Aspergilose em Cachorro: Infecção Fúngica Nasal e Sistêmica
A aspergilose canina é a infecção por Aspergillus spp. — fungos onipresentes no ambiente. Forma nasal (mais comum): cavidade nasal e seios; Dolicocéfalas e Dóbermanns são predispostos. Forma disseminada (rara, grave): Pastor Alemão com imunodeficiência. Diagnóstico por rinoscopia e cultura fúngica.
O Dóbermann de 4 anos chegou com descarga nasal unilateral há 6 semanas — inicialmente serosa, depois mucopurulenta com sangue ocasional. O cão espirrava frequentemente e relutava em ser tocado no focinho. A narina esquerda estava com descarga mais intensa; a direita, limpa.
A TC nasal mostrou o diagnóstico: destruição extensa dos cornetos nasais do lado esquerdo, com extensão para o seio frontal. Aspergillus.
Aspergillus — O Fungo Onipresente
O Aspergillus é um gênero de fungos filamentosos extremamente comum no ambiente — praticamente onipresente:
Habitat: solo, folhas em decomposição, compostagem, grãos, poeira doméstica, ar condicionado.
Esporos: Aspergillus produz esporos (conídios) em grande quantidade — a exposição humana e animal é constante e inevitável.
Doença: a grande maioria dos cães (e humanos) inala esporos regularmente sem adoecer. A doença clínica requer fatores de risco: imunidade local comprometida, anatomia nasal específica, ou imunodeficiência sistêmica.
Espécies relevantes em cães:
- Aspergillus fumigatus — causa mais comum da forma nasal
- Aspergillus terreus — frequente na forma disseminada
- Aspergillus niger — otomicose (ouvido)
Por que Raças Dolicocéfalas São Predispostas à Forma Nasal
A anatomia das cavidades nasais influencia profundamente o risco de aspergilose nasal:
Raças dolicocéfalas (focinho longo): Greyhound, Whippet, Dóbermann, Galgo Espanhol, Borzói — têm cavidade nasal longa e estreita, com cornetos muito desenvolvidos. A grande superfície de mucosa em contato com ar inalado favorece a deposição e colonização por esporos.
Raças braquicéfalas (focinho curto): Bulldog, Pug, Boston Terrier — paradoxalmente, têm menor predisposição à aspergilose nasal — provavelmente pela turbulência maior do fluxo nasal e anatomia diferente dos cornetos.
O mecanismo exato da predisposição em dolicocéfalas não está completamente esclarecido — pode envolver microtraumas da mucosa e menor depuração mucociliar em cornetos muito elaborados.
Aspergilose Nasal vs. Disseminada — Dois Quadros Completamente Diferentes
Nasal (Sinusal)
- Localizada na cavidade nasal e seios paranasais
- Imunocompetência sistêmica preservada
- Prognóstico favorável com tratamento
- Afeta principalmente raças dolicocéfalas
Disseminada
Uma doença completamente diferente em termos de gravidade.
A forma disseminada é rara mas potencialmente fatal. O fungo entra pelo trato respiratório mas atravessa para a circulação sanguínea → dissemina para múltiplos órgãos.
Pastor Alemão — predisposição específica: Há evidências de que o Pastor Alemão tem deficiência imune seletiva para Aspergillus — a raça tem dificuldade em montar resposta celular eficaz contra o fungo.
Órgãos afetados na forma disseminada:
- Discos intervertebrais: discite fúngica → dor lombar intensa, claudicação, déficit neurológico — muito similar à espondilose ou IVDD mas de origem fúngica
- Olhos: uveíte → dor ocular, turvação do humor aquoso
- Rins: nefrite → insuficiência renal
- Ossos: osteomielite
Apresentação: cão gravemente doente, com múltiplos órgãos afetados, febre, perda de peso acentuada. Diagnóstico difícil porque poucos veterinários pensam em fungo em cão com discite.
Diagnóstico
TC Nasal — Elemento Central
A TC tornou-se o exame padrão antes da rinoscopia porque:
- Avalia a extensão da destruição dos cornetos — guia o prognóstico e planejamento do tratamento
- Detecta extensão para os seios frontais — necessário para planejar cateterização dos seios
- Detecta erosão do osso cribriforme — separação entre nariz e cérebro; se presente, risco de envolvimento intracraniano
- Diferencia de neoplasia nasal — padrão diferente de destruição óssea
Achado típico de aspergilose nasal na TC:
- Destruição dos cornetos nasais (lise da estrutura em "labirinto" dos turbinados)
- Preservação relativa das paredes ósseas externas (diferente de neoplasia que invade osso)
- Possível acúmulo de material de densidade tecidos moles nos seios
Rinoscopia com Biópsia
A rinoscopia permite visão direta das plaques fúngicas — as colônias de Aspergillus são visualmente características:
Aspecto: plaques branco-acinzentadas, irregulares, aderentes à mucosa destruída.
Biópsia: hifas hialinas com ângulo de ramificação 45° e espessura uniforme = Aspergillus.
Vantagem da rinoscopia: além do diagnóstico, permite desbridamento das plaques durante o procedimento, melhorando a eficácia do tratamento subsequente.
Tratamento em Detalhe
Infusão Tópica Intranasal — O Procedimento
O tratamento de escolha para aspergilose nasal é a infusão intranasal de antifúngico — procedimento elegante que entrega concentrações muito altas do medicamento diretamente no local da infecção.
Protocolo com clotrimazol 1% (mais estudado):
- Anestesia geral — o cão está anestesiado durante todo o procedimento
- Bloqueio da nasofaringe — gaze colocada na nasofaringe para evitar deglutição do medicamento
- Inserção de cateteres — nas narinas e, se necessário, nos seios frontais via trepanação (pequeno furo no crânio frontal)
- Infusão do clotrimazol — 1-2g de clotrimazol em solução oleosa, dividido nas cavidades
- Manutenção em posição — o cão é rotacionado em múltiplas posições ao longo de 1 hora para distribuição uniforme
- Recuperação anestésica — observação após o procedimento
Taxa de cura com uma sessão: 60-70%.
Repetição: se a infecção persistir, uma segunda sessão pode ser realizada após 2-3 meses.
Tratamento Sistêmico Oral
Itraconazol é o antifúngico oral mais utilizado:
- 5-10 mg/kg/dia com alimento gordurosO (melhora absorção)
- Monitorização hepática a cada 6-8 semanas
- Duração: 3-6 meses
Voriconazol (geração mais nova):
- Maior espectro e melhor penetração em tecidos
- Usado em casos refratários ao itraconazol
- Custo mais elevado
Terbinafina:
- Alternativa com boa atividade contra Aspergillus
- 5-10 mg/kg VO 1x/dia
A terapia sistêmica é usada como complemento ao tratamento tópico, especialmente quando há extensão para os seios frontais (onde a infusão intranasal penetra menos) ou em casos refratários.
Prognóstico
| Forma | Prognóstico com Tratamento | |---|---| | Nasal, sem envolvimento de seio frontal | Bom — 70-85% de cura com 1-2 sessões | | Nasal com envolvimento do seio frontal | Moderado — 50-65% de cura | | Nasal com erosão do osso cribriforme | Reservado — risco de extensão intracraniana | | Disseminada (Pastor Alemão) | Reservado a grave — alta mortalidade (50-70%) |
A monitorização pós-tratamento inclui TC nasal e sorologia de controle — para confirmar resolução da infecção antes de considerar o caso curado.
A aspergilose nasal, diagnosticada precocemente, é tratável com boas taxas de sucesso. O desafio é o diagnóstico diferencial com a neoplasia nasal — que tem apresentação clínica similar mas prognóstico muito mais sombrio.
Perguntas frequentes
O que é aspergilose em cachorro?+
A aspergilose é a infecção por fungos do gênero Aspergillus — organismos ubíquos no ambiente, presentes em solo, vegetação em decomposição, poeira e grãos. Os esporos de Aspergillus são inalados constantemente por todos os cães — mas apenas aqueles com fatores de risco desenvolvem doença clínica. Duas formas clínicas distintas em cães: aspergilose nasal (sinusal) — a forma mais comum; infecção localizada na cavidade nasal e seios paranasais; o fungo destrói a mucosa e os cornetos nasais; afeta principalmente raças com focinho longo (dolicocéfalas): Greyhound, Whippet, Dóbermann, Pastor Alemão de focinho longo, Border Collie; mecanismo: esporos inalados colonizam a mucosa nasal com imunidade local comprometida; aspergilose disseminada — rara, grave, alta mortalidade; o fungo se dissemina pelo sangue para vários órgãos: disco intervertebral, olhos (uveíte), rins, ossos; afeta principalmente o Pastor Alemão — a raça tem predisposição genética a imunodeficiência a Aspergillus; cão apresenta-se gravemente doente: febre, perda de peso, sinais neurológicos, claudicação por discite fúngica. A aspergilose não é transmissível entre cães ou de cão para humano — não é zoonose (exceto em imunodeprimidos graves).
Quais são os sinais de aspergilose nasal em cachorro?+
A aspergilose nasal tem apresentação característica que se desenvolve ao longo de semanas a meses. Descarga nasal: o sinal mais proeminente — descarga mucopurulenta unilateral (começa em uma narina) que pode progredir para bilateral; pode ser sanguinolenta; em casos avançados, descarga com aspecto de 'queijo cottage' (necrose e descolamento da mucosa). Espirros: frequentes, crônicos; espirros com sangue (epistaxe) — importante sinal de alerta. Dor facial: o cão reluta em ser tocado no focinho; pode esfregar o focinho no chão; em casos avançados com erosão óssea: dor intensa. Despigmentação nasal: a asa nasal (plano nasal) pode ficar despigmentada ou ulcerada — sinal importante de acometimento do plano nasal. Deformação facial (casos graves): erosão da placa nasal → perda de integridade da narina; nos casos muito avançados, o tumor/aspergilose pode deformar a face externamente — isso é sinal de doença avançada. Diagnóstico diferencial importante: neoplasia nasal (adenocarcinoma, linfoma nasal) — apresentação muito similar; corpo estranho nasal; rinite crônica bacteriana; pólipos nasais. A diferenciação exige rinoscopia e biópsia.
Como diagnosticar aspergilose nasal em cachorro?+
O diagnóstico exige combinação de imagem, sorology e rinoscopia. TC (tomografia) nasal: exame de imagem de eleição; avalia destruição dos cornetos nasais (estruturas turbinadas da cavidade nasal) — a aspergilose causa lise progressiva dos cornetos; identifica erosão do osso cribriforme (entre nariz e cérebro); detecta envolvimento de seios frontais; diferencia de neoplasia (que causa mais invasão óssea, menos destruição de cornetos). Sorologia (anticorpos anti-Aspergillus): ELISA ou imunodifusão em ágar — detecta anticorpos IgG contra Aspergillus; sensibilidade ~70-90%, especificidade moderada; um resultado negativo não exclui (falsos negativos em cães com doença localizada); útil para suporte ao diagnóstico, não confirmatório isolado. Rinoscopia com biópsia: o exame de eleição para confirmação definitiva; visualização direta da cavidade nasal por câmera; achados típicos: plaques fúngicas (colônias cinza-esbranquiçadas) na mucosa, destruição de cornetos, ulcerações; biópsia das plaques: histopatologia mostra hifas fúngicas características de Aspergillus; cultura fúngica: identifica a espécie e permite teste de sensibilidade antifúngica. Cultura de swab nasal: baixa sensibilidade — Aspergillus é ambiental e pode crescer em qualquer amostra; não confirma doença.
Qual é o tratamento da aspergilose nasal em cachorro?+
O tratamento da aspergilose nasal utiliza antifúngicos aplicados diretamente na cavidade nasal — com boa taxa de sucesso. Tratamento tópico intranasal (primeira linha): clotrimazol em solução 1% ou enilconazol — infundido diretamente na cavidade nasal e seios paranasais; procedimento: o cão é anestesiado; cateteres são inseridos nas narinas e na cavidade craniana (via trepanação se seios frontais afetados); solução antifúngica é infundida e mantida por 1-2 horas, circulando pela cavidade; taxas de cura: 60-85% com uma sessão; pode ser repetida se houver recidiva. Tratamento sistêmico oral (alternativa ou complementar): itraconazol — 5-10 mg/kg VO 1x/dia com alimento — boa penetração em mucosas; voriconazol — antifúngico de nova geração, excelente para Aspergillus resistente ao itraconazol; duração: 3-6 meses de tratamento oral; custo elevado; monitorização hepática (enzimas) a cada 4-6 semanas. Combinação tópico + sistêmico: casos graves ou com envolvimento de seios frontais; melhor taxa de cura em casos refratários. Cirurgia: desbridamento cirúrgico (remoção de tecido necrótico e plaques fúngicas) facilita a penetração do antifúngico; turbinectomia parcial — remoção dos cornetos destruídos. Prognóstico: aspergilose nasal: bom com tratamento adequado (65-85% cura); aspergilose disseminada: reservado — alta mortalidade.
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