Saúde

Tinha em Cachorro (Dermatofitose): Sintomas, Tratamento e Zoonose

Tinha em cachorro é infecção fúngica da pele que causa manchas circulares sem pelo — zoonose que passa para humanos. Tratamento com antifúngico oral e shampoo. Muito comum em filhotes.

26 de maio de 2026·4 min de leitura

Tinha — nome popular para dermatofitose — é infecção fúngica superficial da pele, pelos e unhas causada por fungos dermatófitos. É uma das causas mais comuns de alopecia focal em cães, especialmente filhotes, e uma das zoonoses caninas mais frequentes — passa facilmente de animais para humanos.

Apesar do nome sugestivo ("tinha = verme"), não tem nada a ver com vermes — é causada por fungos.

Os fungos causadores

Três gêneros principais de dermatófitos afetam cães:

Microsporum canis: o mais prevalente em cães e gatos — responsável pela maioria dos casos. É o principal transmitido a humanos.

Trichophyton mentagrophytes: associado ao contato com roedores (ratos, coelhos) — cão que caça pode se infectar.

Microsporum gypseum: fungo geofílico — vive no solo. Cães que escavam ou têm contato com terra contaminada.

Ciclo de infecção

Os dermatófitos produzem esporos (artroconídios) extremamente resistentes no ambiente — sobrevivem meses a anos em objetos, tapetes, coleiras e superfícies. A infecção ocorre por:

  • Contato direto: com animal infectado (gato com tinha é fonte frequente)
  • Contato com objetos contaminados: escovas, coleiras, roupas de cama, alicates de corte
  • Contato com ambiente contaminado: solo com M. gypseum

O fungo penetra nos folículos pilosos e invade o pelo — cresce no estrato córneo (camada superficial da pele) sem invadir tecidos vivos em cães imunocompetentes.

Sinais clínicos

Padrão clássico

Alopecia focal circular ou oval: áreas sem pelo de bordas bem definidas, frequentemente com descamação (escamas). A lesão pode ser única ou múltipla.

Localização frequente: focinho, ao redor dos olhos, orelhas, patas, cauda — mas pode ocorrer em qualquer região.

Pelo quebrado: os pelos na área afetada ficam frágeis e quebram próximo à pele — dando a aparência "cortada" da lesão.

Prurido: variável — de ausente a leve. A tinha frequentemente não coça muito, o que pode atrasar o diagnóstico (tutores associam alopecia pruriginosa a pulgas/alergia e alopecia sem prurido pode não parecer urgente).

Padrões atípicos

Tinha generalizada: múltiplas lesões em todo o corpo — geralmente em cães imunossuprimidos.

Pseudomicetoma: nódulos profundos, mais comum em Persas (gatos) mas possível em cães — infecção fúngica profunda.

Onicomicose (tinha das unhas): unhas quebradiças, descoloradas, deformadas.

Diagnóstico

Lâmpada de Wood

Lâmpada UV que fluoresce verde-amarelada na presença de Microsporum canis (especificamente a pteridina produzida pelo fungo). Rápida e prática, mas com limitações:

  • Sensibilidade de apenas 50-70% — nem todas as cepas de M. canis fluorescem
  • Trichophyton e M. gypseum não fluorescem
  • Falsos positivos: pomadas, escamas, bacterias
  • Resultado negativo não exclui tinha

Cultura fúngica (DTM — Dermatophyte Test Medium)

Padrão-ouro. Pelos da lesão cultivados em meio DTM — o fungo cresce em 7-14 dias, mudando o meio de amarelo para vermelho (reação ácida-base).

Tempo: demora 1-3 semanas — limitação para diagnóstico rápido.

Identificação: a morfologia das colônias e dos esporos ao microscópio confirma o gênero/espécie.

PCR

Identificação molecular rápida e sensível — disponível em laboratórios especializados. Resultado em 1-2 dias.

Exame direto ao microscópio

Pelos colhidos da borda da lesão, tratados com KOH (que dissolve a queratina) e visualizados — permite ver esporos e hifas dentro e ao redor do pelo. Rápido, mas exige experiência para interpretação.

Tratamento

Casos leves (lesão única em animal imunocompetente)

Tópico isolado pode ser suficiente:

  • Shampoo antifúngico: miconazol 2% + clorexidina 0,5% (2-3x/semana)
  • Spray ou loção de miconazol ou terbinafina aplicados diretamente na lesão

Tonsura (raspar o pelo ao redor) reduz a carga fúngica e facilita a penetração do antifúngico — discutível na prática, pode disseminar esporos se não for cuidadoso.

Casos moderados a graves (múltiplas lesões, filhote, imunossuprimido)

Antifúngico sistêmico oral:

Itraconazol (primeira escolha):

  • Dose: 5 mg/kg/dia com alimentação gordurosa (melhora absorção)
  • Protocolo pulse (semana sim, semana não) ou contínuo
  • Monitoramento de função hepática
  • Duração: até 2 semanas após cultura negativa — frequentemente 6-12 semanas total

Terbinafina (alternativa):

  • 30-40 mg/kg/dia
  • Boa eficácia, bem tolerada

Griseofulvina: menos usada atualmente — efeitos adversos maiores, teratogênica (não usar em fêmeas gestantes ou que possam engravidar).

Ketoconazol: eficácia menor que itraconazol, mais hepatotóxico — segunda linha.

Tratamento do ambiente

Fundamental — frequentemente negligenciado. Os esporos de M. canis sobrevivem meses no ambiente. Sem descontaminação, reinfecção é certa.

Superfícies duras (piso, paredes): hipoclorito de sódio diluído (1:10 com água) ou enilconazol.

Tecidos (roupas de cama, capas, toalhas): lavagem a >60°C.

Aspiração: tapetes, sofás — depois descartar o saco coletor.

Coleira e acessórios: ferver ou descartar coleiras e escovas.

Controle de zoonose

Durante o tratamento do animal:

  • Luvas ao manipular o cão e fazer curativos
  • Lavar as mãos após qualquer contato
  • Isolamento do animal de crianças e imunossuprimidos até a cura confirmada (se possível)
  • Qualquer lesão circular avermelhada em humano que teve contato com o animal → dermatologista

Cultura de controle — não parar precocemente

O erro mais comum é interromper o tratamento ao ver a pele melhorar clinicamente. A cura clínica (pelo crescendo de volta) precede a cura micológica (fungo eliminado). O tratamento deve continuar até 2 semanas após a cultura fúngica negativa — caso contrário, a recidiva é frequente.

Prognóstico

Excelente com tratamento correto e completo — a dermatofitose é doença tratável. Animais imunocompetentes podem curar sem tratamento (cura espontânea em 1-3 meses), mas o risco de transmissão para humanos e outros animais torna o tratamento obrigatório.

Perguntas frequentes

Como saber se meu cachorro tem tinha?+

O sinal mais característico da tinha (dermatofitose) em cães é a alopecia circular — áreas redondas ou ovais sem pelo, com escamas e às vezes crostas na periferia. A pele na área afetada pode estar vermelha, descamativa. O nome 'tinha' vem do aspecto anular (em anel) da lesão em humanos — em cães, o padrão pode variar. Locais frequentes: focinho, orelhas, patas, cauda. Importante: não coça necessariamente muito — diferente do que muitos pensam, a tinha pode ser pouco ou nada pruriginosa. Diagnóstico definitivo requer cultura fúngica ou lâmpada de Wood no veterinário.

Tinha de cachorro passa para humano?+

Sim — é zoonose clássica. Os fungos dermatófitos (Microsporum canis é o mais comum) transmitem facilmente de animais para humanos por contato direto com o animal infectado ou com superfícies e objetos contaminados (coleiras, escovas, roupas de cama). Em humanos, causa lesões circulares com bordas avermelhadas — as chamadas 'manchas de tínea' no couro cabeludo, no corpo ou nas unhas. Crianças, idosos e imunossuprimidos são mais vulneráveis. Medidas de higiene durante o tratamento do animal são fundamentais.

Tinha em cachorro tem cura?+

Sim — a dermatofitose tem tratamento eficaz. Em casos leves, apenas shampoo antifúngico (miconazol, clorexidina) pode ser suficiente. Em casos moderados a graves, ou com lesões múltiplas, antifúngico sistêmico oral é necessário: itraconazol (mais eficaz e seguro) ou terbinafina. A duração do tratamento é longa — mínimo 4-6 semanas, geralmente até 2 semanas após a cura clínica e cultural. A cultura fúngica de controle (negative culture = cura microbiológica) é o padrão para confirmar a cura.

Filhote com mancha redonda sem pelo — é tinha?+

Possivelmente — filhotes são mais vulneráveis à dermatofitose por imaturidade imunológica. Mancha circular alopécica (sem pelo) em filhote deve ser avaliada por veterinário. O diagnóstico diferencial inclui: tinha (dermatofitose), demodicose (ácaros Demodex — causa alopecia focal em filhotes), piodermia bacteriana superficial, alopecia por trauma ou fricção. O veterinário pode usar lâmpada de Wood (Microsporum canis fluoresce verde-amarelado) e/ou cultura fúngica para confirmar.