Saúde

Aspergilose em Cachorro: Infecção Fúngica Nasal e Sistêmica

A aspergilose canina é a infecção por Aspergillus spp. — fungos onipresentes no ambiente. Forma nasal (mais comum): cavidade nasal e seios; Dolicocéfalas e Dóbermanns são predispostos. Forma disseminada (rara, grave): Pastor Alemão com imunodeficiência. Diagnóstico por rinoscopia e cultura fúngica.

27 de maio de 2026·5 min de leitura

O Dóbermann de 4 anos chegou com descarga nasal unilateral há 6 semanas — inicialmente serosa, depois mucopurulenta com sangue ocasional. O cão espirrava frequentemente e relutava em ser tocado no focinho. A narina esquerda estava com descarga mais intensa; a direita, limpa.

A TC nasal mostrou o diagnóstico: destruição extensa dos cornetos nasais do lado esquerdo, com extensão para o seio frontal. Aspergillus.

Aspergillus — O Fungo Onipresente

O Aspergillus é um gênero de fungos filamentosos extremamente comum no ambiente — praticamente onipresente:

Habitat: solo, folhas em decomposição, compostagem, grãos, poeira doméstica, ar condicionado.

Esporos: Aspergillus produz esporos (conídios) em grande quantidade — a exposição humana e animal é constante e inevitável.

Doença: a grande maioria dos cães (e humanos) inala esporos regularmente sem adoecer. A doença clínica requer fatores de risco: imunidade local comprometida, anatomia nasal específica, ou imunodeficiência sistêmica.

Espécies relevantes em cães:

  • Aspergillus fumigatus — causa mais comum da forma nasal
  • Aspergillus terreus — frequente na forma disseminada
  • Aspergillus niger — otomicose (ouvido)

Por que Raças Dolicocéfalas São Predispostas à Forma Nasal

A anatomia das cavidades nasais influencia profundamente o risco de aspergilose nasal:

Raças dolicocéfalas (focinho longo): Greyhound, Whippet, Dóbermann, Galgo Espanhol, Borzói — têm cavidade nasal longa e estreita, com cornetos muito desenvolvidos. A grande superfície de mucosa em contato com ar inalado favorece a deposição e colonização por esporos.

Raças braquicéfalas (focinho curto): Bulldog, Pug, Boston Terrier — paradoxalmente, têm menor predisposição à aspergilose nasal — provavelmente pela turbulência maior do fluxo nasal e anatomia diferente dos cornetos.

O mecanismo exato da predisposição em dolicocéfalas não está completamente esclarecido — pode envolver microtraumas da mucosa e menor depuração mucociliar em cornetos muito elaborados.

Aspergilose Nasal vs. Disseminada — Dois Quadros Completamente Diferentes

Nasal (Sinusal)

  • Localizada na cavidade nasal e seios paranasais
  • Imunocompetência sistêmica preservada
  • Prognóstico favorável com tratamento
  • Afeta principalmente raças dolicocéfalas

Disseminada

Uma doença completamente diferente em termos de gravidade.

A forma disseminada é rara mas potencialmente fatal. O fungo entra pelo trato respiratório mas atravessa para a circulação sanguínea → dissemina para múltiplos órgãos.

Pastor Alemão — predisposição específica: Há evidências de que o Pastor Alemão tem deficiência imune seletiva para Aspergillus — a raça tem dificuldade em montar resposta celular eficaz contra o fungo.

Órgãos afetados na forma disseminada:

  • Discos intervertebrais: discite fúngica → dor lombar intensa, claudicação, déficit neurológico — muito similar à espondilose ou IVDD mas de origem fúngica
  • Olhos: uveíte → dor ocular, turvação do humor aquoso
  • Rins: nefrite → insuficiência renal
  • Ossos: osteomielite

Apresentação: cão gravemente doente, com múltiplos órgãos afetados, febre, perda de peso acentuada. Diagnóstico difícil porque poucos veterinários pensam em fungo em cão com discite.

Diagnóstico

TC Nasal — Elemento Central

A TC tornou-se o exame padrão antes da rinoscopia porque:

  1. Avalia a extensão da destruição dos cornetos — guia o prognóstico e planejamento do tratamento
  2. Detecta extensão para os seios frontais — necessário para planejar cateterização dos seios
  3. Detecta erosão do osso cribriforme — separação entre nariz e cérebro; se presente, risco de envolvimento intracraniano
  4. Diferencia de neoplasia nasal — padrão diferente de destruição óssea

Achado típico de aspergilose nasal na TC:

  • Destruição dos cornetos nasais (lise da estrutura em "labirinto" dos turbinados)
  • Preservação relativa das paredes ósseas externas (diferente de neoplasia que invade osso)
  • Possível acúmulo de material de densidade tecidos moles nos seios

Rinoscopia com Biópsia

A rinoscopia permite visão direta das plaques fúngicas — as colônias de Aspergillus são visualmente características:

Aspecto: plaques branco-acinzentadas, irregulares, aderentes à mucosa destruída.

Biópsia: hifas hialinas com ângulo de ramificação 45° e espessura uniforme = Aspergillus.

Vantagem da rinoscopia: além do diagnóstico, permite desbridamento das plaques durante o procedimento, melhorando a eficácia do tratamento subsequente.

Tratamento em Detalhe

Infusão Tópica Intranasal — O Procedimento

O tratamento de escolha para aspergilose nasal é a infusão intranasal de antifúngico — procedimento elegante que entrega concentrações muito altas do medicamento diretamente no local da infecção.

Protocolo com clotrimazol 1% (mais estudado):

  1. Anestesia geral — o cão está anestesiado durante todo o procedimento
  2. Bloqueio da nasofaringe — gaze colocada na nasofaringe para evitar deglutição do medicamento
  3. Inserção de cateteres — nas narinas e, se necessário, nos seios frontais via trepanação (pequeno furo no crânio frontal)
  4. Infusão do clotrimazol — 1-2g de clotrimazol em solução oleosa, dividido nas cavidades
  5. Manutenção em posição — o cão é rotacionado em múltiplas posições ao longo de 1 hora para distribuição uniforme
  6. Recuperação anestésica — observação após o procedimento

Taxa de cura com uma sessão: 60-70%.

Repetição: se a infecção persistir, uma segunda sessão pode ser realizada após 2-3 meses.

Tratamento Sistêmico Oral

Itraconazol é o antifúngico oral mais utilizado:

  • 5-10 mg/kg/dia com alimento gordurosO (melhora absorção)
  • Monitorização hepática a cada 6-8 semanas
  • Duração: 3-6 meses

Voriconazol (geração mais nova):

  • Maior espectro e melhor penetração em tecidos
  • Usado em casos refratários ao itraconazol
  • Custo mais elevado

Terbinafina:

  • Alternativa com boa atividade contra Aspergillus
  • 5-10 mg/kg VO 1x/dia

A terapia sistêmica é usada como complemento ao tratamento tópico, especialmente quando há extensão para os seios frontais (onde a infusão intranasal penetra menos) ou em casos refratários.

Prognóstico

| Forma | Prognóstico com Tratamento | |---|---| | Nasal, sem envolvimento de seio frontal | Bom — 70-85% de cura com 1-2 sessões | | Nasal com envolvimento do seio frontal | Moderado — 50-65% de cura | | Nasal com erosão do osso cribriforme | Reservado — risco de extensão intracraniana | | Disseminada (Pastor Alemão) | Reservado a grave — alta mortalidade (50-70%) |

A monitorização pós-tratamento inclui TC nasal e sorologia de controle — para confirmar resolução da infecção antes de considerar o caso curado.

A aspergilose nasal, diagnosticada precocemente, é tratável com boas taxas de sucesso. O desafio é o diagnóstico diferencial com a neoplasia nasal — que tem apresentação clínica similar mas prognóstico muito mais sombrio.

Perguntas frequentes

O que é aspergilose em cachorro?+

A aspergilose é a infecção por fungos do gênero Aspergillus — organismos ubíquos no ambiente, presentes em solo, vegetação em decomposição, poeira e grãos. Os esporos de Aspergillus são inalados constantemente por todos os cães — mas apenas aqueles com fatores de risco desenvolvem doença clínica. Duas formas clínicas distintas em cães: aspergilose nasal (sinusal) — a forma mais comum; infecção localizada na cavidade nasal e seios paranasais; o fungo destrói a mucosa e os cornetos nasais; afeta principalmente raças com focinho longo (dolicocéfalas): Greyhound, Whippet, Dóbermann, Pastor Alemão de focinho longo, Border Collie; mecanismo: esporos inalados colonizam a mucosa nasal com imunidade local comprometida; aspergilose disseminada — rara, grave, alta mortalidade; o fungo se dissemina pelo sangue para vários órgãos: disco intervertebral, olhos (uveíte), rins, ossos; afeta principalmente o Pastor Alemão — a raça tem predisposição genética a imunodeficiência a Aspergillus; cão apresenta-se gravemente doente: febre, perda de peso, sinais neurológicos, claudicação por discite fúngica. A aspergilose não é transmissível entre cães ou de cão para humano — não é zoonose (exceto em imunodeprimidos graves).

Quais são os sinais de aspergilose nasal em cachorro?+

A aspergilose nasal tem apresentação característica que se desenvolve ao longo de semanas a meses. Descarga nasal: o sinal mais proeminente — descarga mucopurulenta unilateral (começa em uma narina) que pode progredir para bilateral; pode ser sanguinolenta; em casos avançados, descarga com aspecto de 'queijo cottage' (necrose e descolamento da mucosa). Espirros: frequentes, crônicos; espirros com sangue (epistaxe) — importante sinal de alerta. Dor facial: o cão reluta em ser tocado no focinho; pode esfregar o focinho no chão; em casos avançados com erosão óssea: dor intensa. Despigmentação nasal: a asa nasal (plano nasal) pode ficar despigmentada ou ulcerada — sinal importante de acometimento do plano nasal. Deformação facial (casos graves): erosão da placa nasal → perda de integridade da narina; nos casos muito avançados, o tumor/aspergilose pode deformar a face externamente — isso é sinal de doença avançada. Diagnóstico diferencial importante: neoplasia nasal (adenocarcinoma, linfoma nasal) — apresentação muito similar; corpo estranho nasal; rinite crônica bacteriana; pólipos nasais. A diferenciação exige rinoscopia e biópsia.

Como diagnosticar aspergilose nasal em cachorro?+

O diagnóstico exige combinação de imagem, sorology e rinoscopia. TC (tomografia) nasal: exame de imagem de eleição; avalia destruição dos cornetos nasais (estruturas turbinadas da cavidade nasal) — a aspergilose causa lise progressiva dos cornetos; identifica erosão do osso cribriforme (entre nariz e cérebro); detecta envolvimento de seios frontais; diferencia de neoplasia (que causa mais invasão óssea, menos destruição de cornetos). Sorologia (anticorpos anti-Aspergillus): ELISA ou imunodifusão em ágar — detecta anticorpos IgG contra Aspergillus; sensibilidade ~70-90%, especificidade moderada; um resultado negativo não exclui (falsos negativos em cães com doença localizada); útil para suporte ao diagnóstico, não confirmatório isolado. Rinoscopia com biópsia: o exame de eleição para confirmação definitiva; visualização direta da cavidade nasal por câmera; achados típicos: plaques fúngicas (colônias cinza-esbranquiçadas) na mucosa, destruição de cornetos, ulcerações; biópsia das plaques: histopatologia mostra hifas fúngicas características de Aspergillus; cultura fúngica: identifica a espécie e permite teste de sensibilidade antifúngica. Cultura de swab nasal: baixa sensibilidade — Aspergillus é ambiental e pode crescer em qualquer amostra; não confirma doença.

Qual é o tratamento da aspergilose nasal em cachorro?+

O tratamento da aspergilose nasal utiliza antifúngicos aplicados diretamente na cavidade nasal — com boa taxa de sucesso. Tratamento tópico intranasal (primeira linha): clotrimazol em solução 1% ou enilconazol — infundido diretamente na cavidade nasal e seios paranasais; procedimento: o cão é anestesiado; cateteres são inseridos nas narinas e na cavidade craniana (via trepanação se seios frontais afetados); solução antifúngica é infundida e mantida por 1-2 horas, circulando pela cavidade; taxas de cura: 60-85% com uma sessão; pode ser repetida se houver recidiva. Tratamento sistêmico oral (alternativa ou complementar): itraconazol — 5-10 mg/kg VO 1x/dia com alimento — boa penetração em mucosas; voriconazol — antifúngico de nova geração, excelente para Aspergillus resistente ao itraconazol; duração: 3-6 meses de tratamento oral; custo elevado; monitorização hepática (enzimas) a cada 4-6 semanas. Combinação tópico + sistêmico: casos graves ou com envolvimento de seios frontais; melhor taxa de cura em casos refratários. Cirurgia: desbridamento cirúrgico (remoção de tecido necrótico e plaques fúngicas) facilita a penetração do antifúngico; turbinectomia parcial — remoção dos cornetos destruídos. Prognóstico: aspergilose nasal: bom com tratamento adequado (65-85% cura); aspergilose disseminada: reservado — alta mortalidade.