Saúde

Trauma Medular em Cachorro: Lesão da Medula Espinhal

O trauma medular em cães causa déficit neurológico agudo — paresia, plegia ou perda de controle urinário — dependendo do nível e gravidade da lesão. Causas: acidente de trânsito, queda, mordida. Classificação pela Escala de Frankel Modificada. Diagnóstico por RNM ou TC. Tratamento: cirurgia descompressiva em lesões compressivas, fisioterapia intensiva. Prognóstico correlacionado com presença de dor profunda.

29 de maio de 2026·2 min de leitura

O Dachshund de 4 anos gritou e caiu durante o passeio. Em minutos: membros traseiros completamente sem força, sem movimento, sem controle urinário.

Avaliação neurológica: grau 2 na Escala de Frankel — paraplégico, mas com dor profunda presente. RNM: extrusão de disco T12-T13 com compressão medular.

Hemilaminectomia em 6 horas. Fisioterapia no segundo dia pós-operatório. Em 8 semanas: andando com apoio. Em 12 semanas: andando normalmente.

A Dor Profunda — O Teste Mais Importante

Em um cão com déficit neurológico nos membros traseiros, um único exame define o prognóstico:

Apertar o periósteo do dedo com uma pinça. Não o dedo em si — o periósteo, que é doloroso mesmo sem a medula.

| Resposta | Interpretação | Prognóstico | |---|---|---| | Olha para o examinador, tenta morder, vocaliza | Dor profunda presente | Bom a excelente | | Apenas retira o membro (reflexo espinhal) | Dor profunda ausente | Reservado | | Sem resposta | Dor profunda ausente | Muito ruim |

A retirada reflexa do membro não é dor profunda — é um arco reflexo espinhal que funciona mesmo sem medula funcionante. Apenas a resposta consciente conta.

A Escala de Frankel Modificada

| Grau | Déficit | Dor profunda | Prognóstico | |---|---|---|---| | 5 | Apenas ataxia — anda | Presente | Excelente | | 4 | Paresia — anda com dificuldade | Presente | Muito bom | | 3 | Paresia grave — não anda, mas move | Presente | Bom | | 2 | Paraplégico — sem movimento | Presente | Moderado a bom | | 1 | Paraplégico — sem movimento | Ausente | Ruim |

O Tempo é Crucial

A janela para descompressão cirúrgica:

  • < 8 horas: melhor janela — recuperação máxima
  • 8-24 horas: ainda benéfico em grau 2
  • 24-48 horas: benefício reduzido
  • > 48 horas sem dor profunda: probabilidade de recuperação < 10%

A cirurgia de emergência existe por um motivo: o tempo importa.

O Carrinho — Transformando Qualidade de Vida

Para cões com sequelas permanentes:

  • Carrinho de rodas (wheelchair): equipamento que muda vidas
  • O cão usa os membros dianteiros normais para propulsão
  • Os membros traseiros ficam suspensos no suporte do carrinho
  • Cão paraplégico com carrinho pode correr, explorar, socializar

A expressão vesical manual (3× ao dia) é o único manejo obrigatório insubstituível. Com isso, o cão paraplégico pode ter qualidade de vida excelente.

Prognóstico

| Situação | Prognóstico | |---|---| | Grau 3-5, cirurgia ou conservador | Muito bom a excelente | | Grau 2, cirurgia < 12h | Bom | | Grau 1 (sem dor profunda) | Reservado — < 20% recuperação | | Mielomalacia ascendente | Fatal em 5-7 dias |

Perguntas frequentes

O que é trauma medular e quais são suas causas em cães?+

O trauma medular (lesão traumática da medula espinhal) em cães resulta de forças físicas externas que danificam a medula espinhal — causando disfunção neurológica aguda. Causas: Trauma externo: acidente de trânsito (atropelamento): causa mais comum; mordida de outro cão (especialmente na região cervical e lombar); queda de altura (especialmente em cães pequenos caindo de sofás, escadas); projétil (tiro); trauma contuso (chute, pisoteada); Trauma interno/compressivo: hérnia de disco intervertebral (DDIV) tipo I: extrusão súbita do núcleo pulposo — mais frequente em raças condrodistróficas (Dachshund, Basset, Beagle); DDIV tipo II: protrusão progressiva do disco; Instabilidade vertebral: luxação ou subluxação vertebral pós-trauma; fratura vertebral com compressão medular; Tipos de lesão: Concussão medular: edema sem destruição estrutural — potencialmente reversível; Contusão medular: hemorragia, necrose focal; Laceração: destruição de tecido medular — prognóstico reservado; Compressão: por fragmento vertebral, hematoma extradural, ou disco extrudido — cirúrgico urgente; Síndrome do cordão anterior, posterior ou central: diferentes padrões de déficit dependendo da área lesada.

Como avaliar a gravidade e o prognóstico da lesão medular?+

A avaliação neurológica do paciente com lesão medular define o prognóstico e a urgência terapêutica. Escala de Frankel Modificada (graus 1-5): Grau 1: paralisia, sem dor profunda — pior prognóstico; Grau 2: paralisia, dor profunda presente — prognóstico moderado; Grau 3: paresia grave — consegue movimento mínimo; Grau 4: paresia leve — anda mas com déficit; Grau 5: disfunção leve sem paresia — bom prognóstico; Dor profunda (deep pain): o teste mais importante — apertar o periósteo do dedo do cão; resposta CONSCIENTE (vocalização ou tentativa de morder) = dor profunda presente; ausência de resposta consciente (apenas retirada reflexa não conta) = lesão grave; A presença ou ausência de dor profunda define o prognóstico: com dor profunda: > 80-90% de recuperação funcional com tratamento adequado; sem dor profunda por < 24h: 50-60% de recuperação com descompressão precoce; sem dor profunda por > 48h: < 10% de recuperação — prognóstico ruim; Síndrome de mielomalacia progressiva ascendente: rara mas fatal — a lesão se expande cranialmente após o trauma; piora progressiva, reflexo de Schiff-Sherrington, morte em 5-7 dias; não há tratamento eficaz; Neuroimagem: RNM: padrão-ouro — visualiza a medula, identifica compressão, edema, hemorragia; TC: alternativa — melhor para fraturas vertebrais.

Qual é o tratamento do trauma medular e a controvérsia com o metilprednisolona?+

Tratamento: o trauma medular requer decisão rápida entre manejo conservador e cirúrgico. Cirurgia (indicação principal): lesão compressiva identificada por imagem: disco extrudido, fragmento vertebral, hematoma extradural; urgência: descompressão nas primeiras 8-12 horas maximiza recuperação; técnicas: hemilaminectomia, laminectomia, corpectomia — dependendo do nível e tipo de compressão; Metilprednisolona (controvérsia): por décadas foi recomendada em altas doses nas primeiras horas (30 mg/kg IV seguido de 5,4 mg/kg/h por 23 horas); estudos humanos (NASCIS II, III) e revisões veterinárias questionaram a eficácia; riscos: hemorragia GI, imunossupressão, hiperglicemia — sem benefício comprovado; posição atual: a maioria dos neurologistas veterinários NÃO recomenda mais o protocolo NASCIS de metilprednisolona; se qualquer corticoide, usar dose anti-inflamatória (0,5-1 mg/kg) por curto período; Manejo conservador (lesão sem compressão ou grau 3-5 sem imagem disponível): repouso em gaiola por 4-8 semanas; anti-inflamatório (AINE ou corticoide curto prazo); fisioterapia precoce: fundamental para recuperação; Fisioterapia: exercícios passivos, hidroterapia, estimulação elétrica; fundamental para preservar massa muscular, estimular recuperação neurológica, prevenir contracturas; cão paraplégico com dor profunda que recebe fisioterapia intensiva tem excelente prognóstico.

Qual é o prognóstico e como cuidar de um cão com lesão medular em casa?+

O prognóstico do trauma medular depende principalmente da presença de dor profunda, do tempo até a descompressão e da fisioterapia. Prognóstico por grau: Grau 5: excelente — recuperação espontânea com repouso; Grau 4: muito bom — recuperação em 4-8 semanas com tratamento; Grau 3: bom a moderado — recuperação variável, fisioterapia intensiva; Grau 2 (com dor profunda): moderado a bom com cirurgia precoce; Grau 1 (sem dor profunda): ruim sem intervenção muito precoce; Cuidados em casa para cão paraplégico: Mobilidade: carrinho de rodas (wheelchair) é transformador — melhora a qualidade de vida radicalmente; o cão com os membros traseiros não funcionais pode ter vida excelente com carrinho; Higiene: bexiga atônica: esvaziamento manual da bexiga (expressão vesical) 3× ao dia — obrigatório; ausência de esvaziamento → infecção urinária crônica; dermatite por urina: fraldas, tapetes absorventes, limpeza frequente; escaras: mobilização passiva frequente, colchão ortopédico, posicionamento; Qualidade de vida: cão sem dor profunda com função urinária manual preservada pode ter excelente qualidade de vida; a decisão de eutanásia deve ser baseada em dor e qualidade de vida — não apenas em paresia.