Saúde

Trauma Craniano em Cachorro: TBI — Emergência Neurológica

Trauma craniano (TBI — Traumatic Brain Injury) em cães ocorre por atropelamentos, quedas e mordidas. Hemorragia intracraniana e edema cerebral são as complicações mais graves. Escala de Glasgow modificada orienta o prognóstico. Manitol e hiperventilação controlam a pressão intracraniana.

27 de maio de 2026·7 min de leitura

O trauma craniano é uma das emergências neurológicas mais frequentes em medicina veterinária de urgência — e uma das que mais testam o médico-veterinário emergencista, porque a janela terapêutica é estreita, a deterioração pode ser rápida e as decisões de manejo têm impacto direto no prognóstico.

Em cidades brasileiras, a causa mais frequente é o atropelamento — o cão atingido por veículo frequentemente tem trauma craniano associado ao politraumatismo. Quedas de altura (janela de gato — e de cachorro) e mordidas de cães maiores são outras causas relevantes.

Fisiopatologia — Por Que a Lesão Progride

Lesão Primária vs. Lesão Secundária

Lesão primária: o dano mecânico imediato ao impacto — laceração, contusão e hemorragia cerebral que ocorrem no momento do trauma. Não pode ser revertida.

Lesão secundária: o dano que se desenvolve nas horas a dias seguintes, potencialmente prevenível com tratamento adequado:

  • Edema cerebral (citotóxico + vasogênico)
  • Hipertensão intracraniana
  • Isquemia cerebral por hipoperfusão
  • Excitotoxicidade (glutamato)
  • Reperfusão com radicais livres
  • Hipóxia, hipoglicemia, hipertermia (amplificadores da lesão secundária)

O objetivo do tratamento de TBI é minimizar a lesão secundária — a primária já aconteceu.

A Doutrina Monroe-Kellie

O crânio é uma caixa rígida. Seu conteúdo tem três componentes com volume fixo total:

  1. Parênquima cerebral (~80%)
  2. Sangue intracraniano (~10%)
  3. Líquido cefalorraquidiano — LCR (~10%)

Quando um componente aumenta (edema, hemorragia), os outros devem diminuir para manter a pressão intracraniana (PIC) normal (5-12 mmHg). Quando os mecanismos compensatórios se esgotam, a PIC aumenta abruptamente.

Pressão de Perfusão Cerebral (PPC) = PAM - PIC

O cérebro precisa de PPC ≥ 60-70 mmHg para manter fluxo sanguíneo adequado. Se a PIC sobe ou a pressão arterial média (PAM) cai, a PPC cai → isquemia cerebral.

Síndrome de Cushing

Resposta vasopressora reflexa à hipertensão intracraniana extrema:

  • Hipertensão arterial (tentativa do organismo de manter PPC)
  • Bradicardia
  • Bradipneia irregular

É sinal de hipertensão intracraniana grave e iminência de herniação cerebral.

Causas

  • Atropelamento — politraumatismo, a causa mais comum no Brasil
  • Queda de altura — cães que caem de janelas, varandas ou escadas
  • Mordida — especialmente em cabeça e pescoço por cães maiores
  • Pontapé ou impacto direto — maus-tratos (não raramente)
  • Projétil — ferimento por arma de fogo

Avaliação Clínica

Modified Glasgow Coma Scale (MGCS) para Cães

A MGCS veterinária é a ferramenta de triagem neurológica no TBI canino.

1. Atividade Motora (1-6 pontos):

| Pontuação | Descrição | |---|---| | 6 | Anda normalmente | | 5 | Fraqueza dos membros, mas anda | | 4 | Está de pé, mas não anda | | 3 | Decúbito, movimentos normais dos membros ao estímulo | | 2 | Postura de descerebração (opistótono, membros rígidos) | | 1 | Postura de descorticação ou sem resposta motora |

2. Reflexos do Tronco Cerebral (1-6 pontos):

| Pontuação | Descrição | |---|---| | 6 | Reflexos pupilares, oculovestibular e oculocefálico normais | | 5 | Diminuição leve dos reflexos | | 4 | Anisocoria, reflexos diminuídos | | 3 | Pupilas não-responsivas, reflexos marcadamente diminuídos | | 2 | Midríase bilateral não-responsiva | | 1 | Sem reflexos do tronco cerebral |

3. Nível de Consciência (1-6 pontos):

| Pontuação | Descrição | |---|---| | 6 | Alerta e responsivo | | 5 | Deprimido ou delirante — responde mas não normalmente | | 4 | Stupor — responde apenas a estímulos fortes | | 3 | Semicoma — resposta mínima ao estímulo | | 2 | Coma — sem resposta voluntária | | 1 | Coma profundo, sem resposta a estímulos |

Interpretação:

  • 15-18: Leve — bom prognóstico
  • 9-14: Moderado — prognóstico variável
  • 3-8: Grave — prognóstico reservado

Exame Neurológico Focado

Pupilas:

  • Simétricas, responsivas à luz: normal
  • Anisocoria (tamanhos diferentes): lesão unilateral do nervo oculomotor (NC III) por herniação uncal — grave
  • Midríase bilateral fixa: lesão de tronco cerebral bilateral — gravíssimo
  • Miose bilateral: lesão do diencéfalo ou efeito de opióides

Padrão respiratório:

  • Normal: lesão leve
  • Cheyne-Stokes (ciclos crescentes/decrescentes): lesão de hemisférios ou diencéfalo
  • Hiperventilação central: lesão de mesencéfalo
  • Atáxico/gasping: lesão de medula oblonga — iminência de parada respiratória

Postura:

  • Descerebrada (opistótono, membros em extensão): lesão de tronco cerebral — prognóstico muito reservado
  • Descorticada (membros anteriores fletidos, posteriores em extensão): lesão cortical/diencefálica

Diagnóstico por Imagem

Tomografia Computadorizada (TC) do Crânio

Padrão-ouro para TBI agudo — quando disponível.

Identifica:

  • Hemorragia extradural (hiperdensa, lenticular)
  • Hemorragia subdural (hiperdensa, crescente)
  • Hemorragia subaracnoidea (hiperdensa, difusa nas cisternas)
  • Contusão cerebral (hipodensa ou mista)
  • Edema cerebral (hipodensidade difusa, compressão dos ventrículos)
  • Pneumoencéfalo (ar no crânio — fratura basilar)
  • Fraturas do crânio

Limitação no Brasil: TC veterinária disponível em poucos centros; frequentemente precisa ser feita em hospital humano com veterinário acompanhando ou aguardar estabilização para transferência.

Radiografia do Crânio

Baixa sensibilidade para lesões intracranianas — mostra fraturas ósseas mas não o parênquima. Utilidade limitada no TBI agudo.

Ultrassonografia

Em centros sem TC: FAST craniano via fontanela (em filhotes) pode identificar hemorragia intracraniana maciça. Técnica em desenvolvimento.

Tratamento

Prioridades ABC

Antes de qualquer manejo neurológico: Airway-Breathing-Circulation

  • Via aérea: intubação se GCS < 8 ou comprometimento respiratório
  • Ventilação: PaO2 alvo > 80 mmHg, PaCO2 alvo 35-40 mmHg
  • Pressão arterial: PAM alvo > 80 mmHg (pressão de perfusão cerebral)

Posicionamento

Cabeça elevada 30° — melhora a drenagem venosa cerebral e reduz a PIC.

Sem flexão lateral do pescoço — comprime as veias jugulares e aumenta a PIC.

Terapia Hiperosmótica

Manitol 20%: 0,5-1 g/kg IV em bolus de 15 minutos.

Mecanismo: reduz a osmolaridade intersticial cerebral → saída de água do cérebro para o sangue → redução do edema e da PIC. Efeito em 15-30 minutos.

Contraindicações: hipovolemia significativa (pode piorar a perfusão sistêmica), insuficiência renal severa.

NaCl hipertônico (7,2-7,5%): 3-5 mL/kg IV — alternativa ao manitol, especialmente em hipotensão (não causa diurese osmótica como o manitol). Combinação com hidroxietilamido (hetastarch): efeito osmótico + expansão volêmica.

Repetição: 2-4 doses de manitol podem ser necessárias; monitorar osmolaridade sérica (alvo < 350 mOsm/L).

Corticosteroides — CONTRAINDICADOS

Dexametasona, metilprednisolona: NÃO usar em TBI.

Estudos em medicina veterinária e humana mostram piora do prognóstico:

  • Aumentam a glicose cerebral → maior necrose isquêmica
  • Imunossupressão → maior risco de infecção

Este é um ponto crítico — o reflexo de "dar corticoide" para edema cerebral é errado no TBI traumático.

Exceção: TBI associado a edema cerebral neoplásico ou inflamatório — uso controverso.

Controle de Convulsões

Levetiracetam: 20-60 mg/kg IV — anticonvulsivante de escolha no TBI (não hepatotóxico, não sedativo, não afeta o metabolismo de outros fármacos).

Fenobarbital: 2-4 mg/kg IV — alternativa, causa mais sedação.

Profilaxia: controversa — alguns protocolos recomendam levetiracetam profilático em TBI grave (MGCS < 9).

Controle Glicêmico e Térmico

Hipoglicemia: amplifica a lesão cerebral isquêmica — manter glicemia 80-160 mg/dL.

Hiperglicemia: também prejudicial — "glicotoxicidade" neuronal.

Hipertermia: temperatura > 39°C piora o metabolismo cerebral — resfriamento ativo se temperatura > 39,5°C.

Analgesia

Dor não tratada aumenta a PIC (ativação simpática). Metadona 0,1-0,2 mg/kg IV ou fentanila CRI são preferidos (menos depressão respiratória que morfina).

Hiperventilação Controlada

Em casos de herniação iminente (midríase fixa, postura de descerebração):

  • Hiperventilação moderada: PaCO2 alvo 30-35 mmHg
  • Causa vasoconstrição cerebral → reduz volume sanguíneo intracraniano → reduz PIC rapidamente
  • Efeito temporário (horas) — não é solução definitiva, é ponte para cirurgia ou outra intervenção

Indicação Cirúrgica

Hematoma extradural ou subdural volumoso: craniotomia descompressiva.

Fratura com depressão: elevação cirúrgica.

Disponibilidade no Brasil é muito limitada — a maioria dos casos é tratada clínicamente.

Monitoramento

  • Neurológico (MGCS): a cada 2-4 horas
  • Pressão arterial: contínua ou a cada hora
  • Temperatura: a cada 2 horas
  • Glicemia: a cada 4-6 horas
  • Diurese: cateteres urinários para monitorar (alvo > 1 mL/kg/h)

Sinal de melhora: aumento progressivo do MGCS nas primeiras 24-48 horas.

Sinal de deterioração: queda do MGCS, anisocoria nova, síndrome de Cushing — indica piora da hipertensão intracraniana; reavaliar e repetir manitol.

Prognóstico

| MGCS inicial | Prognóstico | Mortalidade | |---|---|---| | 15-18 | Bom | < 5% | | 9-14 | Moderado | 15-30% | | 3-8 | Reservado | 50-70% | | < 5 + midríase bilateral | Muito grave | > 80% |

Sequelas em sobreviventes: epilepsia pós-traumática (10-20%), déficits cognitivos, alterações de comportamento, déficits motores. Muitos déficits melhoram com a neuroplasticidade nos primeiros 3-6 meses.

O tratamento de TBI em veterinária é suporte máximo nos primeiros dias — o cérebro do cão tem grande capacidade de recuperação quando a lesão secundária é minimizada.

Perguntas frequentes

O que fazer quando o cachorro bate a cabeça ou sofre trauma craniano?+

Emergência veterinária imediata — não espere para ver se o cão 'melhora'. Sinais que indicam trauma craniano grave: perda de consciência mesmo breve, convulsões, pupilas de tamanhos diferentes (anisocoria), nistagmo (olhos oscilando), inclinação da cabeça, paralisia de membros, hemorragia pelo nariz ou ouvidos, respiração irregular. No transporte: manter o cão o mais imóvel possível em superfície plana, pescoço alinhado (não fletir), sem pressionar a cabeça. Se inconsciente: verificar via aérea, posicionar em decúbito lateral. O trauma craniano progride nas primeiras 24-48 horas — mesmo um cão aparentemente bem após o impacto pode deteriorar por edema cerebral ou hemorragia que se desenvolve lentamente.

Como os veterinários avaliam o trauma craniano em cachorro?+

A Modified Glasgow Coma Scale (MGCS) para cães avalia três parâmetros: atividade motora (1-6 pontos), reflexos do tronco cerebral (1-6 pontos) e nível de consciência (1-6 pontos). Total de 3-18 pontos: 3-8 = grave (prognóstico reservado), 9-14 = moderado, 15-18 = leve (bom prognóstico). Além da escala: tamanho e simetria das pupilas (anisocoria, midríase fixa = lesão grave), reflexo pupilar à luz, padrão respiratório (Cheyne-Stokes, atáxico = disfunção de tronco), postura (descerebrada/descorticada = lesão grave), pressão arterial (síndrome de Cushing — hipertensão + bradicardia + bradipneia = hipertensão intracraniana grave). TC do crânio (tomografia) é o exame de imagem padrão para identificar hemorragias e contusões.

Qual o tratamento de trauma craniano em cachorro?+

Controle da pressão intracraniana (PIC) é o objetivo principal. Medidas imediatas: elevar a cabeça 30° (facilita drenagem venosa cerebral); oxigenioterapia (PaO2 > 80 mmHg); pressão arterial média > 80 mmHg (perfusão cerebral depende de PAM-PIC); evitar hipoglicemia e hipertermia. Manitol 0,5-1 g/kg IV em bolus de 15 minutos — agente osmótico que reduz edema cerebral, efeito em 15-30 min; seringas de NaCl 7,2-7,5% hipertônico como alternativa. Corticosteroides (dexametasona) NÃO são indicados em TBI — estudos mostram piora do prognóstico (aumentam a glicose cerebral e a necrose). Controle de convulsões: levetiracetam (TBI de eleição — não hepatotóxico) ou fenobarbital. Neuroproteção: normoglicemia, normotermia, analgesia adequada sem sedação excessiva.

Cachorro que sofreu trauma craniano pode se recuperar completamente?+

Depende da gravidade da lesão inicial. MGCS 15-18 (leve): recuperação completa usual em dias a semanas. MGCS 9-14 (moderado): recuperação parcial a completa possível em semanas a meses — déficits residuais como convulsões, alterações de comportamento, déficits cognitivos leves são possíveis mas não inevitáveis. MGCS 3-8 (grave): prognóstico reservado — mortalidade 50-60% nas primeiras 24-48 horas. Sobreviventes podem ter déficits permanentes (epilepsia pós-traumática, déficits motores, alterações cognitivas). O prognóstico é dinâmico — melhora nas primeiras 24h é sinal favorável; deterioração progressiva é sinal muito desfavorável. Epilepsia pós-traumática ocorre em 10-20% dos casos de TBI moderado a grave — pode aparecer semanas a meses após o trauma.