Calcinose Cutânea em Cachorro: Depósito de Cálcio na Pele
A calcinose cutânea é o depósito de sais de cálcio na pele — causa placas brancas endurecidas, calcificadas, geralmente no dorso e abdômen. É quase patognomônica de hiperadrenocorticismo (Cushing) em cães. Tratamento da causa é fundamental. O cálcio se reabsorve progressivamente após controle do cortisol.
O Boxer de 9 anos chegou com prurido intenso no dorso e placas brancas "como giz" na pele — algumas ulceradas, com infecção. O tutor notou que o cão bebia "litros de água por dia" e comia freneticamente.
Abdômen pendular visível. FA: 2.800 UI/L. Cortisol pós-ACTH: 35 µg/dL (valor de referência < 18).
Hiperadrenocorticismo (PDH) com calcinose cutânea extensa. Trilostano iniciado.
Por que o Cortisol Deposita Cálcio na Pele
O Caminho do Mineral
O cortisol excessivo altera o metabolismo do cálcio por múltiplos mecanismos:
Mobilização óssea: o cortisol estimula os osteoclastos (células que reabsorvem osso) e inibe os osteoblastos → o cálcio sai do osso para o sangue → hipercalcemia leve a moderada.
Redução da excreção renal de fósforo: o cortisol reduz a ação do PTH nos túbulos renais → o fósforo não é excretado → hiperfosfatemia.
Produto cálcio-fósforo elevado: quando CaxP > 60-70 mg²/dL², o cálcio precipita em tecidos moles — incluindo a derme.
O colágeno alterado como "isca": o cortisol crônico fragmenta as fibras colágenas e elásticas da derme → colágeno desnaturado tem maior afinidade pelo cálcio → a precipitação preferencial é na derme.
Por que o Dorso e as Virilhas
As áreas com maior concentração de colágeno dérmico + maior exposição ao estresse mecânico têm maior deposição:
- Dorso: maior espessura dérmica, maior concentração colágena
- Virilhas: fricção repetida, pele mais fina (o cálcio precipita mais facilmente)
- Pescoço: pressão da coleira pode facilitar
O "Pó de Giz" — Um Sinal Dermatológico Diagnóstico
Pressionar suavemente sobre uma placa de calcinose madura com a ponta dos dedos produz uma sensação de areia ou pó sob a pele — e ao perfurar uma pústula calcificada, pode sair material branco granuloso (como giz ou dentrifício).
Esse achado é diagnóstico: nenhuma outra dermatose produz esse material.
Diferença do conteúdo de um abscesso: abscesso = pus fluido, amarelado; calcinose = material branco seco, granuloso, não fluido.
A Calcinose como Sinal de Alerta Sistêmico
A calcinose cutânea importa além da dermatologia — é um sinal de que o Cushing está causando dano sistêmico:
Arteriosclerose calcificante: o mesmo processo deposita cálcio nas paredes arteriais → rigidez vascular → hipertensão.
Calcificação renal: nos casos mais graves, os túbulos renais acumulam cálcio → nefropatia hipercalcêmica → DRC progressiva.
Calcificação pulmonar: raramente, mas possível em Cushing grave de longa data.
A mensagem: calcinose cutânea não é "só um problema de pele" — é o marcador visível de uma doença sistêmica que está danificando vasos, rins e outros órgãos silenciosamente.
Prognóstico da Calcinose com Tratamento
| Situação | Tempo para Reabsorção | |---|---| | Cushing bem controlado (trilostano) | 3-6 meses (lesões pequenas) | | Lesões extensas, Cushing controlado | 6-12 meses | | Calcinose iatrogênica, corticoide desmamado | 2-4 meses | | Cushing não controlado | Progressão das lesões | | Com infecção bacteriana secundária grave | Necessita tratamento até resolução da infecção |
O que não funciona: tentar "remover" o cálcio com cirurgia ou lavagens — o depósito é intradérmico difuso, não encapsulado. Sem controlar o Cushing, novas placas se formariam imediatamente.
A calcinose cutânea é um dos sinais mais dramáticos do Cushing — visualmente impressionante, muito pruriginosa, frequentemente infectada. Mas sua resolução após controle do cortisol é gratificante: as placas desaparecem progressivamente, o prurido cede, e a pele recupera sua textura ao longo de meses.
Perguntas frequentes
O que é calcinose cutânea em cachorro e por que ocorre no Cushing?+
A calcinose cutânea (CC) é o depósito anormal de sais de cálcio (principalmente fosfato de cálcio) na pele — em uma pele normalmente incapaz de calcificar. A calcinose 'distrófica' ocorre em tecido previamente lesado (cicatrizes, neoplasias), mas no cão com Cushing, é a calcinose 'metastática' — depósito em tecido aparentemente normal por alteração sistêmica do metabolismo do cálcio/fósforo. Por que o cortisol excessivo causa calcinose: o cortisol excessivo (Cushing endógeno ou iatrogênico) causa: aumento do cálcio sérico por mobilização óssea; aumento do fósforo sérico por redução da excreção renal; o produto CaxP (cálcio × fósforo) ultrapassa a solubilidade → precipitação nas fibras colágenas e elásticas dérmicas; o colágeno dermal modificado pelo hipercortisolismo tem maior afinidade pelo cálcio (colágeno fragmentado, desnaturado). A calcinose cutânea é considerada quase patognomônica de hiperadrenocorticismo (Cushing) em cães — quando presente, direciona fortemente o diagnóstico. Causas não-Cushing (raras em cães): insuficiência renal crônica grave (hiperfosfatemia → calcinose); hipervitaminose D (suplementação excessiva ou intoxicação por rodenticida à base de calciferol); calcinose tumoral (depósito periarticular idiopático — rara). Localização preferencial no Cushing: dorso (ao longo da coluna); virilhas e abdômen ventral; pescoço; axilas — áreas de fricção e pressão.
Quais são os sinais de calcinose cutânea em cachorro?+
Os sinais são predominantemente cutâneos, mas o contexto do Cushing está sempre presente. Sinais cutâneos da calcinose: placas brancas ou amarelo-esbranquiçadas, endurecidas, 'arenosas' ao toque — como 'areia sob a pele'; a pele sobre as placas pode se ulcerar — o cálcio é um irritante; infecção bacteriana secundária é quase universal sobre as placas ulceradas; prurido intenso — a calcinose causa coceira intensa; calor e eritema ao redor das placas; as placas podem liberar material branco calcificado (como 'giz') quando pressionadas; extensão variável: desde pequenas placas focais até comprometimento do dorso inteiro. Sinais de Cushing associados (que geralmente estão presentes): abdômen pendular (pot-bellied) — redistribuição da gordura; poliúria e polidipsia (PU/PD) intensas; polifagia — fome excessiva; pelagem seca e sem brilho; alopecia bilateral simétrica; pele fina, frágil, com equimoses fáceis; comedões; calcinose cutânea + esses sinais = Cushing até prova em contrário. Calcinose iatrogênica (uso crônico de corticosteroides): cão tratado com prednisolona ou dexametasona por meses a anos; mesmos sinais cutâneos; em vez de Cushing endógeno, causa exógena; tratamento: desmame gradual do corticoide.
Como diagnosticar calcinose cutânea e confirmar hiperadrenocorticismo?+
O diagnóstico da calcinose é clínico + citológico. A confirmação do Cushing requer testes endócrinos. Diagnóstico da calcinose cutânea: clínico: placas calcificadas características; citologia das placas (impressão ou aspirado): material granular amorfo basofílico (sais de cálcio); sem células viáveis — apenas minerais; biópsia: mineralização da derme superficial e profunda; deposição ao redor das fibras colágenas ('calcificação basofílica'); mineralização vascular em alguns casos; coloração de Von Kossa: confirma cálcio (depósitos pretos). Investigação de Cushing: triagem endócrina: cortisol basal sérico: elevado sugere hipercortisolismo; cortisol urinário: relação cortisol:creatinina urinária (RCC urinária) — muito sensível; teste de supressão com baixa dose de dexametasona (LDDST): triagem para Cushing; não supressão = Cushing provável; ACTH stimulation test: distingue entre Cushing (resposta exagerada) e estado normal; localização da causa (após confirmar Cushing): ultrassom adrenal: adrenomegalia bilateral (PDH — tumor hipofisário) vs. adrenomegalia unilateral (adrenal tumor); TC de crânio: tumor hipofisário visível em 50% dos casos de PDH; bioquímica e hemograma: leucocitose eosinopenia (clássico Cushing), FA muito elevada, ALT elevada, hiperglicemia.
Como tratar calcinose cutânea em cachorro?+
O tratamento da calcinose é tratar a causa — controlando o Cushing, o cálcio se reabsorve progressivamente. Tratamento do Cushing (PDH — tumor hipofisário): trilostano (Vetoryl) 2,5-5 mg/kg VO 1-2x/dia: inibe a 3β-HSD → reduz a produção de cortisol; monitorar cortisol pós-ACTH a cada 4-8 semanas; objetivo: cortisol pós-ACTH entre 2-8 µg/dL; mitotane (Lysodren): adrenocorticolítico — dose de ataque + manutenção; menos usado hoje (trilostano preferido por ser mais seguro); Cushing adrenal (tumor unilateral): adrenalectomia: remoção cirúrgica do tumor; curativa se benigno (adenoma); trilostano como pré-operatório e/ou pós-operatório. Calcinose iatrogênica: desmame gradual do corticoide — nunca interrupção abrupta; usar a menor dose eficaz para o mínimo de tempo; substituir por alternativas não-cortisona quando possível. Tratamento local da calcinose: curativo das lesões ulceradas: limpeza com clorexidina 0,05%; curativos não aderentes; antibioticoterapia sistêmica se pioderma secundária: cefalexina 25-30 mg/kg 2x/dia; o cálcio NÃO deve ser 'removido' cirurgicamente — reabsorve espontaneamente com controle do Cushing; tempo de reabsorção: 3-12 meses após controle adequado do cortisol; o prurido reduz progressivamente com a melhora do Cushing. Monitorização: trilostano: ACTH stimulation test a cada 3 meses após estabilização; calcinose: reavaliação dermatológica a cada 2-3 meses — diminuição das placas confirma resposta.
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