 3-6 semanas; amoxicilina-clavulanato em casos graves; banhos com xampu de clorexidina 2-4% 2-3x/semana — remove detritos, reduz carga bacteriana. Tratamentos históricos (menos utilizados hoje): amitraz 0,05% banho a cada 2 semanas — eficaz mas tóxico (não usar em filhotes, Chihuahuas; sedação como efeito colateral); ivermectina VO diária — eficaz mas contraindicada em raças com mutação MDR1/ABCB1 (Collie, Shetland, Border Collie); milbemicina oxima — alternativa mais segura mas menos eficaz; doramectina SC semanal — alternativa.
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