Cherry Eye em Cachorro: Prolapso da Glândula da Terceira Pálpebra
O 'cherry eye' é o prolapso da glândula lacrimal da terceira pálpebra — aparece como massa vermelha no canto interno do olho. Bulldog, Cocker Spaniel e Beagle são os mais afetados. Cirurgia de repositionamento (bolso conjuntival) é o tratamento de escolha — nunca remover a glândula. Tratamento precoce previne ceratoconjuntivite seca.
O Bulldog Inglês de 8 meses chegou com "coisa vermelha no olho que apareceu do nada". O tutor tentou empurrar de volta com o dedo — voltou, mas saiu novamente em horas.
Exame: massa vermelha-rosada, arredondada, 8 mm, no canto medial do olho direito. Glândula levemente edematosa. TLS: OD 12 mm/min, OE 18 mm/min.
Cherry eye OD. Cirurgia de bolso conjuntival (pocket technique).
A Glândula Lacrimal que Não Pode Ser Removida
Por que a Remoção é Um Erro Histórico
Nos anos 1970-1980, a remoção da glândula prolabada era o tratamento padrão — simples, rápida, sem recidiva. Com o tempo, os pacientes operados desenvolveram ceratoconjuntivite seca (CCS) progressiva anos depois:
- Glândula da terceira pálpebra: 30-50% da produção lacrimal
- Glândula lacrimal orbital principal: 50-70% da produção lacrimal
Com a remoção: o animal perde 30-50% da produção lacrimal permanentemente. Em raças que já têm predisposição para CCS (Bulldog, Cocker Spaniel, West Highland White Terrier), a remoção precipita CCS grave em poucos anos.
A CCS causa opacificação corneal progressiva → vascularização → pigmentação → cegueira.
A mensagem que mudou a conduta: "o cherry eye é um problema cosmético; a CCS é um problema que leva à cegueira". O reposicionamento — tecnicamente mais difícil — protege a visão a longo prazo.
A Lógica do Bolso Conjuntival
Na técnica do bolso:
- A glândula fica coberta pela conjuntiva → não se expõe ao ar
- Sem exposição → sem ressecamento e inflamação
- Continua produzindo lágrimas normalmente
- Volta à posição funcional
A chave técnica: o "bolso" criado deve ser fundo o suficiente para que a glândula não consiga sair novamente — a tensão da sutura mantém a glândula dentro do bolso.
A Bilateralidade — Tratar o Segundo Olho Precocemente
40-50% dos cães com cherry eye unilateral desenvolvem cherry eye no segundo olho em 6-12 meses. Alguns cirurgiões recomendam abordagem bilateral profilática no mesmo ato cirúrgico (criar o bolso no segundo olho mesmo sem prolapso ainda) — para reduzir o risco e o custo de uma segunda cirurgia futura.
A decisão depende da raça e do risco individual — Bulldogs e Cocker Spaniels se beneficiam da abordagem bilateral preventiva.
Monitorar TLS Após Cirurgia
Mesmo com a glândula reposicionada, raças predispostas têm risco aumentado de CCS com o envelhecimento. O TLS deve ser monitorado semestralmente em adultos de raças de risco.
| TLS pós-operatório | Conduta | |---|---| | > 15 mm/min | Normal — monitorar | | 10-15 mm/min | Borderline — ciclosporina tópica preventiva | | < 10 mm/min | CCS incipiente — ciclosporina tópica obrigatória |
Prognóstico
| Situação | Prognóstico | |---|---| | Cherry eye recente, bolso conjuntival | Muito bom — 85-90% resolução | | Recidiva após bolso | Bom com segunda técnica (Morgan) | | Glândula removida (cirurgia antiga) | Monitorar TLS — risco de CCS | | Cherry eye + TLS reduzido pré-operatório | Moderado — CCS pode surgir cedo |
Perguntas frequentes
O que é cherry eye em cachorro e por que ocorre?+
O 'cherry eye' — nome técnico prolapso da glândula da terceira pálpebra — é o deslocamento e protrusão da glândula lacrimal acessória localizada na membrana nictitante (terceira pálpebra) para fora de sua posição normal. O nome 'cherry eye' vem da aparência da glândula prolabada: massa vermelha-rosada, arredondada, no canto medial (interno) do olho — que se assemelha a uma cereja. Anatomia normal: a terceira pálpebra (membrana nictitante) fica no canto interno do olho; dentro dela existe a glândula lacrimal da terceira pálpebra (glândula de Harder), responsável por produzir 30-50% do filme lacrimal total; a glândula é mantida em posição pela cartilagem da terceira pálpebra e por um retináculo (ligamento fibroso) fraco. Por que prolaba: a ligação da glândula à cartilagem é fraca geneticamente em algumas raças; a glândula sofre hipertrofia (aumenta de tamanho) → o retináculo cede → a glândula escorrega para fora. Raças predispostas: Bulldog Inglês e Francês: mais afetados — ligamento particularmente fraco; Cocker Spaniel Americano e Inglês; Beagle; Boxer; Basset Hound; Lhasa Apso; Shih Tzu; Bloodhound; Rottweiler. Perfil típico: jovens (6 meses a 2 anos) com predisposição racial; bilateral em 40-50% dos casos — se um olho prolabar, o outro tende a prolabá-lo também.
Quais são os sinais de cherry eye em cachorro?+
A massa vermelha visível no canto interno do olho é o sinal principal e inequívoco. Sinais clínicos: massa vermelha-rosada visível no canto medial do olho: aparece subitamente, pode ser intermitente no início (retorna espontaneamente); progride para persistente (não retorna mais espontaneamente); tamanho: de pequena (3-5 mm) a grande (ocupando 1/3 da abertura palpebral); aspecto variável: lisa e brilhante no início; irregular, seca e inflamada se crônico; sinais de inflamação ocular associada: epífora (lacrimejamento excessivo ou secreção); conjuntivite: olho vermelho, inchado; blefaroespasmo: piscar excessivo, dificuldade de abrir o olho; a glândula exposta ao ar e ao atrito resseca e fica irritada → inflamação → mais exposição. Sem tratamento (long term): a glândula prolabada perde função gradualmente; redução na produção de lágrimas → ceratoconjuntivite seca (olho seco) — complicação mais importante a longo prazo.
Como diagnosticar cherry eye em cachorro?+
O diagnóstico é essencialmente visual — a massa no canto interno do olho é patognomônica quando presente em raça predisposta. Exame ocular completo: biomicroscopia (lâmpada de fenda): confirma que é a glândula da terceira pálpebra (não tumor ou cisto); avalia inflamação e edema da glândula; teste lacrimal de Schirmer (TLS): mensurar a produção de lágrimas ANTES da cirurgia: se TLS já está reduzido pré-cirurgia, há risco de CCS pós-operatória; normal: > 15 mm/minuto; < 10 mm/min = redução significativa. Diagnóstico diferencial: tumor da membrana nictitante: raro, diferente da glândula; apresentação menos arredondada, mais irregular; cisto conjuntival: translúcido, não vermelho; hiperplasia do linfoide da membrana nictitante: nódulos foliculares, não massa única; prolapso de gordura orbitária: menos frequente, diferente. Avaliação pré-operatória: TLS bilateral (o olho contralateral também pode ter redução subclínica); grau de inflamação da glândula: muito inflamada → tratar com anti-inflamatório 5-7 dias antes da cirurgia (facilita reposicionamento).
Como tratar cherry eye em cachorro?+
A cirurgia de reposicionamento da glândula é o tratamento de escolha — NUNCA remover a glândula. Técnica cirúrgica — reposicionamento (NÃO remoção): a remoção da glândula era feita antigamente — hoje é CONTRAINDICADA porque: remove 30-50% da produção lacrimal → ceratoconjuntivite seca permanente → cegueira progressiva pela córnea. Técnica do bolso conjuntival (pocket technique — Blogg): incisão na conjuntiva bulbar sobre a glândula; criação de 'bolso' (pocket) na conjuntiva; glândula reposicionada para dentro do bolso; sutura do pocket: glândula fica coberta, em posição anatômica; taxa de sucesso: 85-90%; técnica de Morgan (sutura ao periósteo): sutura da glândula ao periósteo orbitário ventral — maior adesão; usada quando o bolso falha; taxa de sucesso: > 90%; reposicionamento manual sem sutura (Morgan reversa): tentativa conservadora — pressão digital sobre a glândula para reposicioná-la; resultado temporário — recidiva em dias a semanas; pode ser tentado enquanto aguarda cirurgia. Manejo peri-operatório: anti-inflamatório tópico pré-operatório (prednisolona acetato 1%): quando a glândula está muito inflamada — 5-7 dias antes; antibiótico tópico pós-operatório: cloranfenicol ou tobramicina colírio — 7-10 dias; colar elizabetano: obrigatório — 10-14 dias; recidiva: ocorre em 10-15% — segunda cirurgia com técnica diferente. Após a cirurgia: TLS mensal por 3 meses: monitorar produção lacrimal; se TLS < 10 mm/min: ciclosporina tópica preventiva.
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