Tromboembolismo em Cachorro: Causas, Sintomas e Tratamento
Tromboembolismo é a obstrução de vasos sanguíneos por coágulos — emergência com alta mortalidade. Geralmente secundário a outras doenças como hiperadrenocorticismo, nefropatia ou cardiopatia. Diagnóstico por imagem. Tratamento com anticoagulantes.
O tromboembolismo é a ocorrência de obstrução vascular por um coágulo sanguíneo — seja um trombo formado no local (trombose) ou um êmbolo que se formou em outro lugar e migrou pelo sistema vascular até obstruir um vaso (embolia). Em cães, é condição predominantemente secundária — ocorre como complicação de outras doenças que criam estado pró-trombótico.
Diferente dos gatos (onde o tromboembolismo aórtico é síndrome clássica associada a cardiomiopatia), em cães o tromboembolismo pulmonar (TEP) é a manifestação mais comum e de maior impacto clínico.
Por que ocorre o tromboembolismo
A formação de trombos patológicos resulta da Tríade de Virchow — três fatores que, isolados ou combinados, promovem coagulação anormal:
- Dano endotelial — lesão da parede vascular (inflamação, vasculite, cateter IV)
- Hipercoagulabilidade — estado em que o sangue coagula mais facilmente que o normal
- Estase sanguínea — fluxo lento ou turbulento que favorece acúmulo de fatores de coagulação
Doenças que causam tromboembolismo em cães
Hiperadrenocorticismo (Doença de Cushing)
A causa mais comum de tromboembolismo em cães. O excesso de cortisol cria estado pró-trombótico intenso — aumenta fatores de coagulação, reduz fibrinólise, altera função plaquetária. Cães com Cushing têm risco de TEP muito aumentado, especialmente após procedimentos cirúrgicos ou hospitalizações.
Síndrome Nefrótica (Glomerulopatia Perdedora de Proteína)
Perda de proteínas pela urina inclui perda de antitrombina III — proteína reguladora anticoagulante natural. Sem antitrombina III suficiente, o sistema de coagulação fica descontrolado. Glomerulopatia nefrótica (albumina < 2 g/dL) é indicação de profilaxia antitrombótica.
Anemia Hemolítica Imunomediada (AHIM)
A AHIM grave tem alta incidência de tromboembolismo — estimada em 30-80% dos casos. Hemólise extravascular libera conteúdo eritrocitário pró-trombótico; a inflamação sistêmica ativa a coagulação. O tromboembolismo é causa importante de mortalidade na AHIM.
Cardiopatias
- Dirofilariose (Dirofilaria immitis): vermes no coração e artérias pulmonares danificam o endotélio — risco elevado de TEP
- Cardiomiopatia dilatada: câmaras cardíacas dilatadas com fluxo lento = stase = trombos intracardíacos com risco de embolização
Sepse e Doenças Inflamatórias Sistêmicas
Inflamação sistêmica ativa a cascata de coagulação — coagulação intravascular disseminada (CIVD) é a manifestação mais grave (consumo de fatores de coagulação paradoxalmente causa trombose microvascular e depois hemorragia).
Neoplasia
Tumores produzem substâncias pró-trombóticas. Carcinomas (adenocarcinoma) são especialmente pró-trombóticos.
Outros
- Pancreatite grave
- Policitemia vera
- Catéteres venosos centrais (trombose local)
Tromboembolismo Pulmonar (TEP)
Fisiopatologia
Coágulo nos vasos pulmonares obstrui o fluxo para alvéolos — áreas ventiladas mas não perfundidas. Ocorre:
- Hipóxia (sangue não é oxigenado adequadamente)
- Aumento da resistência vascular pulmonar
- Sobrecarga do ventrículo direito
- Colapso cardiorrespiratório nos casos massivos
Sinais Clínicos
- Dispneia súbita e grave — início agudo e inesperado
- Taquipneia — respiração rápida e superficial
- Taquicardia
- Mucosas pálidas — reflexo da hipóxia
- Cianose — em casos graves
- Colapso e prostração
Pode ocorrer em cão internado por outra doença ou em casa sem sinal de alerta. A súbita é característicamente assustadora.
Diagnóstico
Radiografia de tórax: pode mostrar alterações (hiperlucência focal, cardiomegalia direita) — mas é frequentemente normal ou inespecífica no TEP.
Ecocardiografia: sinais de sobrecarga ventricular direita (dilatação do VD, movimento paradoxal do septo) sugestivos de TEP.
Angiotomografia computadorizada (angio-TC): padrão ouro — visualiza diretamente os êmbolos nos vasos pulmonares. Exige estabilização do paciente para a realização.
D-dímero: elevado em estados trombóticos — sensível mas não específico (qualquer inflamação eleva o D-dímero).
Gasometria arterial: hipóxia, hipocapnia (alcalose respiratória).
Tromboembolismo Aórtico (TAE)
Menos comum em cães que em gatos. Coágulo na bifurcação da aorta abdominal obstrui o fluxo para os membros posteriores.
Sinais clínicos:
- Paralisia súbita dos membros posteriores — início agudo
- Membros posteriores frios ao toque
- Ausência de pulso femoral — não se palpa pulso na virilha
- Dor intensa — vocalização, agitação
- Membros azulados/pálidos — isquemia
Diagnóstico: Doppler vascular (ausência de fluxo femoral), ultrassonografia.
Prognóstico em cães: melhor que em gatos se tratado precocemente — mas ainda grave.
Tratamento
Suporte Imediato
- Oxigenoterapia: fundamental no TEP — máscara, gaiola de oxigênio ou fluxo nasal
- Fluidoterapia cuidadosa: hidratação sem sobrecarregar ventrículo direito comprometido
- Repouso absoluto: qualquer esforço pode ser fatal no TEP
Anticoagulação
Heparina não fracionada (HNF): inibição imediata da trombina — IV ou SC, monitoramento por TTPa.
Heparina de baixo peso molecular (HBPM — enoxaparina): mais prática (SC), sem necessidade de monitoramento constante. Dose em cães: 1 mg/kg SC a cada 6-8h.
Rivaroxabana (Xarelto): anticoagulante oral inibidor do Fator Xa — crescente uso em medicina veterinária por praticidade. Dose em cães ainda em estudo/protocolos individualizados.
Trombolíticos
Alteplase (t-PA): dissolve o coágulo já formado — indicado em TEP massivo com colapso iminente. Alto risco de sangramento grave — uso restrito a casos onde o risco de morte sem trombólise supera o risco do tratamento.
Tratamento da Causa Primária
Sem controle da doença pró-trombótica subjacente, o tromboembolismo recidiva:
- Controlar o Cushing (trilostano)
- Tratar a glomerulopatia (dieta, ECA, imunossupressão)
- Tratar a AHIM (imunossupressão)
- Tratar a dirofilariose
Profilaxia em Pacientes de Risco
Cães com Cushing, síndrome nefrótica grave ou AHIM têm indicação de anticoagulação profilática:
- Clopidogrel (Plavix) — antiplaquetário, 1-2 mg/kg/dia
- Rivaroxabana — indicada em casos de risco muito alto
- Aspirina em baixa dose — eficácia mais modesta, mas usada
Prognóstico
O prognóstico do tromboembolismo em cães é reservado — mortalidade de 25-50% nos casos graves mesmo com tratamento. Os melhores resultados são em casos onde:
- A causa pró-trombótica é identificada e controlada
- O diagnóstico é rápido
- O tratamento anticoagulante é iniciado precocemente
- Não há TEP massivo no primeiro episódio
Cães que sobrevivem ao episódio agudo com a causa controlada podem ter boa qualidade de vida — mas o monitoramento a longo prazo da doença primária é essencial.
Perguntas frequentes
O que é tromboembolismo em cachorro?+
Tromboembolismo é a formação de coágulo sanguíneo (trombo) em um vaso que se desprende e obstrui outro vaso em local diferente (êmbolo). Em cães, o tromboembolismo pulmonar (TEP) é o mais grave — coágulo nos vasos pulmonares causa obstrução do fluxo, hipóxia grave e pode ser fatal em horas. O tromboembolismo aórtico (bloqueio da aorta abdominal, menos comum que em gatos) causa paralisia dos membros posteriores de início súbito. Geralmente é secundário a outra doença — hiperadrenocorticismo (Cushing), síndrome nefrótica, anemia hemolítica imunomediada, cardiopatias, sepse e neoplasia são as causas mais comuns.
Quais os sinais de tromboembolismo pulmonar em cachorro?+
Tromboembolismo pulmonar (TEP) em cães: início súbito de dificuldade respiratória grave (dispneia), respiração rápida e superficial (taquipneia), angústia respiratória, mucosas pálidas ou levemente azuladas (cianose), tosse (às vezes com sangue). O cão parece ter 'colapso respiratório' sem causa aparente. TEP pode ocorrer em cão aparentemente estável com doença sistêmica. É emergência absoluta — mortalidade alta mesmo com tratamento imediato.
Cão com paralisia súbita dos patas traseiras — pode ser tromboembolismo?+
Sim — tromboembolismo aórtico (TAE) ou 'saddle thrombus' (coágulo em sela na bifurcação aórtica) causa paralisia aguda dos membros posteriores em cães, embora seja muito mais comum em gatos. Em cães, o TAE é associado especialmente a cardiopatias (cardiomiopatia dilatada, dirofilariose) e causas pró-trombóticas. Sinais: paralisia súbita dos membros posteriores, membros frios, ausência de pulso femoral, dor intensa, membros cianóticos. É emergência — mas diferente dos gatos, cães têm prognóstico ligeiramente melhor com tratamento agressivo.
Como é tratado o tromboembolismo em cachorro?+
Tratamento do tromboembolismo em cães: suporte respiratório (oxigenoterapia — fundamental no TEP); anticoagulação — heparina não fracionada IV ou HBPM (heparina de baixo peso molecular) subcutânea; trombolíticos (alteplase, estreptocinase) — em casos graves, dissolvem o coágulo formado — alto risco de sangramento; rivaroxabana (anticoagulante oral — crescente uso em cães); tratamento da doença primária — sem controle da causa, o tromboembolismo recidiva. Mortalidade mesmo com tratamento: 25-50% nos casos graves de TEP. Prevenção (em doenças pró-trombóticas conhecidas): aspirina em baixa dose ou clopidogrel — eficácia debatida.
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