Saúde

Colangite em Cachorro: Inflamação dos Ductos Biliares — Diagnóstico e Tratamento

A colangite é a inflamação dos ductos biliares — causa colestase, icterícia e dor abdominal. Em cães, frequentemente associada a pancreatite, doença intestinal inflamatória (IBD) e infecção bacteriana ascendente. Diagnóstico por ultrassom e biópsia hepática. Tratamento com antibióticos + ácido ursodesoxicólico.

27 de maio de 2026·4 min de leitura

O Cocker Spaniel de 7 anos chegou ictérico — mucosas amareladas, fever de 39,8°C, abdômen doloroso à palpação cranial. A FA estava em 2.400 UI/L (normal < 130). Bilirrubina total: 8,2 mg/dL.

O ultrassom revelou ductos biliares intra-hepáticos dilatados e parede do ducto biliar comum espessada.

Colangite bacteriana aguda — internação e antibióticos IV imediatamente.

Anatomia do Sistema Biliar Canino

Os Ductos Biliares

Sistema biliar intra-hepático: Cada hepatócito produz bile → secretada nos canalículos biliares (espaços entre hepatócitos) → ductos biliares interlobulares → ductos biliares septais → ductos hepáticos esquerdo e direito.

Sistema biliar extra-hepático: Os ductos hepáticos esquerdo e direito se unem no ducto hepáticoducto biliar comum (colédoco) → desemboca no duodeno (papila duodenal maior), junto com o ducto pancreático.

Vesícula biliar: conectada ao colédoco pelo ducto cístico — armazena bile entre as refeições.

Por que a Anatomia Importa para a Colangite

A proximidade anatômica entre o ducto biliar e o ducto pancreático tem implicações diretas:

  1. Inflamação pancreática (pancreatite) → inflamação local → afeta os ductos biliares
  2. Bactérias intestinais → ascendem pelo colédoco → colonizam o sistema biliar

Essa interdependência explica a Síndrome Tríade (pancreatite + IBD + colangite/hepatite) — as três condições têm anatomia e fisiopatologia interconectadas.

Colangite Bacteriana — A Apresentação Aguda

O Caminho das Bactérias

Via ascendente (a mais comum):

  1. IBD ou disbiose intestinal → proliferação bacteriana no duodeno
  2. Bactérias (principalmente E. coli, Enterococcus) sobem pelo colédoco
  3. Colonizam o sistema biliar → inflamação intensa (neutrófilos)
  4. Febre, dor, icterícia aguda

Via hematogênica (menos comum): bacteremia a partir de outro foco → bactérias chegam ao fígado/sistema biliar pela circulação.

Escolha do Antibiótico

A bile é um ambiente especial para os antibióticos — não todos penetram bem:

Antibióticos com boa penetração biliar:

  • Amoxicilina-clavulanato — excelente; cobertura broad-spectrum incluindo E. coli e anaeróbios
  • Enrofloxacina — excelente penetração biliar; boa cobertura Gram-negativo
  • Metronidazol — excelente para anaeróbios (Clostridium, Bacteroides)
  • Ampicilina — boa penetração; Enterococcus sensível

Antibióticos com penetração biliar ruim: gentamicina, penicilinas de 1ª geração — evitar como monoterapia em colangite.

A Síndrome Tríade — Conceito Central

Por que as Três Condições Coexistem

A "síndrome tríade" foi descrita inicialmente em gatos (que têm ducto biliar e ducto pancreático compartilhado — diferente de cães). Em cães, a anatomia é ligeiramente diferente mas a associação é real:

IBD → colangite:

  • IBD causa disbiose intestinal
  • Bactérias ascendem pelo colédoco
  • Colangite bacteriana

Pancreatite → colangite:

  • Inflamação pancreática próxima ao colédoco
  • Edema e inflamação local afetam os ductos biliares adjacentes
  • Colestase extra-hepática por compressão extrínseca

Colangite → hepatite:

  • A bile tóxica que não flui adequadamente desa os hepatócitos
  • Hepatite colestática secondary

Na prática: diagnosticar colangite sem investigar as outras duas condições é tratamento incompleto.

Diagnóstico da Síndrome Tríade

| Condição | Exame chave | |---|---| | Colangite | FA/GGT elevadas + ultrassom ductos dilatados + biópsia | | Pancreatite | cPLI elevada + ultrassom pâncreas | | IBD | Endoscopia intestinal com biópsia |

Idealmente, as três investigações são realizadas simultaneamente.

Ácido Ursodesoxicólico — O Auxiliar Essencial

O ácido ursodesoxicólico (UDCA) é um ácido biliar secundário (produzido por bactérias intestinais em pequena quantidade) que tem propriedades distintas dos ácidos biliares primários:

Mecanismos benéficos:

  1. Colereticidade: estimula a produção de bile mais fluida → melhor drenagem dos ductos
  2. Citoproteção: protege os hepatócitos da toxicidade dos ácidos biliares secundários que se acumulam na colestase
  3. Imunomodulação: modula a resposta imune nos ductos biliares inflamados
  4. Antifibrótico: reduz a progressão da fibrose dos ductos

Dose em cães: 10-15 mg/kg VO 1x/dia (com alimento para maior absorção).

Duração: indefinida em colangite crônica; pelo menos 2-3 meses em colangite aguda tratada.

Segurança: muito bem tolerado; hepatotóxico somente em doses muito altas.

Colelitíase (Cálculos Biliares) como Causa

Diferente dos humanos, cálculos biliares são relativamente raros em cães — mas quando presentes, podem causar:

  • Obstrução do colédoco → colangite obstrutiva
  • Inflamação local → colangite

Diagnóstico: ultrassom (focos hiperecogênicos com sombra acústica na vesícula ou ductos).

Tratamento: colecistectomia (se vesícula) ou coledocolitotomia (se ducto comum).

Prognóstico e Monitorização

Controle Laboratorial

Em cão com colangite crônica tratada, monitorizar:

  • FA e GGT: devem reduzir progressivamente com tratamento correto
  • ALT: indicador de dano hepatocelular ativo
  • Albumina: indicador de função hepática de síntese
  • Bilirrubina: monitorar a colestase
  • Ultrassom: cada 3-6 meses para avaliar ductos

Prognóstico por Tipo

| Tipo | Prognóstico com Tratamento | |---|---| | Bacteriana aguda, sem fibrose | Bom — resolução em 4-6 semanas | | Bacteriana recorrente | Moderado — risco de fibrose progressiva | | Linfocítica, sem cirrose | Moderado — controle crônico com imunossupressão | | Esclerosante progressiva | Reservado — fibrose irreversível | | Com cirrose biliar secundária | Reservado — insuficiência hepática |

A colangite canina, quando diagnosticada e tratada precocemente, tem bom prognóstico. A chave é o diagnóstico correto do tipo (bacteriana vs. imunomediada) — porque o tratamento errado (imunossupressão em colangite bacteriana) pode ser fatal.

Perguntas frequentes

O que é colangite em cachorro?+

A colangite é a inflamação dos ductos biliares — as estruturas que transportam a bile produzida pelo fígado até o duodeno. Quando os ductos ficam inflamados, o fluxo de bile é prejudicado (colestase) → a bile se acumula no fígado e na circulação → icterícia. Em cães, a colangite frequentemente ocorre no contexto de uma síndrome mais ampla chamada Complexo Colangite-Hepatite (CCH) ou Síndrome Tríade: pancreatite + doença intestinal inflamatória (IBD) + colangite/hepatite; as três condições se interrelacionam porque compartilham drenagem anatômica comum (ducto biliar e ducto pancreático desembocam próximos no duodeno); a IBD causa proliferação bacteriana intestinal → bactérias ascendem pelo ducto biliar → colangite bacteriana; a pancreatite causa inflamação local → afeta os ductos biliares adjacentes. Tipos: colangite bacteriana (neutrofílica aguda): infecção bacteriana ascendente pelo ducto biliar; aguda, com febre, dor; tratável com antibióticos; colangite linfocítica crônica: infiltrado linfocítico nos ductos biliares sem bactéria; tratamento imunossupressor; colangite esclerosante: rara em cães; fibrose progressiva dos ductos biliares.

Quais são os sinais de colangite em cachorro?+

Os sinais dependem da gravidade e do tipo de colangite. Colangite bacteriana aguda (mais grave): febre alta — temperatura > 40°C; dor abdominal cranial direita intensa — palpação dolorosa na região do fígado; vômito e anorexia; icterícia — mucosas amareladas (pode aparecer rapidamente em 24-48h); prostração intensa — o cão claramente doente. Colangite crônica linfocítica (mais insidiosa): letargia progressiva; anorexia e perda de peso; vômito ocasional; icterícia pode estar ausente ou leve; PU/PD (poliúria/polidipsia) em alguns casos; descoberta em exames de rotina com FA e ALT elevadas. Síndrome Tríade (pancreatite + IBD + colangite): os sinais se somam; vômito e diarreia mais pronunciados (componente intestinal e pancreático); dor abdominal difusa; estado geral mais comprometido. Sinais de falência hepática avançada (colangite crônica descompensada): ascite; encefalopatia hepática (confusão, desorientação); coagulopatia (sangramento); hipoalbuminemia.

Como diagnosticar colangite em cachorro?+

O diagnóstico exige associação de laboratório + imagem + biópsia hepática. Bioquímica hepática: FA e GGT: muito elevadas — os marcadores de colestase (obstrução/inflamação dos ductos biliares) mais sensíveis; ALT e AST: elevadas (hepatite associada); bilirrubina total: elevada na colestase — causa a icterícia; ácidos biliares séricos: elevados (menos utilizados com bilirrubina disponível). Hemograma: colangite bacteriana: leucocitose com neutrofilia, desvio à esquerda; colangite linfocítica: geralmente sem leucocitose. Ultrassom abdominal: ductos biliares dilatados — espessados, tortuosos, visíveis além do normal; parede do ducto biliar comum espessada (> 3 mm); fígado com ecotextura heterogênea; vesícula biliar — pode ter barro biliar, mucocele ou estase; pâncreas — verificar sinais de pancreatite associada; intestino — verificar espessamento de parede (IBD). TC abdominal: avalia melhor a dilatação dos ductos e suas causas; identifica obstrução por cálculo biliar (colelitíase) ou massa. Biópsia hepática: essencial para classificação definitiva; distingue colangite bacteriana de linfocítica; avalia extensão da fibrose (prognóstico); orientada por ultrassom; cultura da biópsia — para identificar o agente bacteriano na colangite neutrofílica. Cultura da bile: punção ecoguiada da vesícula biliar; cultura e antibiograma do conteúdo biliar; E. coli, Enterococcus, Clostridium são agentes comuns.

Como tratar colangite em cachorro?+

O tratamento varia com o tipo. Colangite bacteriana aguda — urgência: antibioticoterapia IV imediata: amoxicilina-clavulanato 20 mg/kg IV 3x/dia — amplo espectro para flora intestinal; enrofloxacina 10 mg/kg IV 1x/dia — excelente penetração biliar; metronidazol 15 mg/kg IV 2x/dia — cobertura anaeróbia; duração: 4-6 semanas após estabilização (mínimo); baseado em cultura/antibiograma após resultado; suporte intensivo: fluidoterapia IV, analgesia, antieméticos. Colangite linfocítica crônica — imunossupressão: prednisolona 1-2 mg/kg/dia com redução gradual ao longo de 4-6 meses; azatioprina em casos refratários; a imunossupressão NUNCA deve ser iniciada sem excluir colangite bacteriana (tornaria a infecção pior). Ácido ursodesoxicólico (UDCA) — para todos os tipos: 10-15 mg/kg VO 1x/dia; mecanismo: fluidifica e modifica a composição da bile → reduz a toxicidade biliar para os ductos; efeito coleréticoe hepatoprotetor; usar cronicamente em todos os casos. Tratamento da Síndrome Tríade: tratar as três condições simultaneamente: IBD (dieta + imunossupressão) + colangite (antibiótico ou imunossupressor) + pancreatite (jejum, analgesia, suporte). Hepatoproteção: SAMe 20 mg/kg/dia — antioxidante hepático; silimarina (cardo mariano) — efeito hepatoprotetor; vitamina E + vitamina C — antioxidantes. Prognóstico: colangite bacteriana, tratamento precoce: bom — resolução em 4-6 semanas; colangite linfocítica, sem fibrose: moderado — controle crônico; colangite avançada com cirrose biliar: reservado.